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Uma raia é libertada depois de implantado um transmissor acústico pelo biólogo David Abecasis e pelo estudante de mestrado Robert Priester. Monitorizando o movimento de diversas espécies, os biólogos obtêm conhecimento mais aprofundado sobre as áreas vitais para a sobrevivência das espécies do parque marinho.

Mais de duas décadas depois da constituição do Parque Marinho Professor Luiz Saldanha, a ciência tem boas notícias.

Texto e Fotografia: Hugo Marques

Talvez inspirado pelas  sagas  do  comandante Jacques Cousteau, um jovem  investigador de biologia com 28 anos dirige-se confiante ao Ministério da Marinha em pleno Estado Novo com uma proposta absolutamente extraordinária para a época: classificar a costa da Arrábida como Parque Marinho. Corria o ano de 1965 e os trabalhos de campo para o doutoramento de Luiz Saldanha centravam-se naquela porção de território que, por uma dádiva da natureza, se formou com uma posição geográfica orientada para sul. Essa circunstância protege a costa dos ventos dominantes de norte e noroeste, tornando a Arrábida um lugar com características únicas em toda a costa continental portuguesa. A elevada biodiversidade expressa-se na ocorrência de mais de 1.400 espécies animais e vegetais. Pelas suas condições naturais, muitos peixes encontram nestas águas um lugar de refúgio, crescimento e reprodução.

Na verdade, o projecto de Luiz Saldanha teve de esperar na gaveta mais 33 anos até finalmente avançar na agenda política. Aconteceu em 1998, em plena celebração dos Oceanos com a Expo’98. Foi criada a área protegida.

A classificação de uma área até ali de uso desregrado criou inúmeras resistências que só o tempo tem conseguido atenuar. Em 2003, tiveram lugar sessões acaloradas de esclarecimento, em que participaram os biólogos Miguel Henriques, do Parque Natural da Arrábida, e Emanuel Gonçalves, do ISPA – Instituto Universitário. Direccionavam-se à comunidade piscatória e de navegação de recreio com o objectivo de estabelecer um plano de ordenamento para o Parque Natural da Arrábida depois do seu alargamento para inclusão desta área marinha, mas quase degeneraram em conflitos. Foram as dores de crescimento de uma área marinha protegida então muito jovem.

O mar e os seus recursos, ao contrário da terra, foram geridos durante séculos como um território de recolecção sem qualquer estratégia de conservação. Esta visão simplista levou a que vastas zonas dos oceanos estejam hoje quase em colapso.

Passaramentretanto 22 anos. Nos bastidores de um parque marinho com 53 quilómetros quadrados de extensão, existe todo um trabalho pouco conhecido que é vital para perceber a saúde do ecossistema e compreender se valeu a pena colocar em prática a brilhante ideia de Luiz Saldanha, honrando desta forma a sua memória. Chegou a altura de a ciência apresentar resultados.

Diferentes equipas de investigação de várias universidades estão quase em permanência na Arrábida numa avaliação constante ao abrigo do programa InforBiomares, que resulta de uma candidatura da Liga para a Proteção da Natureza ao Programa Operacional da Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos, tendo como parceiro o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). A execução do projecto está a cargo do consórcio ISPA – Instituto Universitário e Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve.

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Ao contrário dos receios iniciais, a implementação do plano de ordenamento do parque (POPNA) em 2005 não prejudicou as pescas em Sesimbra. As descargas na lota foram maiores em volume e em euros facturados.

Nas sessões de esclarecimento do início do século XXI, foi prometido às comunidades locais transparência na apresentação de resultados e uma esperança concreta de recuperação da biomassa e da biodiversidade perdidas nas águas da Arrábida. Bem gerida, uma área protegida apresenta benefícios para todas as comunidades limítrofes, seja na exploração sustentada de velhos recursos, seja na criação de novas oportunidades económicas.

Mais de duas décadas depois, existem evidências científicas de que algumas espécies já estão em recuperação. É o caso do sargo e da sargueta.

Nas várias saídas para o mar com David Abecasis, biólogo da Universidade do Algarve, acompanhei o projecto de marcação de raias e robalos com transmissores acústicos. Que efeitos positivos tem afinal uma reserva nos mananciais de peixe?

“A telemetria permite perceber os movimentos dos peixes entre as zonas de proteção total do parque marinho e as áreas de conservação parciais e complementares”, diz o biólogo. “Esses dados são importantes porque melhoram o conhecimento sobre a biologia das espécies e o espaço que estas ocupam.

E essa informação é relevante no plano de gestão da reserva porque permite perceber qual o nível de protecção oferecido pelo desenho actual e possibilita ao ICNF, a entidade responsável pela área marinha, ajustamentos no plano de ordenamento, alterando as diferentes zonas de protecção.”

Para que os movimentos fiquem registados, os peixes são capturados com a colaboração de uma embarcação de pesca artesanal de Sesimbra. De seguida, o investigador faz uma pequena incisão na cavidade abdominal do robalo ou da raia, introduzindo ali um pequeno transmissor. Como cirurgiões treinados, suturam rapidamente o corte e o animal é libertado com toda a tranquilidade. A mestria e a velocidade da operação são essenciais. Através de um sistema wireless, são transmitidos sinais aos 40 receptores acústicos subaquáticos instalados no parque. Com baterias que duram cerca de um ano, os equipamentos vão registando milhares de dados. A informação recolhida é depois tratada. Por vezes, surgem surpresas. “Há alguns anos, marquei corvinas no Algarve e, com o auxílio de receptores acústicos instalados ao longo da costa do Algarve e por acompanhamento por satélite, percebemos que as corvinas viajaram até ao estreito de Gibraltar. Depois regressaram a território português, deslocando-se até Sesimbra, onde permaneceram algum tempo até se dirigirem de novo para águas algarvias.”

O tubarão-azul poderá ter uma zona de maternidade em redor do parque marinho. “Durante a Primavera e o Verão, temos filmado inúmeros juvenis da espécie.”

Por momentos penso na fantástica resiliência das corvinas que, apesar do enorme esforço de pesca, conseguem sobreviver a tantas viagens…

Um dos projectos emblemáticos na Arrábida é a recuperação das pradarias de plantas marinhas outrora abundantes. O CCMAR e o ISPA lideram o processo. Na década de 1940, as pradarias marinhas chegaram a ocupar uma área estimada de 260 mil metros quadrados. A pesca com utilização de ganchorras e as amarrações das embarcações contribuíram fortemente para a redução desta mancha para cerca de 70 metros quadrados, apurou um censo em 2003. Os pescadores não conheciam a utilidade destas manchas subaquáticas de vegetação e elas foram progressivamente desaparecendo. Caso fossem uma mancha vegetal em terra, o alarme talvez tivesse sido mais célere; debaixo de água, porém, os sinais de perigo ecoam com mais dificuldade.

As pradarias marinhas são engenheiras do ecossistema. Fixando as areias, as pradarias são também muito importantes para a redução da erosão costeira. Funcionam como florestas subaquáticas e, como tal, tornam-se fundamentais para a produção de oxigénio e retenção de CO2. São também o abrigo de muitas espécies de juvenis de peixes e crustáceos, como o linguado, a raia, o choco ou a santola, que encontram naquele habitat emaranhado o refúgio contra predadores e o espaço para se desenvolverem. O cavalo-marinho também era uma presença habitual nestas pradarias, mas há muito que o icónico animal se tornou raro na Arrábida.

O processo de transplante de ervas marinhas é muito lento e a operação complexa, apresentando enormes dificuldades. Já se registaram tentativas infrutíferas no passado, mas tempestades violentas conspiraram para anular esses esforços. A bióloga Ester Serrão, da Universidade do Algarve, é a responsável científica deste projecto na Arrábida. “Do ponto de vista técnico, representa transportar pesos e volumes consideráveis dentro e fora de água”, explica. “O trabalho subaquático é realizado em condições de visibilidade e corrente pouco favoráveis.” Conhecia-se também pouco sobre qual a melhor época do ano para transplantar a espécie e qual a área ideal de transplante, bem como os locais mais promissores para a operação. Mesmo a população dadora foi testada por tentativa e erro até apurar uma candidata susceptível de mais sucesso. Os testes para aferir as melhores condições de transplante foram realizados entre 2007 e 2010 numa área entre o Portinho da Arrábida e Galapos.

Após um mergulho de monitorização com outro investigador do projecto, o biólogo Diogo Paulo, do CCMAR, explica que, para tentar recuperar as pradarias, foram utilizadas plantas da espécie Zostera marina recolhidas na ria Formosa na Primavera, transplantadas para áreas iniciais superiores a seis metros quadrados. Passados dez anos, um dos ensaios já expandiu mais de dez vezes a área original, ocupando hoje 115 metros quadrados.

A limitação da quantidade de plantas que se pode retirar da ria Formosa para a Arrábida é o maior obstáculo à continuidade do projecto em larga escala. Actualmente, são feitos transplantes experimentais em pequena escala para não colocar em risco a biomassa das populações dadoras, também elas sob pressão. Neste momento, os cientistas do CCMAR tentam transplantar plantas do estuário do Sado para a Arrábida, procurando replicar o sucesso registado com os transplantes da ria Formosa.

Como nos transplantes de espécies vegetais em terra, o objectivo dos transplantes no mar é permitir que as pradarias cresçam de forma natural. Os investigadores sabem que o processo de recuperação, apesar de lento, é possível na Arrábida. A conversa com o investigador recorda-me a nossa imersão, a observar o movimento das plantas ao sabor da pequena ondulação que se fazia sentir, transformando o tapete verde numa espécie de bailado sem fim.

Nos trabalhos científicos em cursona Arrábida, equipas diferentes complementam-se. Os censos são um elo fundamental no fluxo da informação recolhida no parque. A coordenar esta linha de investigação está o Departamento de Biologia do ISPA liderado por Emanuel Gonçalves, apoiado pelo biólogo e estudante de doutoramento Gustavo Franco.

“Os censos fornecem inúmeras respostas decisivas para compreender a evolução do parque marinho. Fazemos censos em substrato rochoso até aos 12 metros por observação directa com escafandro autónomo desde 2006”, diz. Com estruturas fixas e derivantes equipadas com câmaras de vídeo, a equipa começou igualmente a cartografar a vida marinha em habitat rochoso e arenoso até à cota de 100 metros desde 2019. “Hoje conseguimos perceber que houve um aumento populacional e de biomassa e que encontramos, por exemplo, maiores exemplares de sargo, sargueta, sargo-veado e pargo-sêmea.”

Entretanto, o melhor conhecimento das profundezas começou a alimentar uma hipótese inesperada. Têm surgido evidências de que o tubarão-azul poderá ter uma zona de maternidade em redor do parque marinho, numa área próxima das 15 milhas náuticas. “Durante a Primavera e Verão, temos filmado inúmeros juvenis da espécie”, diz Gustavo Franco.

“A monitorização permanente oferece dados muito fiáveis e o aumento das descargas em lota da pesca local são uma prova de sucesso”, diz. Há duas décadas, os jornais da região amplificaram o sentimento das comunidades piscatórias, que temiam pelo futuro do seu modo de vida caso o plano de ordenamento do parque impusesse restrições de usufruto das águas. Agora, os dados do investigador são encorajadores e confirmam um sentimento de esperança que ecoa no mar da Arrábida. “Os frutos do trabalho realizado já estão à vista de todos”, remata Gustavo Franco.

Os benefícios de um parque marinho também se sentem na própria comunidade piscatória local, mesmo que, ao primeiro embate, se registe alguma ondulação encapelada. O aumento da biomassa traduz-se em maiores capturas nas zonas adjacentes da reserva. A interdição de algumas artes de pesca dentro do parque, como a ganchorra, beneficiou a recuperação das pradarias marinhas. O esforço de vigilância levado a cabo pelo ICNF  e pela Polícia Marítima, mesmo com falhas, tem permitido reduzir a pesca clandestina e as acções de surpresa são dissuasoras. Nunca se conseguirá extinguir por completo algumas actividades ilegais, mas, mesmo com recursos escassos, há resultados interessantes.

Acompanho uma missão de combateà pesca ilegal na Arrábida para sentir na pele as dificuldades que se colocam nestas iniciativas. Numa espécie de táctica militar, saímos para o mar em plena noite sem qualquer luz de presença na embarcação. O vigilante do ICNF que coordena a fiscalização está de olhos na bússola. É conhecido como Carlos “Lobo-do-mar”, pois navega nestas águas desde criança e não existe recife ou banco de areia que não conheça. Aquilo que para qualquer um seria navegar quase às cegas é para ele uma volta de rotina.

“Temos mesmo de navegar às escuras para não sermos vistos”, explica. “Os poucos prevaricadores que ainda existem estão bem organizados e recorrem a uma espécie de olheiros, provavelmente pagos, que comunicam quando a fiscalização sai para o mar, afirma o vigilante.

Neste jogo permanente do gato e do rato e com o mar de mau humor, aproximamo-nos da costa da Arrábida. Pequenos pontos de luz vão surgindo no horizonte, mas o nosso “Lobo-do-mar” conhece de cor todas as pequenas embarcações de pesca artesanal que estão autorizadas a operar na área.

“Há alguns anos, fui ameaçado de forma muito grave por um pescador”, conta. “O caso chegou a tribunal. Hoje, temos uma relação cordial e de respeito mútuo. Os pescadores compreendem a importância do parque e hoje actuam como vigilantes. Quando detectam uma embarcação de pesca a actuar de forma incorrecta, comunicam connosco.” A missão de vigilância não detecta irregularidades. Do ponto de vista jornalístico, é uma decepção. Do ponto de vista conservacionista, regressamos ao porto de Setúbal com a consciência do dever cumprido e de que o Parque Marinho Professor Luiz Saldanha começa, de facto, a consolidar-se como uma inevitabilidade.

As vantagens de uma área protegidabem-sucedida fazem-se sentir na economia local. Sesimbra é, há muito, a capital informal das actividades subaquáticas em Portugal. Os centros de mergulho enchem-se todos os fins-de-semana com mergulhadores que afluem à pequena vila em busca de um vislumbre da exuberância da vida marinha.

Com um mar quase sempre tranquilo, Sesimbra é o lugar de eleição para mergulhadores mais ou menos experientes. E ninguém quer mergulhar num deserto subaquático. Os dados secos dos censos de vida marinha materializam-se também para estes utilizadores das águas locais. Generalizou-se a percepção de que existe mais vida marinha e até mais diversificada. No passado, quando a caça submarina era abundante, os peixes tinham medo dos mergulhadores. Hoje deixam-se aproximar. Constata-se essa certeza numa imersão no destroço do River Gurara, no cabo Espichel. A sensação é parecida com o interior de um aquário. No périplo por estas águas, falta ouvir um dos “pais” do Parque Marinho. Emanuel Gonçalves é agora vice-presidente do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e administrador da Fundação Oceano Azul. Ao fim de 22 anos, sente que valeu a pena o esforço empreendido numa batalha que chegou a parecer perdida. “As áreas marinhas protegidas são instrumentos de gestão do oceano que permitem alcançar objectivos de sustentabilidade e conservação da natureza”, diz. “E a ciência mostra que, quando implementadas de forma eficaz e em áreas fortemente protegidas, produzem mais peixe, peixes maiores e maior diversidade. Desta forma, cria-se um banco de capital natural que quanto maior for e mais protegido estiver, melhores resultados vai ter.”

Nas palestras e entrevistas, Emanuel Gonçalves utiliza com frequência a metáfora do banco. Uma área marinha protegida é um pouco similar ao depósito de valores num banco, na expectativa de que sejam bem cuidados e possam crescer. “Serão essenciais para ajudar a recuperar os stocks de peixe sobreexplorados”, acrescenta.

O Parque Marinho Professor Luiz Saldanha é uma das poucas áreas marinhas protegidas a nível europeu que têm um programa de monitorização de longo prazo que permite avaliar os efeitos das medidas de conservação e a sua eficácia. Ao abrigo dessa intervenção, a pequena pesca local beneficia da existência do parque. Contrariamente ao lamento mais ouvido nas sessões de 2003, não se registam perdas de valor das vendas em lota e as pequenas embarcações mais dependentes deste parque marinho têm aqui um acesso exclusivo.

Apesar da sua criação em 1998, a área protegida apenas entrou em funcionamento pleno em 2009, com a promulgação do  plano  de  ordenamento. O balanço, portanto, faz-se só com uma década de implementação. “Por um lado, existe mais consciencialização sobre a importância de proteger esta área única no país e um benefício para a pequena pesca local e conservação das espécies: comprovamos um aumento de efectivos e de biomassa”, diz Emanuel Gonçalves. “Por outro lado, ainda persistem actividades ilegais que prejudicam o esforço colectivo de proteger esta área marinha nacional.”

A luz da manhã irrompe na baía de Sesimbra e, por momentos, imagino o rei Dom Carlos no iate Amélia nas primeiras campanhas oceanográficas realizadas em Portugal. De certa forma, a grande aventura oceanográfica moderna portuguesa começou também aqui, com esse projecto informal. Num mar cor de estanho, vamos percorrendo tranquilamente as milhas que nos separam de mais um ponto de mergulho. Cada lugar da costa é um paraíso que queremos explorar. No fundo rochoso coberto de gorgónias, um polvo espreita curioso no seu esconderijo e deixa-se tocar. Quase no fundo, com a coluna de água sobre mim, esta espécie de cumprimento lembra-me uma frase de Jacques-Yves Cousteau: “As pessoas protegem o que amam e só amam o que conhecem.”

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