O cérebro dos golfinhos

Texto Joshua Foer   Fotografias Brian Skerry

 

A treinadora Teri Turner Bolton olha fixamente para dois jovens machos, Hector e Han, cujos rostros espreitam acima da superfície da água enquanto aguardam, ansiosamente, por uma instrução.

Os roazes do Instituto Roatán de Ciências Marinhas (RIMS), estância turística e instituto de investigação numa ilha ao largo da costa das Honduras, são profissionais experientes das artes performativas. Por força de um treino exigente e cuidado, foram ensinados a dar piruetas no ar a pedido, a deslizar para trás sobre a água enquanto se mantêm levantados sobre as caudas e a acenar com as barbatanas peitorais aos turistas que ali chegam várias vezes por semana, a bordo de navios de cruzeiro.

No entanto, os cientistas do RIMS estão mais interessados na maneira como os golfinhos processam a informação. Quando recebem o sinal gestual para “inovar”, Hector e Han sabem mergulhar a cabeça sob a superfície e libertar uma bolha ou saltar da água, mergulhar até ao fundo do mar ou executar qualquer uma das cerca de doze manobras do seu repertório. E conseguem-no sem repetir algo que já tenham feito durante a sessão. Parece incrível, mas eles costumam perceber que devem sempre esforçar-se por apresentar um comportamento novo em cada sessão.

Teri Turner Bolton pressiona as palmas das mãos uma contra a outra, o sinal que significa inovar, e depois junta os pulsos, o sinal para “emparelhar”. Com estes dois gestos, incentiva-os a mostrarem um comportamento que ela ainda não tivesse visto nessa sessão. Aliás, a instrução ainda é mais precisa do que isso porque a treinadora solicita que o façam em sincronia.

Os animais mergulham em direcção ao fundo, trocam mais alguns assobios agudos entre si e libertam bolhas em simultâneo.

Hector e Han desaparecem sob a superfície. Junto deles está um psicólogo especialista em comportamentos não-humanos chamado Stan Kuczaj, vestindo um fato de mergulho e transportando uma câmara de vídeo subaquática de grandes dimensões, equipada com hidrofones. Stan Kuczaj grava vários segundos de chilreios audíveis entre Hector e Han e depois a sua câmara capta-os a rebolar, lentamente, em uníssono e a bater três vezes com a cauda em simultâneo.

Acima da superfície, Teri junta os polegares e os dedos médios, de forma a que os golfinhos compreendam que ela necessita que eles prossigam a sua exibição de comportamentos de inovação cooperante. E eles fazem-no.

Os animais mergulham em direcção ao fundo, trocam mais alguns assobios agudos entre si e libertam bolhas em simultâneo. Depois, descrevem uma pirueta lado a lado. Nadam sobre as caudas. Após oito sequências realizadas numa sincronia quase perfeita, a sessão chega ao fim.

Há duas explicações possíveis para este comportamento admirável: ou um dos golfinhos está a imitar o outro tão depressa e com tanta precisão que a aparente coordenação é uma mera ilusão; ou então não é, de todo, uma ilusão. Quando eles assobiam um para o outro sob a superfície, estão literalmente a discutir um plano.

Se um chimpanzé olhar fixamente para uma peça de fruta ou se um gorila de dorso prateado bater no peito para afugentar um macho que se aproxima, revemo-nos com facilidade nesses comportamentos e até imaginamos os pensamentos que lhes estão inerentes. Afinal, somos grandes símios como eles e a sua inteligência assemelha-se frequentemente a uma versão mais pobre – ou pelo menos familiar – da nossa. Mas os golfinhos são completamente diferentes. Eles “vêem” graças ao sonar e fazem-no com uma precisão tão fenomenal que conseguem distinguir, a 30 metros de distância, se um objecto é de metal, de plástico ou de madeira. Conseguem até escutar os cliques de ecolocalização de outros golfinhos para descobrirem o que eles estão a ver. Ao contrário dos primatas, não respiram automaticamente e parecem descansar apenas metade do cérebro de cada vez enquanto dormem. 

Os golfinhos são extraordinariamente loquazes. Além de assobiarem e fazerem cliques, também emitem estalos sonoros para disciplinar as crias e manter os tubarões à distância.

Os seus olhos funcionam independentemente um do outro. São um modelo de inteligência quase alienígena que partilha o planeta connosco e talvez sejam o encontro mais próximo com extraterrestres que alguma vez teremos.

Os golfinhos são extraordinariamente loquazes. Além de assobiarem e fazerem cliques, também emitem estalos sonoros para disciplinar as crias e manter os tubarões à distância. Os cientistas que escutam todos estes sons debatem há várias décadas o seu significado, se é que ele existe, e a sua riqueza “linguística”. Certamente que uma criatura altamente social e com o cérebro tão grande não desperdiçaria aquela energia a tagarelar sob as ondas se as vocalizações não contivessem algum tipo de conteúdo com significado. E, no entanto, apesar de meio século de estudos, ninguém sabe ainda identificar as unidades fundamentais das vocalizações dos golfinhos, nem a forma como essas unidades se articulam entre si.


 

“Se conseguirmos algum dia detectar um padrão que ligue vocalizações e comportamentos, será uma descoberta colossal”, afirma Stan Kuczaj, de 64 anos, que publicou mais artigos científicos sobre a cognição dos golfinhos do que quase qualquer outro investigador. Ele acredita que o seu trabalho com os golfinhos sincronizados do RIMS poderá ser uma pedra de Roseta para desvendar a comunicação entre eles, embora acrescente que “a sofisticação dos golfinhos torna-os muito interessantes, mas também muito difíceis de estudar”.

Não há praticamente provas de que exista algo semelhante a uma linguagem dos golfinhos. Alguns cientistas mostram-se exasperados perante essa demanda. “Também não existem provas de que os golfinhos não possam viajar no tempo, não consigam dobrar colheres com a mente, nem sejam capazes de disparar raios laser pelos espiráculos”, escreveu Justin Gregg num livro recente. “A omnipresente advertência científica de que ‘há muita coisa que desconhecemos’ permitiu aos defensores do golfinhês introduzir pela porta dos fundos a ideia de uma linguagem de golfinhos.”

Até o nosso género emergente os ultrapassar, os golfinhos eram provavelmente as criaturas com o maior cérebro e, presumivelmente, as mais inteligentes do planeta.

Mas aquilo que para Justin Gregg representa meio século de fracassos, para Stan Kuczaj e outros investigadores é uma preponderância de provas circunstanciais que apontam no sentido de o problema simplesmente não ter sido abordado da maneira certa, com o conjunto de ferramentas adequado. Só na última década é que os gravadores subaquáticos de altas frequências, como aquele que Stan utiliza, conseguiram captar a totalidade do espectro dos sons emitidos pelos golfinhos; só nos últimos dois ou três anos é que os novos algoritmos de interpretação de dados permitiram uma análise significativa dessas gravações. Por isso, das duas uma: a vocalização dos golfinhos é um dos maiores mistérios por resolver da ciência ou… é um dos seus maiores becos sem saída.

Até o nosso género emergente os ultrapassar, os golfinhos eram provavelmente as criaturas com o maior cérebro e, presumivelmente, as mais inteligentes do planeta. Em termos de peso relativamente à dimensão corporal, os seus cérebros continuam a figurar entre os maiores do reino animal. O último antepassado comum dos seres humanos e dos chimpanzés viveu há cerca de seis milhões de anos. Em comparação, os cetáceos semelhantes aos golfinhos separaram-se do resto da linhagem dos mamíferos há cerca de 55 milhões de anos e não partilham um antepassado com os primatas há 95 milhões de anos.

Isto significa que os primatas e os cetáceos percorrem duas trajectórias evolutivas diferentes há muito tempo e, em função disso, não só têm dois tipos de corpo diferentes, como dois tipos de cérebro diferentes. Os primatas, por exemplo, têm lobos frontais grandes, responsáveis pela tomada de decisões executivas e planeamento.
Os golfinhos não são muito dotados em matéria de lobos frontais, mas apesar disso têm um talento impressionante para resolver problemas e, aparentemente, dispõem da capacidade de fazer planos para o futuro.

“A natureza do golfinho implica a integração numa rede social complexa. Mais ainda do que acontece com os seres humanos.”

Nós, os primatas, processamos a informação visual na parte de trás dos nossos cérebros e as informações relativas à linguagem e ao som nos lobos temporais, localizados na área lateral do nosso cérebro. Os golfinhos processam a informação visual e auditiva em diferentes partes do neocórtex e as vias de entrada e de saída no córtex utilizadas por essa informação são visivelmente diferentes. Os golfinhos também têm um
sistema paralímbico bem formado e definido para o processamento de emoções. É possível que este seja essencial para os laços sociais e emocionais íntimos que existem entre as comunidades de golfinhos.

“Um golfinho isolado não é um golfinho a sério”, resume Lori Marino, directora executiva do Centro Kimmela de Advocacia Animal e especialista em comportamento animal. “A natureza do golfinho implica a integração numa rede social complexa. Mais ainda do que acontece com os seres humanos.”

Quando têm problemas, os golfinhos exibem um grau de coesão raramente observado noutros grupos de animais. Quando um indivíduo fica doente e se dirige para águas baixas, é por vezes seguido por todo o grupo, o que pode provocar arrojamentos colectivos. É como se estivessem todos concentrados no golfinho arrojado, diz Lori. “E a única forma de quebrar essa concentração poderá ser dar-lhes outra coisa igualmente forte para os afastar.”

Um grande arrojamento ocorrido na Austrália em 2013 só foi travado quando os seres humanos intervieram, capturando uma jovem fêmea do grupo e levando-a para mar aberto: os seus pedidos de auxílio atraíram então o grupo de volta ao mar.

O que levou os golfinhos, de entre todas as criaturas que deambulam pela terra e pelo mar, a adquirir cérebros tão grandes? Para responder a esta pergunta, temos de examinar o registo fóssil. Há cerca de 34 milhões de anos, os antepassados dos golfinhos contemporâneos eram criaturas de grandes dimensões e possuíam dentes semelhantes aos dos lobos. Aproximadamente por essa altura, um período de arrefecimento significativo das águas do mar poderá ter alterado a oferta alimentar, criando um novo nicho ecológico que proporcionou oportunidades aos golfinhos e alterou a forma como caçavam.
Os seus cérebros cresceram e os seus dentes assustadores deram lugar aos dentes mais pequenos, semelhantes a cavilhas, que os golfinhos possuem actualmente.

As alterações nos ossos do ouvido interno indicam que este período marcou igualmente o princípio da ecolocalização, quando alguns golfinhos deixaram possivelmente de ser caçadores solitários de peixes grandes para se transformarem em caçadores colectivos de peixes mais pequenos. Os golfinhos tornaram-se mais comunicativos, mais sociais e provavelmente mais inteligentes.

Richard Connor, que estuda a vida social dos golfinhos na baía dos Tubarões, na Austrália, identificou três níveis de alianças observadas no interior da sua vasta e aberta rede social.
Os machos tendem a formar pares e trios que cortejam de forma agressiva as fêmeas, mantendo-as depois sob vigilância firme.

Alguns desses pares e trios constituem relações extraordinariamente estáveis que podem durar décadas. Os machos também compõem equipas mais alargadas com quatro a catorze membros, que Richard designa por alianças de segunda ordem. Estas equipas juntam-se para roubar fêmeas a outros grupos e para defender as suas próprias fêmeas de ataques e podem permanecer intactas durante 16 anos. Richard observou igualmente alianças de terceira ordem, ainda maiores, que coalescem quando há grandes batalhas entre alianças de segunda ordem.

Dois golfinhos podem ser amigos num dia e inimigos no outro, dependendo dos golfinhos que se encontrem nas proximidades. Os primatas costumam ter uma mentalidade de manada no que diz respeito a distinções intragrupo e intergrupos. Com os golfinhos, porém, as alianças parecem ser situacionais e extremamente complicadas. A necessidade de manter registos de todas essas relações talvez ajude a explicar a razão pela qual possuem cérebros tão grandes.

O golfinho é igualmente um dos animais mais cosmopolitas do planeta. À semelhança dos seres humanos em terra, as espécies de golfinhos encontram-se aparentemente dispersas pelo mar e, tal como os seres humanos, revelaram-se engenhosas na descoberta de estratégias de alimentação específicas para os ambientes em que habitam. Na baía dos Tubarões, alguns roazes arrancam esponjas do leito marinho e colocam-nas sobre o rostro para se protegerem enquanto vasculham a areia em busca de pequenos peixes escondidos – um modelo primitivo de utilização de ferramentas.

Nas águas pouco profundas da baía da Florida, os golfinhos recorrem à sua velocidade, que pode exceder 32km/h, para nadar rapidamente em círculos em redor de cardumes de tainhas, levantando cortinas de lama que obrigam os peixes a saltar da água para as suas bocas abertas. Golfinhos-cinzentos, também conhecidos como golfinhos-do-crepúsculo, ao largo da costa da Patagónia reúnem cardumes de anchovas em esferas bem organizadas e, depois, revezam-se a devorá-las.

Todos estes comportamentos exibem sinais inequívocos de inteligência. Mas o que é de facto a inteligência? Como a definimos? Quando pressionados, somos frequentemente levados a admitir que definimos a inteligência em função do grau de parecença de uma espécie com a nossa. Stan Kuczaj acredita que esse processo comparativo é um erro. “A questão não está em saber quão espertos são os golfinhos, mas de que maneira são espertos”, argumenta, com a convicção de quem convive com os animais há largas décadas.

Há quem se inscreva em retiros espirituais para conviver com golfinhos, mulheres que escolhem dar à luz na presença de golfinhos e centros espirituais que afirmam utilizar os poderes da energia dos golfinhos para tratar doentes. “Existem provavelmente mais ideias estranhas sobre golfinhos a nadar no ciberespaço do que golfinhos a nadar no oceano”, escreve, com insuperável ironia, Justin Gregg. Muitas destas ideias estranhas podem ser rastreadas até um único homem, chamado John Lilly.

John era um neurofisiologista iconoclasta integrado no Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA. Começou a estudar golfinhos na década de 1950. Em vários livros que venderam milhões de exemplares, foi o primeiro cientista a propor que estes “humanos do mar” dispunham de uma prodigiosa linguagem, cuja descodificação merecia interesse académico. Quase sozinho, glosa Justin Gregg, ele “conseguiu transformar aquilo que era inicialmente considerado um ‘peixe’ esquisito que respirava ar na viragem do século XX num animal cuja inteligência é tão sofisticada que merece a mesma protecção constitucional que eu ou que o leitor”.

Financiado por instituições científicas importantes, John Lilly abriu um centro para a investigação sobre golfinhos nas ilhas Virgens norte-americanas, onde tentou ensinar um golfinho chamado Peter a falar inglês. No início da década de 1960, as experiências tornaram-se cada vez menos convencionais (a determinada altura, injectou os golfinhos com LSD) e os subsídios começaram a diminuir.

Gradualmente, John Lilly desviou-se para os recantos mais bizarros da contracultura e arrastou consigo a credibilidade do ramo académico que ajudara a criar. A “linguagem” dos golfinhos tornou-se um assunto intocável, um tema tóxico, até 1970, quando um psicólogo da Universidade do Hawai chamado Louis Herman fundou o Laboratório de Mamíferos Marinhos da bacia Kewalo, em Honolulu.

Na bacia Kewalo, dois roazes-corvineiros, Phoenix e Akeakamai, foram criados em cativeiro num ambiente de formação contínua.

“Queríamos criar os golfinhos, ou ‘educá-los’, de modo a que eles revelassem o seu potencial cognitivo”, conta Adam Pack, da Universidade do Hawai, que trabalhou no laboratório durante 21 anos. “Criávamos os golfinhos como se fossem crianças.”

Na bacia Kewalo, dois roazes-corvineiros, Phoenix e Akeakamai, foram criados em cativeiro num ambiente de formação contínua. Com dedicação e paciência, foi-lhes ensinada uma linguagem artificial. Os dois animais aprenderam a relacionar sons ou sinais gestuais com objectos, acções e modificadores.

Phoenix aprendeu uma linguagem acústica, com palavras organizadas segundo a ordem das tarefas a realizar, ao passo que Akeakamai intuiu uma linguagem gestual em que a ordem das palavras não era a mesma das tarefas. Embora Phoenix pudesse, teoricamente, responder palavra a palavra, Akeakamai só conseguia interpretar as instruções depois de observar a sequência de gestos na totalidade. Nadando numa piscina repleta de objectos, os golfinhos cumpriam de forma correcta as instruções em mais de 80% das ocasiões.


 

Quando Akeakamai morreu em 2003 e Phoenix em 2004, as suas cinzas foram transportadas em pranchas de surf e espalhadas no oceano.
O único centro de investigação do mundo dedicado exclusivamente ao estudo da forma como os golfinhos pensam foi encerrado, mas ficou uma pergunta importante por responder: porque fora tão fácil para Phoenix e Akeakamai aprender qualquer uma das linguagens?

Os golfinhos cumprimentam-se no mar, trocando entre si assobios-assinatura, e parecem lembrar-se das assinaturas dos outros golfinhos durante décadas.

Louis Herman põe de parte qualquer hipótese de os investigadores estarem a aproveitar-se de uma capacidade linguística inata. Segundo ele, as linguagens impostas permitiram a Phoenix e a Akeakamai exprimir capacidades cognitivas excepcionais comuns a todos os roazes (e talvez outras espécies de golfinhos) de uma forma que pode nunca ser exibida em ambiente selvagem. Mas existirá alguma forma de comunicação inata dos golfinhos que os seres humanos possam escutar e um dia compreender?

Existem provas concretas de que pelo menos um tipo de som dos golfinhos, estudado de forma intensiva na última década, funciona como um símbolo referencial. Os golfinhos usam “assobios-assinatura” distintos para se identificarem e chamarem os outros. Pensa-se que cada golfinho invente um nome singular para si enquanto é juvenil e o mantenha para toda a vida. Os golfinhos cumprimentam-se no mar, trocando entre si assobios-assinatura, e parecem lembrar-se das assinaturas dos outros golfinhos durante décadas.

Embora outras espécies, como os cercopitecos-verdes (os macacos rhesus) e os cães da pradaria, emitam sons para se referirem a predadores, não se conhece nenhum outro animal, além dos seres humanos, com designativos específicos para identificar indivíduos.

Os assobios-assinatura são apenas algumas das vocalizações que os golfinhos produzem debaixo de água. Quais as probabilidades de serem os únicos sons do repertório dos golfinhos que se refiram a algo? Qual a probabilidade de os golfinhos terem nomes apenas uns para os outros mas para nada mais do que existe no mar?

Graças às águas cristalinas desta costa, os investigadores de golfinhos têm passado longos períodos em observação e interacção com animais selvagens, conhecendo-os intimamente.

Autêntica Jane Gooddall dos mares, Denise Herzing passou as últimas três décadas rodeada de trezentos golfinhos-pintados provenientes de três gerações. Denise trabalha numa área com 450 quilómetros quadrados ao largo das Bahamas, no projecto subaquático de golfinhos selvagens mais prolongado do mundo. As comparações com o trabalho de campo de Jane Gooddall na Tanzânia não são exageradas: graças às águas cristalinas desta costa, os investigadores de golfinhos têm passado longos períodos em observação e interacção com animais selvagens, conhecendo-os intimamente.

No Verão passado, juntei-me a ela a bordo do seu navio de investigação, o R.V. Stenella, na preparação para os primeiros testes ao vivo com um novo e complexo equipamento que talvez um dia permita a comunicação bilateral entre ela e os golfinhos que tanto tempo demorou a conhecer. Talvez então se possa também esclarecer a forma como eles comunicam uns com os outros. Esse equipamento é um cubo de alumínio e plástico transparente, do tamanho de uma caixa de sapatos, conhecido como CHAT (acrónimo de Cetacean Hearing and Telemetry ou Audição e Telemetria de Cetáceos), que Denise usa atado ao peito debaixo de água.

A caixa pesa nove quilogramas e tem um pequeno altifalante e teclado na parte da frente e dois hidrofones que parecem olhos salientes na parte de baixo. No interior, entre um emaranhado de fios e placas de circuito isolados dos efeitos corrosivos da água do mar, está um computador que pode transmitir assobios-assinatura de golfinhos previamente gravados, bem como emitir para o oceano assobios semelhantes aos dos golfinhos. Pode ainda gravar qualquer som que os golfinhos assobiem em resposta. Se um golfinho repetir um dos assobios semelhantes, o computador pode converter o som em palavras e depois reproduzi-las através de um auscultador que Denise tem no ouvido.

Os golfinhos são imitadores talentosos e aprendem depressa. O objectivo de Denise é conseguir que um grupo de jovens fêmeas, que conhece desde o nascimento, associem cada um dos três sons de assobio transmitidos pela caixa CHAT a um objecto específico: um lenço, uma corda e um pedaço de sargaço, uma alga que os golfinhos selvagens usam como brinquedo. Essas três “palavras” formarão os rudimentos de um vocabulário crescente de assobios partilhado entre si e os seus golfinhos, o início de uma linguagem artificial através da qual talvez possam um dia comunicar.

Nas suas sessões subaquáticas, cara a cara com os golfinhos por vezes durante horas a fio, Denise gravou e armazenou milhares de horas de material com todos os tipos de comportamento de golfinhos.

“Tal como Helen Keller adquiriu a linguagem, quando a adquirirem achamos que vai tudo acontecer muito depressa”, resume Denise. “Como os golfinhos são sociais, estamos a capitalizar na observação dos outros indivíduos. Como se fossem crianças num parque infantil.”

A optimista Denise, de 58 anos, é o tipo de pessoa a quem a palavra “visionária” parece adequar-se. Quando tinha 12 anos participou num concurso para ganhar uma bolsa. Pediram-lhe que respondesse à seguinte pergunta: “O que faria pelo mundo se pudesse fazer apenas uma coisa?” A resposta: “Desenvolveria um tradutor humano-animal para compreender outras mentes do planeta.”

Nas suas sessões subaquáticas, cara a cara com os golfinhos por vezes durante horas a fio, Denise gravou e armazenou milhares de horas de material com todos os tipos de comportamento de golfinhos. Também reuniu uma enorme base de dados com vocalizações dos seus loquazes sujeitos.

A bordo do Stenella seguia também o notável cientista Thad Starner, professor de informática no Instituto Tecnológico da Geórgia. Thad foi pioneiro informático e é igualmente director--técnico da Google, onde trabalha no Glass, o dispositivo facial que permite aos utilizadores acederem à Internet enquanto realizam as suas tarefas do quotidiano.

Aos 45 anos, Thad usa quase permanentemente o Glass e toma notas com um teclado em forma de limão que traz atado à mão esquerda e lhe cabe na palma da mão. A equipa do seu laboratório fabricou a caixa CHAT e ele estará a bordo durante dez dias para realizar ensaios técnicos e recolher dados.

Se os mistérios da comunicação dos golfinhos forem algum dia decifrados, poderá ter menos que ver com as caixas bilaterais CHAT do que com as ferramentas de análise de dados que Thad e os seus alunos começaram a aplicar às gravações de golfinhos de Denise. Eles estão a conceber um algoritmo que pesquisa sistematicamente pilhas de dados por classificar para descobrir as unidades fundamentais escondidas no seu interior. Aplicado a vídeos de pessoas comunicando através de linguagem gestual, o algoritmo separa os gestos com significado da amálgama de movimentos manuais. Aplicado a material áudio com pessoas lendo números de telefone, identifica que existem onze dígitos fundamentais. Não tem inteligência suficiente para perceber que “zero” e “O” são o mesmo número. O algoritmo descobre motivos recorrentes que podem não ser muito evidentes e que um ser humano pode não saber como procurar.

"Conseguiremos descobrir as unidades fundamentais? Conseguiremos permitir-lhe reproduzir essas unidades fundamentais? Conseguiremos fazer tudo isso em tempo real? Esse é o santo graal.”

Num teste inicial ao algoritmo, Denise enviou a Thad um conjunto de vocalizações que gravou debaixo de água, sem lhe dizer que iria ouvir assobios-assinatura trocados entre uma progenitora e as suas crias. O algoritmo identificou cinco unidades fundamentais nos dados, sugerindo que os assobios-assinatura eram formados por componentes individuais coerentes e repetidos entre progenitoras e crias e que poderiam ser reorganizados de maneiras interessantes.

“A dada altura, queremos ter uma caixa CHAT com todas as unidades fundamentais de sons de golfinhos”, resume Thad. “A caixa traduzirá o que o sistema ouvir numa sequência de símbolos e permitirá a Denise enviar de volta uma sequência de unidades fundamentais. Conseguiremos descobrir as unidades fundamentais? Conseguiremos permitir-lhe reproduzir essas unidades fundamentais? Conseguiremos fazer tudo isso em tempo real? Esse é o santo graal.”

No momento em que surge a oportunidade de experimentar a caixa CHAT, os primeiros golfinhos que aparecem junto à proa do Stenella são especiais. São a Meridian e a Nereide. Gravações dos assobios-assinatura das duas fêmeas foram reprogramadas nas caixas CHAT na esperança de Denise ter a oportunidade de interagir com elas. É quase como se os animais tivessem vindo ao nosso encontro e não ao contrário.


 

Denise conhece a maioria dos golfinhos desde que nasceram e também conhece as suas mães, tias e avós. Muitos leitores desta revista também conhecem uma delas: a mãe de Nereide, Nassau, apareceu na capa da edição americana da revista em Setembro de 1992, nadando sob a superfície destas mesmas águas das Bahamas.

Estas duas fêmeas são as melhores candidatas para o trabalho de Denise. Nunca engravidaram e são basicamente crianças com imensa curiosidade e muita liberdade para brincar e explorar. A maturidade sexual das fêmeas de golfinho-pintado ocorre por volta dos 9 anos. A sua esperança de vida pode superar os 50 anos.

Quando Denise mergulha e reproduz o assobio-assinatura de Meridian pela primeira vez, o golfinho vira-se e aproxima-se, sem contudo exibir qualquer sinal exterior do espanto que seria de esperar numa criatura que acaba de ouvir o seu nome proferido por outra espécie.

“Não é impensável que os golfinhos compreendam que estamos a tentar usar símbolos e que tentem mostrar-nos algo”, diz ela mais tarde, de volta ao Stenella.

Denise nada com o braço direito estendido à sua frente, apontando para um lenço vermelho que retirou do fato. Pressiona repetidamente o botão para “lenço” na caixa CHAT. É um chilreio ondulante com um grave profundo e um final agudo que dura cerca de um segundo. Um dos golfinhos aproxima-se, pega no pedaço de tecido e abana-o entre o rostro e a barbatana peitoral. O lenço acaba por ficar pendurado na cauda do golfinho quando mergulha até ao fundo do mar.

Estou dentro de água com Denise, seguindo-a a alguns metros de distância com um aluno de pós-graduação que grava o encontro com uma câmara subaquática. Aguardo que um dos golfinhos pegue no lenço, mas nenhum o faz. Parecem querer interagir connosco, embora de forma cuidadosa. Deslocam o lenço para trás e para a frente, fazem círculos à nossa volta, desaparecem com o lenço e depois oferecem-no novamente a Denise. Ela pega nele, guarda-o no fato de banho e depois retira um pedaço de alga. Nereide desce para o apanhar entre os dentes e começa a afastar-se. Denise persegue-a, pressionando repetidamente o assobio para sargaço na caixa CHAT, como se pedisse desesperadamente que lho devolvessem. Mas os golfinhos ignoram-na.

“Estou sempre à espera de ouvir a voz de uma fêmea nos auscultadores a emitir o som correspondente a ‘lenço!’ Quase podemos ver os seus olhos a pensarem, a tentarem perceber. Se ao menos me dessem algum feedback acústico…”

“Não é impensável que os golfinhos compreendam que estamos a tentar usar símbolos e que tentem mostrar-nos algo”, diz ela mais tarde, de volta ao Stenella. “Ou imagine que começam a usar entre eles a nossa palavra para sargaço.”

Por enquanto, ainda parece um sonho distante. A caixa CHAT não regista qualquer indício de imitação durante este encontro de uma hora. “É tudo uma questão de contacto, contacto, contacto”, diz Denise. É uma tarefa difícil para um ser humano num barco, tentando estabelecer laços com golfinhos selvagens e conversando brevemente num oceano tão vasto.

“Eles são curiosos. Vê-se logo quando começam a perceber. Estou sempre à espera que façam o clique”, disse ela. “Estou sempre à espera de ouvir a voz de uma fêmea nos auscultadores a emitir o som correspondente a ‘lenço!’ Quase podemos ver os seus olhos a pensarem, a tentarem perceber. Se ao menos me dessem algum feedback acústico…”

O retorno de informação talvez lá esteja, mas não sob uma forma que alguém consiga, por enquanto, entender. Nereide largou o sargaço atrás da cauda enquanto flutuou casualmente pela água, acabando por o sacudir e, de seguida, libertar uma grande e divertida bolha.

Depois de passarem uma hora connosco, os golfinhos perderam o interesse. Quando se virou para partir, Nereide emitiu um último e misterioso assobio, olhou para nós e depois nadou pela escuridão azul adentro. E desapareceu.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar