Em busca das grandes manchas de atum ao largo dos Açores

João Silva, de 72 anos, é o mais velho a bordo e o melhor exemplo da onda de emigração madeirense para Angola nas décadas de 1960 e 1970. É  o responsável pela gestão das tinas de “isca viva” da traineira.

No intervalo entre cada acto de captura, instala--se uma tensão palpável a bordo. Os momentos frenéticos de pesca acabam depressa e o desespero assalta a traineira quando a tripulação tem de aguardar mais de dez horas até voltar a pescar. É então que o espaço confinado e os tempos mortos testam os nervos. Se dependesse da vontade destes homens, eles pescariam durante todo o dia, obtendo as capturas desejadas num período de tempo mais curto, regressando rapidamente para as suas famílias. No entanto, há muito que estes homens aprenderam que só durante esses dois períodos do dia – a alvorada e o crepúsculo – o peixe tem fome e entra em frenesi alimentar, possibilitando a sua captura. Poderíamos pensar que é a tecnologia humana que adapta o oceano, mas este é um exemplo palpável de como é o mar e as suas criaturas que forçam o homem a modificar-se.

Disposta em linha ao longo da lateral da embarcação, a bombordo, a tripulação pesca a um ritmo inacreditável e eu procuro não me conter nos disparos enquanto essa luta arde.

Disposta em linha ao longo da lateral da embarcação, a bombordo, a tripulação pesca a um ritmo inacreditável e eu procuro não me conter nos disparos enquanto essa luta arde. Vou-me recolhendo aqui e ali para desobstruir o espaço que já é curto e entrelaço-me nos cabos existentes para garantir que não caio ao mar, enquanto me deixo envolver no quadro. Num período de pesca que tanto pode durar 30 minutos como duas horas, a tripulação captura mais de cinco toneladas.

O chicharro e a sardinha são as espécies utilizadas como isco e servem para aliciar o cardume. Os pescadores atiçam o atum com negaças que envolvem o anzol ou com amostras que simulam a forma de uma sardinha. O “ruído” provocado pelo chuveiro constante que é jorrado pela lateral da embarcação deixa o peixe numa profunda agitação, tornando mais fácil a sua captura. Uma das posições mais activas é a do pescador que fica numa posição mais próxima da popa. O bonito segue a sua marcha numa posição dianteira em relação à embarcação enquanto o atum-patudo, mais explosivo, ataca as amostras pela popa, agitando os “saltos” e obrigando a que o pescador que tranca o peixe seja auxiliado pelo homem a seu lado que, com recurso a um “puxeiro”, ajudará a trazer o peixe para o interior da embarcação.

Antes de a derradeira luta começar, os homens empenham-se na busca de isco, fundamental para concentrar as manchas de atum.

 Durante quatro dias, o processo repete-se até que os porões estejam cheios ou até que se esgote a isca viva nas tinas da embarcação. São 4 dias em que onze homens dividem o espaço útil de uma embarcação com pouco mais de 16 metros e onde a inexistência de um dessalinizador obriga a um consumo rigoroso da água existente a bordo. Por norma, durante esses dias de pesca, cada tripulante tem apenas direito a um banho. 

Concluída a faina, é altura de a segunda embarcação fazer uma aproximação lenta à mancha para render a embarcação atestada. No momento em que esta estiver já por cima do cardume, a traineira Mestre Soares navega para terra, para descarregar o peixe, e sai fugazmente numa direcção perpendicular em relação à embarcação que ficará na mancha. Só assim o peixe a abandona e passa a alimentar-se da embarcação que entrou agora, como uma bailarina saltando dos braços de um parceiro para o outro. Quando a substituição se completa, os nervos dos pescadores finalmente acalmam. Mas a dança continua lá em baixo.

Todos os anos, entre Março e Setembro, uma frota de pequenos e grandes atuneiros procura avistar sinais dos cardumes que passam pelo arquipélago durante a sua rota migratória.

O bonito (ou gaiado) e o atum-patudo são as espécies de tunídeos mais capturadas no arquipélago dos Açores. O mercado regional, no qual se integram três grandes empresas conserveiras, mantém viva a frota de atuneiros nos Açores. Todos os anos, entre Março e Setembro, uma frota de pequenos e grandes atuneiros procura avistar sinais dos cardumes que passam pelo arquipélago durante a sua rota migratória. À medida que as águas aquecem, o atum aproxima-se dos Açores, proporcionando uma oportunidade imperdível.

Esta é, contudo, uma rota migratória que ainda não é totalmente compreendida.

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