Cagarras, o fascinante mundo da ave genuinamente portuguesa

 Nos últimos anos, o cagarro foi objecto de dezenas de publicações científicas. Hoje, conhece-se muito mais sobre esta ave marinha incrível. Mas ainda há lacunas sobre o que faz a partir do momento em que abandona o ninho e parte em aventuras oceânicas.

 Texto Gonçalo Pereira   Fotografia Luís Ferreira

O comportamento de caça do admirável cagarro começou a ser desvendado em pormenor a partir do momento em que foi possível colar loggers à sua plumagem. Anteriormente, só a análise de isótopos estáveis no sangue e penas das aves permitia conhecer as zonas gerais de migração das aves. Os marcadores modernos revelaram viagens oceânicas de milhares de quilómetros e um conhecimento intensivo das zonas de maior produtividade de peixe.

 Se alguma ave alguma vez precisou de um consultor de imagem, capaz de exaltar as suas virtudes e de varrer para debaixo do tapete as questões estéticas, essa ave é o cagarro. 
Não é particularmente exuberante quando visto de perto. Predomina nele a plumagem cinzenta e branca, sem a exuberância por exemplo do papagaio-do-mar. Vive nas margens do território, em ilhas, ilhéus e rochedos, longe da vista e do coração. Tem um piar característico e ligeiramente cartoonesco, como uma longa gravação da voz do Pato Donald. “E o pior são os seus hábitos”, brinca Pedro Geraldes, biólogo e membro da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) desde 2001. “Sai à noite e desaparece ou dorme durante o dia.” Não é, portanto, um candidato evidente ao prémio de Miss Simpatia em qualquer concurso de popularidade entre as aves que nidificam em território português. 

E, no entanto, esta é a ave que a SPEA elegeu como Ave do Ano no já longínquo 2011, esperando que a atenção popular pudesse ultrapassar estas minudências e se concentrasse nos aspectos verdadeiramente notáveis de uma das poucas espécies que nidifica em Portugal continental, nos Açores e na Madeira. Pior: existia um certo sentido de responsabilidade científica. “Esta espécie concentra-se essencialmente em águas portuguesas”, diz Pedro Geraldes. “Tem espécies próximas no Mediterrâneo e em África, mas este cagarro existe quase exclusivamente nos nossos mares. E a maior colónia do mundo está nas Selvagens. Cabia-nos preencher as lacunas do conhecimento sobre ele.”

As biólogas espanholas Andrea Ripol e Clàudia Pich colaboram no trabalho de campo das Berlengas, medindo e pesando uma fêmea. 

 Quando raspamos a superfície, encontramos assim uma “espécie verdadeiramente notável, que se adapta a circunstâncias muito diferentes e que protagoniza uma verdadeira saga de centenas de quilómetros quando parte do ninho em busca de alimento”, acrescenta Pedro Geraldes. Regressa depois, uma vez por ano, à mesma ilha, ao mesmo ninho e à mesma parceira, como uma família emigrante sempre ciosa das suas raízes.

Regressa depois, uma vez por ano, à mesma ilha, ao mesmo ninho e à mesma parceira, como uma família emigrante sempre ciosa das suas raízes.

Recuamos algumas dezenas de anos e regressamos a 2005. A SPEA acabou de ver aprovado pela União Europeia um ambicioso programa no Atlântico Norte, com vista ao estudo do comportamento de aves marinhas e à proposta de designação de IBA (Zonas Importantes para as Aves, na designação portuguesa). 
O projecto leva investigadores da organização e do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra a pontos remotos da Zona Económica Exclusiva portuguesa. Há observadores a bordo em vários cruzeiros da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental, contando aves marinhas e analisando o seu comportamento de caça. Em terra, nos arquipélagos atlânticos, biólogos aproveitam a primeira geração de loggers (os marcadores apensos à plumagem da ave) para recolher dados sobre as suas rotas de alimentação, as temperaturas a que se sujeitam, o tempo que passam em cada zona do oceano, o conhecimento que têm das zonas ricas em alimento e até a sua memória de zonas produtivas. Contam ninhos e realizam medições biométricas dos animais. Anilham exaustivamente.

Uma cria aturdida espreita o ambiente que a rodeia no lado de fora do ninho. O bico peculiar desta ave serve para excretar o sal, uma vez que, durante boa parte do ano, só tem água salgada para beber.

 Havia lacunas consideráveis até então no conhecimento sobre as aves marinhas a partir do momento em que abandonavam o ninho e procuravam alimento, como se a ave entrasse num buraco negro. “A anilhagem permitia (e permite) monitorizar aves já conhecidas nos pontos de partida e chegada, mas os loggers permitiram fazer muita ciência”, acrescenta Pedro Geraldes. O cagarro capta a atenção dos investigadores. Os dados compilados pelos equipamentos dão conta de viagens de centenas de quilómetros e grande diversidade de comportamento de caça consoante a zona do Atlântico em que nidificam. A SPEA acumula já séries temporais desde 2006 e registou desde então mais de quinhentas viagens destas aves solitárias em caça no Atlântico.
Em 2008, a SPEA submeteu e viu aprovado novo programa de conservação, centrado na ilha do Corvo, onde as colónias de aves marinhas nidificantes aprenderam a conviver com a população humana da ilha. O projecto testou tipologias de planeamento contra espécies invasoras e desenhou, pela primeira vez na Europa, uma vedação especificamente à prova de predadores introduzidos pelo homem, como ratos e gatos. Em simultâneo, ajudou a mudar a imagem popular da ave. 
Acompanhando o bem sucedido programa SOS Cagarro do Governo Regional dos Açores (em vigor desde a década de 1980), os membros do projecto disponibilizaram-se para sessões de esclarecimento sobre a ave e os seus hábitos.

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