O cérebro dos golfinhos

 

Denise conhece a maioria dos golfinhos desde que nasceram e também conhece as suas mães, tias e avós. Muitos leitores desta revista também conhecem uma delas: a mãe de Nereide, Nassau, apareceu na capa da edição americana da revista em Setembro de 1992, nadando sob a superfície destas mesmas águas das Bahamas.

Estas duas fêmeas são as melhores candidatas para o trabalho de Denise. Nunca engravidaram e são basicamente crianças com imensa curiosidade e muita liberdade para brincar e explorar. A maturidade sexual das fêmeas de golfinho-pintado ocorre por volta dos 9 anos. A sua esperança de vida pode superar os 50 anos.

Quando Denise mergulha e reproduz o assobio-assinatura de Meridian pela primeira vez, o golfinho vira-se e aproxima-se, sem contudo exibir qualquer sinal exterior do espanto que seria de esperar numa criatura que acaba de ouvir o seu nome proferido por outra espécie.

“Não é impensável que os golfinhos compreendam que estamos a tentar usar símbolos e que tentem mostrar-nos algo”, diz ela mais tarde, de volta ao Stenella.

Denise nada com o braço direito estendido à sua frente, apontando para um lenço vermelho que retirou do fato. Pressiona repetidamente o botão para “lenço” na caixa CHAT. É um chilreio ondulante com um grave profundo e um final agudo que dura cerca de um segundo. Um dos golfinhos aproxima-se, pega no pedaço de tecido e abana-o entre o rostro e a barbatana peitoral. O lenço acaba por ficar pendurado na cauda do golfinho quando mergulha até ao fundo do mar.

Estou dentro de água com Denise, seguindo-a a alguns metros de distância com um aluno de pós-graduação que grava o encontro com uma câmara subaquática. Aguardo que um dos golfinhos pegue no lenço, mas nenhum o faz. Parecem querer interagir connosco, embora de forma cuidadosa. Deslocam o lenço para trás e para a frente, fazem círculos à nossa volta, desaparecem com o lenço e depois oferecem-no novamente a Denise. Ela pega nele, guarda-o no fato de banho e depois retira um pedaço de alga. Nereide desce para o apanhar entre os dentes e começa a afastar-se. Denise persegue-a, pressionando repetidamente o assobio para sargaço na caixa CHAT, como se pedisse desesperadamente que lho devolvessem. Mas os golfinhos ignoram-na.

“Estou sempre à espera de ouvir a voz de uma fêmea nos auscultadores a emitir o som correspondente a ‘lenço!’ Quase podemos ver os seus olhos a pensarem, a tentarem perceber. Se ao menos me dessem algum feedback acústico…”

“Não é impensável que os golfinhos compreendam que estamos a tentar usar símbolos e que tentem mostrar-nos algo”, diz ela mais tarde, de volta ao Stenella. “Ou imagine que começam a usar entre eles a nossa palavra para sargaço.”

Por enquanto, ainda parece um sonho distante. A caixa CHAT não regista qualquer indício de imitação durante este encontro de uma hora. “É tudo uma questão de contacto, contacto, contacto”, diz Denise. É uma tarefa difícil para um ser humano num barco, tentando estabelecer laços com golfinhos selvagens e conversando brevemente num oceano tão vasto.

“Eles são curiosos. Vê-se logo quando começam a perceber. Estou sempre à espera que façam o clique”, disse ela. “Estou sempre à espera de ouvir a voz de uma fêmea nos auscultadores a emitir o som correspondente a ‘lenço!’ Quase podemos ver os seus olhos a pensarem, a tentarem perceber. Se ao menos me dessem algum feedback acústico…”

O retorno de informação talvez lá esteja, mas não sob uma forma que alguém consiga, por enquanto, entender. Nereide largou o sargaço atrás da cauda enquanto flutuou casualmente pela água, acabando por o sacudir e, de seguida, libertar uma grande e divertida bolha.

Depois de passarem uma hora connosco, os golfinhos perderam o interesse. Quando se virou para partir, Nereide emitiu um último e misterioso assobio, olhou para nós e depois nadou pela escuridão azul adentro. E desapareceu.

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