Texto de Eva van den Berg

Fotografias de Alberto Sobrino Jorge Francisco Garrido / ASA

Parecem flores exóticas oriundas de paraísos tropicais distantes, mas, na verdade, crescem nas nossas montanhas, bosques e planaltos. A lente atenta de dois fotógrafos oferece uma nova perspectiva sobre a flora exuberante, próxima, mas pouco conhecida da Península Ibérica.

Em 2011, a botânica Mónica Moura, da Universidade dos Açores, estudava a floresta da laurissilva nas encostas da ilha de São Jorge, em busca de orquídeas-borboleta, grupo representado por duas espécies endémicas nos Açores. De súbito, encontrou uma planta que não correspondia a este grupo: as flores eram demasiado grandes. Com emoção, suspeitou que encontrara uma nova espécie. Na verdade, viria a deslindar um enigma antigo. Na década de 1830, o botânico alemão Karl Hochstetter estudara a flora das ilhas açorianas do grupo central e recolhera exemplares de três espécies de orquídeas para o seu herbário. Dessa colecção, consta o único exemplar conhecido de Platanthera azorica, julgada extinta desde então. Até agora.

Quando o botânico Richard Bateman, com quem Mónica Moura colaborava, requisitou os exemplares históricos de Hochstetter, a equipa apercebeu-se, depois de testes morfométricos, de que uma das mais raras e vulneráveis espécies de orquídea da Europa ficara esquecida num herbário alemão. Parece improvável, mas as orquídeas continuam a fascinar a ciência. Objecto de desejo para muitos horticultores, coleccionadores e botânicos, as orquídeas estão associadas à beleza e ao mistério. Venerada por maias e astecas na América pré-colombiana e pelos chineses desde a Antiguidade, esta curiosa família de plantas cativou também os europeus. No século XVIII, as orquídeas eram um símbolo de estatuto no Velho Continente, razão pela qual muitos coleccionadores, na sua maioria franceses e britânicos, esquadrinharam os bosques do continente americano, onde existe maior variedade nas regiões tropicais e subtropicais, em busca das orquídeas estranhas e desconhecidas. O nome comum deriva do grego orchis, que significa testículo. O nome foi-lhe atribuído pelo botânico grego Teofrasto no século III a.C. Discípulo de Aristóteles e autor do tratado “Sobre as Causas das Plantas”, o sábio baptizou-as assim depois de observar a forma elipsoidal dos pares de tubérculos que muitas orquídeas terrestres apresentam na sua expressão subterrânea.

Há exemplares de orquídeas em todo o planeta, excepto nos pólos e nos desertos. Existem 25 mil espécies, sem contar com os muitos milhares que surgiram através da hibridação e selecção de cultivo de variedades, realizadas por uma plêiade de horticultores em todo o mundo. Segundo Eric Hansen, autor de “Orchid Fever: A Horticultural Tale of Love, Lust, and Lunacy” [sem tradução portuguesa], as orquídeas são a causa de um vício que raia a loucura. Estima-se que cerca de 45 milhões de pessoas em todo o mundo se dediquem ao seu cultivo, e o seu comércio ilegal não é menosprezável. Depois de entrevistar diversas pessoas acometidas do que considera ser a “loucura botânica”, Eric chega a afirmar com ironia: “Não quero transmitir a impressão de que não existam pessoas normais, sãs, inteligentes e equilibradas entre quem se sente atraído por orquídeas. Já ouvi dizer que existem. Mas nunca tive a sorte de as conhecer!”

A “orquideomania” não se deve apenas à variedade de cores, formas e tamanhos destas plantas tão diferentes entre si. É a sua ecologia que fascina. Vivem em comunhão com animais e fungos porque, sem eles, não conseguiriam sobreviver. As suas sementes, extremamente simples e carentes de tecido nutritivo, precisam de um agente exterior que lhes forneça os nutrientes necessários para germinar, uma vez que não conseguiriam fazê-lo contando apenas com os seus próprios recursos. Por conseguinte, estabelecem uma relação de simbiose com certos fungos, que fazem esse trabalho a troco de algumas vitaminas. Depois, ao tornar-se adulta, a planta requer a colaboração de animais para proliferar. “As orquídeas só conseguem reunir o seu pólen formando duas massas compactas, mais ou menos pegajosas, que a acção do vento não consegue dispersar, pelo que necessitam da colaboração de animais polinizadores, em geral insectos, como lepidópteros, moscas, abelhas ou vespas, e certas aves, como os beija-flores, que extraem o pólen do interior da orquídea e o transportam até outra flor”, explica o biólogo Pablo Galán, professor de botânica na Universidade Politécnica de Madrid e co-autor, juntamente com Roberto Gamarra, da página de Internet orquideasibericas.info.

Muitas orquídeas premeiam os seus polinizadores com as suas fragrâncias, o seu pólen e o seu néctar. Outras espécies, mais sibilinas, emanam um odor repulsivo, semelhante ao de carne putrefacta para poderem atrair as moscas, e existem até outras que mimetizam a forma ou o cheiro das fêmeas de alguns insectos para conseguir que os machos as polinizem quando tentam copular com elas. Na Península Ibérica, existem cerca de cem espécies de orquídeas, distribuídas por 26 géneros. Cerca de cinco dezenas estão documentadas em Portugal continental. São todas terrestres, contrastando com as tropicais, que costumam ser epífitas (vivem entre as árvores) ou trepadoras. Todas as que apresentamos nesta reportagem existem na Península Ibérica e apenas duas não estão documentadas para Portugal. A principal ameaça enfrentada pelas orquídeas ibéricas é a perda de habitat, mas as diferentes espécies podem ter necessidades muito díspares. Algumas só se desenvolvem em habitats bem conservados, outras podem prosperar sem problemas nos matagais. Apesar de não haver dúvidas de que muitas espécies correm perigo, enquanto família botânica esta continua a ser uma das mais diversificadas do planeta. As suas proezas evolutivas e a sua resiliência surpreendem os botânicos. Até porque, apesar de todo o escrutínio científico e de toda a informação disponível e partilhada em rede, algures, numa encosta como as de São Jorge, alheia à paixão que desperta, uma nova surpresa pode estar ao virar da esquina. À espera do dia em que se deixa descobrir.

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