Nadando com tubarões-tigre

Devido à sua reputação cruel, temos um medo pavoroso de tubarões. Embora raros, os ataques parecem estar a aumentar: em 2015, houve um recorde de 98 ataques não provocados, seis dos quais mortais. Menos conhecidos são os papéis essenciais desempenhados pelos tubarões na ecologia oceânica. Nos próximos meses, examinaremos três espécies mal-afamadas: o tubarão-tigre, o tubarão-branco e o tubarão-de-pontas-brancas. A investigação de cientistas que estudam estas enigmáticas criaturas mostra que elas não são, afinal, tão assustadoras.

Texto de Glenn Hodges   Fotografias de Brian Skerry

Com mandíbulas e dentes concebidos para esmagar e rasgar objectos duros como carapaças de tartaruga, um tubarão-tigre, confrontado com uma câmara, pode morder primeiro e preocupar-se depois com o facto de ela ser, ou não, comestível. 

Vi o filme “Tubarão” no Verão em que estreou, em 1975. Tinha 9 anos e ainda me lembro de como a sala de cinema se encheu de aplausos e gritos quando Brody finalmente matou o animal. Adorei o filme e, nessa noite, sonhei que um tubarão nadava pela retrete acima e me perseguia pelo corredor.

A minha experiência foi semelhante à de muitas outras pessoas. Adorámos “Tubarão” e ficámos paranóicos em relação a este animal. Fui criado dentro de água, na casa dos meus avós na costa do estado de Connecticut, e embora tenha continuado a nadar depois de ver o filme, fi-lo sempre com uma vaga sensação de medo de que uma mandíbula pudesse cravar-se na minha perna a qualquer momento. A minha irmã ficou tão traumatizada com o filme que só entrava na água com a maré baixa. Não interessava que só tivessem ocorrido dois ataques de tubarão na costa do Connecticut desde 1900. Os factos nunca são tão relevantes como os medos.

Por isso, quando recebi esta missão, decidi fazer algo que nunca antes quisera fazer: nadar com tubarões. Fiz um curso de mergulho e viajei até às Bahamas.

Por isso, quando recebi esta missão, decidi fazer algo que nunca antes quisera fazer: nadar com tubarões. Fiz um curso de mergulho e viajei até às Bahamas, a um local conhecido como Tiger Beach, decidido a mergulhar com tubarões-tigre, a espécie responsável pelo maior número de ataques documentados contra seres humanos, se esquecermos o tubarão-branco. Seria o meu primeiro mergulho após receber a certificação e sem a protecção de uma jaula. A maioria das pessoas achou que eu era muito corajoso… ou muito estúpido.

Eu pretendia desfazer uma ilusão. As pessoas que mais intimamente conhecem os tubarões são, por norma, quem menos medo tem deles e ninguém se aproxima mais dos tubarões do que um mergulhador. Os responsáveis pelas operações em Tiger Beach falam afectuosamente dos tubarões-tigre locais. Dão-lhes alcunhas e o seu olhar ilumina-se quando falam sobre as suas peculiaridades. Aos seus olhos, são tão devoradores de homens como os cães. Aliás, são comprovadamente menos devoradores de homens: em 2015 houve 34 mortes humanas causadas por ataques de cães nos EUA, mas apenas seis provocadas por ataques de tubarão em todo o mundo.

Um mergulhador observa um tubarão-tigre nas Bahamas. Esta cena pode não ser tão perigosa como parece: os tubarões-tigre dependem do factor-surpresa para caçar as suas presas e é pouco provável que ataquem mergulhadores que os mantenham debaixo de vista.

A realidade raramente é traçada a preto e branco. No dia anterior ao meu primeiro mergulho em Tiger Beach, fora noticiado um ataque, ocorrido no Hawai, desferido por um tubarão-
-tigre tão implacável que o homem tivera de arrancar-lhe um olho para conseguir escapar. Os pés do nadador ficaram desfeitos e um foi mesmo amputado. Este foi um dos três ataques ocorridos ao largo de Oahu só nesse mês e integrou um aumento inquietante do número de ataques documentados nos últimos anos, ao ponto de o Hawai ter encomendado um estudo sobre os padrões de movimento dos tubarões-tigre.

Os ataques de tubarões não têm importância somente em função do número de pessoas mordidas. Como predadores de topo, eles actuam como força niveladora nos ecossistemas oceânicos, controlando as populações de outros animais como as tartarugas-marinhas. São essenciais para a saúde dos ecossistemas de pradarias marinhas, que servem de habitat a muitos animais oceânicos.

Além disso, é provável que o papel desempenhado pelos tubarões-tigre nos ecossistemas oceânicos ganhe cada vez mais importância com as alterações climáticas. Se o planeta continuar a aquecer, tudo indica que os tubarões-tigre farão parte dos vencedores. Eles adoram água quente, comem quase tudo e têm enormes ninhadas. O número reduzido de crias por ninhada de muitas outras espécies de tubarão torna-as particularmente vulneráveis ao excesso de captura. Todas estas características tornam o tubarão-tigre uma das espécies de tubarões mais resistentes.

O número reduzido de crias por ninhada de muitas outras espécies de tubarão torna-as particularmente vulneráveis ao excesso de captura. Todas estas características tornam o tubarão-tigre uma das espécies de tubarões mais resistentes.

São também uma das maiores: as fêmeas adultas podem ultrapassar 5,5 metros de comprimento e pesar mais de 570 quilogramas. 

Tiger Beach não é propriamente uma praia. Trata-se de um pedaço de areia banhado por águas pouco profundas cerca de 40 quilómetros a norte da ilha da Grande Bahama, uma manta de retalhos composta por areia, vegetação marinha e recifes de coral que começou a atrair mergulhadores há cerca de uma década. É um habitat de primeira qualidade para os tubarões-tigre e reúne as condições ideais para a sua observação.
A água tem 6 a 14 metros de profundidade e costuma ser transparente. Colocamos o cinto de lastro, mergulhamos e vemos os tubarões passar.

Por mais fácil que o mergulho seja do ponto de vista técnico, é um procedimento para o qual os mergulhadores realizam treino progressivo. Os meus companheiros já fizeram centenas
de mergulhos e, durante a viagem de barco de duas horas até ao local na manhã do nosso primeiro mergulho, não paravam de vocalizar palavras de encorajamento.

A conversa foi interrompida quando chegámos ao local e os nossos operadores de mergulho, Vincent e Debra Canabal, começaram a atirar pedaços de peixe ensanguentado borda fora. 

Os tubarões-tigre encontram-se seguros nas águas protegidas das Bahamas, mas raramente permanecem muito tempo no mesmo sítio. As suas migrações levam-nos a cruzar caminho com pescadores comerciais. Há mais de setenta espécies de tubarão em pior estado do que o tubarão-tigre, espécie com o estatuto de “quase ameaçado”.

Quase imediatamente a água encheu-se de tubarões-de-recife. Eram dezenas, a maioria dos quais com 1,5 a 2 metros de comprimento, amontoando-se e lutando pelos pedaços de peixe. De seguida, tubarões-limão (ligeiramente mais compridos e mais finos do que os tubarões--de-recife) surgiram aqui e além e, por fim, Vin detectou uma enorme silhueta escura. “Tigre!”, gritou, apontando. Vestiu rapidamente o fato, saltou para a água com um balde de cavalas e começou a alimentar o tubarão no leito marinho – em parte para mantê-lo ocupado enquanto os outros entravam na água e também para assegurar que não tivesse demasiada fome quando o fizessem. Sentia-me à vontade face a tudo aquilo: os comentários dos mergulhadores, o amontoado de tubarões, o meu primeiro grande mergulho. Cheguei ao fundo e tive, imediatamente, de enxotar o primeiro tubarão-tigre que vi na minha vida: surgiu em toda a glória dos seus 360 quilogramas.

Segundo a descrição posterior de Debbie, “Sophie” mostrou apenas curiosidade e boas maneiras. “Ela adoroooou-te”, repetia Debbie em função da atenção que Sophie me dispensara durante o mergulho. Nas profundezas, eu não sabia ao certo se Sophie me adorava como amigo ou como refeição. Eu parecia um ninja atabalhoado, abanando a vara de plástico que trouxera para manter os tubarões à distância. Contudo, ao observar a maneira como Vin e Debbie lidavam com os animais nos mergulhos das semanas seguintes, acariciando-os depois de lhes darem peixe para comer, afastando-nos suavemente quando era altura de se sair, tornou-se fácil ver os tubarões sob luz benigna. Eles não fizeram um único movimento brusco ou agressivo em direcção a qualquer um de nós. Deslocavam-se com lentidão e deliberadamente, nadando em grandes arcos, deslizando, de seguida, até à caixa de alimentação. Senti-me surpreendentemente seguro na sua presença. Não estou a exagerar: a viagem de táxi que fiz desde o aeroporto de Freeport pareceu-me mais perigosa do que o mergulho com estes tubarões.

Em Tiger Beach, a maioria dos tubarões-tigre está habituada a mergulhadores, é alimentada por eles e aprendeu a não morder as mãos que lhes dão de comer.

Em Tiger Beach, a maioria dos tubarões-tigre está habituada a mergulhadores, é alimentada por eles e aprendeu a não morder as mãos que lhes dão de comer. Porém, mesmo aqueles que não estão familiarizados com a rotina, não são, em regra, perigosos para os mergulhadores.
Os tubarões-tigre são predadores de emboscada, recorrendo à dissimulação e ao efeito-surpresa para capturar as suas presas. Em Tiger Beach, não estamos a remar ou a nadar à superfície da água, como a maioria das vítimas de ataques. Estamos lá em baixo, ao nível dos tubarões, apresentando-nos numa categoria diferente das presas, e isso torna o mergulho na sua companhia razoavelmente seguro.

Claro que há excepções. Há vídeos publicados nos agregadores mais conhecidos de “quase acidentes” em Tiger Beach; num deles, um tubarão-tigre tenta comer a cabeça de um mergulhador e, noutro, um tubarão-tigre tenta morder a perna de outro. Em 2014, registou-se mesmo um acidente fatal, quando um mergulhador desapareceu. O nosso grupo apanhou um susto quando um peixe-anjo apareceu entre nós e os tubarões-do-recife e os tubarões-limão entraram em frenesi, perseguindo-o enquanto este se escondia entre as pernas das pessoas. 

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