Texto  Richard Conniff   Fotografias Steve Winter 

 Estamos sentados no escuro à espera dos leopardos, junto de um trilho na fronteira do Parque Nacional de Sanjay Gandhi, na Índia. Esta área protegida inclui 104 quilómetros quadrados de vida nas vizinhanças de Mumbai (Bombaim). Há um quarteirão de edifícios altos diante de nós, amontoados mesmo na fronteira do parque.

São 10 horas da noite e, das janelas abertas, chega-nos o som da lavagem de louça e outros ruídos urbanos quotidianos. Música religiosa proveniente de um templo distante paira no ar. Risos de adolescentes. O motor de uma motocicleta. O zumbido de 21 milhões de pessoas. Algures na vegetação diante de nós, os leopardos também estão à escuta, aguardando que o ruído diminua. Observando.

Cerca de 35 leopardos vivem neste parque e nas áreas limítrofes. É uma média de quatro quilómetros quadrados de habitat por cabeça e estes animais percorrem facilmente 15 quilómetros por dia. Aqui, vivem rodeados por alguns dos bairros urbanos mais superlotados do planeta, onde se alojam cerca de trinta mil pessoas por quilómetro quadrado. E mesmo assim os leopardos sobrevivem. Parte da sua dieta inclui chitais e outras presas selvagens que habitam o parque. Porém, muitos leopardos também deambulam pela fronteira não vedada entre a natureza e a civilização. Enquanto a cidade dorme, deslizam pelas ruas e vielas, onde caçam cães, gatos, porcos, ratos, galinhas e cabras. Também devoram pessoas, embora raramente.

Têm medo dos seres humanos e há boas razões para isso. O convívio com humanos é paradoxal, oscilando entre a admiração, a adoração e o antagonismo. Não é raro que se dispare sobre eles, que se montem armadilhas, que se envenenem iscos. Já aconteceu até um indivíduo ou um grupo encharcar um leopardo em querosene, acender um fósforo e filmar, calmamente, enquanto o animal se contorce numa bola de fogo, morrendo, mas não suficientemente depressa. Segundo os conservacionistas, o leopardo é o grande felino mais perseguido do mundo.

E, no entanto, os leopardos tornaram-se as nossas sombras, animais quase de companhia. Não têm outra escolha. Os dois grandes centros populacionais dos leopardos, a África subsaariana e o subcontinente indiano, estão entre as regiões mais povoadas do mundo. A expansão humana já privou os leopardos de 66% do seu domínio em África e 85% na Eurásia, e a maioria das perdas ocorreu nas últimas cinco décadas. Em várias regiões, o único sítio que lhes resta para sobreviver é lado a lado com os seres humanos.

Ao contrário da maioria dos outros grandes felinos, os leopardos conseguem adaptar-se… até certo ponto. Podem comer de tudo, desde escaravelhos-bosteiros a porcos-espinhos ou elandes de 900 quilogramas. Podem viver sob 43ºC no deserto do Kalahari, ou -25ºC na Rússia. Podem prosperar em pântanos com mangues ao nível do mar na costa da Índia ou a 5.200 metros de altitude nos Himalaia. Essa adaptabilidade, aliada ao engenho para se esconderem à vista de todos, torna-os mais compatíveis com os seres humanos, como acontece em Mumbai. A questão é se os seres humanos conseguirão aprender a viver com os leopardos.

A relação que temos com eles é antiga e complicada e, à semelhança de muitas outras coisas, começou em África. Os leopardos são uma espécie jovem: emergiram na sua forma moderna há apenas 500 mil anos. Tal como os humanos, disseminaram-se e povoaram grande parte do globo, desde a extremidade meridional de África ao extremo oriental da Rússia, bem como para ocidente até ao Senegal e para sudeste até à Indonésia. Podem ter seguido os primeiros seres humanos para tirarem partido da nossa capacidade de afastar os leões e outros animais concorrentes ou, mais tarde, para se alimentarem do nosso gado. Em alternativa, podemos tê-los seguido para nos aproveitarmos das presas deles, pois são mais vulneráveis ao roubo das suas presas do que outros carnívoros: costumam guardá-las sob um arbusto ou no alto de uma árvore e depois afastam-se para descansar, regressando apenas mais tarde para se alimentarem.

Algumas pelagens de leopardo também acabam por ser vendidas num mercado surpreendentemente motivado pelo culto de Deus.

Devido ao seu comportamento predatório, os leopardos marcaram os genomas dos nossos parentes primatas: até macacos que nunca viram um leopardo exibem um aumento de atenção instantâneo àquela pelagem amarela malhada. E nós também, com uma combinação curiosa de medo e atracção.

Na província de Limpopo, na África do Sul, visitei um criador de gado. Tinha uma bíblia aberta sobre a secretária, visivelmente sublinhada, e o crânio de um leopardo sobre uma mesinha.
O crânio tinha a marca de uma bala certeira.

“Gostamos muito destes animais”, começou por dizer. “É um animal lindo! Mas é difícil partilhar a mesma terra com eles. Temos muitas presas naturais para eles: facoqueros, babuínos, javalis, presas naturais.” E, contudo, os leopardos insistiam em atacar os seus vitelos.

Ele abriu o livro no qual regista os nascimentos e mortes das suas vacas Brahman, uma raça premiada, e começou a enumerar as mortes – uma a cada seis semanas, aproximadamente, ao longo dos últimos 18 meses. Os seus trabalhadores agrícolas tomam conhecimento das mortes nas rondas matinais, quando uma vaca os informa, com urgência, sobre a perda da cria e a sua necessidade de ser mungida. Depois, leva-os “directamente até à cria, meio devorada ou guardada no alto de uma árvore”. O criador de gado estima que a perda de cada vitelo represente um prejuízo superior a 1.800 euros. “Temos batedores muito experientes e eles sabem se o leopardo é uma fêmea jovem ou um macho mais velho. Geralmente, o leopardo volta dois dias depois.”

O recurso a batedores e aquele crânio em cima da mesa sugeriam a existência de alguém armado à espera do agressor para matá-lo, mas o criador de gado disse apenas: “Vivemos com eles e mantemo-nos em silêncio sobre eles porque, se lhes fizermos alguma coisa, podemos ser presos.”
As leis da África do Sul contemplam penas de prisão e multas, mas as sentenças são quase sempre suaves. Outras pessoas matam “centenas deles todos os anos”, disse ele. “Abatem-nos a tiro, enfiam-nos num buraco e depois metem gasolina e um fósforo lá dentro e já está.”

Algumas pelagens de leopardo também acabam por ser vendidas num mercado surpreendentemente motivado pelo culto de Deus.

Num domingo radioso de Julho, na província oriental de KwaZulu-Natal, milhares de devotos religiosos faziam a sua peregrinação descalça até ao alto de um monte sagrado, ao som estridente de trombetas e ao ritmo lento de tambores. As mulheres solteiras marchavam com tiras de missangas atravessando os peitos desnudos. As mulheres casadas, vestidas de preto, erguiam os seus guarda-chuvas pretos acompanhando a batida dos tambores. O verdadeiro espectáculo, contudo, eram os homens. Numa contagem empírica, vi 1.200 passarem com peles de leopardo caindo sobre os ombros ou em tiras usadas na testa, bíceps, cintura e tornozelos.

Na zona relvada, os homens começaram a dançar em uníssono ao som da música. Para a Igreja Baptista de Nazaré (ou “Shembe”), uma denominação cristã com um século de existência assente na tradição zulu, a dança é uma forma de culto e de meditação. O traje também é importante. No passado, a realeza zulu vestia peles de leopardo como símbolo de poder e para fascinar os seus súbditos. Os homens Shembe (contabilistas, advogados, burocratas e comerciantes) dizem que as peles de leopardo os aproximam de Deus e dos seus antepassados.

Isso deu-lhe a ideia de fazer uma pele falsa melhor e desenvolveu pouco depois um tecido com base em vinil e cobertura felpuda com as cores da pelagem real.

 Os defensores da conservação dos felinos, por outro lado, ficaram horrorizados há alguns anos quando observaram o festival. Um deles chamou-lhe “a maior exposição de contrabando de animais selvagens à face da Terra”. A simples quantidade de peles era suficientemente má num país com uma população de leopardos em decréscimo, estimada em menos de sete mil animais. Mas as peles também precisam de ser substituídas com regularidade, a cada cinco ou seis anos, pois tornam-se quebradiças e encaracolam-se com o uso. Com um número crescente de membros a frequentar os vários eventos da igreja, a extinção da espécie seria o único limite efectivo à procura.

Para o investigador Tristan Dickerson, do grupo de conservação Panthera, o único sinal de esperança detectado na primeira peregrinação a que assistiu foi a presença de peles falsas entre a multidão, sobretudo de impala, toscamente pintadas com pintas de leopardo. Isso deu-lhe a ideia de fazer uma pele falsa melhor e desenvolveu pouco depois um tecido com base em vinil e cobertura felpuda com as cores da pelagem real.

“Quero obter o efeito do Rolex falso”, disse. Os líderes Shembe apoiaram o plano e uma oficina local produz actualmente as peles falsas sob a marca “Furs for Life”. A Panthera distribui nove mil peles gratuitas a membros da igreja e mal consegue satisfazer a procura.

Aquando da minha visita, num domingo, havia apenas uma pele verdadeira assumidamente à venda. Uma capa feita a partir do peito de um leopardo custava 350 euros e outra, feita a partir do dorso, custava 385: são montantes consideráveis, num país onde o rendimento per capita é inferior a 12 mil euros. Um homem queixou-se de que as peles falsas eram uma maneira de os brancos reprimirem a tradição zulu. Outro disse que uma pele falsa feita a partir de impala ou de outro animal seria mais aceitável para os antepassados do que uma de vinil. Mesmo assim, a maioria das pessoas parecia interessada numa pele falsa. Tristan Dickerson calculou que 30 a 40% das peles de leopardo usadas nos eventos dos Shembe sejam agora peles falsas da Panthera, mais 5 a 10% do que há dois anos. Não representava necessariamente uma vitória do amor pelos leopardos, nem sequer de tolerância, mas era menos uma razão para os matar.

 

Uma cria com 6 ou 7 meses deambula junto da vedação que separa os leopardos da reserva de animais de Sabi sand, na África do Sul, das aldeias e terras onde pasta gado

A Índia talvez seja o verdadeiro teste à sobrevivência num mundo superlotado porque contém um grande número de leopardos que vive fora das áreas protegidas e incrivelmente perto das pessoas. A tolerância face aos leopardos também costuma ser elevada, embora a Índia tenha, em grande parte, contribuído para introduzir a expressão “leopardo devorador de homens” no nosso vocabulário. É um equívoco: as vítimas habituais dos ataques de leopardos são mulheres e crianças; o tamanho torna os homens mais desafiantes. Como os ataques ocorrem frequentemente quando as pessoas vão ao mato aliviar-se, os homens beneficiam ainda da vantagem inadvertida de poderem urinar de pé.

Em qualquer dos casos, os ataques a seres humanos são relativamente raros. Na Índia, é muito mais fácil morrer devido à civilização do que por causa da natureza: morrem diariamente 381 pessoas em desastres de viação, 80 em linhas férreas e 24 electrocutadas. No entanto, as mortes causadas por leopardos são notícia, em parte por serem invulgares, mas também por tocarem num aspecto primitivo da psique humana.

No final de uma manhã de sábado, em Maio, na região rural de Junnar, 150 quilómetros a leste de Mumbai, um carro do governo estacionou junto de uma quinta. A ocasião era terrível. Na grande varanda da frente da casa, rodeada por um muro de betão até à cintura e à sombra de um telhado de metal, uma multidão aguardava o agente do departamento florestal.

É um enigma: os leopardos e os seres humanos conseguem coexistir pacificamente durante grande parte do tempo, até em Mumbai.

Seis dias antes, cerca das 10h30 numa noite de domingo, um rapaz de 2 anos chamado Sai Mandlik brincava, de joelhos num banco na varanda, empurrando um pequeno autocarro sobre o muro. A avó estava deitada numa espreguiçadeira a seu lado. Entre as ervas altas, a 20 ou 30 metros de distância, um leopardo avistou algo: uma cabeça deslocando-se para trás e para a frente, pouco maior do que a Macaca radiata, que faz parte das suas presas naturais. Começou a segui-la. Decerto, o rapaz nunca viu o leopardo que o capturou do outro lado do muro e o arrastou pelos campos. A avó gritou. O resto da família correu noite adentro à sua procura. Era demasiado tarde.

Agora, a tragédia era reduzida a um ritual. Numa ponta do alpendre, encontravam-se as mulheres, sentadas em silêncio sobre o chão. No meio do alpendre, estavam sentados os funcionários locais, homens idosos, e na outra ponta, estava o pai, sentado no sítio onde o filho foi levado, rodeado por amigos e familiares do sexo masculino. O agente do departamento florestal apresentou-se e explicou que também nascera numa zona rural e não era “alguém que vem de cima”. Anunciou que a indemnização (cerca de 11.600 euros) não visava substituir a perda da família, sendo apenas um reconhecimento da parte do governo, que é responsável pelos leopardos.

A família fez pedidos de pouca importância, o agente do departamento florestal disse que iria tentar ajudar e a conversa terminou. Seis quilómetros estrada abaixo havia outra casa para visitar onde se passara mais ou menos o mesmo. Estes ataques costumam suceder-se em vagas assustadoras. A morte de Sai Mandlik era o terceiro ataque na região de Junnar em pouco mais de duas semanas e o segundo caso mortal.

É um enigma: os leopardos e os seres humanos conseguem coexistir pacificamente durante grande parte do tempo, até em Mumbai. Então por que razão ocorrem surtos violentos súbitos em regiões como Junnar? Na manhã após a entrega do cheque na casa Mandlik, Vidya Athreya, bióloga da Wildlife Conservation Society, sentou--se junto de uma plantação de cana-de-açúcar na cidade vizinha de Akole. O seu computador mostrava um mapa da comunidade, iluminado com grandes manchas azul-turquesa representando todos os locais onde ela encontrara leopardos no decorrer do seu estudo de cinco anos no local, recorrendo à utilização de armadilhas fotográficas e coleiras transmissoras de sinais de rádio. Ela encontrara-os em todo o lado: 11 adultos vagueando de noite, dentro de Akole e nos seus arredores, uma zona desflorestada, sem veados ou outras presas naturais de grande porte e onde 20 mil pessoas se deslocavam durante o dia.

A sua primeira pergunta foi: porque há tantos leopardos? À semelhança do que acontece noutros locais da Índia, tudo começa com a existência de lixeiras a céu aberto e sítios onde são depositados os restos dos mercados de carne, que sustentam uma comunidade de cães vadios, porcos e outros animais de pequeno porte. A legislação federal e um influente movimento de direitos dos animais impediu que os cães vadios fossem retirados das ruas. Por sua vez, os cães e outros animais domésticos sustentam uma comunidade próspera de leopardos. Segundo o estudo de Vidya Athreya, compõem 87% da dieta dos leopardos.

Planos de irrigação introduzidos desde a década de 1980 também contribuem para atrair os leopardos. Entre outras culturas, a cana-de-açúcar é comum em sítios anteriormente secos como Akole e a região de Junnar, e essa erva alta e grossa é um esconderijo perfeito para os leopardos, perto das aldeias, das lixeiras e dos cães.

Um dia, durante a sua investigação, Vidya passou por um campo onde 15 mulheres colhiam tomate e parou para conversar com um agricultor. O homem admitiu que vira um leopardo poucos dias antes. A bióloga não lhe contou que havia um leopardo a descansar entre as canas-de-açúcar naquele instante, a vinte metros de distância. Eles não tinham com que preocupar-se. “Os leopardos não são sedentos de sangue”, afirmou. “São, de certo modo, razoáveis.” O antropólogo Sunetro Ghosal, que também trabalhou em Akole, descreveu “uma história de espaço partilhado” e até de “adaptação mútua”, com leopardos e seres humanos evitando confrontos.

Embora seja a primeira reivindicação que os habitantes costumam exigir, a retirada dos leopardos perturba o sistema social e liberta território para novos leopardos que podem ter menos experiência na gestão da “acomodação mútua”.

Para compreender onde a relação entre seres humanos e leopardos corre mal, Vidya investigou uma vaga de ataques na região de Junnar entre 2001 e 2003. Naquilo que parecera coincidência, o departamento florestal capturara leopardos, mais de uma centena, em zonas problemáticas em Junnar, sobretudo após ataques a gado. Esses animais foram depois libertados em florestas a 30 quilómetros dos locais de captura – uma técnica comum para lidar com carnívoros problemáticos em todo o mundo. Contudo, após os realojamentos, Vidya e a sua equipa descobriram que os ataques a seres humanos em Junnar aumentaram 325% e a percentagem de ataques fatais duplicara.

“Foi um caso típico da mente confusa de um felino”, comentou a bióloga. O trauma da captura numa caixa armadilhada, o manuseamento por seres humanos e o despejo numa paisagem não familiar e em territórios já ocupados por outros leopardos ajudam a explicar o fenómeno. O surto de ataques não se deveu, afinal à ferocidade inata dos leopardos, segundo a bióloga e os seus colegas: “Foi a translocação que induziu os ataques.”

Os gestores do departamento florestal perceberam a mensagem quando Vidya apresentou pela primeira vez a sua investigação há uma década. O Parque Nacional de Sanjay Gandhi, em Mumbai, deixou de permitir o realojamento de leopardos na sua área. Os órgãos de comunicação da cidade aderiram à ideia de que os realojamentos eram mais perigosos do que os leopardos. Seminários perto do parque começaram a transmitir a noção de que o simples avistamento de um leopardo no bairro não constituía “conflito”. Embora seja a primeira reivindicação que os habitantes costumam exigir, a retirada dos leopardos perturba o sistema social e liberta território para novos leopardos que podem ter menos experiência na gestão da “acomodação mútua”. Os seminários também sublinharam o lado humano da acomodação mútua, incluindo precauções básicas como manter as crianças dentro de casa durante a noite. A mensagem persistente era que os leopardos em Mumbai, Akole e noutras zonas não eram “vadios” ou “intrusos”. Eram companheiros residentes.

No entanto, nem sempre foi fácil viver de acordo com estes ideais. Isto aplica-se aos vigilantes da natureza que aparecem após um ataque de leopardo e são frequentemente cercados ou até espancados por residentes enfurecidos que exigem medidas concretas. Também sofrem pressões por parte dos políticos. Por isso, as armadilhas continuam a ser montadas para dar às pessoas a ilusão de que está a ser feita alguma coisa, mesmo que o resultado seja um aumento do perigo real. Alguns leopardos “problemáticos” acabam presos em armazéns ou em centros de “salvamento” superlotados, embora não exista, de facto, maneira de identificar um animal problemático, a não ser apanhá-lo em flagrante com a vítima. Mas tem de haver um bode expiatório.

Pouco depois das últimas mortes em Junnar, um vigilante da natureza enviou-me uma mensagem de correio electrónico: “Estou feliz por informá-lo que capturámos um leopardo macho.” Ele identificou-o, com toda a segurança, como “o mesmo leopardo que atacou um rapaz no mês passado”. O animal passaria o resto da vida num centro de “salvamento de leopardos” em Junnar, que estava perto da capacidade máxima, albergando 28 leopardos. A maioria dos outros leopardos capturados em armadilhas seriam inevitavelmente libertados, embora por razões óbvias o serviço florestal não revelasse quantos leopardos iria libertar em Junnar, nem em que sítios. Duas semanas mais tarde, outro leopardo matou e desmembrou uma mulher de 60 anos numa quinta a poucos quilómetros do local onde Sai Mandlik morrera.

Parti da Índia pensando que aquilo que observara sobre a questão dos leopardos era confuso. 

É uma realidade distante da dos países mais desenvolvidos. Ao chegar a casa, li o relato, não confirmado, da presença de um puma a seis quilómetros de minha casa, na costa do estado de Connecticut, e soube que fora visto um urso na cidade vizinha de New Haven. Actualmente, há pumas deambulando por Los Angeles, coiotes em Chicago, lobos nos arredores de Roma, tubarões-brancos ao largo de Cape Cod. À medida que as populações humanas se expandem e a Terra se torna mais urbana, outros carnívoros também parecem adaptar-se e aprender a conviver entre nós. Isso pode ser inquietante, mas não é necessariamente mau: estudos demonstraram repetidamente que a existência de populações saudáveis de predadores é essencial para a saúde de quase tudo o resto. Não sendo deuses, são pelo menos os grandes impulsionadores dos ecossistemas.

Pouco a pouco, a experiência indiana com os leopardos começou a parecer-me menos uma excepção e mais uma antecipação de como, em breve, todos nós poderemos ter de aprender a viver.  

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