Texto Tom Clynes   Fotografias Aaron Huey 

Cerca de 50 mil pessoas acorrem anualmente ao Parque Nacional de Denali, no Alasca, com a esperança de avistar os lobos-cinzentos no seu habitat.

Porém, estes carnívoros sofreram um decréscimo rápido na última década.

Os vigilantes da natureza do parque chamam à época alta, de Junho até início de Setembro, “os cem dias de caos”. É nesse período que o Parque e Reserva Nacional de Denali recebe a maioria dos seus 500 mil turistas anuais. Com efeito, uma manhã de Verão no Centro de Atendimento de Visitantes do parque, no início dos 148 quilómetros da famosa Park Road, pode assemelhar-se à hora de ponta numa cidade populosa. Altifalantes anunciam horários de embarque e turistas de vários países amontoam-se junto do balcão de venda de bilhetes.

Conduzindo a prole até novos territórios de caça, o casal dominante da alcateia Iron Creek West abre caminho pela neve fresca. Ambos trazem coleiras colocadas por biólogos.

Quando o meu autocarro parte, falantes de idiomas diferentes imaginam, entusiasmados, os animais selvagens que poderão avistar. Pergunto a vários passageiros o que mais desejariam ver: “Um alce!” “Um urso-pardo!” “Uma rena!” “Um lobo!”

 Os visitantes de Denali são, por norma, passageiros de navios de cruzeiro que vêem o parque e a sua prolífica vida selvagem principalmente através das janelas do autocarro. “Apesar disso, o visitante que procurar isolamento não terá dificuldade em encontrá-lo”, contrapõe a vigilante da natureza Sarah Hayes. “Temos perto de 2,5 milhões de hectares de território quase sem trilhos por onde os animais vagueiam sem serem perturbados. E estão acessíveis, desde que consiga sair do autocarro…”

Quando o meu autocarro parte, falantes de idiomas diferentes imaginam, entusiasmados, os animais selvagens que poderão avistar. Pergunto a vários passageiros o que mais desejariam ver: “Um alce!” “Um urso-pardo!” “Uma rena!” “Um lobo!”

No marco do oitavo quilómetro, vemos o nosso primeiro animal. “Esquilo!”, grita um miúdo, provocando uma gargalhada a bordo. Após o marco do 24.º quilómetro, a estrada transforma-se num trilho de terra batida e os restantes veículos tornam-se mais raros no horizonte. Alguns quilómetros depois, as árvores desaparecem. Quando os picos distantes da cordilheira do Alasca se tornam visíveis, a escala deste reino da natureza torna-se evidente. O motorista abranda.

“Há duas semanas que se mostra tapado”, diz. Hoje, porém, a sorte parece estar do nosso lado. Quando as montanhas se tornam mais visíveis, uma dezena de vozes exclama: “Denali!”

Erguendo-se 6.190 metros acima do nível do mar, o pico mais alto da América do Norte é uma silhueta deslumbrante, embora as suas encostas estejam frequentemente envoltas em nuvens quando o tempo está quente. A montanha integrava lendas e folclore do povo de expressão athabaskan que lhe deu o nome Denali, palavra que significa “A Alta”. Em 1896, o prospector de ouro William Dickey rebaptizou-o como monte McKinley em homenagem a William McKinley, político do estado de Ohio que, um ano mais tarde, foi eleito como 25.º presidente dos EUA. No Verão passado, porém, a Administração Obama usou o poder executivo para restaurar o nome original.

Há três razões principais para que os visitantes acorram a Denali: ver a montanha, observar um urso-pardo ou vislumbrar um lobo. Em 2010, um visitante teria mais hipóteses de avistar um lobo em ambiente selvagem do que contemplar o cume, sempre esquivo e visível apenas num em cada três dias de Verão. No entanto, o número de avistamentos de lobos diminuiu desde então. Os biólogos do parque relatam que o número de lobos dentro do parque diminuiu de mais de cem há uma década para menos de cinquenta no ano passado. Uma das razões para a minha vinda a Denali era descobrir porquê.

“Em Novembro, contámos pelo menos 15 lobos, mas encontrámos o macho morto há duas semanas, no dia 6 de Março. Desde então, só vi um único conjunto de rastos.”

 “Detesto chamar mentiroso ao apresentador do boletim meteorológico, mas é impossível que ali estivessem -34ºC”, comenta o piloto Dennis Miller, enquanto o nosso avião se afasta da pista coberta de neve junto da sede do parque. No seu cockpit minúsculo, Dennis abana a cabeça. “Ficaria admirado se ficasse assim tão quente durante todo o dia”, continua.

Alguns minutos mais tarde, ouvimos no nosso auscultador esquerdo o primeiro sinal proveniente de um lobo com coleira transmissora de rádio. Isso significa que a antena do lado esquerdo captou o seu sinal. Dennis modificou a trajectória do avião e os bips soaram com a mesma intensidade nos lados esquerdo e direito. Tornam-se mais agudos à medida que atravessamos os limites do parque e sobrevoamos o corredor de Stampede, uma confluência de terras estaduais, municipais e privadas também conhecida como Wolf Townships. “Deve ser a fêmea da alcateia de East Fork”, afirma o piloto. “Em Novembro, contámos pelo menos 15 lobos, mas encontrámos o macho morto há duas semanas, no dia 6 de Março. Desde então, só vi um único conjunto de rastos.”

Seguindo o sinal, Dennis desce e voa em ziguezague sobre um vale onde um rasto de lobo isolado desaparece entre as árvores. Vira o avião sobre a asa esquerda e olha para baixo. “Vou fazer só uma passagem”, avisa, apertando mais a curva e fixando os olhos no solo. “Se me virem aqui às voltas, alguns moradores destas casas saem para ver de que estou à procura e matam-no.”

Passei os últimos quatro dias a voar com Dennis Miller e com os biólogos do Serviço Nacional de Parques, cuja atenção se concentra nos lobos durante o mês de Março. Sempre que detectam um lobo no parque que tem de ser monitorizado, chamam uma equipa de helicóptero para atingi-lo com um dardo. Depois de anestesiado, é-lhe colocada a coleira e são colhidas amostras de sangue e pêlo, na esperança de que isso preencha algumas lacunas no nosso conhecimento sobre a saúde, comportamento e genética de um dos animais mais incompreendidos do mundo.

 

Este braço-de-ferro entre o usufruto e a preservação tornar-se-ia a tensão fundamental dos parques nacionais. Mesmo actualmente, há poucos outros locais onde esse braço-de-ferro se sinta tão intensamente ou seja gerido com tanta criatividade como aqui. A tensão estende-se desde o cume, por vezes repleto de gente, de Denali aos seus isolados trilhos de caça.

A investigação é um prolongamento do trabalho pioneiro do ecologista Adolph Murie, um dos primeiros cientistas que estudou os lobos de Denali. Em 1939, quando fez a primeira das suas 25 expedições ao que então se chamava Parque Nacional do Monte McKinley, os lobos eram considerados uma praga e os funcionários do Serviço Nacional de Parques tinham o hábito de abatê-los. A investigação de Adolph Murie mostrou que os lobos e outros predadores de topo desempenham um papel essencial nos habitats saudáveis e argumentou que deveríamos gerir os parques de maneira a proteger ecossistemas inteiros e não espécies isoladas.

Outros cientistas e pensadores influentes deslocar-se-iam a Denali, cujas paisagens de montanha, planas e quase sem árvores, são ideais para a observação de vida selvagem. Esta vasta parcela da América ainda bravia incitou grandes mudanças na forma de pensar sobre o papel dos parques e os seus protectores. Foi ali que nasceram muitos dos valores de protecção ambiental e tomada de decisões com base em conhecimentos científicos presentemente aceites. A medida legislativa Wilderness Act, que regula as regiões bravias, tem ali as suas raízes e as sementes de algumas das iniciativas ambientais mais influentes do país foram ali plantadas igualmente.

Denali também tem tido um impacte descomunal sobre as centenas de milhares de visitantes sem formação científica que ali chegam todos os anos sonhando com um emocionante encontro com um animal selvagem e partem com uma ligação muito mais profunda ao mundo natural. “Vemos isso constantemente”, diz Don Striker, supervisor do Parque. “Vêm aqui tirar fotografias para poderem contar aos amigos que estiveram a 15 metros de um urso. Durante essa aventura, há qualquer coisa que faz clique. Partem com o desejo de proteger sítios como este.”

Contudo, Denali sempre foi um paraíso sem sossego. O parque foi criado em 1917 como refúgio para carneiros de Dall e outros animais de caça e os primeiros vigilantes da natureza deram por si a perseguir caçadores furtivos que forneciam carne aos mineiros e operários dos caminhos-de-ferro. Este braço-de-ferro entre o usufruto e a preservação tornar-se-ia a tensão fundamental dos parques nacionais. Mesmo actualmente, há poucos outros locais onde esse braço-de-ferro se sinta tão intensamente ou seja gerido com tanta criatividade como aqui. A tensão estende-se desde o cume, por vezes repleto de gente, de Denali aos seus isolados trilhos de caça.

“Há muitas coisas neste parque que causam confusão às pessoas”, afirma o vigilante John Leonard. “É uma região bravia, mas há aterragens de aviões, caça e montagem de armadilhas. A diferença é que Denali não está fechado. É isso que torna a sua gestão tão desafiante.”

“Era você que andava a voar por aí no outro dia?”, pergunta Coke Wallace quando nos encontramos à porta de sua casa em Stampede Road. “Pensámos que pudessem estar à procura de um lobo pelo sinal de rádio. Quase saí para ver se havia qualquer coisa para matar.”

Coke Wallace é guia, caça, monta armadilhas e descreve-se a si próprio como “saloio de extrema--direita”. Enquanto mostra a sua abrangente colecção de armadilhas e uma pele de lobo enorme esticada sobre um estendal, recebe uma chamada no telemóvel. O seu toque é o uivo de um lobo.

“Ao contrário do que as pessoas pensam, eu não odeio lobos”, diz. “Na verdade, acho que eles têm muita pinta. O único problema é que, a cada cinco ou sete anos, apanho o lobo errado.”

Em 1999, Coke Wallace matou uma fêmea alfa com coleira de rádio da alcateia Grant Creek, que se tornara conhecida dos visitantes de Park Road. Em 2005, capturou a fêmea alfa da alcateia East Fork numa armadilha montada nas imediações da fronteira do parque. Em 2012, arrastou uma carcaça de cavalo até um local onde havia lobos activos e montou armadilhas em redor. Dias mais tarde, quando regressou, capturara uma fêmea prenhe da alcateia East Fork. A morte, documentada por um vizinho e posteriormente confirmada por Coke Wallace, teve um efeito misto: deu origem a ameaças de morte e fez crescer a sua actividade como guia. Nesse ano, Coke Wallace capturou ainda uma fêmea em idade fértil oriunda da alcateia Grant Creek que rondava frequentemente a zona exterior ao fronteira do parque. Consequentemente, não houve crias na alcateia e a sua estrutura diminuiu de 15 membros para três. “Foi a terceira vez que arruinei a visita do Parque Nacional de Denali para milhões de visitantes”, graceja Coke Wallace.

Há poucos anos, um lobo que entrasse neste território seria considerado protegido, mas as alcateias mais vulneráveis de Denali encontram--se no centro de jogos políticos feios. Em 2000, Gordon Haber, o biólogo especializado em lobos que deu continuidade à investigação de Adolph Murie, viu armadilhas montadas junto da fronteira do parque. Juntou-se a outros peritos e convenceu o Conselho de Caça do Alasca a criar uma zona-tampão interdita a matanças junto do trilho de Stampede e na zona do desfiladeiro Nenana. Após a morte de Gordon num desastre de avião em finais de 2009, o Serviço Nacional de Parques requisitou um alargamento da zona protegida. O conselho reagiu eliminando-a completamente, tornando os lobos vulneráveis a armadilhas e caça em todas as fronteiras do parque.

“Aumentámo-la duas vezes, mas nunca os saciámos”, explica Sam Cotten, comissário do Departamento de Pesca e Caça do Alasca. “A última proposta foi outro aumento significativo e ficou a sensação de que a administração federal criara a fronteira por decreto. Então retomámos a fronteira mais rígida.”

Milhares de visitantes acorrem anulmente ao parque na esperança de avistar lobos e outras espécies que habitam no Parque Nacional de Denali.

Embora o Serviço Nacional de Parques tenha suspendido o controlo de predadores há décadas, o estado do Alasca incrementou o programa de redução de lobos em algumas regiões com o intuito de promover as populações de renas e alces.

Em 2013 e 2014, agentes estaduais responsáveis pelo controlo de predadores e caçadores privados com licença mataram dezenas de lobos a partir de aviões nas zonas imediatamente adjacentes à Reserva Nacional dos Rios Yukon-Charley. O abate reduziu a população de lobos da reserva em mais de metade e matou vários lobos com coleiras de rádio que integravam um estudo do Serviço Nacional de Parques iniciado há décadas. Embora Sam Cotten argumente que os programas de abate selectivo de lobos se baseiam em dados científicos, alguns indicadores desmentem a premissa de que matar lobos conduzirá ao aumento das populações de presas, sobretudo a longo prazo.

A ANILCA foi amplamente considerada uma das mais importantes vitórias da conservação na história norte-americana, mas muitos cidadãos do Alasca interpretaram-na como o auge de anos sucessivos de intromissões federais.

Para Coke Wallace, o abate selectivo de lobos e a eliminação das zonas-tampão de Denali faziam falta há muito tempo. “É a administração estadual a impor-se à administração federal e aos ambientalistas fantasiosos”, afirma. “Gostava muito mais do parque como Parque Nacional de McKinley quando se destinava a carneiros.”

Em 1980, o Congresso norte-americano aprovou a medida legislativa Alaska National Interest Lands Conservation Act (ANILCA), designando 42.087.306 milhões de hectares como parques nacionais, florestas e reservas e protegendo outros 20.234.282 milhões de hectares como regiões bravias. O Parque Nacional do Monte McKinley mudou de nome para Parque e Reserva Nacional de Denali e expandiu-se. Os direitos de propriedade foram conservados pela reserva, bem como os direitos de caça e montagem de armadilhas em algumas secções.

A ANILCA foi amplamente considerada uma das mais importantes vitórias da conservação na história norte-americana, mas muitos cidadãos do Alasca interpretaram-na como o auge de anos sucessivos de intromissões federais. Coke Wallace era adolescente em Fairbanks quando manifestantes locais queimaram uma efígie do presidente Jimmy Carter que, em 1978, distinguira muitos milhões de hectares do Alasca como Monumento Nacional. Em 1979, residentes de povoados junto do parque organizaram a Grande Invasão de Denali, marchando parque adentro disparando armas, acendendo fogueiras e realizando outros actos de protesto.

“Em todos os outros sítios onde estive destacado, as populações adoravam o seu parque nacional”, comenta o supervisor Striker, que geriu cinco parques antes de vir para Denali. “Aqui, a relação está muito envenenada pelo passado. As pessoas não percebem que isto sempre foi território federal e nunca estadual. Uma posição pública contrária às áreas protegidas e que renegue o impacte sobretudo económico dos parques naturais será aplaudida nos media.”

O debate parece distante quando espreito pela abertura da tenda num acampamento junto do riacho Cache em meados de Março. É a terceira manhã de uma expedição de trenó puxado por cães e também a terceira manhã com temperaturas de -25ºC. Penso em voltar para dentro da lona, mas Denali reclama a minha atenção. Acima do vale, raios do Sol pintam o cume e as suas vertentes nordeste com uma maravilhosa tonalidade laranja.

Quando, por fim, consigo mobilizar forças para emergir da tenda, cabeças viram-se na minha direcção. Cerca de trinta cães levantam-se e começam a ganir e a uivar ansiosamente. As equipas de cães ainda fazem parte da gestão deste território durante o Inverno, patrulhando as fronteiras do parque, apoiando as investigações sobre vida selvagem e transportando provisões para limpezas e obras nas unidades de alojamento. E a visita aos canis de Denali é o programa de Verão mais popular no parque.

Denali tem cerca de 2,5 milhões de hectares de território quase sem trilhos por onde os animais vagueiam sem serem perturbados.

“Os cães ligam as pessoas à história e a uma experiência que a maioria dos visitantes nunca terá”, diz Jennifer Raffaeli, directora dos canis. “No Inverno, são o meio de locomoção mais fiável e sensato em algumas zonas do parque. Ao contrário das motos de neve, estão sempre prontos a arrancar. Também possuem instinto de sobrevivência, virtude que nenhuma máquina pode ter.”

Nessa tarde, o frio abranda e organizamos uma caravana composta por três equipas de cães de trenó, partindo para a estação de vigilantes da natureza do lago Wonder. Às 2 horas da manhã, saímos da tenda para apreciar um espectáculo de aurora boreal enquanto os cães dormem.

“Para a maioria das pessoas, Denali é intocável, mas, se viajarmos assim, com os cães, podemos tocar-lhe”, diz Jennifer enquanto admiramos, espantados, as cortinas de luz multicor que flutuam no céu. “A sensação de paz que aqui temos no Inverno é tão intensa que é quase inacreditável.”

Três meses mais tarde, em finais de Junho, encontro um Denali completamente diferente. São 8 horas da noite em Park Road e estou preso num engarrafamento. Enquanto uma fêmea de alce e duas crias passeiam junto da linha de árvores, os condutores param para tirar fotografias.

 

Rodeado de troféus de caça, o guia e piloto Ray Atkins descansa. Os guias são bem pagos no Alasca. Ray cobra quase treze mil euros por uma expedição de caça de oito a dez dias.

Na década de 1960, Adolph Murie combateu os planos para criar uma auto-estrada que rasgava o parque a meio. Conseguiu uma vitória parcial quando o Serviço Nacional de Parques decidiu asfaltar apenas os primeiros 24 quilómetros. Contudo, à medida que o número de visitantes aumentava, a estrada tornou-se mais movimentada e perigosa, resultando num aumento das preocupações sobre o impacte do trânsito sobre os animais selvagens. Em 1972, Denali tornou-se um dos primeiros parques nacionais dos EUA a instituir um sistema de trânsito de massas para reduzir o número de carros, uma abordagem desde então copiada por outros parques.

Murie descreveu, pela primeira vez, os ciclos de vida e as relações dos lobos selvagens e o modo de funcionamento da rede ecológica. Apercebendo-se de que as interacções eram mais complicadas do que alguém imaginara, começou a trabalhar para mudar políticas que pediam a erradicação de predadores como lobos, pumas e coiotes.

Passei uma semana do Verão a deambular pelas terras mais isoladas de Denali, absorvendo o poder de esclarecimento proporcionado pela natureza selvagem. Perto do final do meu passeio, alojei-me na cabana de East Fork, a base de Adolph Murie enquanto investigou a relação entre lobos e ovelhas. Para o jovem ecologista, foi um sonho tornado realidade. Ali, dispôs de isolamento e da oportunidade para estudar os animais com as ferramentas mais simples: binóculos, uma máquina fotográfica, cadernos de apontamentos e pernas fortes. O seu enfoque era uma alcateia alargada cujo domínio se situava junto do afluente oriental do rio Toklat.

Os patrões de Murie em Washington talvez estivessem à espera de uma monografia de investigação árida. Mas aquilo que ele lhes apresentou foi uma obra monumental de história natural. Publicado em 1944, o relatório celebrizou a alcateia de Toklat-East Fork. Murie descreveu, pela primeira vez, os ciclos de vida e as relações dos lobos selvagens e o modo de funcionamento da rede ecológica. Apercebendo-se de que as interacções eram mais complicadas do que alguém imaginara, começou a trabalhar para mudar políticas que pediam a erradicação de predadores como lobos, pumas e coiotes.

Essa atitude tornou-o impopular dentro e fora do Serviço Nacional de Parques. Quanto mais escrevia em revistas e jornais, mais populares se tornavam os lobos. Em breve, tornaram-se uma das atracções de Denali.

Enquanto viajava a caminho da cabana, o motorista do autocarro perguntou aos passageiros: “Nas vossas cidades, quantos acham que todas as horas do dia são hora de ponta?” Não levantei a mão, relutante em admitir que a corrida interminável contra o relógio me vencera durante grande parte da minha vida adulta.

Acordo de uma sesta ao fim da tarde. Pensativo, pego no telemóvel e depois lembro-me. Aqui não existe possibilidade de fazer ou receber uma chamada ou mensagem. O relógio já não manda. Passo três dias na cabana, caminhando e lendo a obra de Murie. No caminho de volta à estrada, não anseio por voltar a juntar-me ao autocarro cheio de gente ou pôr-me a par das notícias do mundo.

Nem as notícias vindas do interior do parque são boas. Passo pelo gabinete de Steve Arthur, o biólogo do parque, para lhe perguntar sobre os resultados preliminares dos últimos censos das populações de lobos (ainda reduzidos) e as conclusões de uma autópsia realizada a uma carcaça de lobo que vi na minha visita de Inverno. A equipa de Arthur desenterrara o lobo congelado e descobrira uma armadilha de laço em redor do seu pescoço. O animal conseguira arrancar o laço, depois vagueou pelo parque e sangrou até morrer.

Em Maio, Steve recebeu o telefonema de um caçador que matara legalmente um lobo com coleira junto de um posto de atracção de ursos no trilho de Stampede, junto da fronteira do parque. Os responsáveis pela gestão estadual dos animais de caça tinham alargado o polémico uso de iscos de fruta para ursos (banida na maioria dos estados que permitem a caça ao urso), de modo a abranger o urso-pardo em 2012. A época autorizada para o uso de iscos na Primavera sobrepõe-se à da época de acasalamento dos lobos, tornando mais provável a morte de fêmeas prenhes.

Após cinco semanas em Denali, tenho tempo para uma última incursão na natureza. Sentado no banco de trás do autocarro, vislumbro um caminho promissor subindo uma encosta e depois descendo em direcção ao rio Toklat.

Vejo um enorme urso-pardo macho a descansar num lago cerca de duzentos metros abaixo de mim. Quando a minha voz o alcança, ele levanta-se sobre as patas traseiras e olha em redor, com uma expressão cómica.

Quando chegou, Steve descobriu outro lobo morto, desta vez uma fêmea prenhe sem coleira. Ambos os lobos pertenciam à assediada alcateia East Fork e dados de GPS recebidos da coleira de outro lobo tornavam claro que ainda havia membros da alcateia na zona, atraídos pelos iscos de fruta. Steve transmitiu as suas preocupações aos responsáveis pela vida selvagem do Estado e sugeriu que encerrassem antecipadamente a época de caça ao lobo na região durante algum tempo. Os responsáveis concordaram encerrar a época duas semanas mais cedo numa única ocasião.

Subo a paisagem desprovida de trilhos a passo rápido e sem mapa, com alguma esperança de me perder entre as montanhas e os lagos. Ao chegar ao rio, vejo um vale do outro lado que parece mais próximo do que acaba por se revelar. Aquilo que começou por ser uma caminhada de meio-dia ultrapassa as oito horas, o que não me incomoda nada – tenho toda a luz do dia de que preciso. Caminhando de volta à estrada, apercebo-me de que tenho andando muito mais silenciosamente do que convém em terra de ursos. Assim que abro a boca para falar, chego ao ponto mais alto de uma subida e ao olhar para baixo, vejo um enorme urso-pardo macho a descansar num lago cerca de duzentos metros abaixo de mim. Quando a minha voz o alcança, ele levanta-se sobre as patas traseiras e olha em redor, com uma expressão cómica. É um tipo grande, mas parece não gostar de sarilhos. Desloca-se até à margem e sai da água, parando para se secar, sacudindo o pêlo, antes de se bambolear lentamente montanha acima. Volto a apanhar um autocarro e afasto-me para ceder a passagem a um turista de mochila às costas que escolhera aquele sítio para sair. Ele traz uma mochila com equipamento para quatro dias às costas e um mapa plastificado na mão. Pergunto-lhe para onde vai. Ele faz um gesto que abrange as montanhas e os vales, os rios e o céu.

“Algures por aí”, diz.

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