Texto: Eva van den Berg   Fotografias: Steve Axford

Não são plantas nem Animais. O reino dos fungos engloba os bolores, as leveduras e os fungos com grandes corpos frutíferos – os familiares cogumelos. É um mundo à parte, constituído por uma miríade de organismos essenciais à vida no planeta. São os grandes recicladores da natureza porque, ao contrário das plantas, não conseguem sintetizar os seus próprios alimentos. São especialistas na decomposição de resíduos orgânicos para libertar os elementos que albergam no interior, como o carbono ou o azoto, que são aproveitados por muitas outras espécies.

Aquilo que conhecemos popularmente como cogumelo é, em rigor, a parte externa – o fruto – de um determinado tipo de fungo. No entanto, estes organismos são muito mais do que uma iguaria apreciada ou um belo adorno florestal.

Suculentos, carnudos, vistosos e fragrantes, os cogumelos adaptam as suas morfologias para atrair inúmeros animais que, ao ingeri-los, disseminam os seus esporos através das fezes. Com efeito, a parte menos visível do fungo, o micélio ou corpo vegetativo, é a mais assombrosa. Composto por um conjunto de filamentos que desempenham funções alimentares, respiratórias e reprodutoras, o micélio é uma rede emaranhada que se estende sobre e sob a superfície terrestre, entretecendo-se até formar organismos de dimensões colossais: nas montanhas Azuis no Noroeste dos EUA, existe um finíssimo tapete de micélio da espécie Armillaria ostoyae que, com uma espessura unicelular e 965 hectares de extensão, sobrevive há mais de 2.200 anos. Esta esteira biológica, considerada o maior organismo do mundo, inspirou o micólogo Paul Stamets a afirmar que o micélio é uma espécie de Internet natural da Terra. Para este especialista, o micélio replica a rede neurológica através da qual a comunidade de fungos canaliza nutrientes e informação. O Grande Micélio consegue seguir as nossas pegadas, detectar qualquer movimento ou alteração química de modo a captar novos nutrientes e criar vastas tramas capazes de se regenerarem a uma velocidade incrível e até de se inter-relacionarem com as raízes das plantas.

Os fungos, dos quais se calcula existirem centenas de milhares de espécies diferentes, são criaturas realmente estranhas e misteriosas para o comum dos mortais.

Sabia que os fungos foram os primeiros organismos a colonizar terra firme? Aconteceu há 1.300 milhões de anos, centenas de milhões de anos antes de as plantas superiores o conseguirem. Souberam conquistar um habitat sem oxigénio e contribuíram para a gigantesca tarefa de torná-lo habitável para outros organismos menos adaptáveis. Também participaram na recuperação da atmosfera, quando esta se tornou irrespirável após o impacte do meteorito que, há 65 milhões de anos, pôs fim aos dinossauros e a quase todos os animais à superfície da Terra.

Os fungos, dos quais se calcula existirem centenas de milhares de espécies diferentes, são criaturas realmente estranhas e misteriosas para o comum dos mortais. Alguns Homo sapiens, porém, sentem um autêntico fascínio por eles. É o caso de Steve Axford, autor destas fotografias, a maioria das quais captadas perto de sua casa, em Nova Gales do Sul, na Austrália.

Para Steve, projectista e gestor de sistemas informáticos complexos, é fascinante observar como na natureza, à semelhança do que se passa nos circuitos dos seus computadores, tudo está relacionado. “Nada existe de forma isolada. Quanto mais observo, mais ligações descubro. E, embora o mundo seja muito mais complexo do que qualquer sistema informático alguma vez criado, vejo uma série de paralelismos entre os circuitos informáticos e a incrível trama de vínculos presentes na ecologia.”

 

 

Crepidotus sp.: Parque Nacional Nightcap, Nova Gales do Sul, Austrália

Este australiano apaixonado pelo mundo dos fungos exprime a beleza dos organismos que fotografa através de um olhar científico que mostra os espécimes em pormenor. No seu sítio da Internet, classificou uma variedade de espécies de fungos para ajudar a identificá-los melhor e agora tem em mente a realização de filmes de vídeo em time-lapse para mostrar como crescem estes organismos tão díspares: existem os parasitas, que vivem à custa de um hospedeiro que podem vir a matar; espécies simbióticas como os líquenes, que são o resultado de uma bem-sucedida relação entre um fungo e uma alga; e espécies saprófitas que digerem e reciclam a matéria orgânica de origem vegetal e animal e mantêm limpa a camada de húmus do solo.

O reino dos fungos, um dos mais diversificados do planeta, está em grande parte por descobrir. Não se sabe quantas espécies existem. Até há pouco tempo, estavam descritas cerca de cem mil, mas existem certamente muitas mais. Especialistas em micologia de todo o mundo trabalham no seu estudo, em particular os do Consórcio de Macroecologia de Fungos.

O reino dos fungos, um dos mais diversificados do planeta, está em grande parte por descobrir. Não se sabe quantas espécies existem.

Após analisar amostras de solo provenientes de 365 pontos distintos do planeta com vista a aprofundar o conhecimento sobre a diversidade dos fungos, o Instituto de Ecologia e Ciências da Terra de Tartu, na Estónia, publicou recentemente os resultados de um estudo dirigido por Leho Tedersoo no qual participaram 58 cientistas de 36 universidades e centros de investigação de 24 países distintos. Um trabalho sem precedentes, financiado principalmente pela União Europeia e pela Fundação de Ciência da Estónia, graças ao qual se conseguiram descrever 80.486 espécies novas. “Ainda não estamos em posição de determinar qual é o nível de riqueza fúngica existente, nem temos ideia de quantas espécies existem”, adverte Leho Tedersoo. “Além dos fungos do solo, existem ainda os que vivem nas árvores, sobre as folhas das plantas ou à superfície da água e estes ainda foram pouco estudados. Esta tarefa acaba de ser iniciada e dela nos ocuparemos no futuro e então a metagenómica, ou seja, o estudo de um conjunto de genomas, neste caso edáficos (do solo), a partir da colheita de amostras, será essencial.”

Vão ser descobertos, sem dúvida, novos fungos com capacidades assombrosas que poderão revelar grande utilidade. Como resume Paul Stamets, precisamos deles tanto para criar novos antibióticos como para descontaminar solos e águas, eliminar pragas, neutralizar neurotoxinas e inclusivamente para gerar etanol a partir da celulose dos micélios. São boas razões para tratarmos os habitantes deste reino com o devido respeito da próxima vez que passearmos numa floresta.

 

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