A ideia genial

É muito mais do que um simples parque. É o lugar onde, há mais de 140 anos, os seres humanos começaram a negociar um tratado de paz com a natureza selvagem. Essas negociações ainda decorrem, com urgência crescente, em Yellowstone e em todo o planeta, à medida que o mundo humano se expande e o mundo natural regride. Conseguiremos chegar a um acordo?

Texto de David Quammen

Fotografias e pinturas como esta (o Grande Desfiladeiro de Yellowstone) inspiraram o Congresso dos EUA a criar o parque em 1872. Foi uma medida revolucionária. Fotografia Michael Nichols.

No dia 7 de Agosto de 2015, no Parque Nacional de Yellowstone, um vigilante da natureza encontrou o corpo de um homem junto de um trilho pouco distante de um dos maiores hotéis locais. 

O falecido foi identificado como Lance Crosby, de 63 anos, originário do estado de Montana. Trabalhava sazonalmente como enfermeiro numa clínica médica no parque e fora dado como desaparecido pelos seus colegas nessa manhã.

O inquérito subsequente revelou que Lance Crosby andava a caminhar sozinho no dia anterior, sem repelente anti-ursos, quando deparou com uma fêmea de urso-pardo e duas crias. Depois de matá-lo e comê-lo parcialmente (não necessariamente por esta ordem) e depois de deixar que as crias também se alimentassem, a ursa escondeu os seus restos mortais sob uma pilha de terra e folhas de pinheiro, como os ursos-pardos costumam fazer quando pretendem reivindicar uma peça de carne. Uma vez capturada numa armadilha e associada a Crosby através de testes de DNA, a ursa foi sedada, anestesiada e posteriormente abatida, com base na premissa de que um urso-pardo adulto que consumiu carne humana e escondeu um corpo é demasiado perigoso para ser poupado, mesmo que o encontro fatal não tenha ocorrido por sua culpa. “Estamos muito tristes com esta tragédia. Apresentamos os nossos sentimentos à família e aos amigos da vítima”, comentou o superintendente do Parque Dan Wenk, um homem sensato encarregado de uma tarefa difícil: manter Yellowstone seguro para pessoas e animais selvagens em simultâneo.

Sectores de Yellowstone são mais selvagens agora do que foram no último século. Os ursos-pardos estão a disseminar-se. Este, no Parque Nacional de Grand Teton, espanta corvos de uma carcaça de bisonte,que foi retirada da estrada para separar necrófagos e turistas. Fotografia Charlie Hamilton James.

Os ursos-pardos podem, evidentemente, ser perigosos, mas o perigo que representam deve ser contextualizado. A morte de Lance Crosby foi apenas a sétima provocada por um urso no parque nos últimos cem anos. Nos 144 anos decorridos desde a criação de Yellowstone, morreram no parque mais pessoas por afogamento, queimadura em piscinas termais ou suicídio do que devido a ataques de ursos. Morreram quase tantas pessoas vítimas de relâmpagos. Duas pessoas foram mortas por bisontes.

A verdadeira lição inerente à morte de Lance Crosby, e à morte igualmente lamentável do urso que o matou, é um lembrete para quem facilmente se esquece de uma especificidade: o Parque Nacional de Yellowstone é um lugar bravio, imperfeitamente restrito por limites impostos pelos seres humanos. Está repleto de maravilhas da natureza (animais ferozes, desfiladeiros profundos, quedas de água sonoras, águas escaldantes) magníficas de contemplar, mas temíveis de enfrentar.

A maioria dos visitantes de Yellowstone vê o parque do interior dos seus automóveis, observa-o de um miradouro sobre um rio grandioso, caminha sobre passadiços de madeira montados entre as bacias dos géiseres, como se o parque fosse um diorama. Numa frase, o visitante tradicional permanece seguro e seco. No entanto, caso se desvie duzentos metros da estrada e entre num barranco florestado ou numa estepe coberta de artemísia, é melhor ter consigo – como Lance Crosby não tinha – uma lata de pulverizador repelente anti-ursos. É este o paradoxo de Yellowstone e da maioria dos outros parques nacionais criados desde então: natureza contida e sob gestão, animais selvagens obrigados a seguir regras humanas. Paradoxo da natureza cultivada.

Bisontes enfrentam-se no vale Lamar, em Yellowstone, durante a época de acasalamento. Mais de 4.500 bisontes deambulam em liberdade no parque. São descendentes de poucas dezenas de animais protegidos há mais de um século, que salvaram a espécie da extinção. Fotografia Michael Nichols.

É complicado. E complicando ainda mais a questão, a palavra “Yellowstone” significa mais do que um parque. É também o epónimo de um grande ecossistema: o maior e mais rico complexo maioritariamente composto por paisagem e vida selvagem dos 48 estados contíguos dos Estados Unidos. O Grande Ecossistema de Yellowstone é uma paisagem que abrange igualmente o Parque Nacional de Grand Teton, sectores de florestas nacionais, refúgios de vida selvagem e outros terrenos públicos e privados, compreendendo no total cerca de nove milhões de hectares. Em redor desta vasta área, encontra-se uma zona de transição, onde é mais provável encontrar gado vacum do que veados, mais provável ver máquinas cerealíferas do que ursos-pardos e mais provável ouvir um labrador preto ladrar do que um lobo uivar. Circundando essa zona-tampão, temos os EUA do século XXI: auto-estradas, cidades, parques de estacionamento, centros comerciais, subúrbios intermináveis, campos de golfe, Starbucks.

Haverá esperança de conseguirmos preservar, no meio da América contemporânea, este vestígio da paisagem primordial do nosso continente, amostra genuína da natureza selvagem – um sítio gloriosamente inóspito, cheio de presas e predadores? Pode tal lugar ser compatibilizado com as exigências dos humanos? Só o tempo e as nossas escolhas poderão dizê-lo. Mas se a resposta for positiva, Yellowstone fará parte da resposta.

O parque situa-se sobre uma região denominada pelos geólogos como planalto de Yellowstone, com uma altitude média de 2.400 metros. Bosques densos de pinheiros, pradarias de erva alta e arbustos de artemísia, bem como uma rede de estradas suavemente ondulantes, cobrem esta grande elevação de terreno aparentemente frio e estático. Mas não se deixe enganar.

Há uma razão geológica dramática para a altura do planalto de Yellowstone. Imediatamente por baixo dele, encontra-se um vasto ponto quente vulcânico, um canal aberto no manto e crosta da Terra. Essa torrente termal compreende duas câmaras de magma com rocha parcialmente fundida, uma assente sobre a outra, empurrando a superfície terrestre como uma enorme pústula.

À volta da protuberância, pairam montanhas mais antigas. No planalto propriamente dito, os geólogos descobriram evidências de três enormes caldeiras, cicatrizes deixadas por três formidáveis explosões ocorridas nos últimos 2,1 milhões de anos. Essas explosões e as forças vulcânicas na sua origem levaram a que o ponto quente de Yellowstone fosse classificado como “supervulcão”. Os vulcões normais costumam ocorrer à margem de placas tectónicas; os supervulcões emergem directamente das placas. E a tocha de Yellowstone, enviando calor em erupções poderosas, é provavelmente a maior existente sob qualquer continente da Terra.

Os seres humanos que aqui chegaram eram antepassados distantes dos sheep eater, bannock e outros povos nativos ainda hoje ligados a este local pelas suas tradições. 

Os seres humanos que aqui chegaram eram antepassados distantes dos sheep eater, bannock e outros povos nativos ainda hoje ligados a este local pelas suas tradições. Deslocaram-se sobre o planalto à medida que o seu nomadismo os conduzia em busca de alimento e peles e de uma vida sazonalmente confortável. Seguiram-se as primeiras vagas da invasão euro-americana. Yellowstone não foi disputado e povoado durante essa invasão, ao contrário de outras regiões do Oeste americano, em parte porque a grande altitude do planalto causava invernos particularmente severos. Alguns homens da montanha e caçadores de peles viram um pouco do local e contaram histórias. Muito mais tarde, porém, entre os anos 1869 e 1871, três expedições diferentes de homens brancos, juntamente com alguns militares, visitaram a região e ficaram impressionadas, sobretudo com os géiseres, o desfiladeiro fluvial profundo e as quedas de água.

Um destes homens, ali chegado em 1870, Walter Trumbull, comentou posteriormente que o planalto parecia promissor como pastagem para ovelhas, mas previu: “Quando as quedas de água de Yellowstone e a bacia de géiseres se tornarem de fácil acesso graças à Northern Pacific Railroad, é provável que nenhuma região seja tão popular como estância de veraneio.” Esta popularidade significava dinheiro nas caixas registadoras das empresas que conseguissem uma fracção do negócio, vendendo bilhetes de comboio ou enchendo hotéis.

Na sua primeira migração para o território de Verão no Sudeste de Yellowstone, crias da manada de veados Cody, com 3 semanas de idade, seguem as progenitoras, subindo uma encosta com 1.400 metros de altitude. Algumas horas antes, atravessaram a nado o caudaloso South Fork do rio Shoshone. Fotografia Joe Riis.

 A expedição seguinte, em 1871, foi liderada por Ferdinand V. Hayden, director do Serviço Geológico dos Territórios dos EUA. Este grupo incluía o fotógrafo William Henry Jackson e o pintor Thomas Moran, artistas cujas imagens ajudaram subsequentemente a população da Costa Leste (e, mais crucialmente, a população do Congresso) a ver e imaginar Yellowstone. Foi então que um agente da Northern Pacific sugeriu que os legisladores protegessem a “Grande Bacia dos Géiseres” como parque público. Ferdinand pegou nessa ideia e, juntamente com Nathaniel e outros funcionários da ferroviária, exerceram pressões políticas nesse sentido, conforme delineado numa proposta de lei abrangendo não só as bacias de géiseres, mas também o Grande Desfiladeiro de Yellowstone, as fontes termais Mammoth, o lago Yellowstone, o vale Lamar e outros sectores, compreendendo, no seu conjunto, um rectângulo com quase um milhão de hectares.

No dia 1 de Março de 1872, Ulysses S. Grant, presidente norte-americano, assinou a proposta e fez de Yellowstone o primeiro parque nacional do mundo. Como era comum nessa época, a lei ignorava quaisquer reivindicações dos grupos nativos. Mencionava especificamente um “parque público ou local de lazer para benefício e prazer das pessoas”, querendo implicitamente dizer pessoas não-nativas. Dentro deste parque, era proibida a “destruição desenfreada de peixes e animais de caça”, assim como a exploração comercial dos animais caçados. As fronteiras do parque eram rectilíneas, embora a ecologia não seja. O paradoxo ficara emoldurado.

 Inicialmente, o parque era uma ideia órfã sem qualquer finalidade clara, funcionários ou orçamento. O Congresso pareceu perder o interesse assim que a tinta da assinatura de Grant secou. 

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