Em busca das grandes manchas de atum ao largo dos Açores

 

As safras de pesca do atum nos Açores concentram-se entre Maio e Setembro, uma temporada longa para quem vive a bordo das pequenas traineiras. Os atuneiros fazem-se aos mares em busca dos grandes cardumes e, na hora da faina de “salto e vara” entregam-se à luta. A borda, com escassos 50 centímetros de altura, separa-os do mar.

 O Instituto do Mar, em parceria com o Instituto Oceanográfico Woods Hole e a Universidade de Ciência e Tecnologia do Rei Abdullah, tem vindo a desenvolver estudos importantes sobre estas duas espécies. Em Maio de 2014, marcas de satélite começaram a ser implementadas em alguns exemplares de atum-patudo com o objectivo de compreender melhor as suas rotas migratórias, a sua distribuição e conectividade no Atlântico. Estes trabalhos combinam as últimas inovações em matéria de sensores e transmissores de satélite com o conhecimento empírico acumulado ao longo de gerações nas embarcações tradicionais de pesca.

Por vezes, alguns objectos flutuantes, os “achados” como lhes chamam os pescadores, funcionam como dispositivos de agregação no oceano, aglomerando em seu redor grandes cardumes. As manchas podem fazer a diferença entre uma campanha lucrativa e um ano de prejuízo. A rota incompreendida destes cardumes obriga a um conhecimento profundo por parte dos mestres das embarcações e a grande persistência durante o período de busca. Até avistar uma mancha, o mestre da embarcação e o vigia destacado para essa função podem levar meses de procura, durante os quais os valores de captura são praticamente nulos.

Durante a década de 1950, muitos pescadores do arquipélago da Madeira foram forçados a emigrar para Angola em busca de uma vida melhor.

Todos os homens a bordo têm múltiplas funções. Emanuel Canada, não só pesca, como é também o maquinista do atuneiro.

 A fartura dos mares de África cativou muitos desses emigrantes que, hoje, a bordo das traineiras açorianas, ainda trabalham. Aliás, a longa tradição de pesca de atum no arquipélago da Madeira aprumou a arte partilhada nos mares dos Açores: o “salto e vara”. Os madeirenses são frequentemente chamados pelos armadores açorianos para liderarem as safras de pesca das suas traineiras.Depois de cada descarga de peixe em Ponta Delgada e antes de rumar novamente para a mancha, Romão varre a costa de São Miguel em busca de “isca viva”.

Com o auxílio de uma embarcação mais pequena, uma parte da tripulação navega junto da orla costeira procurando cardumes de sardinha ou chicharro para cercar com a rede.

Com o auxílio de uma embarcação mais pequena, uma parte da tripulação navega junto da orla costeira procurando cardumes de sardinha ou chicharro para cercar com a rede, arte autorizada nos Açores exclusivamente para este fim. Quatro tripulantes a bordo da lancha e três mergulhadores cercam o peixe, arrastando-o depois lentamente até à traineira para que este possa ser cuidadosamente retirado e guardado nas tinas com a ajuda de um “peneiro”. “Iscar” é uma manobra determinante, difícil e que requer experiência por parte de toda a tripulação. A eficácia da captura do atum enquanto a traineira estiver sobre a mancha depende da qualidade do isco.  

Os manuais de reportagem recomendam ao jornalista que seleccione uma instância representativa da totalidade da realidade que ele tenta analisar. Paradoxalmente, a viagem aqui documentada revelou-se uma das mais importantes da safra de 2016. Depois de mais de um mês e meio de permanência na mesma mancha, a embarcação Mestre Soares foi rendida pelo Baía da Maia para poder navegar até à ilha de São Miguel e descarregar na lota o atum capturado. 

Entre todas as responsabilidades de Emanuel Canada, cabe-lhe zelar para que os porões se mantenham à temperatura ideal para a conservação do peixe, evitando que este perca frescura e valor.

 Já em terra firme, a tripulação do Mestre Soares recebeu o aviso indesejado: o Baía da Maia tinha perdido a mancha durante a madrugada devido ao ataque de espécies a que os pescadores chamam de “peixe ruim”. Grupos de golfinhos, estimulados pela “isca viva” que a embarcação atira para o mar, utilizam o seu porte para mover os atuns do local privilegiado. Afastado da cadeia, o atum afunda para profundidades mais amplas ou dispersa-se.

Para o Mestre Soares, a notícia de que a mancha dispersara determinou o fim da safra.

Para o Mestre Soares, a notícia de que a mancha dispersara determinou o fim da safra. A tripulação capturou 98 toneladas – um número gratificante que coloca a pequena embarcação no topo da lista de capturas da região, num ano que registou valores demasiado baixos. Num ano normal, cada tripulação pode capturar quinhentas toneladas.

A temporada de pesca de atum nos Açores está agora a terminar e não será certamente recordada como uma das mais lucrativas da história. Nos últimos anos, muitos pescadores e armadores aproveitaram fundos comunitários e as facilidades do governo regional para trocarem os seus barcos de boca aberta por traineiras maiores e mais adaptadas à arte do “salto e vara”. Embora as novas embarcações tenham mais autonomia e capacidade de pesca, têm também custos de manutenção superiores que dificultam a sua rendibilidade.

As feridas abertas pelos anzóis que saltam das linhas em tensão ou pelas barbatanas dos peixes que estrangulam entre o braço e as costelas vão sarando. A pele, arcaicamente tatuada, vai sentindo as fendas a aprofundarem enquanto os homens se rendem à falta de espaço na cabine e se estendem como lagartos debaixo do sol abrasivo do mar alto. São marcas no corpo que a mente destes homens tende a desvalorizar. Numa região onde, por toda a costa, famílias inteiras subsistem da pesca, os indicadores que chegam da natureza são razão para lhes roubar o sono. Afinal havia fundos, mas nem tudo a fundo perdido. “Com ou sem mancha, as contas lá estão no banco por pagar e as bocas à mesa para comer”, resume o mestre Romão. 

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