gigantes verdes

Carvalho Alvarinho de Alvarega e João Gonçalo, cordenador do projecto Gigantes Verdes.

Texto: Paulo Rolão
Fotografias: Pedro Martins

“Este é um gigante verde!”, anuncia João Gonçalo Soutinho com uma alegria mal disfarçada. Munido de uma suta (uma espécie de régua que confere o diâmetro), mede o tronco de uma das duzentas árvores que compõem a mancha florestal que distingue o solar brasonado ao bom estilo renascentista do século XVIII. O ambiente deveria ser brumoso, com gnomos e duendes em tropelias entre a imensidão de carvalhos, castanheiros e duas altaneiras sequóias. Mas não é o caso – o sol outonal, para o efeito, também serve.

Projecto Gigantes Verdes

Uma ronda pelo bosque da Casa de Ronfe permite perceber o motivo de as árvores de grande porte serem designadas por Gigantes Verdes. Escondem o azul do céu, desafiam as alturas, estendem os ramos como um gigantesco chapéu-de-chuva, tingem de verde a atmosfera. Todas têm uma história para contar, uma longa história escrita nos seus anéis.

Os Gigantes Verdes foram o mote para um projecto de grande fôlego, iniciado no mestrado de João Gonçalo Soutinho. Num território relativamente exíguo, concentram-se exemplares de grande porte e antiguidade, que interessava documentar e cartografar. Esse longo trabalho está em curso e já detectou 7.400 “gigantes”. Cada um constitui um mundo à parte, onde fervilha a vida e as relações simbióticas. O abate de uma árvore antiga corta um extenso cordão umbilical que liga uma plétora de organismos à vida. Persuadindo os proprietários a não as abater, o projecto mantém vivos sistemas de biodiversidade complexos e majestosos.

Cada gigante verde constitui um mundo à parte, onde fervilha a vida e as relações simbióticas. O abate de uma árvore antiga corta um extenso cordão umbilical que liga uma plétora de organismos à vida.

A alguns quilómetros de distância, as águas do rio Sousa correm céleres por força da levada que se estreita devido ao engenho humano. Deslizam com tanta rapidez que fazem accionar as penas do rodízio do moinho implantado numa das margens desde pelo menos o século XIX. O moleiro Luís Queirós conhece o rio como poucos e é o proprietário do único moinho de água da região ainda em actividade. “Herdei-o do meu avô”, afirma com um pingo de orgulho, enquanto os grãos de milho são triturados pela mó até se transformarem em pó de farinha. Mas Luís Queirós não é, simplesmente, moleiro – proporciona, também, visitas de alunos e é um dos mais entusiastas aderentes do Projecto Guarda-Rios, uma das iniciativas da autarquia com a equipa Lousada Ambiente. A dinamização deste projecto, aliás, percebe-se a poucas centenas de metros a jusante, onde as máquinas amansam uma das margens, restaurando-lhe o figurino natural, que antes era espartilhada por um muro de pedra que provocava cheias sazonais.

Daniela Barbosa, responsável pelos projectos Lousada Guarda-Rios e Lousada Charcos, explica os vectores de intervenção: “Fazemos a monitorização do rio, patrulhando-o. Para tal, existe conjunto de voluntários que colaboram na monitorização, vigiando o rio em troços de 200 metros e preenchendo uma ficha sobre o seu estado uma vez por mês.”

Adriana Marques, profissional da área da saúde, é uma das voluntárias, pois sempre se interessou pelas questões do ambiente. Não hesitou: “É fantástico conseguir conciliar as minhas duas actividades”, diz. Como existe uma grande interligação entre todos os projectos, Daniela e Adriana vão para a zona do carvalhal perto do moinho para plantarem mais árvores.

Em paralelo com o Projecto Lousada Guarda Rios, existe o Projecto Lousada Charcos, intervencionando estas pequenas massas de água nas margens dos rios, nos jardins de casas senhoriais e nas escolas. Um dos maiores charcos do concelho, nas proximidades do rio Mezio, é uma linha de água que terá em breve um centro interpretativo através da recuperação de um moinho com pavimento de vidro para que se possa assistir ao fluxo da água. Daniela Barbosa veste o fato impermeável que lhe permite uma incursão no rio. Com uma rede, recolhe detritos e, pouco a pouco, as águas tendem a ficar mais cristalinas e límpidas. No ar, esvoaça uma garça-real, pairando sobre o Mezio como que aprovando com satisfação a acção humana, pois também esta ave, como outras, é beneficiária da limpeza que se vai efectuando. Pedro e Francisco, envergonhados mas de alma cheia, aproximam-se com o olhar aguçado da curiosidade. Faltaram às aulas, devidamente justificados pelos professores, Não perdem pitada da acção “até porque gostamos mais de estar aqui do que na aula de matemática”, brincam. Têm perfeita consciência da importância ecológica dos projectos em curso no seu concelho.

Projecto Lousada Guarda Rios

Este é, aliás, um dos pontos-chave da estratégia da Lousada Ambiente: sensibilizar os jovens para as questões ambientais, num concelho que regista a maior taxa de natalidade do país e que é também um dos mais jovens. Em todos os níveis de ensino, os alunos andam de braço dado com a conservação da natureza, assimilando conceitos e comportamentos responsáveis.

A massa estudantil é um dos maiores focos da Lousada Ambiente, concretizada no projecto BioEscola, que abrange um vasto leque de actividades para os vários níveis de escolaridade. Para confirmar a abrangência do projecto, há que ir à Casa das Videiras, que serve de sede à organização em pleno coração da vila. Num armário, e um pouco por todo o lado, encontra-se um exemplar colecção de… tudo: insectos, ossadas, reproduções de aves, casas-ninho, livros e manuais e, no laboratório, uma estufa, um aquaterrário, materiais biológicos de flora, animais aquáticos, anfíbios, répteis, fósseis de trilobites, petrologias e minerais. Pedro Sá, juntamente com Ernesto Gonçalves e Luís Cunha, responsáveis pelo BioEscola, explica, no ecrã do portátil, os microrganismos que preparou de antemão, minuciosamente recolhidos na lamela: “Mostramos aos alunos e eles demonstram grande interesse pelas actividades laboratoriais.” Rivalizando com o laboratório em entusiasmo, o teatro das marionetas capta a atenção dos mais jovens – é como contar a história da Carochinha e do João Ratão em versão ambientalista.

Projecto Bio Escola

O concelho de Lousada é fértil em mansões e casas senhoriais ou não fosse esta região um dos pilares da fundação da nacionalidade. É nestas casas que mais faz sentido o projecto Lousada Jardins, que abrange mais de 50 propriedades. São belos exemplos arquitectónicos mas, além da distinção das suas fachadas, notabilizam-se também pelos jardins anexos. Um dos casos mais paradigmáticos é a Casa de Juste, que possui uma capela própria e está rodeada de um frondoso espaço ajardinado e de árvores de grande porte. Fernando Guedes, proprietário, diz com visível agrado que a Casa de Juste, onde uma fracção é dedicada ao turismo, “é uma das primeiras parceiras do projecto, o que para nós é motivo de orgulho”. Diego Alves, responsável pelo Lousada Jardins, esclarece que “toda a extensão da propriedade abrange jardins com um quilómetro de comprimento e dez mil árvores na totalidade”. É nas traseiras da mansão que reside o ex-líbris floral: os jardins geométricos e as áreas relvadas. Mesmo sendo privados, os jardins das casas fidalgas de Lousada não deixam de integrar o património de flora da povoação, zelados por diligentes jardineiros que asseguram a sua manutenção.

Um dos factores que marca indelevelmente a paisagem do concelho em termos agrícolas são os vinhedos que se espraiam um pouco por todo o lado, mas, em Lousada, há técnicas menos comuns. Ali, existe algo que perdura nas tradições de várias gerações: a Vinha do Enforcado. São pés de vinha plantados em altura e que podem alcançar diversos metros de verticalidade, suportados por árvores vivas com feridas e zonas mais susceptíveis à decomposição e colonização por organismos vários, sendo exemplos vivos da adaptação da biodiversidade à mão humana. Além da vinha que trepa por elas acima, também outras espécies faunísticas encontram ali abrigo, como insectos, morcegos, aves e também fungos. São fontes de vida e uma memória cultural do concelho.

Esta verticalidade permite que o terreno seja aproveitado para outras culturas, rentabilizando a área agrícola. Contudo, a técnica está a perder-se porque implica esforço e perigo. A colheita é feita em escadas de madeira com degraus bastante desnivelados. E as quedas, que já aconteceram, podem trazer consequências nefastas.

Cláudia Silva, responsável pelo projecto Lousada Ancestral – Vinha do Enforcado, elucida que “até ao momento, existem mais de oito mil árvores de suporte identificadas que se distribuem por cerca de oitenta quilómetros. É um trabalho de sapa, pois, primeiro, começámos por fazer um mapeamento por satélite para perceber quais as áreas mais importantes a explorar”. Por outro lado, este estudo permite que se possa contactar com as pessoas que ainda utilizam esta prática, como Maria Antónia Barbosa, que informa: “Estas vinhas, em algumas zonas, têm mais de cem anos de idade e, para as manter, temos de fazer enxertos de umas para as outras.”

A Vinha do Enforcado estende-se entre o vale do Sousa e Terras de Basto. Não é exclusiva de Lousada, mas a sua área de distribuição é caso único no mundo.

É tempo, entretanto, de transitar da natureza para os gabinetes. Os grandes motores de arranque da Lousada Ambiente são o vereador Manuel Nunes, formado em História e Arqueologia e acérrimo defensor do ambientalismo sustentável, e Milene Matos, que assegura a gestão administrativa e organizativa do projecto. No edifício da Câmara Municipal, o gabinete de Manuel Nunes é o espelho do envolvimento do vereador em todos os projectos ambientais que estão a revolucionar a vila e a envolver os lousadenses. Em cima de uma bancada, estão empilhados vários livros, mote suficiente para Manuel Nunes apresentar o Plano Municipal de Leitura: “É uma produção nacional que consta da publicação de obras, incluindo uma de banda desenhada, que contam histórias em que o interveniente é o ambientalismo. Existem diversos autores. As obras não estão à venda, são exclusivamente para os alunos”. Fazendo um rewind no tempo, o vereador recorda o início do impulso ambiental local: “Começámos pela ciência, e não é por acaso que a equipa é constituída por tantos biólogos. Fizemos muito trabalho de investigação e tudo o resto nasceu sobre esses alicerces.”

Milene Matos, também ela bióloga, foi “recrutada” da Universidade de Aveiro e sentiu-se empolgada com o impulso conservacionista no concelho. Em 2016, assegurou a função de coordenação geral, gestão financeira e angariação de recursos. “Somos profissionais do ambiente”, faz questão de esclarecer, explicando os passos já dados: “A prioridade foi implementar uma estratégia municipal de sustentabilidade sobre cinco eixos: investigação científica, educação ambiental transversal a todo o público, envolvimento social, eficiência de recursos e agenda de sustentabilidade interna, reconhecendo que a autarquia tem de dar o exemplo.” E que esse exemplo, se bem sucedido, pode contagiar os concelhos e as regiões vizinhas.

O regresso à natureza e ao ar livre é feito na Mata do Vilar, um espaço emblemático para os lousadenses que o utilizavam como área de lazer nas décadas de 1930 e 1940. “Tem uma aura romântica”, diz Ana Maria Pereira, que nos conduz pelos trilhos e recantos do espaço verdejante.

Em 2008, o município adquiriu o terreno com intenção de o recuperar e de combater as espécies invasoras abundantes. A mata não tinha linhas de água, mas sabia-se que já as tivera. Por isso, houve um trabalho de desbaste em diversas intervenções e a água voltou a brotar. Hoje, é um lugar onírico e talvez seja a metáfora apropriada do envolvimento comunitário com a conservação da natureza. Nos últimos quatro anos, a autarquia colocou a conservação da natureza e a sustentabilidade no centro de uma estratégia integrada. Contagiou a população e inspirou o país. Como nos romances de Tolkien, tudo começou com a natureza e por causa da natureza.

O resto cabe à determinação humana.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar