solastalgia

Perspectiva do Mar de Chukchi, entre a Sibéria e o Alasca, no Verão. A extensão média do gelo marinho em 2019 foi a mais baixa desde que os satélites começaram a monitorizá-la em 1978. Sem gelo, os aldeãos da costa não podem caçar os animais dos quais a sua sobrevivência depende há muitas gerações.

Texto e Fotografias: Pete Muller

Quando as minas de carvão se espalharam como fendas através da paisagem de Hunter Valley, na Austrália, o telefone do escritório de Glenn Albrecht começou a tocar. Corria o início da década de 2000 e Glenn, professor universitário de Estudos Ambientais, interessava-se pelas repercussões emocionais da extracção mineira nas comunidades locais. Durante várias gerações, a região fora conhecida pelos seus bucólicos campos de alfalfa, quintas de criação de cavalos e vinhas. A indústria mineira do carvão há muito que fazia parte da vida económica, mas, de repente, crescera para satisfazer a procura mundial e as novas tecnologias extractivas provocaram uma vaga de novas explorações mineiras por todo o vale.

Ao tomarem conhecimento do interesse de Glenn Albrecht, os moradores entristecidos mostraram-se desejosos de partilhar as suas histórias. Descreveram explosões que abalavam a terra, o ruído constante da maquinaria, o brilho fantasmagórico das luzes industriais que iluminavam a noite e a poeira negra invasiva que revestia as suas casas, por dentro e por fora. Mostravam-se preocupados com o ar que respiravam e com a água que bebiam. A sua terra desaparecia e eles sentiam-se impotentes para travar a destruição.

Algumas pessoas do vale organizaram uma batalha jurídica para manter as minas à distância, mas muitos precisavam dos empregos criados pelas minas. Em última análise, os bolsos fundos dos interesses mineiros acabaram por prevalecer. A paisagem e boa parte do tecido social nela formado transformou-se em danos colaterais.

À medida que as minas se espalhavam, Glenn começou a reparar num tema comum às reacções emocionais de alguns habitantes do vale. Eles sabiam que as minas eram a fonte da sua tristeza, mas tinham dificuldade em escolher as palavras precisas para exprimir os seus sentimentos. “Era como se estivessem a sentir algo semelhante a saudades de casa, só que nenhum abandonara o seu lar”, explica.

Aquilo que estava a acontecer, pensou, era que a degradação física do vale estava a minar a felicidade que as pessoas ali tinham sentido. E, por isso, à medida que as minas transformavam o verde dos campos em cinzento, os moradores sentiam aquilo a que Glenn chamou “solastalgia”, um sentimento definido como a dor de perder a felicidade do lar.

mina de carvão

A mina de carvão Mount Thorley Warkworth é uma de várias “superminas a céu aberto” existentes em Hunter Valley, na Austrália. Funciona 365 dias por ano e emprega cerca de 1.300 pessoas. O proprietário está a ponderar a sua expansão, mas muitos moradores afirmam que a gigantesca mina gerou neles um sentimento de pena. “Não sentimos apenas tristeza pelo que outrora existiu”, afirma um morador. “Também sentimos tristeza por aquilo que poderia ter sido  e agora já não vai ser.”

Mais de uma década depois, ouvi esta palavra invulgar enquanto assistia a um filme sobre a seca. Descobri dezenas de milhares de resultados relacionados. Encontrei artigos académicos, conferências e reportagens e até uma exposição de escultura em Nova Jersey, um álbum pop na Austrália, um concerto de música clássica na Estónia, todos inspirados pela palavra de Glenn Albrecht.

Ocorreu-me que o conceito de solastalgia parecia marcar uma nova fronteira no nosso relacionamento com o ambiente, o reconhecimento de uma mistura de emoções que várias pessoas sentiam, à medida que paisagens outrora familiares se tornavam irreconhecíveis. Todos sabemos que os seres humanos estão a mudar o planeta, mas neste caso, e nesta nova palavra, havia um traço da forma como essas alterações estão a mudar-nos.

“Se a linguagem não for suficientemente rica para nos permitir descrever e compreender estes fenómenos, temos de criá-la”, disse Glenn quando o visitei na sua casa, em Hunter Valley. “Por que razão não possuímos uma palavra que corresponda a um sentimento humano?”, perguntou. Especialmente um sentimento “que é profundo, óbvio, sentido em todo o mundo em diversos contextos e que provavelmente já foi sentido durante milhares de anos em circunstâncias semelhantes”.

Pareceu-me uma pergunta válida. Ao longo da história, as cheias, os incêndios florestais, os sismos e os vulcões, bem como as civilizações expansionistas e os exércitos conquistadores, alteraram definitivamente paisagens amadas e perturbaram sociedades. Os nativos americanos tiveram esse sentimento quando os europeus transformaram a América do Norte. “Esta terra pertencia aos nossos pais”, disse Satanta, um chefe dos kiowa do século XIX. “Mas quando vou ao rio [Arkansas], vejo acampamentos de soldados nas margens. Estes soldados cortam as minhas árvores, matam os meus búfalos: e quando vejo isso, parece que o meu coração vai rebentar.”

quadro O Meandro

Em O Meandro, o pintor do século XIX Thomas Cole descreveu o vale do rio Massachusetts desprovido de árvores. Em Nova Iorque, lamentou a perda das florestas do vale do rio Hudson, devido à expansão da agricultura.  Fonte: Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque/Art Resource, NY

A Revolução Industrial produziu alterações ainda mais radicais na paisagem, com a disseminação de metrópoles, caminhos-de-ferro e fábricas. Quando o vale do Hudson, em Nova Iorque, foi desmatado para dar lugar à agricultura e alimentar uma próspera indústria de curtumes, o pintor oitocentista Thomas Cole lamentou a destruição das suas adoradas florestas. “Só posso exprimir a minha pena ao ver a beleza de tais paisagens desaparecer tão rapidamente”, escreveu. “A devastação do machado aumenta diariamente. Os mais nobres panoramas tornam-se desolados e, frequentemente, com uma arbitrariedade e um barbarismo dificilmente credíveis numa nação civilizada.” A minha mãe experimentou uma versão menos grave desse sentimento em meados do século XX. Ela cresceu em Long Beach Island, ao largo da costa meridional de Nova Jersey. Nos seus pântanos intactos, ela descobriu o seu duradouro amor pela biologia e pelo mar. Durante a década de 1950, a construção imobiliária acelerou quando os turistas ricos do continente compraram terra e edificaram as suas casas de férias. “Percebi quase imediatamente o que estava a acontecer”, diz. “Fiquei furiosa. Andei por todo o lado a arrancar os postes dos agrimensores.”

Faz parte da nossa espécie dinâmica reconfigurar as paisagens de maneira a satisfazer as suas necessidades e desejos, mas a escala e ritmo da transformação no século XXI não tem precedentes. Com a nossa população a aproximar-se rapidamente da cota de 8.000 milhões de pessoas, os seres humanos estão a alterar mais o planeta do que em qualquer   época   histórica.   Continuamos a  abater  florestas,  a  emitir   carbono e a despejar substâncias químicas e plástico na terra e nos cursos de água. E, como resultado, sofremos vagas de calor ruinosas, incêndios florestais, surtos de tempestade, glaciares em fusão, subida do nível dos mares e outras formas de destruição ecológica. Tudo isto causa rupturas políticas, logísticas e financeiras. E também cria desafios emocionais.

Só nos últimos anos é que os cientistas começaram a dedicar recursos ao estudo da associação entre alterações ambientais e saúde mental. Naquele que é o maior estudo empírico feito até à data, uma equipa coordenada por investigadores do MIT e de Harvard analisou, entre 2002 e 2012, os efeitos das alterações climáticas sobre a saúde mental de quase dois milhões de residentes nos EUA aleatoriamente seleccionados. Descobriram que a exposição ao calor e à seca aumentava o risco de suicídio e o número de consultas de psiquiatria. Além disso, as vítimas de furacões e cheias tinham maiores probabilidades de sofrer perturbação de stress pós-traumático e depressão.

As emoções podem ser difíceis de exprimir para as pessoas traumatizadas pela perda de uma paisagem. “A dor sentida ao perder-se uma terra é completamente diferente de qualquer outra dor, porque é difícil de partilhar”, diz Chantel Comardelle, quando visito a sua comunidade na costa do Louisiana, onde o nível do mar está a subir a um ritmo alarmante e a inundar a terra. Chantel nasceu na ilha de Jean Charles, uma ilha quase desaparecida que perdeu 98% do seu território desde 1955. A comunidade fragmentou-se. “Não é igual à perda de um ente querido, nem qualquer outro fenómeno que as outras pessoas compreendam”, afirma.

Nesta era de alterações climáticas globais, há mais pessoas que compreendem bem. À medida que a ilha de Jean Charles se desintegrava, Chantel e outros líderes locais decidiram contactar outras pessoas que enfrentam os mesmos desafios. “Há uma comunidade no Alasca que está a passar pela mesma situação”, conta, referindo-se à aldeia yupik de Newtok, também confrontada com um processo de afundamento agudo e perda de terra. “Conseguimos sentar-nos e conversar… Tínhamos quase os mesmos sentimentos, as mesmas emoções”, diz. “Percebi que não estava tão sozinha. Isto não é só uma invenção da minha cabeça. É real.”

Nos últimos anos, viajei para vários locais onde a paisagem tem sofrido uma transformação dramática. Quis compreender melhor as alterações físicas ocorridas no solo, mas também a forma como essas alterações se repercutem nas vidas dos habitantes. Só um punhado de pessoas ouvira a palavra solastalgia, mas muitas partilharam descrições inesquecíveis da experiência que a palavra pretende definir. Defrontam-se, por um lado, com os tremendos desafios práticos causados pela perda de uma paisagem e, por outro, com o complexo sofrimento emocional de perda do seu sentimento de pertença a um sítio do mundo.

Por enquanto, solastalgia é uma palavra a vibrar nas margens da língua e Glenn Albrecht espera que ela perdure ali. “É uma palavra que não deveria existir, mas teve de ser criada por circunstâncias difíceis”, afirma. “Agora tornou-se global. Isso é terrível… Vamos livrar-nos dela! Vamos livrar-nos das circunstâncias, das forças que criam solastalgia!”

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