O cérebro dos golfinhos

 

Quando Akeakamai morreu em 2003 e Phoenix em 2004, as suas cinzas foram transportadas em pranchas de surf e espalhadas no oceano.
O único centro de investigação do mundo dedicado exclusivamente ao estudo da forma como os golfinhos pensam foi encerrado, mas ficou uma pergunta importante por responder: porque fora tão fácil para Phoenix e Akeakamai aprender qualquer uma das linguagens?

Os golfinhos cumprimentam-se no mar, trocando entre si assobios-assinatura, e parecem lembrar-se das assinaturas dos outros golfinhos durante décadas.

Louis Herman põe de parte qualquer hipótese de os investigadores estarem a aproveitar-se de uma capacidade linguística inata. Segundo ele, as linguagens impostas permitiram a Phoenix e a Akeakamai exprimir capacidades cognitivas excepcionais comuns a todos os roazes (e talvez outras espécies de golfinhos) de uma forma que pode nunca ser exibida em ambiente selvagem. Mas existirá alguma forma de comunicação inata dos golfinhos que os seres humanos possam escutar e um dia compreender?

Existem provas concretas de que pelo menos um tipo de som dos golfinhos, estudado de forma intensiva na última década, funciona como um símbolo referencial. Os golfinhos usam “assobios-assinatura” distintos para se identificarem e chamarem os outros. Pensa-se que cada golfinho invente um nome singular para si enquanto é juvenil e o mantenha para toda a vida. Os golfinhos cumprimentam-se no mar, trocando entre si assobios-assinatura, e parecem lembrar-se das assinaturas dos outros golfinhos durante décadas.

Embora outras espécies, como os cercopitecos-verdes (os macacos rhesus) e os cães da pradaria, emitam sons para se referirem a predadores, não se conhece nenhum outro animal, além dos seres humanos, com designativos específicos para identificar indivíduos.

Os assobios-assinatura são apenas algumas das vocalizações que os golfinhos produzem debaixo de água. Quais as probabilidades de serem os únicos sons do repertório dos golfinhos que se refiram a algo? Qual a probabilidade de os golfinhos terem nomes apenas uns para os outros mas para nada mais do que existe no mar?

Graças às águas cristalinas desta costa, os investigadores de golfinhos têm passado longos períodos em observação e interacção com animais selvagens, conhecendo-os intimamente.

Autêntica Jane Gooddall dos mares, Denise Herzing passou as últimas três décadas rodeada de trezentos golfinhos-pintados provenientes de três gerações. Denise trabalha numa área com 450 quilómetros quadrados ao largo das Bahamas, no projecto subaquático de golfinhos selvagens mais prolongado do mundo. As comparações com o trabalho de campo de Jane Gooddall na Tanzânia não são exageradas: graças às águas cristalinas desta costa, os investigadores de golfinhos têm passado longos períodos em observação e interacção com animais selvagens, conhecendo-os intimamente.

No Verão passado, juntei-me a ela a bordo do seu navio de investigação, o R.V. Stenella, na preparação para os primeiros testes ao vivo com um novo e complexo equipamento que talvez um dia permita a comunicação bilateral entre ela e os golfinhos que tanto tempo demorou a conhecer. Talvez então se possa também esclarecer a forma como eles comunicam uns com os outros. Esse equipamento é um cubo de alumínio e plástico transparente, do tamanho de uma caixa de sapatos, conhecido como CHAT (acrónimo de Cetacean Hearing and Telemetry ou Audição e Telemetria de Cetáceos), que Denise usa atado ao peito debaixo de água.

A caixa pesa nove quilogramas e tem um pequeno altifalante e teclado na parte da frente e dois hidrofones que parecem olhos salientes na parte de baixo. No interior, entre um emaranhado de fios e placas de circuito isolados dos efeitos corrosivos da água do mar, está um computador que pode transmitir assobios-assinatura de golfinhos previamente gravados, bem como emitir para o oceano assobios semelhantes aos dos golfinhos. Pode ainda gravar qualquer som que os golfinhos assobiem em resposta. Se um golfinho repetir um dos assobios semelhantes, o computador pode converter o som em palavras e depois reproduzi-las através de um auscultador que Denise tem no ouvido.

Os golfinhos são imitadores talentosos e aprendem depressa. O objectivo de Denise é conseguir que um grupo de jovens fêmeas, que conhece desde o nascimento, associem cada um dos três sons de assobio transmitidos pela caixa CHAT a um objecto específico: um lenço, uma corda e um pedaço de sargaço, uma alga que os golfinhos selvagens usam como brinquedo. Essas três “palavras” formarão os rudimentos de um vocabulário crescente de assobios partilhado entre si e os seus golfinhos, o início de uma linguagem artificial através da qual talvez possam um dia comunicar.

Nas suas sessões subaquáticas, cara a cara com os golfinhos por vezes durante horas a fio, Denise gravou e armazenou milhares de horas de material com todos os tipos de comportamento de golfinhos.

“Tal como Helen Keller adquiriu a linguagem, quando a adquirirem achamos que vai tudo acontecer muito depressa”, resume Denise. “Como os golfinhos são sociais, estamos a capitalizar na observação dos outros indivíduos. Como se fossem crianças num parque infantil.”

A optimista Denise, de 58 anos, é o tipo de pessoa a quem a palavra “visionária” parece adequar-se. Quando tinha 12 anos participou num concurso para ganhar uma bolsa. Pediram-lhe que respondesse à seguinte pergunta: “O que faria pelo mundo se pudesse fazer apenas uma coisa?” A resposta: “Desenvolveria um tradutor humano-animal para compreender outras mentes do planeta.”

Nas suas sessões subaquáticas, cara a cara com os golfinhos por vezes durante horas a fio, Denise gravou e armazenou milhares de horas de material com todos os tipos de comportamento de golfinhos. Também reuniu uma enorme base de dados com vocalizações dos seus loquazes sujeitos.

A bordo do Stenella seguia também o notável cientista Thad Starner, professor de informática no Instituto Tecnológico da Geórgia. Thad foi pioneiro informático e é igualmente director--técnico da Google, onde trabalha no Glass, o dispositivo facial que permite aos utilizadores acederem à Internet enquanto realizam as suas tarefas do quotidiano.

Aos 45 anos, Thad usa quase permanentemente o Glass e toma notas com um teclado em forma de limão que traz atado à mão esquerda e lhe cabe na palma da mão. A equipa do seu laboratório fabricou a caixa CHAT e ele estará a bordo durante dez dias para realizar ensaios técnicos e recolher dados.

Se os mistérios da comunicação dos golfinhos forem algum dia decifrados, poderá ter menos que ver com as caixas bilaterais CHAT do que com as ferramentas de análise de dados que Thad e os seus alunos começaram a aplicar às gravações de golfinhos de Denise. Eles estão a conceber um algoritmo que pesquisa sistematicamente pilhas de dados por classificar para descobrir as unidades fundamentais escondidas no seu interior. Aplicado a vídeos de pessoas comunicando através de linguagem gestual, o algoritmo separa os gestos com significado da amálgama de movimentos manuais. Aplicado a material áudio com pessoas lendo números de telefone, identifica que existem onze dígitos fundamentais. Não tem inteligência suficiente para perceber que “zero” e “O” são o mesmo número. O algoritmo descobre motivos recorrentes que podem não ser muito evidentes e que um ser humano pode não saber como procurar.

"Conseguiremos descobrir as unidades fundamentais? Conseguiremos permitir-lhe reproduzir essas unidades fundamentais? Conseguiremos fazer tudo isso em tempo real? Esse é o santo graal.”

Num teste inicial ao algoritmo, Denise enviou a Thad um conjunto de vocalizações que gravou debaixo de água, sem lhe dizer que iria ouvir assobios-assinatura trocados entre uma progenitora e as suas crias. O algoritmo identificou cinco unidades fundamentais nos dados, sugerindo que os assobios-assinatura eram formados por componentes individuais coerentes e repetidos entre progenitoras e crias e que poderiam ser reorganizados de maneiras interessantes.

“A dada altura, queremos ter uma caixa CHAT com todas as unidades fundamentais de sons de golfinhos”, resume Thad. “A caixa traduzirá o que o sistema ouvir numa sequência de símbolos e permitirá a Denise enviar de volta uma sequência de unidades fundamentais. Conseguiremos descobrir as unidades fundamentais? Conseguiremos permitir-lhe reproduzir essas unidades fundamentais? Conseguiremos fazer tudo isso em tempo real? Esse é o santo graal.”

No momento em que surge a oportunidade de experimentar a caixa CHAT, os primeiros golfinhos que aparecem junto à proa do Stenella são especiais. São a Meridian e a Nereide. Gravações dos assobios-assinatura das duas fêmeas foram reprogramadas nas caixas CHAT na esperança de Denise ter a oportunidade de interagir com elas. É quase como se os animais tivessem vindo ao nosso encontro e não ao contrário.

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