A grande batalha para salvar Virunga

Salvando um dos mais perigosos parques do mundo.

Texto Robert Draper   Fotografia Brent Stirton

Os vigilantes da natureza recebem formação militar, incluíndo tácticas de emboscada. Desde que o conflito étnico no Ruanda alastrou ao Congo em 1994, os vigilantes da natureza têm enfrentado ameaça constante de diversos grupos armados.

Depois de avaliar o aspecto duvidoso da equipa que supervisionava, composta por sete jovens que reparavam uma estrada acidentada que conduzia ao Parque Nacional de Virunga, o vigilante da natureza não demorou muito tempo a compreender o que tinha em comum com eles. Todos tinham nascido e crescido dentro do parque ou nos arredores deste, na fronteira oriental da República Democrática do Congo. Nenhum era rico. Nenhum seria alguma vez rico. Todos tinham visto familiares mortos por uma guerra com motivações obscuras e sem fim previsível.

E agora aqui estavam todos juntos, trabalhando para o parque, tapando buracos para concretizar algo significativamente mais profundo do que 14 quilómetros de cascalho grosseiro. 
A estrada faz a ligação entre o posto de vigilantes da natureza de Bukima e os turistas ocidentais, cujo dinheiro ajuda a sustentar o parque nacional mais antigo de África. Estes deslocam-se à área protegida sobretudo para poderem estar a poucos metros de distância dos mais ilustres moradores do parque, os raros gorilas de montanha.

A estrada de Bukima assegura o contacto entre os agricultores residentes fora do parque e os mercados das aldeias e a cidade de Goma, mais longínqua. Durante muitos anos, fora uma amálgama formada por grandes pedregulhos e lama semelhante a areias movediças. A sua intransponibilidade tornava ainda mais duras as vidas já de si duras dos habitantes. Agora, porém, o parque estava a investir elevados montantes na reconstrução da estrada. E eram os homens locais, como estes, que a andavam a reparar.

Por isso, a estrada também constituía um elo de ligação, embora estreito, entre o parque, a instituição nacional de maior visibilidade da região, e os aldeãos que o olham com hostilidade e, por vezes, raiva, entendendo que a terra deveria ainda pertencer-lhes.

Por isso, a estrada também constituía um elo de ligação, embora estreito, entre o parque, a instituição nacional de maior visibilidade da região, e os aldeãos que o olham com hostilidade e, por vezes, raiva, entendendo que a terra deveria ainda pertencer-lhes. E era neste tema que os pontos de vista do vigilante da natureza, um capitão chamado Theo Kambale, divergiam da opinião dos jovens. O coração de Theo continha a veneração mais pura pelo parque. Theo tinha 55 anos, 31 dos quais passados como vigilante da natureza. O seu pai, também vigilante da natureza, morrera esventrado por um búfalo-africano em 1960, o ano em que Theo nasceu. O seu irmão mais velho fora igualmente vigilante da natureza. Morrera em 2006, assassinado em serviço. O seu assassino fora um membro de um dos muitos grupos armados que devastaram e ocuparam Virunga durante duas décadas.

Estes jovens, criados no meio da pobreza, consideravam uma enorme injustiça o facto de o solo de Virunga estar protegido por lei para deleite de turistas abastados. Foram arregimentados por um exército miliciano denominado M23. No fim de 2013, após mais de um ano e meio de combates, o exército congolês, apoiado por tropas da ONU, expulsou o M23. Entre os soldados de infantaria da milícia considerados recuperáveis pelas forças de manutenção da paz da ONU e pelos responsáveis do parque, encontravam-se estes sete.

Um dorso-prateado da família Mapuwa, composta por 22 membros, emerge da floresta para observar a patrulha dos vigilantes da natureza. O parque tem sido bem-sucedido na protecção dos gorilas, a sua principal atracção turística. A população destes animais está actualmente em crescimento.

O trabalho na estrada de Bukima era mais duro e menos lucrativo do que a pilhagem, mas os antigos combatentes mostravam empenho. Theo sentiu-se impressionado. De vez em quando, conversava com eles. “Até agora, a única coisa que fizeram foi gerar insegurança nesta região”, dizia. “Agora, estão a construir esta estrada. É um princípio. Podem partir daqui para fazer outras coisas, mas não podem progredir se não houver segurança. Portanto, digam isso aos vossos amigos. Digam-lhes para abandonarem os grupos armados. Porque aquilo não é vida. Isto é o começo de uma vida”, dizia ele, apontando para a estrada.

Ele conhecia os antecedentes de desespero. Sabia que, por norma, rapazes como aqueles tinham sido mobilizados à força.

O vigilante da natureza esperava que a sua mensagem fosse assimilada. Ele conhecia os antecedentes de desespero. Sabia que, por norma, rapazes como aqueles tinham sido mobilizados à força. Uma sinistra teia de cicatrizes atravessava-lhes os braços e as costas, testemunhando o seu estado de semiescravidão. Ao observar estes homens com pouco mais de 20 anos marcados para sempre pela brutalidade, Theo pensava no seu próprio ferimento, uma bala na perna direita disparada pelo membro de uma milícia. Se eles conseguissem superar os ferimentos de guerra, talvez este parque pudesse ser salvo.

Não existe nenhuma área protegida no mundo que se assemelhe a Virunga, de formas simultaneamente positivas e negativas. Os seus quase oitocentos mil hectares abrangem uma rede de rios alimentados por glaciares, um dos Grandes Lagos de África, savanas banhadas pelo sol, florestas tropicais de terras baixas impenetráveis, uma das montanhas mais altas do continente e dois dos seus vulcões mais activos. Em Virunga, existem mais de setecentas espécies de aves e mais de duzentas de mamíferos (incluindo  480 dos 880 gorilas de montanha remanescentes em todo o mundo). Olhando à volta, no lugar onde o rio Semliki começa a correr a partir das águas do lago Edward, com os montes Rwenzori brilhando ao longe, contemplando lá em baixo elefantes a nadarem e cegonhas bico-de-sela a pavonearem-se, iluminados pela luz baixa do sol matinal, qualquer ser humano sente-se pequeno e fica consciente de que o lado bravio indómito da natureza está muito longe de ter desaparecido.

Emmanuel de Merode, ladeado de guarda-costas, nove meses depois de sobreviver a uma tentativa de homicídio, dirige o parque há oito anos. Tornou-se o rosto do esforços de conservação no Leste do Congo, transformando-se num alvo para os adversários do parque.

A verdade é que Virunga é uma zona de guerra há duas décadas. Em 1994, o pavoroso conflito étnico no vizinho Ruanda que conduziu ao genocídio dos tutsi pelos hutu atravessou a fronteira, alastrando ao Congo. Os combatentes hutu e mais de um milhão de refugiados fugiram do Ruanda após a derrota, instalando-se em campos superlotados, autênticos pesadelos montados em redor do parque. Alguns hutu formaram mais tarde as Forças Democráticas para a Libertação do Ruanda (conhecidas por FDLR, a sua sigla em francês), a força miliciana responsável pela morte do irmão mais velho de Theo Kambale. Os tutsi congoleses reagiram, fundando o Congresso Nacional para a Defesa do Povo, ou CNDP, que mais tarde deu origem ao Movimento 23 de Março, ou M23. Acções sangrentas sucessivas, fomentadas por estes grupos armados, reviraram o parque.

Muitos combatentes, juntamente com os soldados do exército congolês supostamente empenhados em defender o território, permaneceram depois dos cessar-fogos, eliminando animais selvagens para consumo ou vendendo-os como carne de caça.

Muitos combatentes, juntamente com os soldados do exército congolês supostamente empenhados em defender o território, permaneceram depois dos cessar-fogos, eliminando animais selvagens para consumo ou vendendo-os como carne de caça. Milhares ainda permanecem na floresta, juntando-se a outros milhares que integram um grupo instável de milícias constituídas a nível local com o nome de Mai-Mai. As tentativas dos vigilantes da natureza para afastá-los provocaram represálias mortíferas. Em Março deste ano, dois vigilantes da natureza foram executados na zona central de Virunga, elevando para 152 o total de vigilantes abatidos desde 1996.

Outro tipo de guerra paira igualmente, opondo o parque e o seu bem-estar ecológico à procura de petróleo. Em 2010, a empresa Soco International, sediada em Londres, obteve uma concessão que lhe permitia explorar cerca de metade de Virunga, incluindo uma área junto do lago Edward. Após quatro anos de protestos continuados, liderados por grupos conservacionistas, a Soco recuou. Mas o governo ugandês mostrou interesse em explorar petróleo na sua margem do lago, num lembrete sinistro de que o parque e os seus preciosos recursos não são sacrossantos.

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