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A natureza resiste: os pinheiros da região oriental da Califórnia podem viver mais de quatro mil anos.

Talvez nos inspire a impedir a catástrofe climática se resistirmos a retomar o modo de vida anterior. Não desperdicemos esta oportunidade.

Ensaio: Robert Kunzig
Fotografias: John Chiara 

Como foram captadas estas imagens: John Chiara construiu uma câmara escura de grandes dimensões, montou-a num atrelado e conduziu-a até diversos locais. Captou imagens a negativo directamente sobre película negativa de cor.

Na primavera de 1858, três anos antes da guerra da secessão dos EUA, um jovem engenheiro chamado John Milner entrou a cavalo em Jones Valley, nos Apalaches, no estado de Alabama. Fora ali enviado pelo governador para planear uma nova ferrovia, pois havia riquezas nas montanhas. Na crista da montanha Red, avistara-se um veio grosso de minério de ferro. “Subi ao topo da montanha Red e observei aquele belíssimo vale”, recordou Milner mais tarde, depois de ajudar a fundar a cidade de Birmingham no vale: “Era um enorme jardim que se estendia até onde a vista alcançava… Nunca antes eu vira um povo agrícola tão perfeitamente abastecido e tão feliz. Criavam tudo o que precisavam para comer e vendiam milhares de quilogramas de trigo. As suas aldeias ficavam junto de riachos lindos, de águas transparentes… Era, no seu conjunto, uma civilização sossegada, descontraída, com uma bela agricultura, bem estruturada e regulada.”

Cerca de um quarto dessa civilização bem regulada era constituído por afro-americanos escravizados. A cidade projectada por Milner e por outros era uma espécie de plantação industrial, apoiada no trabalho escravo. Entretanto aconteceu a guerra, mas quando Birmingham foi, finalmente, fundada, na década de 1870, os seus fundadores aproximaram-se o mais possível dessa visão. Com riquezas de carvão e ferro capazes de rivalizar com as da Grã-Bretanha, o berço da revolução industrial, mas com a vantagem acrescida de poder contar com mão-de-obra negra barata, os habitantes do Alabama construíram uma nova economia e uma “Cidade Mágica”.

A cidade gerava riqueza para alguns e garantia uma vida decente a muitos mais. Era uma cidade que produzia carris e vigas para construir uma nação próspera. No entanto, estava destinada a ser a cidade com mais segregação dos EUA, como Martin Luther King, Jr. viria a dizer em 1963. E era uma das mais poluídas.

Em mais nenhum sítio é tão visível a alma destroçada do capitalismo como em Birmingham, no Alabama. Em mais nenhum sítio é tão evidente até que ponto as visões do futuro podem ser importantes.

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A natureza e o património edificado coexistem na ilha artificial de Treasure Island, na baía de São Francisco.

Desde Março, tenho vivido a pandemia na companhia da minha mulher, natural do Alabama, numa casa localizada a menos de dois quilómetros da montanha Red. Quase todas as noites escutamos, como um murro, as desoladoras notícias nacionais. Todas as manhãs, como outras pessoas afortunadas nestes tempos de epidemia, vou dar um longo passeio pelo bairro, ouço as aves mais ousadas a cantar e vou ver como está a horta. Não sou de cá, mas afeiçoei-me a este sítio. De certa forma, espero, dar-lhe mais atenção poderá ajudar-me a perceber melhor o mundo.

O meu trabalho na revista National Geographic consiste em reflectir sobre o ambiente global. Quando a pandemia surgiu, encontrava-me a bordo de um navio, na Antárctida. A nossa edição de Abril, dedicada ao 50.º aniversário do Dia da Terra, ia a caminho dos assinantes. Como será a Terra no 100.º aniversário, em 2070? – era a pergunta dessa edição. De regresso a Washington durante alguns dias, completamente desorientado por 2020, peguei em “A Peste”o romance de Albert Camus escrito em 1947. Estava a voar das livrarias, explicava o jornal “The Guardian”.

De facto, os paralelos eram um pouco assustadores. “Eles continuavam a fazer os seus negócios, planeavam viagens, davam opiniões”, escreveu Camus sobre os primeiros tempos da negação em Oram, na Argélia. “Como poderiam ter-se preocupado com algo como a peste, que condena qualquer futuro?”

O nosso futuro, contudo, não está condenado. Tornou-se simplesmente mais desconcertante e aberto. Que efeitos de longo prazo terá a pandemia da COVID-19 sobre o ambiente? Qual será o significado, para a atmosfera das nossas cidades e o plástico dos nossos oceanos, de a floresta húmida ter diminuído ainda mais e de o clima ter continuado a aquecer este ano, estando já tão quente que enormes parcelas da tundra siberiana arderam? Irá a experiência da COVID-19 mudar, de forma duradoura, a maneira como tratamos este planeta, no qual quase oito mil milhões de seres humanos lutam para sobreviver?

A vaga de calor na Sibéria “teria sido impossível sem as alterações climáticas induzidas pelos seres humanos”, concluiu um grupo de cientistas em Julho.

“A primeira revelação terrível desta crise sem precedentes foi que todas as coisas que pareciam separadas são inseparáveis”, escreve o sociólogo francês Edgar Morin num novo livro sobre as lições a retirar da pandemia. Fechados como nunca estivemos, tornámo-nos mais abertos do que nunca à possibilidade de repensar o nosso percurso enquanto espécie. Ele partilha connosco uma experiência excepcional: Morin tem 99 anos e nasceu sob a sombra da pandemia da gripe de 1918.

Em meados de Junho, enquanto eu lia o seu livro, os EUA assistiam à quarta semana de manifestações após o homicídio de George Floyd. Os monumentos da confederação tinham começado a desabar no Sul do país, incluindo em Birmingham. Os apelos a uma “mudança sistémica” faziam-se ouvir por todo o lado. Subitamente, a ideia de que o sistema que precisa de mudar vai desde a maneira como tratamos os negros à maneira como tratamos a Terra e desde o governo federal ao coração de cada um de nós pareceu ganhar um significado emocional. As condições climáticas extremas, a pandemia e a violência policial fazem-nos ganhar mais consciência do mesmo sentimento: vulnerabilidade. Em 2020, ela tornou-se uma experiência quase universal.

Ao remover um obelisco, o autarca de Birmingham, Randall Woodfin, desafiou uma lei do estado do Alabama de 2017.

Esse sentimento partilhado de vulnerabilidade poderá abrir os nossos corações à necessidade de transformar o nosso mundo para o bem comum. Também poderá levar-nos a olhar para as outras pessoas como meras ameaças e fazer-nos ansiar pelo regresso à normalidade vivida antes da pandemia – com mais muros e menos viagens aéreas, talvez, mas praticamente o mesmo grau de destruição ambiental. A forma como o futuro se desenrola não pode ser prevista. É algo que construímos. Este ano, enquanto passeava a pé pela montanha Red e olhava para o vale, não me foi difícil ter presente essa verdade banal, mas essencial.

No início, no meio da dor e do sofrimento, houve vislumbres de um mundo mais verde.

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Saia e fique lá fora. Os parques nacionais dos EUA sofreram uma redução dramática do número de visitantes na Primavera passada, mas os números recuperaram mais tarde, juntamente com as vendas de autocaravanas e bicicletas. A instituição Leave No Trace Center for Outdoor Ethics diz que os praticantes de actividades de lazer afirmaram ter passado mais tempo ao ar livre este ano e trocaram desportos de aventura que exigissem viajar por actividades mais próximas de casa como a observação de aves, a jardinagem e o ciclismo. Muitas cidades encerraram o trânsito em algumas ruas para criarem espaço para jantares ao ar livre, eventos públicos e parques. — Daniel Stone

O encerramento da actividade económica teve um efeito notório na poluição atmosférica. A maior pureza do ar não era só bonita: na China, entre meados de Fevereiro e meados de Março, evitou cerca de nove mil mortes, ou mais, segundo cálculos de investigadores da Universidade de Yale, aproximadamente o dobro do número de mortes causado pelo coronavírus na China. No entanto, esse decréscimo foi apenas temporário. Chegado o mês de Julho, a economia chinesa retomara a actividade e a poluição era pior do que no ano anterior.

fim do carbono

fim do carbono

A redução das emissões de carbono também foi acentuada a nível mundial, chegando a atingir 17%, no início da Primavera. Mas também aí houve um retrocesso e, segundo cálculos dos investigadores, em todo o ano de 2020 essa redução não será superior a 8%, dependendo do rumo da pandemia. Por um lado, há uma grande queda: isto mostra que, com uma arma apontada à cabeça, somos capazes de parar de conduzir e de voar. Por outro lado, o nível de dióxido de carbono continuou a aumentar este ano, embora mais vagarosamente. Para manter o aquecimento global a que temos assistido desde o século XIX abaixo do limite acordado a nível internacional de 2ºC, teríamos de reduzir as emissões a quase zero o mais tardar em 2070. Isso exigiria declínios semelhantes ao de 2020 todos os anos, durante várias décadas.

E o que dizer das aves que, como se noticiou ao longo deste ano, se mostraram excepcionalmente sonoras e felizes por todo o lado? Também reparei nelas e fiquei ansioso por voltar a falar com o ornitólogo que me inspirara a aprender algumas das suas canções. Mario Cohn-Haft trabalha no Instituto Nacional de Investigação Amazónica, em Manaus, no Brasil, uma cidade que tem sofrido muito com a pandemia. Ele conhece bem a Amazónia e sabe de cor as vocalizações de mais de mil aves. Mario desvalorizou toda a conversa sobre a recuperação dos animais selvagens.

“Aquilo que tenho visto é um declínio constante da abundância e diversidade das espécies, ao longo dos 30 anos que aqui passei”, disse, recordando que Manaus cresceu, transformando-se numa metrópole industrial com dois milhões  de  habitantes. A pandemia não mudou nada. Mario temia até uma reacção negativa contra os animais selvagens, começando pelos morcegos, os transmissores do novo coronavírus. “As relações da humanidade com a natureza sempre foram ambivalentes” disse. “Este tipo de acontecimento promove medo.” Este ano a desflorestação da Amazónia foi mais grave do que em 2019, ano em que se acentuara de forma dramática.

Na América do Norte, a população total de aves diminuiu 29% desde 1970, segundo as conclusões de um estudo de 2019. Foi uma perda de quase três mil milhões de aves.

Há várias décadas que os problemas ambientais actualmente vividos se têm agravado. Se a COVID-19 fizer alguma diferença a longo prazo, não será porque parou o trânsito durante algum tempo. Será porque a experiência global mudou a nossa cultura. “A ciência demonstra com clareza que esta década é a década decisiva para o futuro da humanidade na Terra”, disse Johan Rockström, director do Instituto Potsdam para a Investigação do Impacte Climático, sediado nos arredores de Berlim. O seu gabinete fica na torre de um antigo observatório astronómico. Quando conversámos, numa quinta-feira de Maio, ele encontrava-se praticamente sozinho no enorme edifício do século XIX. Desde 2009 que Johan e outros investigadores dizem que a humanidade está a colidir com nove “fronteiras planetárias” diferentes. A biodiversidade que estamos a perder enquanto arrasamos florestas e extinguimos espécies é uma dessas fronteiras. O azoto que estamos a largar nas vias fluviais, vindo de campos agrícolas excessivamente adubados, é outra. Os cientistas debatem a maneira como estas fronteiras podem ser quantificadas e se, para além delas, haverá “pontos de viragem” de mudança catastrófica. No entanto, o princípio básico de que estamos a prejudicar perigosamente o planeta é difícil de contestar. As alterações climáticas são o melhor exemplo disso.

Por que razão nos é tão difícil aceitar a existência desta ameaça bem documentada? Elke Weber, psicóloga da Universidade de Princeton, passou décadas a investigar essa questão. “O problema fundamental é a nossa miopia excessiva enquanto espécie”, disse-me. “Vivemos centrados em nós. Vivemos centrados no aqui e agora.”

Essa era uma boa estratégia de sobrevivência no Paleolítico, mas agora, que nos espalhámos sobre a Terra, enfrentamos ameaças que não são aqui, nem agora, como os leões eram naquela altura. As alterações climáticas são globais e, para travá-las, teremos de tomar medidas cujos benefícios só se farão sentir num futuro distante. No entanto, temos tendência a preferir escolhas que preservem o que existe agora.

A escala e complexidade do problema climático também nos desencorajam de pensar nele. Mas há maneiras de fazê-lo parecer mais fácil de gerir. Certa manhã, John Sterman, director do MIT System Dynamics Group, mostrou-me um simulador de “escolha o seu próprio futuro” que criou com uma equipa chamada Climate Interactive. Dezoito barras permitiam ao utilizador definir políticas públicas que afectam o clima. Um número grande no canto superior direito indica o aumento da temperatura a nível global até 2100. O desafio é manter a subida abaixo de 2ºC. John assegurou-me que o modelo se baseava na ciência mais recente.

O simulador está disponível,  a título gratuito, em climateinte- ractive.org/ tools/en-roads. Surpreendentemente, o controlo demográfico não ajuda muito.

Qualquer pessoa com paixão por números pode gostar do simulador. Eu fiquei fascinado. Um dos meus mundos futuros levava a eficiência energética ao máximo nos automóveis e nos edifícios, reduzia as fugas de gases com efeitos de estufa de oleodutos, gasodutos e explorações agrícolas e impedia novos investimentos em carvão e petróleo até 2025 e 2035, respectivamente. Pus em prática mais algumas medidas e quase consegui atingir 2ºC. A remoção de algum CO2 da atmosfera fez-me cruzar a linha da meta. Como a tecnologia para o fazer ainda não foi comprovada, John prefere aumentar o preço do carbono.

Muitos democratas e republicanos já usaram este simulador. “Ele permite às pessoas criarem o futuro que querem ver”, comentou sem nunca sugerir o que escolher. A descoberta do próprio caminho é muito mais convincente e estimulante. “Eles chegam ao fim com a sensação de que é importante resolver o problema”, disse Sterman. “E de que é possível.”

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No decurso das suas experiências de psicologia comportamental, Elke Weber descobriu muitas outras formas de incentivar as pessoas a centrarem-se mais no futuro. Uma delas é particularmente relevante neste momento. Membros de um grupo são questionados sobre o que pensam em relação às alterações climáticas e qual a sua disposição para fazerem escolhas a favor do ambiente. Aos do segundo grupo foram feitas as mesmas perguntas mas, primeiro, passaram alguns minutos a escrever um breve ensaio sobre como gostariam de ser recordados pelas gerações futuras.

“Todos odiamos o facto de termos de morrer”, explicou a investigadora. “De vez em quando, lembram-nos de que somos mortais.” Na sua última experiência, pelo menos, esse lembrete fez as pessoas ficarem mais preocupadas com o ambiente e mais dispostas a ajudar. 

Recordar às pessoas que o seu país tem uma história antiga também as incentiva a pensar no futuro e no ambiente a longo prazo, descobriu Elke Weber.

Pode ser revigorante pensar com antecedência na Terra que vamos deixar aos nossos filhos e na história que eles vão contar sobre nós. O mesmo aplica-se à história que contamos a nós próprios, conscientemente ou não, e de onde vem essa história. A narrativa subjacente à civilização europeia e americana tem exercido um grande efeito sobre o planeta nos últimos séculos. A Bíblia é um bom ponto de partida.

Em Génesis 1, Deus diz: “Façamos o homem à Nossa imagem… para que domine sobre os peixes… as aves… os animais domésticos… todos os répteis…”

Ellen Davis, teóloga da Universidade Duke, reflectiu aprofundadamente sobre essa passagem. “Quando ouvimos falar em ‘domínio’ pensamos em ‘dominar’, uma imposição rígida, exercida de cima para baixo, do poder humano sobre o resto do mundo”, disse. Neste contexto, porém, Ellen acha que a palavra hebraica radah tem um significado diferente. Sendo assim, a civilização ocidental baseia-se em parte na interpretação errada de um dos seus textos de base.

Não há dúvidas de que o Génesis conferiu um estatuto especial aos seres humanos, por serem as únicas criaturas à imagem de Deus, explicou Ellen. Mas Deus abençoou as outras criaturas antes de nos abençoar a nós e fê-lo da mesma forma, ordenando-lhes que crescessem e se multiplicassem. Seja qual for o significado de radah, pode não ser “aniquilar a bênção”, acrescentou a minha interlocutora. E, no entanto, é isso que estamos a fazer: erradicar mais uma espécie enquanto subjugamos a Terra.

Em vez de “dominar”, Davis traduz radah como “actuar com mestria entre as criaturas”. Deus queria que fôssemos artesãos qualificados, seguindo o seu exemplo ao criar-nos. Mas também guardiões qualificados da criação.

A grande reviravolta seguinte na narrativa ocidental aconteceu no século XVII, com o Iluminismo, que libertou as nossas mentes do domínio total exercido pelos textos antigos, mas ampliou a ideia de que deveríamos dominar a Terra. Uma das raízes do Iluminismo, segundo o historiador alemão Philipp Blom, encontrava-se na Pequena Idade do Gelo do século XVI, um período tão frio que apareceu um icebergue ao largo de Roterdão e não se registaram colheitas em toda a Europa. A religião não conseguia salvar as colheitas e as comunidades questionaram a sua autoridade. Procuraram então a aprendizagem sistemática, através da observação e da experiência. Olharam por isso para a ciência.

A Pequena Idade do Gelo já foi associada tanto a erupções vulcânicas como à actividade solar. Essas flutuações naturais não estiveram relacionadas com o aquecimento global da actualidade.

Foi assim que a ideia de progresso entrou na civilização ocidental. E, desde o início, escreve Blom, ela sempre foi considerada um sinónimo de crescimento económico. Antes, o crescimento fora lento e intermitente e assim se manteve até à Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX. Depois, impulsionado pela ciência e pela tecnologia, bem como pelos recursos extraídos das colónias, levantou voo.

No século XX, o crescimento económico tornou-se um fim em si. Durante a Grande Depressão, quando as economias entraram em colapso e traumatizaram uma geração, um economista americano chamado Simon Kuznets desenvolveu uma forma de medir o rendimento de cada país. Aqui estava um número, único e sedutor, associado ao crescimento económico. Depois da Segunda Guerra Mundial, o aumento desse número, que viria a ser conhecido como Produto Interno Bruto (PIB), tornou-se uma obsessão para os governos. “Essa fixação tem sido usada para justificar desigualdades extremas de rendimento e riqueza associadas a uma destruição sem precedentes do mundo vivo”, escreveu a economista britânica Kate Raworth.

Resumindo: o crescimento económico, enraizado numa interpretação errada da Bíblia, ampliada pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial, transformou-se na nossa história global. Para Kate Raworth, nada disto é positivo para nós.

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Neste quarteirão de Manhattan, um punhado de árvores espreita a 12 andares de altura.

Como seria se as economias do mundo fossem geridas dentro dos limites estabelecidos pela natureza? Os defensores do crescimento sempre tiveram um poderoso argumento moral: o crescimento económico tirou milhares de milhões de pessoas da pobreza e outros milhares de milhões ainda precisam dos seus benefícios.

O problema não é o crescimento ser todo negativo, diz Kate Raworth no seu livro “Economia Donut”, publicado em Portugal em 2018. É óbvio que alguns países ainda precisam de muito mais, mas outros não. O crescimento já não deveria ser a aspiração mais importante.

Se o objectivo for a felicidade, o crescimento do PIB não consegue comprá-la nos países ricos: inquéritos realizados mostram que a felicidade está estagnada há décadas.

donut exemplifica aquilo que, para Kate, deveria ser o nosso objectivo. A parte de fora é o “tecto ecológico”, as fronteiras planetárias definidas por Johan Rockström e os colegas. A parte de dentro são “os alicerces sociais”: o alimento, a saúde, a educação e outros factores essenciais para a dignidade humana. A ideia é permitir que todos os habitantes da Terra possam ter uma vida digna sem arruinar o planeta para todos.

E como conseguiremos lá chegar? O donut é mais uma ideia do que um esquema. Para mudar esse projecto é preciso uma transformação cultural profunda, uma mudança colectiva das mentalidades que a pandemia, por mais horrível que seja, poderá favorecer. “Acho que esta pandemia está a empurrar-nos mais depressa para o futuro que sabíamos que queríamos”, disse Kate Raworth.

Poderíamos ter visto ténues premonições desse futuro este ano se estivéssemos predispostos a isso. Poderíamos tê-lo visto na decisão tomada em Janeiro pela BlackRock, que gere quase três biliões de euros em activos, de começar a reduzir o investimento no carvão, embora ainda não no petróleo e no gás. Também poderíamos ver essa mudança na decisão tomada em Julho pela União Europeia de investir 550 mil milhões de euros em medidas climáticas nos próximos sete anos, ou na proliferação de ciclovias nas ruas de cidades europeias e norte-americanas. Ellen Davis viu-a em Maio quando fez o seu discurso no Festival da Homilética, que contou com a participação de milhares de pregadores cristãos, que este ano se inscreveram num curso de formação de uma semana na Internet, para aprenderem como pregar sobre as alterações climáticas. Dois terços dos norte-americanos estão preocupados com o tema, segundo um inquérito recente. É o mesmo número de sempre, apesar da pandemia e apesar da indiferença da actual presidência.

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Um planeta, duas crises. O interesse público pelo aquecimento global nos EUA atingiu um pico histórico em Novembro do ano passado, segundo investigadores das universidades de  Yale e George Mason. A grande maioria dos norte-americanos acredita que o aquecimento global causado pelos seres humanos é real e sente-se preocupada ou mesmo pessoalmente responsável. Surpreendentemente, um inquérito realizado em Abril concluiu que a COVID-19 não alterara as preocupações com o clima, embora tenha reduzido a cobertura noticiosa do tema. “A questão parece ter amadurecido”, afirmou Anthony Leiserowitz, da  Universidade de Yale. “Parece-me um sinal muito promissor.” — Robert Kunzig 

Há, porém, pontos de viragem sociais e climáticos, concluiu uma equipa liderada por Ilona Otto, do Instituto Potsdam, num artigo publicado no início de Fevereiro. A mudança pode começar numa sala de reuniões, no governo ou nas ruas. Sempre que se inicia uma mudança, por vezes, espalha-se de forma contagiosa, e as pessoas são inspiradas pelo exemplo de outras. Uma pequena minoria pode mover-nos a todos. É claro que esses anjos de viragem podem não ser os melhores. Neste ano terrível, sobretudo, o medo pode facilmente conduzir-nos à viragem no sentido de reduzirmos a despesa e recuperarmos a situação anterior. Kate Raworth está a centrar-se nas cidades, tentando convencê-las a “emergirem desta emergência” com um novo rumo. No início de Abril, no meio do seu próprio confinamento, Amesterdão tornou-se a primeira cidade a adoptar o seu modelo de donut, prometendo pensar em todos os impactes de tudo o que faz. Para começar, disse que iria reduzir para metade o seu consumo de matérias-primas até 2030.

No passado mês de Maio, 38 cidades globais da rede C40 comprometeram-se a não regressar à “vida normal” enquanto recuperam de uma pandemia com “raízes na destruição ambiental”.

“As pessoas sentem-se atraídas por histórias que lhes dêem esperança, que lhes dêem esperança num futuro seguro no qual elas sejam importantes”, disse Kate Raworth. “E nesta história voltamos a ligar-nos ao mundo vivo, voltamos a ligar-nos à nossa comunidade e fazemos perguntas importantes sobre o que significa prosperar.”

Em 1963, quando Martin Luther King, Jr., levou a campanha dos direitos civis até Birmingham, um ponto de viragem na luta contra a segregação, decorrera exactamente um século desde a proclamação da emancipação de Lincoln. Decorrera igualmente um século desde que John T. Milner abrira a primeira mina na montanha Red para fornecer ferro à confederação. Em 1962, a U.S. Steel encerrou a última. Durante 99 anos, aquela secção da cumeeira a sudoeste de Birmingham fora devastada.

via ecológica

“Não havia nada naquela montanha” nessa altura, disse Wendy Jackson, antiga directora da Freshwater Land Trust, uma organização ambiental local. “Não havia árvores. Nada, excepto as instalações mineiras.”

Quando Wendy a visitou pela primeira vez, por volta de 2004, há mais de quatro décadas que a terra não era perturbada, excepto quando as pessoas ali vinham despejar lixo. A floresta voltara a crescer. O kudzu engolira as encostas iluminadas pelo sol como uma maré verde e revestira as fronteiras da floresta. Não era natureza prístina, mas era um ressurgimento da natureza. E, escondidos no meio dos bosques, viam-se os poços arruinados das minas, pelos quais um século de mineiros, brancos e negros, desciam todas as manhãs para o interior da montanha, seguindo o veio inclinado de minério de ferro a profundezas cada vez maiores. As árvores cresciam pelas janelas e telhados caídos das casas de banho em betão, onde os homens lavavam a poeira vermelha à noite. Parecia “que estávamos a tocar no passado de Birmingham”, comentou Wendy.

Em 2005, ela e o Freshwater Land Trust negociaram um acordo com a U.S. Steel para comprar 450 hectares da montanha e transformá-la um parque. O Parque da Montanha Red abriu em 2012. Nos primeiros anos, eu e a minha mulher fomos lá poucas vezes. Não sei porquê, mas não estava no nosso radar. Então, chegou a pandemia. Agora fazemos uma caminhada no parque quase todas as manhãs de domingo. O parque fica dentro dos limites da cidade, mas é suficientemente grande para conseguirmos desaparecer na floresta e andar sozinhos com as aves e as cigarras. Quando o calor se faz sentir, descansamos sob a brisa fresca de uma entrada da mina. E com a indústria do aço tão diminuída e a existência de menos poluição automóvel, a vista ali do alto, sobre o vale, é mais límpida do que antigamente.

“A maior ameaça para o ambiente é o afastamento entre as pessoas e a natureza”, disse Wendy Jackson. “A única forma de conservarmos algo é gostarmos dela.”

No início de uma manhã deste Verão, fui passear com Jerri Haslem, a primeira funcionária superior negra do parque, recrutada no ano passado. Nascera em Birmingham, em 1963, disse-me enquanto caminhávamos junto de uma pequena ferrovia que em tempos transportou minério de ferro para as fundições. Filha de um operário da indústria do aço, nasceu na ala da maternidade reservada a negros, na cave de um hospital, numa cidade que preferia ter os seus parques encerrados a eliminar a segregação.

Nasceu dois dias depois de segregacionistas brancos atacarem à bomba a Igreja Baptista da Rua 16, matando quatro meninas – um crime que ajudou a aprovar a Lei dos Direitos Civis.

Jerri Haslem acabara de renunciar a uma carreira empresarial para trabalhar como oradora motivacional na área da saúde, quando o director do parque, T.C. McLemore, a convenceu a ajudá-lo a tentar aumentar a sua influência junto da comunidade. Nos primeiros anos, o parque pretendia ser um destino de aventura para caminheiros, ciclistas de montanha e montanhistas. “Era um parque para as pessoas de Homewood”, disse Jerri, referindo-se ao subúrbio predominantemente branco onde eu e a minha mulher vivemos. “Mas o parque fica em Birmingham!”

A pandemia atingiu Birmingham com força. Neste Verão, a cidade enfrentava um buraco  orçamental de 53,5 milhões de euros por insuficiência de receitas fiscais devido ao encerramento de empresas. O vírus, entretanto, progredia. O parque também enfrentava um futuro complexo: é uma parceria público-privada, mas com pouco financiamento público. No entanto, a pandemia também foi boa para o parque. O número de visitantes atingiu máximos históricos. Segundo Jerri Haslem, foi visitado como nunca pelos habitantes negros, alguns dos quais chegando por uma nova entrada, a norte: o lado de Birmingham. Iam ao parque para saírem de casa, para caminharem na natureza, “para ouvirem o raio dos pássaros”. “Tem de haver muitas forças diferentes”, prosseguiu Jerri Haslem. Agora estávamos a falar sobre a maneira como esta semente de novidade poderá vir a prosperar. “Tem de ser o governo, a comunidade, as pessoas comuns, as pessoas ricas. Têm de ser todos. Se forem apenas os pobres, não vai resultar. Se forem apenas os ricos, não vai resultar. Têm  de ser todos. E está a acontecer, de forma orgânica, por causa da COVID.” 

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