As maravilhas do pequeno parque do Canadá

Texto McKenzie Funk   Fotografias Peter Essick 

 

Há um século, nas encostas do monte Field, no Parque Nacional Yoho, Charles Doolittle Walcott, um dos mais famosos paleontólogos do seu tempo, foi autor de dois achados que mudaram a sua vida. O primeiro é hoje, na opinião de muitos especialistas, a principal jazida de fósseis do mundo.

O segundo foi… a sua terceira mulher, Mary Vaux, cujo apelido viria a designar um género de esponjas fossilizadas: Vauxia.

Os visitantes contemporâneos deste sublime e menosprezado parque nas montanhas Rochosas canadianas interessam-se sobretudo pela primeira destas descobertas. A formação Burgess Shale, que abrange a pedreira Walcott, recebeu da UNESCO a designação de Património Mundial em 1980. Anos mais tarde, num livro muito bem sucedido, o biólogo Stephen Jay Gould referiu-se a Burgess Shale como “a mais preciosa e importante de todas as jazidas de fósseis”. É um baú do tesouro com criaturas marinhas do Câmbrico perfeitamente conservadas. Encontraram-se aqui mais de duzentos mil espécimes de aspecto invulgar e há inúmeros outros ainda por descobrir.

Para compreendermos o encanto de Yoho propriamente dito, é melhor concentrarmo-nos na mulher notável que também esteve na encosta daquela montanha, Mary Vaux, cuja própria família tem uma história que mostra como o acaso pode fintar o destino.

No entanto, a maioria das formas de vida dos Xistos de Burgess (desde o Wiwaxia, com a sua carapaça coberta de espinhos, ao Opabinia, um habitante do leito marinho com corpo mole, cinco olhos e uma garra na ponta de uma tromba elefantina) pareciam, na opinião de Stephen Gould, becos sem saída da evolução, espécies sem descendentes contemporâneos. Na sequência da sua reflexão, Stephen Gould utilizou mesmo a explosão da vida no Câmbrico e o subsequente desaparecimento da maioria das linhagens evolutivas para argumentar que “a sobrevivência dos mais aptos” tem uma contrapartida importante: a sorte. Será a evolução, em parte, uma lotaria? Será a história natural governada pelo acaso? O debate científico aqueceu desde então, mas quase sempre bem longe das fronteiras deste parque natural.

Para compreendermos o encanto de Yoho propriamente dito, é melhor concentrarmo-nos na mulher notável que também esteve na encosta daquela montanha, Mary Vaux, cuja própria família tem uma história que mostra como o acaso pode fintar o destino.

Num dia de Agosto soalheiro, mas frio, acordei em Field, na Colúmbia Britânica, uma aldeia com 150 habitantes que alberga a sede do parque de Yoho e um hotel, um café, um restaurante, uma estação de correios e uma escola primária. Dirigi-me, de carro, ao vale de Yoho, nos arredores. Aproximadamente na viragem do século XIX, Mary, a filha mais velha de uma destacada família quaker de Filadélfia, foi a primeira mulher branca a visitar o vale. “Para mim, é o sítio mais bonito que vi e sinto sempre o sangue correr mais depressa nas minhas veias quando falo ou ouço falar sobre ele”, escreveu mais tarde numa carta endereçada a Charles Walcott. “Não imagino alegria maior do que acampar ali, longe dos turistas e do barulho do cavalo de ferro.”

No meu trajecto até lá, passei pelo veículo do seu sobrinho-neto, Henry Vaux, Jr., estacionado à porta de uma hospedaria. Atravessei depois a linha férrea que trouxe a este local os primeiros membros curiosos da família Vaux há 128 anos. Virei à direita para a auto-estrada 1, que atravessa o parque. Yoho é uma área pequena, com cerca de 1.300 quilómetros quadrados. O nome do território provém de uma expressão dos índios cree para demonstrar espanto e revela a densa concentração das suas maravilhas: há pelo menos 25 picos baptizados com mais de 3.050 metros, dois albergues de montanha históricos, construídos junto de dois lagos glaciários cuja água é de um azul-turquesa sobrenatural, e centenas de quedas de água, incluindo Takakkaw, uma das mais altas do Canadá, que vi no final do meu passeio de automóvel pelo vale Yoho acima. As multidões são pequenas quando comparadas com os 3,5 milhões de pessoas que visitam anualmente Banff, de tal forma que os caminhantes não se conseguem retrair. Por vezes, ao passarem uns pelos outros, ouvi-os exclamar “Yoho!” em vez de “Olá”.

 

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