O cérebro dos golfinhos

 

“Se conseguirmos algum dia detectar um padrão que ligue vocalizações e comportamentos, será uma descoberta colossal”, afirma Stan Kuczaj, de 64 anos, que publicou mais artigos científicos sobre a cognição dos golfinhos do que quase qualquer outro investigador. Ele acredita que o seu trabalho com os golfinhos sincronizados do RIMS poderá ser uma pedra de Roseta para desvendar a comunicação entre eles, embora acrescente que “a sofisticação dos golfinhos torna-os muito interessantes, mas também muito difíceis de estudar”.

Não há praticamente provas de que exista algo semelhante a uma linguagem dos golfinhos. Alguns cientistas mostram-se exasperados perante essa demanda. “Também não existem provas de que os golfinhos não possam viajar no tempo, não consigam dobrar colheres com a mente, nem sejam capazes de disparar raios laser pelos espiráculos”, escreveu Justin Gregg num livro recente. “A omnipresente advertência científica de que ‘há muita coisa que desconhecemos’ permitiu aos defensores do golfinhês introduzir pela porta dos fundos a ideia de uma linguagem de golfinhos.”

Até o nosso género emergente os ultrapassar, os golfinhos eram provavelmente as criaturas com o maior cérebro e, presumivelmente, as mais inteligentes do planeta.

Mas aquilo que para Justin Gregg representa meio século de fracassos, para Stan Kuczaj e outros investigadores é uma preponderância de provas circunstanciais que apontam no sentido de o problema simplesmente não ter sido abordado da maneira certa, com o conjunto de ferramentas adequado. Só na última década é que os gravadores subaquáticos de altas frequências, como aquele que Stan utiliza, conseguiram captar a totalidade do espectro dos sons emitidos pelos golfinhos; só nos últimos dois ou três anos é que os novos algoritmos de interpretação de dados permitiram uma análise significativa dessas gravações. Por isso, das duas uma: a vocalização dos golfinhos é um dos maiores mistérios por resolver da ciência ou… é um dos seus maiores becos sem saída.

Até o nosso género emergente os ultrapassar, os golfinhos eram provavelmente as criaturas com o maior cérebro e, presumivelmente, as mais inteligentes do planeta. Em termos de peso relativamente à dimensão corporal, os seus cérebros continuam a figurar entre os maiores do reino animal. O último antepassado comum dos seres humanos e dos chimpanzés viveu há cerca de seis milhões de anos. Em comparação, os cetáceos semelhantes aos golfinhos separaram-se do resto da linhagem dos mamíferos há cerca de 55 milhões de anos e não partilham um antepassado com os primatas há 95 milhões de anos.

Isto significa que os primatas e os cetáceos percorrem duas trajectórias evolutivas diferentes há muito tempo e, em função disso, não só têm dois tipos de corpo diferentes, como dois tipos de cérebro diferentes. Os primatas, por exemplo, têm lobos frontais grandes, responsáveis pela tomada de decisões executivas e planeamento.
Os golfinhos não são muito dotados em matéria de lobos frontais, mas apesar disso têm um talento impressionante para resolver problemas e, aparentemente, dispõem da capacidade de fazer planos para o futuro.

“A natureza do golfinho implica a integração numa rede social complexa. Mais ainda do que acontece com os seres humanos.”

Nós, os primatas, processamos a informação visual na parte de trás dos nossos cérebros e as informações relativas à linguagem e ao som nos lobos temporais, localizados na área lateral do nosso cérebro. Os golfinhos processam a informação visual e auditiva em diferentes partes do neocórtex e as vias de entrada e de saída no córtex utilizadas por essa informação são visivelmente diferentes. Os golfinhos também têm um
sistema paralímbico bem formado e definido para o processamento de emoções. É possível que este seja essencial para os laços sociais e emocionais íntimos que existem entre as comunidades de golfinhos.

“Um golfinho isolado não é um golfinho a sério”, resume Lori Marino, directora executiva do Centro Kimmela de Advocacia Animal e especialista em comportamento animal. “A natureza do golfinho implica a integração numa rede social complexa. Mais ainda do que acontece com os seres humanos.”

Quando têm problemas, os golfinhos exibem um grau de coesão raramente observado noutros grupos de animais. Quando um indivíduo fica doente e se dirige para águas baixas, é por vezes seguido por todo o grupo, o que pode provocar arrojamentos colectivos. É como se estivessem todos concentrados no golfinho arrojado, diz Lori. “E a única forma de quebrar essa concentração poderá ser dar-lhes outra coisa igualmente forte para os afastar.”

Um grande arrojamento ocorrido na Austrália em 2013 só foi travado quando os seres humanos intervieram, capturando uma jovem fêmea do grupo e levando-a para mar aberto: os seus pedidos de auxílio atraíram então o grupo de volta ao mar.

O que levou os golfinhos, de entre todas as criaturas que deambulam pela terra e pelo mar, a adquirir cérebros tão grandes? Para responder a esta pergunta, temos de examinar o registo fóssil. Há cerca de 34 milhões de anos, os antepassados dos golfinhos contemporâneos eram criaturas de grandes dimensões e possuíam dentes semelhantes aos dos lobos. Aproximadamente por essa altura, um período de arrefecimento significativo das águas do mar poderá ter alterado a oferta alimentar, criando um novo nicho ecológico que proporcionou oportunidades aos golfinhos e alterou a forma como caçavam.
Os seus cérebros cresceram e os seus dentes assustadores deram lugar aos dentes mais pequenos, semelhantes a cavilhas, que os golfinhos possuem actualmente.

As alterações nos ossos do ouvido interno indicam que este período marcou igualmente o princípio da ecolocalização, quando alguns golfinhos deixaram possivelmente de ser caçadores solitários de peixes grandes para se transformarem em caçadores colectivos de peixes mais pequenos. Os golfinhos tornaram-se mais comunicativos, mais sociais e provavelmente mais inteligentes.

Richard Connor, que estuda a vida social dos golfinhos na baía dos Tubarões, na Austrália, identificou três níveis de alianças observadas no interior da sua vasta e aberta rede social.
Os machos tendem a formar pares e trios que cortejam de forma agressiva as fêmeas, mantendo-as depois sob vigilância firme.

Alguns desses pares e trios constituem relações extraordinariamente estáveis que podem durar décadas. Os machos também compõem equipas mais alargadas com quatro a catorze membros, que Richard designa por alianças de segunda ordem. Estas equipas juntam-se para roubar fêmeas a outros grupos e para defender as suas próprias fêmeas de ataques e podem permanecer intactas durante 16 anos. Richard observou igualmente alianças de terceira ordem, ainda maiores, que coalescem quando há grandes batalhas entre alianças de segunda ordem.

Dois golfinhos podem ser amigos num dia e inimigos no outro, dependendo dos golfinhos que se encontrem nas proximidades. Os primatas costumam ter uma mentalidade de manada no que diz respeito a distinções intragrupo e intergrupos. Com os golfinhos, porém, as alianças parecem ser situacionais e extremamente complicadas. A necessidade de manter registos de todas essas relações talvez ajude a explicar a razão pela qual possuem cérebros tão grandes.

O golfinho é igualmente um dos animais mais cosmopolitas do planeta. À semelhança dos seres humanos em terra, as espécies de golfinhos encontram-se aparentemente dispersas pelo mar e, tal como os seres humanos, revelaram-se engenhosas na descoberta de estratégias de alimentação específicas para os ambientes em que habitam. Na baía dos Tubarões, alguns roazes arrancam esponjas do leito marinho e colocam-nas sobre o rostro para se protegerem enquanto vasculham a areia em busca de pequenos peixes escondidos – um modelo primitivo de utilização de ferramentas.

Nas águas pouco profundas da baía da Florida, os golfinhos recorrem à sua velocidade, que pode exceder 32km/h, para nadar rapidamente em círculos em redor de cardumes de tainhas, levantando cortinas de lama que obrigam os peixes a saltar da água para as suas bocas abertas. Golfinhos-cinzentos, também conhecidos como golfinhos-do-crepúsculo, ao largo da costa da Patagónia reúnem cardumes de anchovas em esferas bem organizadas e, depois, revezam-se a devorá-las.

Todos estes comportamentos exibem sinais inequívocos de inteligência. Mas o que é de facto a inteligência? Como a definimos? Quando pressionados, somos frequentemente levados a admitir que definimos a inteligência em função do grau de parecença de uma espécie com a nossa. Stan Kuczaj acredita que esse processo comparativo é um erro. “A questão não está em saber quão espertos são os golfinhos, mas de que maneira são espertos”, argumenta, com a convicção de quem convive com os animais há largas décadas.

Há quem se inscreva em retiros espirituais para conviver com golfinhos, mulheres que escolhem dar à luz na presença de golfinhos e centros espirituais que afirmam utilizar os poderes da energia dos golfinhos para tratar doentes. “Existem provavelmente mais ideias estranhas sobre golfinhos a nadar no ciberespaço do que golfinhos a nadar no oceano”, escreve, com insuperável ironia, Justin Gregg. Muitas destas ideias estranhas podem ser rastreadas até um único homem, chamado John Lilly.

John era um neurofisiologista iconoclasta integrado no Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA. Começou a estudar golfinhos na década de 1950. Em vários livros que venderam milhões de exemplares, foi o primeiro cientista a propor que estes “humanos do mar” dispunham de uma prodigiosa linguagem, cuja descodificação merecia interesse académico. Quase sozinho, glosa Justin Gregg, ele “conseguiu transformar aquilo que era inicialmente considerado um ‘peixe’ esquisito que respirava ar na viragem do século XX num animal cuja inteligência é tão sofisticada que merece a mesma protecção constitucional que eu ou que o leitor”.

Financiado por instituições científicas importantes, John Lilly abriu um centro para a investigação sobre golfinhos nas ilhas Virgens norte-americanas, onde tentou ensinar um golfinho chamado Peter a falar inglês. No início da década de 1960, as experiências tornaram-se cada vez menos convencionais (a determinada altura, injectou os golfinhos com LSD) e os subsídios começaram a diminuir.

Gradualmente, John Lilly desviou-se para os recantos mais bizarros da contracultura e arrastou consigo a credibilidade do ramo académico que ajudara a criar. A “linguagem” dos golfinhos tornou-se um assunto intocável, um tema tóxico, até 1970, quando um psicólogo da Universidade do Hawai chamado Louis Herman fundou o Laboratório de Mamíferos Marinhos da bacia Kewalo, em Honolulu.

Na bacia Kewalo, dois roazes-corvineiros, Phoenix e Akeakamai, foram criados em cativeiro num ambiente de formação contínua.

“Queríamos criar os golfinhos, ou ‘educá-los’, de modo a que eles revelassem o seu potencial cognitivo”, conta Adam Pack, da Universidade do Hawai, que trabalhou no laboratório durante 21 anos. “Criávamos os golfinhos como se fossem crianças.”

Na bacia Kewalo, dois roazes-corvineiros, Phoenix e Akeakamai, foram criados em cativeiro num ambiente de formação contínua. Com dedicação e paciência, foi-lhes ensinada uma linguagem artificial. Os dois animais aprenderam a relacionar sons ou sinais gestuais com objectos, acções e modificadores.

Phoenix aprendeu uma linguagem acústica, com palavras organizadas segundo a ordem das tarefas a realizar, ao passo que Akeakamai intuiu uma linguagem gestual em que a ordem das palavras não era a mesma das tarefas. Embora Phoenix pudesse, teoricamente, responder palavra a palavra, Akeakamai só conseguia interpretar as instruções depois de observar a sequência de gestos na totalidade. Nadando numa piscina repleta de objectos, os golfinhos cumpriam de forma correcta as instruções em mais de 80% das ocasiões.

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