Os chineses aprenderam a criar pandas-gigantes. Agora estão a libertá-los na natureza, onde os animais e os seus habitats enfrentam desafios.

Texto Jennifer S. Holland   Fotografia Ami Vitale

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Ye Ye, uma fêmea com 16 anos, descansa no cercado de um centro de conservação na Reserva Natural de Wolong. O seu nome, cujos caracteres representam o Japão e a China, celebra a amizade entre os dois países. Hua Yan (Menina Bonita), a cria de Ye Ye, está a ser treinada para posterior libertação na natureza.

Agacho-me entre a vegetação para ver de perto o animal que avança na minha direcção. Com cerca de quatro meses e o tamanho de uma bola de futebol, a fêmea tem os olhos esbugalhados e é tão macia e cheirosa como um cachorrinho. O impulso de pegar-lhe ao colo é fortíssimo.
Essa adorabilidade é uma das razões pelas quais o panda-gigante é uma sensação internacional, um ícone cultural, uma mina de ouro e uma fonte de orgulho nacional na China, único país onde estes ursos asiáticos ainda sobrevivem. Agora, o mundo inteiro está de olhos postos nos esforços persistentes da China no sentido de garantir a sobrevivência dos pandas. E há um certo alívio ao constatar que, em alguns aspectos, esses esforços têm alcançado um sucesso sem precedentes.

 À semelhança de muitas espécies ameaçadas, o número de pandas-gigantes foi diminuindo à medida que o crescimento demográfico se apossava de territórios selvagens para utilização humana.

À semelhança de muitas espécies ameaçadas, o número de pandas-gigantes foi diminuindo à medida que o crescimento demográfico se apossava de territórios selvagens para utilização humana.Os chineses passaram os últimos 25 anos a aperfeiçoar métodos de reprodução e a reconstituir uma população de cativeiro com centenas de indivíduos.
Não é fácil reproduzir animais em cativeiro para gáudio de multidões apaixonadas, mas é ainda mais complexa a tarefa de assegurar a sobrevivência de uma espécie em ambiente selvagem. Sejam quais forem os próximos passos no processo de conservação deste urso, eles poderão decidir se o panda-gigante se torna uma relíquia atrás de grades ou um animal que vagueia em liberdade na natureza.
Os pandas-gigantes são mestres na arte da adaptação. “Nós, seres humanos, estamos habituados a transformar o ambiente de modo a fazê-lo corresponder às nossas necessidades”, explica Zhang Hemin, director do Centro Chinês de Conservação e Investigação do Panda-Gigante, que supervisiona três bases de pandas em Bifengxia, Dujiangyan e Wolong. “Os pandas adaptam-se constantemente ao ambiente.”

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Zhang Hemin, o Papá Panda da equipa, posa com crias nascidas em 2015 na Base de Pandas de Bifengxia. “Há quem diga que os pandas-gigantes têm poderes mágicos”, comenta Zhang, responsável por muitos dos esforços de conservação da China. “Para mim, representam apenas beleza e paz.”

O tempo e a necessidade foram afinando os pandas, de maneira a prosperarem num habitat muito específico. Mantendo a constituição dos seus parentes carnívoros, estes ursos – e, segundo o seu DNA, são ursos de verdade – possuem dentes caninos para rasgar carne e enzimas para digeri-la. Devido a lacunas no registo fóssil, não sabemos ao certo quando divergiram dos restantes ursos. Fósseis encontrados numa gruta chinesa indicam que os pandas-gigantes, tal como os conhecemos, têm, no mínimo, dois milhões de anos.
A cronologia e a razão exactas para os pandas se terem tornado vegetarianos ainda é tema de discussão, mas essa lenta adaptação equipou os pandas contemporâneos com algumas ferramentas únicas, incluindo molares planos para esmagar os alimentos e um apêndice manual semelhante a um polegar, uma extensão do osso do pulso muito útil para manusear o bambu. Curiosamente, falta-lhes qualquer tipo de micróbio intestinal especial para decompor o bambu que veio a formar 99% da sua dieta. Para conseguir nutrientes suficientes, o urso-panda ingere 9 a 18 quilogramas de material vegetal por dia.

Os pandas-gigantes não podem viver em qualquer sítio. Mas essa especialização volta-se agora contra eles.

Os pandas-gigantes não podem viver em qualquer sítio. Mas essa especialização volta-se agora contra eles. O domínio da espécie costumava estender-se desde o Sul e Leste da China ao Norte do Myanmar e Vietname. Agora, eles vivem em habitats montanhosos fragmentados apenas na China, num território que representa possivelmente 1% da sua distribuição histórica.
Os investigadores tentam contabilizá-los desde a década de 1970, altura em que se calcula terem existido cerca de 2.500 animais. Esse número diminuiu dramaticamente na década de 1980, parcialmente devido ao desaparecimento periódico natural do bambu.
O censo mais recente do governo chinês, realizado em 2014, deu conta da existência de 1.864 pandas em ambiente selvagem. Contudo, Marc Brody, bolseiro da National Geographic Society e fundador do organismo de conservação sem fins lucrativos Panda Mountain, adverte para o facto de ser difícil acreditar em números específicos. Além disso, argumenta, é difícil comparar números através das décadas porque os domínios e os métodos de censo mudaram e só recentemente começaram a incluir análises de DNA de excrementos de panda.

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Poderá uma cria ser enganada por um fato de panda? Assim o esperam no centro Hetaoping, onde os ursos treinados para a vida em ambiente selvagem são relativamente protegidos do contacto humano, mesmo durante um raro exame físico.

Entretanto, os chineses estão a reproduzir furiosamente o seu icónico urso em cativeiro. Nos primeiros anos (até finais da década de 1990), existiram muitas tentativas falhadas, tanto no acto de reprodução como na salvaguarda das crias nos primeiros dias. Com ajuda do estrangeiro, conseguiram-se enormes melhoramentos. David Wildt, do Instituto de Conservação Biológica do Smithsonian, fez parte da equipa internacional que colaborou inicialmente com os cientistas chineses nas áreas da biologia e reprodução de pandas. “Eles não demoraram a criar ‘pilhas’ de pandas bebés”, diz. “De certo modo, ensinámo-los tão bem que ficámos sem emprego”, brinca. Agora, “os pandas são um dos animais de cativeiro com maior diversidade genética”, afirma Jonathan Ballou, o especialista em genética que desenvolveu o algoritmo que os chineses aplicam actualmente nas suas decisões de reprodução.
Grande parte da acção decorre na Base de Pandas Bifengxia, ou BFX, onde tive o meu encontro imediato com as crias. Os visitantes podem ver ursos adultos em pátios exteriores. Subindo a colina junto do local de exposição, encontramos o edifício reservado aos funcionários onde vivem também os ursos do programa de reprodução. Os recintos são de cimento e as portas têm barras de ferro. Cada uma abre para um redil exterior. Por norma, há um panda fêmea no interior de cada um, a comer ou a dormir, por vezes segurando uma cria nos braços.

Os visitantes podem ver ursos adultos em pátios exteriores. Subindo a colina junto do local de exposição, encontramos o edifício reservado aos funcionários onde vivem também os ursos do programa de reprodução.

“Mesmo passados tantos anos, sempre que uma fêmea está grávida ou tem uma cria, ficamos muitos felizes e excitados”, disse-me Zhang Xin, um veterano com um físico bastante ursino. “Todos os dias, olhamos para os adultos e para os bebés, vemos quanto estão a comer, qual o aspecto das suas fezes, se estão bem-dispostos. Só queremos que sejam saudáveis”.
Neste contexto, há pouca coisa natural na “produção” de pandas. A criação de condições para que um macho fique sozinho com uma fêmea pode resultar em agressão em vez de acasalamento. Há alguns anos, tornou-se viral no mundo inteiro a notícia sobre como os centros de reprodução chineses tentavam gerar um ambiente propício para o amor através do recurso de “pornografia para pandas” – vídeos de pandas a acasalar – sobretudo pelos sons encorajadores. As maçãs espetadas em paus instigavam os machos a assumir a posição de montar. Recorreu-se a ervas chinesas e até mesmo Viagra e brinquedos sexuais.
O director Zhang Hemin, também conhecido como Papá Panda, recorda uma ida às compras muito constrangedora numa “loja de brinquedos para adultos” em Chengdu. “Dissemos ao funcionário que precisávamos de um estimulador genital feminino que aquecesse”, contou-me. “Depois, ainda tive de pedir um recibo para pedir o reembolso ao governo!”

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Lauren C. Tierney. Fontes: Colby Loucks, WWF-US; Andrés Viña e Jianguo Liu, Universidade Estadual de Michigan; WWF-CHINA; UICN E UNEP-WCMC (2016), Base de Dados Mundial de Áreas Protegidas. 

O protocolo actual inclui inseminação artificial, por vezes com o esperma de dois machos. Parte do desafio reside no facto biológico de as fêmeas só terem o cio uma vez por ano e durante 24 a 72 horas. Endocrinologistas monitorizam as hormonas presentes na urina que permitem prever a ovulação e podem inseminar as fêmeas várias vezes num ou dois dias para aumentar as possibilidades de implantação.
Depois, as fêmeas deixam os tratadores na expectativa durante meses. “É difícil sequer saber se uma está prenhe”, afirma o director da BFX, Zhang Guiquan.
Os pandas podem ter implantação retardada de óvulos e tempos de gestação muito variados. Alguns sofrem abortos espontâneos difíceis de detectar.

Há milhões de anos que os ursos selvagens fazem o que têm a fazer sem intervenção humana, com base nos seus ciclos naturais.

Há milhões de anos que os ursos selvagens fazem o que têm a fazer sem intervenção humana, com base nos seus ciclos naturais, na marcação com cheiros e em interacções sociais complexas praticamente ausentes da vida em cativeiro.
A artificialidade deste e de outros aspectos das suas vidas preocupa Sarah Bexell, da Universidade de Denver, que trabalhou noutro centro de reprodução de pandas durante anos: “Os ursos são muito estóicos, sobretudos os pandas.” Eles aprendem a lidar com as coisas e podem parecer descontraídos, mas, se pudéssemos sentar-nos e entrevistá-los, ouviríamos uma história bastante diferente”, afirma. William McShea, ecologista no Instituto Smithsonian, acrescenta: “Aquilo que estamos a pedir-lhes, que é basicamente fazerem sexo numa cabina telefónica, tem pouco que ver com a reprodução dos pandas no mundo real.”

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Em Bifengxia, os ursos acasalam sob o olhar dos tratadores, sem nenhuma da privacidade de que gozam na natureza. Os técnicos da base de pandas estão a descobrir formas de introduzir no processo comportamentos reprodutivos naturais como a marcação por cheiros, a escolha de parceiros e a concorrência entre machos.

Apesar disso, os chineses estão a obter excelentes resultados. Em 2015, nasceram 38 crias na China. No edifício do infantário de pandas, situado no centro da BFX, fica a imaculada sala de incubação onde as crias, quando não estão com a progenitora ou com um panda fêmea que a substitua nesse papel, recebem cuidados humanos 24 horas por dia. A separação entre mães e bebés é polémica, mas pode aumentar as possibilidades de sobrevivência das crias quando os funcionários conseguem entregar uma cria mais fraca ou rejeitada a uma substituta dedicada.
Do lado de fora, os visitantes encostam os narizes e as máquinas fotográficas à janela da sala de incubação e soltam exclamações quando avistam as cinco bolas de pêlo nos cestos do chão.
De estatura pequena e aparência tímida, por detrás dos seus óculos quadrados, Liu Juan está a fazer um turno de 24 horas, o seu segundo na mesma semana. Ela tem uma criança pequena, com menos de 3 anos, que está em casa com a família. “Este trabalho é mais intenso, mas adoro estar com eles”, afirma a propósito dos cuidados maternos que presta aos pandas.

A maioria dos pandas da BFX passará toda a vida em cativeiro, seja na China ou em jardins zoológicos no estrangeiro.

A incubação dos recém-nascidos, a alimentação a biberão, o embalo, a provocação de arrotos, a resposta aos pedidos de atenção, a massagem dos ventres para estimular os intestinos, a pesagem e medição e até a prevenção para impedir que as crias pequenas se percam implicam “um trabalho que nunca pára, é uma loucura”, resume. Existe enorme pressão para manter as crias vivas, diz. “Elas são muito importantes para a China.”
A maioria dos pandas da BFX passará toda a vida em cativeiro, seja na China ou em jardins zoológicos no estrangeiro. Contudo, noutros pontos da província de Sichuan, os investigadores têm em mente um futuro mais selvagem para as crias.
Hetaoping, uma base de pandas mais antiga na Reserva Natural de Wolong, é composta por vários edifícios de pedra e cimento encaixados num vale nas montanhas de Qionglai Shan. No final da década de 1970, os chineses construíram uma estação de campo nas encostas florestadas do local e, desde 1980, colaboram com a WWF, a primeira organização ocidental a cooperar com o governo chinês nos projectos de pandas. A WWF enviou o famoso biólogo George Schaller para conduzir uma investigação que veio a tornar-se a base daquilo que hoje sabemos sobre os animais.

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Cego, quase careca, chorão e com 1/900 do tamanho da progenitora, um panda recém-nascido é a mais carente das criaturas. Não o será por muito tempo: o panda é um dos mamíferos de crescimento mais rápido, ganhando entre 100g e 1,8kg no primeiro mês de vida.

Zhang, o Papá Panda, que recebeu a alcunha porque as ursas em trabalho de parto nos centros parecem esperar que ele chegue para parir, trabalhou com George Schaller no campo. “Foi com ele que aprendi a amar profundamente o panda”, disse. Zhang tinha um urso preferido na altura, uma fêmea curiosa que amolgou a sua chaleira e roubou-lhe comida certa noite nevada. “Ela não se ia embora. Usou a tenda durante meses, regressando sempre e deixando-me excrementos de presente na cama.”

Actualmente, algumas crias são seleccionadas para viver em ambiente selvagem em Hetaoping. Os tratadores mascaram-se de pandas dos pés à cabeça, usando fatos perfumados com urina de panda para que os ursos jovens não se habituem a seres humanos. A cria, seja ela macho ou fêmea, permanece com a progenitora e, ao longo de dois anos, ainda entregue aos cuidados da mãe, é orientada para os desafios da vida selvagem. Passado cerca de um ano, a dupla é transferida para a montanha onde a progenitora pode continuar a ensinar a cria até à sua libertação, caso os responsáveis do centro concluam que o animal está preparado para viver em liberdade. Para que isso aconteça, como explicou Zhang, o panda jovem deve ser independente, cauteloso em relação aos outros animais, incluindo seres humanos, e capaz de encontrar alimento e abrigo sem ajuda. Nem todos conseguem fazê-lo.

A cria, seja ela macho ou fêmea, permanece com a progenitora e, ao longo de dois anos, ainda entregue aos cuidados da mãe, é orientada para os desafios da vida selvagem. 

A existência de habitat adequado para a libertação dos pandas também é motivo de preocupação. Desde a década de 1970, os chineses aumentaram o número de reservas de pandas de 12 para 67. No entanto, muitas destas reservas são pequenas, povoadas por seres humanos e divididas por estradas, explorações agrícolas e outras construções humanas. Segundo William McShea, do Smithsonian, mais de um terço dos ursos-pandas selvagens vive ou aventura-se fora das fronteiras das reservas onde o habitat pode não ser tão bom.
Mesmo assim, há um aspecto positivo: “Aqui, não há problemas com caça furtiva. Ninguém toca nos pandas”, diz William McShea. “Eles representam um grande risco para os caçadores furtivos.” É um extraordinário avanço civilizacional se considerarmos que a caça de pandas foi legal na China até à década de 1960. Agora, o abate de um pode significar 20 anos de prisão.

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Crias com três meses de idade dormem a sesta no berçário de pandas de Bifengxia. Por norma, uma progenitora com gémeos não consegue dar a mesma atenção aos dois. Os tratadores reduzem-lhe o trabalho trocando regularmente as crias e assegurando que ambas recebam cuidados maternos e humanos.

Outras preocupações subsistem. O habitat dos pandas continua a ser convertido em zonas de pasto para animais de criação. “Tanto os cavalos como os pandas gostam de declives suaves e florestas de bambu e os cavalos também comem bambu. Por isso, o impacte do cavalo na conservação dos pandas é muito significativo”, comenta Zhang Jindong, da Universidade Ocidental da China, investigador em Wolong. Em 2012, o governo local pediu que os cavalos fossem retirados das florestas e incitou as pessoas “a optarem pela criação de iaques e outros animais”, afirma. A presença desses animais, curiosamente, também leva os pandas a deslocarem-se. “Afinal, para onde podem eles ir?”

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Tratadores transportam Hua Jiao (Beleza Delicada) para um exame médico antes de concluir o seu “treino para a vida selvagem”. O habitat também protege pandas-vermelhos, faisões, veados e outras espécies que beneficiam da conservação dos pandas-gigantes.

Um enorme sismo ocorrido em 2008 matou dezenas de milhares de pessoas, arruinando as casas de montanha. A catástrofe, que destruiu parte de Hetaoping, deu argumentos ao governo para convencer os aldeãos que viviam no habitat dos ursos a mudar-se. A administração pública construiu uma série de aldeias nas zonas baixas para alojar os deslocados e declarou uma vitória a favor da conservação dos ursos-pandas.
Li Shufang, uma mulher de 75 anos que visitei na casa simples onde vive com a sua família, caminha várias horas por dia, subindo e descendo a montanha, para tratar dos porcos e de uma horta no local onde morava antes do sismo. Quando lhe perguntei o que sentiu quando cedeu o seu lugar aos pandas, ela retorquiu num dialecto local: “Por que não mudaram eles os pandas em vez de nós?”

Um enorme sismo ocorrido em 2008 matou dezenas de milhares de pessoas, arruinando as casas de montanha. A catástrofe, que destruiu parte de Hetaoping, deu argumentos ao governo para convencer os aldeãos que viviam no habitat dos ursos a mudar-se.

Outros interlocutores pareciam satisfeitos com a vida “fácil” da aldeia, embora poucos estejam a beneficiar da pandamania. Com a presença de um novo centro de criação e educação de pandas chamado Gengda em Wolong, “talvez quando a estrada estiver pronta e os turistas começarem a chegar, ganhemos dinheiro e nos sintamos melhor com o facto de os pandas serem tão importantes para o governo”, disse um habitante local. “Por ora, para mim, um panda é apenas um urso. Nada de especial.”
Para transformar a terra, agora reservada em habitat para ursos, foram contratados trabalhadores locais para plantar rebentos nos espaços onde as florestas tinham sofrido perdas devido ao abate de árvores ou aos danos do sismo. Os chineses concentraram-se em espécies de árvore de crescimento rápido, cujas raízes inibem a erosão. Contudo, essas espécies não criam um bom habitat para os pandas: os bambus mais nutritivos crescem no sub-bosque de florestas de crescimento antigo, que demoram décadas a formar. As terras montanhosas dificultam a plantação em grande escala, pelo que a paisagem permanece fragmentada, o que se reflecte nas populações de pandas.

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A tratadora Li Feng embala esta cria junto da janela do berçário de pandas de Bifengxia, o ponto mais popular para aqueles que visitam o local. Bifengxia recebe mais de 400 mil visitantes por ano que vêm ver e fotografar os bebés mais adorados da China.

Segundo Barney Long, director de conservação na Global Wildlife Conservation, apenas nove de cerca de 33 subpopulações de pandas são “verdadeiramente viáveis”, contando com animais suficientes para persistir a longo prazo. As alterações climáticas irão seguramente agravar a situação: os modelos científicos chamam a atenção para o facto de o aquecimento poder reduzir o habitat remanescente do panda em quase 60% nos próximos 70 anos. Por enquanto, a reconstrução, a interligação e a protecção do habitat poderá ser a melhor aposta. Mais importante do que o número de crias geradas, segundo Marc Brody, é “a possibilidade de dar um território a esses pandas”.
As reintroduções têm tido resultados contraditórios. Dos cinco animais libertados desde 2006, três ainda andam por aí. Dois foram encontrados mortos, tendo um provavelmente sido vítima de agressão por machos selvagens. Quando esta revista foi impressa, três pandas estavam sob avaliação na expectativa da libertação em Julho.
À semelhança da reprodução, a libertação dos pandas “será uma questão de tentativa e erro, tempo e dinheiro”, diz William McShea.

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No cercado da Reserva de Wolong, os tratadores Ma Li e Liu Xiaoqiang ouvem os sinais de rádio emitidos pela coleira de um panda que está a ser treinado com vista à sua libertação. A monitorização informa-os sobre a posição da cria no terreno mais acidentado da montanha.

O Papá Panda mostra-se igualmente confiante. “O derradeiro objectivo é libertar, libertar, libertar”, disse-me. “Tive dois trabalhos importantes na minha vida até agora: o primeiro foi obter sucesso na promoção do acasalamento entre pandas. Tive sucesso. Agora, temos de assegurar que existe habitat de qualidade e instalar os pandas.”
Num recinto de treino em Wolong, a fêmea Ye Ye aparece junto da vedação à procura de alimento. A sua cria Hua Yan não está à vista e isso é bom sinal. A independência é essencial para a sobrevivência e a cria de 3 anos será em breve libertada. Antes, porém, será a vez de outra cria. Ao longo de quatro dias de meados de Novembro, Hua Jiao é capturada e submetida a um último exame médico. A equipa de biólogos coloca-lhe uma coleira, condu-la a uma caixa e depois transporta-a para a Reserva Natural de Liziping.

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Uma única progenitora cuida destas três crias, das quais apenas uma é sua. A remoção de uma cria fraca ou rejeitada à sua progenitora e consequente entrega aos cuidados de uma substituta tem contribuído para melhorar a taxa de sobrevivência das crias nos centros de reprodução de pandas.

A salvação de pandas é um processo dependente de cada animal e a libertação de Hua Jiao é um passo essencial num caminho cheio de escolhos. Com a libertação de cinco outras crias de Wolong agendada para os próximos anos, a conservação dos pandas voltará aos cabeçalhos noticiosos.
Nesta manhã de Novembro, quatro homens retiram a caixa de Hua Jiao da carrinha e pousam-na virada para a floresta. Barreiras de bambu ocultam os espectadores e apontam o caminho. Sem fanfarra, um tratador abre a porta.

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Pronta para a liberdade, Zhang Xiang (A Atenciosa) dá os seus primeiros passos na Reserva Natural de Liziping em 2013. Foi a primeira fêmea libertada desde o início das reintroduções e, a avaliar pela sua coleira de monitorização, está em perfeitas condições.

A princípio, ela fica imóvel, comendo bambu. É a sua última refeição em cativeiro. A partir de hoje, terá de defender-se em todos os aspectos. Daqui a alguns anos poderá procurar um companheiro e acrescentar cinco ou mais crias à população durante o seu tempo de vida. Não é um número transformador, mas, numa espécie em perigo reduzida a menos de dois mil animais em ambiente selvagem, todos os indivíduos contam.
Por fim, com alguma persuasão dos tratadores, Hua Jiao saiu da caixa, piscando os olhos devido à luz, e afundou as patas no solo macio. Depois, sem sequer olhar para trás, para os seus captores e para a vida que conhecera até então, avançou a passos largos rumo à liberdade. 

 Pode ver o vídeo relativo à reportagem aqui

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