A nossa sombra

Texto  Richard Conniff   Fotografias Steve Winter 

Uma armadilha fotográfica na região de Cederberg Wilderness (África do Sul) regista o olhar fixo de uma cria de leopardo do Cabo.
Um juvenil da reserva de animais selvagens de Sabi Sand (África do Sul) alimenta-se de uma impala, morta e içada pela sua progenitora. Fotografia de Meril Darees e ManonMoulis, Biosphoto.
Vigilantes da natureza procuram travar o caos causado por um leopardo em Bengala Ocidental, em Julho de 2012. O felino atacou seis pessoas antes de ser subjugado.
Iluminado pelo flash de uma armadilha fotográfica e pelas luzes de Mumbai (Bombaim), um leopardo vagueia junto da fronteira do Parque Nacional de Sanjay Gandhi, na Índia.
Na noite de 15 de Julho de 2012, um leopardo matou uma menina de 7 anos no Parque Nacional de Sanjay Gandhi. Juntando-se em grande número em zonas iluminadas, os aldeãos sentem-se mais seguros após o anoitecer.
Num monte com vista sobre Mumbai, um poço aberto por seres humanos atrai um leopardo.
A procura de peles usadas nos rituais cristãos-zulu, como este junto de Durban (África do Sul), motiva a caça ilegal.
Uma cria com 6 ou 7 meses deambula junto da vedação que separa os leopardos da reserva de animais selvagens de Sabi Sand, na África do Sul, das aldeias e terras onde pasta gado.

 Estamos sentados no escuro à espera dos leopardos, junto de um trilho na fronteira do Parque Nacional de Sanjay Gandhi, na Índia. Esta área protegida inclui 104 quilómetros quadrados de vida nas vizinhanças de Mumbai (Bombaim). Há um quarteirão de edifícios altos diante de nós, amontoados mesmo na fronteira do parque.

São 10 horas da noite e, das janelas abertas, chega-nos o som da lavagem de louça e outros ruídos urbanos quotidianos. Música religiosa proveniente de um templo distante paira no ar. Risos de adolescentes. O motor de uma motocicleta. O zumbido de 21 milhões de pessoas. Algures na vegetação diante de nós, os leopardos também estão à escuta, aguardando que o ruído diminua. Observando.

Cerca de 35 leopardos vivem neste parque e nas áreas limítrofes. É uma média de quatro quilómetros quadrados de habitat por cabeça e estes animais percorrem facilmente 15 quilómetros por dia. Aqui, vivem rodeados por alguns dos bairros urbanos mais superlotados do planeta, onde se alojam cerca de trinta mil pessoas por quilómetro quadrado. E mesmo assim os leopardos sobrevivem. Parte da sua dieta inclui chitais e outras presas selvagens que habitam o parque. Porém, muitos leopardos também deambulam pela fronteira não vedada entre a natureza e a civilização. Enquanto a cidade dorme, deslizam pelas ruas e vielas, onde caçam cães, gatos, porcos, ratos, galinhas e cabras. Também devoram pessoas, embora raramente.

Têm medo dos seres humanos e há boas razões para isso. O convívio com humanos é paradoxal, oscilando entre a admiração, a adoração e o antagonismo. Não é raro que se dispare sobre eles, que se montem armadilhas, que se envenenem iscos. Já aconteceu até um indivíduo ou um grupo encharcar um leopardo em querosene, acender um fósforo e filmar, calmamente, enquanto o animal se contorce numa bola de fogo, morrendo, mas não suficientemente depressa. Segundo os conservacionistas, o leopardo é o grande felino mais perseguido do mundo.

E, no entanto, os leopardos tornaram-se as nossas sombras, animais quase de companhia. Não têm outra escolha. Os dois grandes centros populacionais dos leopardos, a África subsaariana e o subcontinente indiano, estão entre as regiões mais povoadas do mundo. A expansão humana já privou os leopardos de 66% do seu domínio em África e 85% na Eurásia, e a maioria das perdas ocorreu nas últimas cinco décadas. Em várias regiões, o único sítio que lhes resta para sobreviver é lado a lado com os seres humanos.

Ao contrário da maioria dos outros grandes felinos, os leopardos conseguem adaptar-se… até certo ponto. Podem comer de tudo, desde escaravelhos-bosteiros a porcos-espinhos ou elandes de 900 quilogramas. Podem viver sob 43ºC no deserto do Kalahari, ou -25ºC na Rússia. Podem prosperar em pântanos com mangues ao nível do mar na costa da Índia ou a 5.200 metros de altitude nos Himalaia. Essa adaptabilidade, aliada ao engenho para se esconderem à vista de todos, torna-os mais compatíveis com os seres humanos, como acontece em Mumbai. A questão é se os seres humanos conseguirão aprender a viver com os leopardos.

A relação que temos com eles é antiga e complicada e, à semelhança de muitas outras coisas, começou em África. Os leopardos são uma espécie jovem: emergiram na sua forma moderna há apenas 500 mil anos. Tal como os humanos, disseminaram-se e povoaram grande parte do globo, desde a extremidade meridional de África ao extremo oriental da Rússia, bem como para ocidente até ao Senegal e para sudeste até à Indonésia. Podem ter seguido os primeiros seres humanos para tirarem partido da nossa capacidade de afastar os leões e outros animais concorrentes ou, mais tarde, para se alimentarem do nosso gado. Em alternativa, podemos tê-los seguido para nos aproveitarmos das presas deles, pois são mais vulneráveis ao roubo das suas presas do que outros carnívoros: costumam guardá-las sob um arbusto ou no alto de uma árvore e depois afastam-se para descansar, regressando apenas mais tarde para se alimentarem.

Algumas pelagens de leopardo também acabam por ser vendidas num mercado surpreendentemente motivado pelo culto de Deus.

Devido ao seu comportamento predatório, os leopardos marcaram os genomas dos nossos parentes primatas: até macacos que nunca viram um leopardo exibem um aumento de atenção instantâneo àquela pelagem amarela malhada. E nós também, com uma combinação curiosa de medo e atracção.

Na província de Limpopo, na África do Sul, visitei um criador de gado. Tinha uma bíblia aberta sobre a secretária, visivelmente sublinhada, e o crânio de um leopardo sobre uma mesinha.
O crânio tinha a marca de uma bala certeira.

“Gostamos muito destes animais”, começou por dizer. “É um animal lindo! Mas é difícil partilhar a mesma terra com eles. Temos muitas presas naturais para eles: facoqueros, babuínos, javalis, presas naturais.” E, contudo, os leopardos insistiam em atacar os seus vitelos.

Ele abriu o livro no qual regista os nascimentos e mortes das suas vacas Brahman, uma raça premiada, e começou a enumerar as mortes – uma a cada seis semanas, aproximadamente, ao longo dos últimos 18 meses. Os seus trabalhadores agrícolas tomam conhecimento das mortes nas rondas matinais, quando uma vaca os informa, com urgência, sobre a perda da cria e a sua necessidade de ser mungida. Depois, leva-os “directamente até à cria, meio devorada ou guardada no alto de uma árvore”. O criador de gado estima que a perda de cada vitelo represente um prejuízo superior a 1.800 euros. “Temos batedores muito experientes e eles sabem se o leopardo é uma fêmea jovem ou um macho mais velho. Geralmente, o leopardo volta dois dias depois.”

O recurso a batedores e aquele crânio em cima da mesa sugeriam a existência de alguém armado à espera do agressor para matá-lo, mas o criador de gado disse apenas: “Vivemos com eles e mantemo-nos em silêncio sobre eles porque, se lhes fizermos alguma coisa, podemos ser presos.”
As leis da África do Sul contemplam penas de prisão e multas, mas as sentenças são quase sempre suaves. Outras pessoas matam “centenas deles todos os anos”, disse ele. “Abatem-nos a tiro, enfiam-nos num buraco e depois metem gasolina e um fósforo lá dentro e já está.”

Algumas pelagens de leopardo também acabam por ser vendidas num mercado surpreendentemente motivado pelo culto de Deus.

Num domingo radioso de Julho, na província oriental de KwaZulu-Natal, milhares de devotos religiosos faziam a sua peregrinação descalça até ao alto de um monte sagrado, ao som estridente de trombetas e ao ritmo lento de tambores. As mulheres solteiras marchavam com tiras de missangas atravessando os peitos desnudos. As mulheres casadas, vestidas de preto, erguiam os seus guarda-chuvas pretos acompanhando a batida dos tambores. O verdadeiro espectáculo, contudo, eram os homens. Numa contagem empírica, vi 1.200 passarem com peles de leopardo caindo sobre os ombros ou em tiras usadas na testa, bíceps, cintura e tornozelos.

Na zona relvada, os homens começaram a dançar em uníssono ao som da música. Para a Igreja Baptista de Nazaré (ou “Shembe”), uma denominação cristã com um século de existência assente na tradição zulu, a dança é uma forma de culto e de meditação. O traje também é importante. No passado, a realeza zulu vestia peles de leopardo como símbolo de poder e para fascinar os seus súbditos. Os homens Shembe (contabilistas, advogados, burocratas e comerciantes) dizem que as peles de leopardo os aproximam de Deus e dos seus antepassados.

Isso deu-lhe a ideia de fazer uma pele falsa melhor e desenvolveu pouco depois um tecido com base em vinil e cobertura felpuda com as cores da pelagem real.

 Os defensores da conservação dos felinos, por outro lado, ficaram horrorizados há alguns anos quando observaram o festival. Um deles chamou-lhe “a maior exposição de contrabando de animais selvagens à face da Terra”. A simples quantidade de peles era suficientemente má num país com uma população de leopardos em decréscimo, estimada em menos de sete mil animais. Mas as peles também precisam de ser substituídas com regularidade, a cada cinco ou seis anos, pois tornam-se quebradiças e encaracolam-se com o uso. Com um número crescente de membros a frequentar os vários eventos da igreja, a extinção da espécie seria o único limite efectivo à procura.

Para o investigador Tristan Dickerson, do grupo de conservação Panthera, o único sinal de esperança detectado na primeira peregrinação a que assistiu foi a presença de peles falsas entre a multidão, sobretudo de impala, toscamente pintadas com pintas de leopardo. Isso deu-lhe a ideia de fazer uma pele falsa melhor e desenvolveu pouco depois um tecido com base em vinil e cobertura felpuda com as cores da pelagem real.

“Quero obter o efeito do Rolex falso”, disse. Os líderes Shembe apoiaram o plano e uma oficina local produz actualmente as peles falsas sob a marca “Furs for Life”. A Panthera distribui nove mil peles gratuitas a membros da igreja e mal consegue satisfazer a procura.

Aquando da minha visita, num domingo, havia apenas uma pele verdadeira assumidamente à venda. Uma capa feita a partir do peito de um leopardo custava 350 euros e outra, feita a partir do dorso, custava 385: são montantes consideráveis, num país onde o rendimento per capita é inferior a 12 mil euros. Um homem queixou-se de que as peles falsas eram uma maneira de os brancos reprimirem a tradição zulu. Outro disse que uma pele falsa feita a partir de impala ou de outro animal seria mais aceitável para os antepassados do que uma de vinil. Mesmo assim, a maioria das pessoas parecia interessada numa pele falsa. Tristan Dickerson calculou que 30 a 40% das peles de leopardo usadas nos eventos dos Shembe sejam agora peles falsas da Panthera, mais 5 a 10% do que há dois anos. Não representava necessariamente uma vitória do amor pelos leopardos, nem sequer de tolerância, mas era menos uma razão para os matar.

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