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Trilho do Tio Tom: 300 degraus perto das Lower Falls.

Texto: Xabier Bañuelos 

Ao entardecer, o uivo do lobo toma conta do ar nos vales de Yellowstone, o parque mais antigo dos Estados Unidos e do mundo. O macho alfa levanta a cabeça, inclina-a ligeiramente para trás e emite um longo, sonoro e profundo gemido que ziguezagueia entre os salgueiros e os álamos até que se funde com o cosmo.

A alcateia imita-o formando um coro ancestral que faz tremer as entranhas, não de medo, mas de emoção. Vamos ao seu encontro no vale do rio Lamar, que representa a alma bravia do Parque Nacional de Yellowstone, provavelmente o melhor local dos Estados Unidos para observar fauna selvagem. Os amantes da natureza posicionam-se com câmaras fotográficas ao longo das ribeiras do Lamar, na esperança de que a sorte os favoreça e lhes conceda o espectáculo de um lobo a perseguir a sua presa favorita, o enorme veado local.

Em 1872, o presidente dos Estados Unidos Ulysses S. Grant assinou a lei que protegeu esta imensa extensão de território indomável: 9.000 km2 encaixados entre os estados de Wyoming e Montana e uma pequena porção do Idaho. Yellowstone nasceu como o primeiro parque nacional do planeta. Contudo, nem isso evitou que em 1925 fosse caçado o último exemplar do lobo-cinzento.

Com a sua reintrodução em 1995, não só se restaurou o equilíbrio perdido como se recuperou igualmente a essência do parque, o verdadeiro factor que desencadeou o desejo de o promover. Yellowstone, na verdade, antecipou até em vários meses a criação do Serviço Norte-Americano de Parques. Hoje, é um santuário de fauna, pois preserva os grandes carnívoros e herbívoros do planeta – o outro ícone do parque é o bisonte. O grande herbívoro das pradarias esteve prestes a passar para a categoria de lenda no século XIX, depois de décadas de abates indiscriminados. Alguns sobreviventes encontraram refúgio e prosperaram. Hoje, a população local supera os quatro mil indivíduos.

É difícil descrever a sensação vivida quando se avista o primeiro búfalo. Pode acontecer nas pradarias de Madison, sob o olhar do monte Haynes, percorrendo somente uma dezena de quilómetros desde a porta Oeste. Apesar da certeza de que serão avistados, o visitante chega a duvidar dos sentidos… até que um bisonte se cruza mesmo no seu caminho, parcimonioso, conhecedor da sua própria força e tão próximo que seria possível acariciá-lo. Ao longo dos dias, o visitante verá centenas, mas na sua memória os bisontes estarão para sempre ligados à planície fértil do rio Madison.

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OS BIG FIVE, SIX, SEVEN… Não há uma certeza quanto ao número de «grandes» que habitam Yellowstone. O bisonte, o lobo e o urso são indiscutíveis, mas a partir daí existem diversas listas. Três ungulados competem pelas posições quatro e cinco: o alce, o veado e o carneiro selvagem. Há quem reivindique que a selecção de indispensáveis deve incluir o puma, embora seja escasso e quase impossível de ser visto. Em qualquer dos casos, a lista de animais que se conseguem observar em Yellowstone é, por sorte, suficientemente ampla para conseguir contentar todos: urso-negro, coiote, veado da Virgínia, antilocapra, pelicano, águia pescadora, cisne-trombeteiro, cão-da-pradaria, marmota, pigargo-americano… E o mais interessante é que a maioria deles é facilmente observada, especialmente durante as primeiras e as últimas horas do dia. O parque tem normas muito restritas a respeito da observação da fauna que convém conhecer antes de empreender qualquer itinerário.

Yellowstone configura-se com uma mistura de Shangri-La, de um local alheio à passagem do tempo, de um relato do Oeste no qual se pode postular como pioneiro de terras desconhecidas e de um espaço lúdico onde simplesmente se pode divertir. Os seus 8.983km2 articulam-se em redor de uma rede de estradas. A estas somam-se teias de trilhos que introduzem o visitante num universo de horizontes heterogéneos que permitem escolher entre passeios simples, caminhadas mais exigentes e rotas para entrar em territórios recônditos depois de dias de caminho e noites passadas sob as estrelas.

A complexidade do relevo proporciona vislumbres de beleza sem descanso. Os rios esculpem vales de labirintos lacustres entre os quais vagueiam os alces. Outras vezes alimentam lagos onde pescam as garças e nadam as lontras e os castores. E frequentemente encaixam-se em canhões pelos quais a água se precipita num rosário de cascatas: Gibbon Falls, Firehole Falls, Mystic Falls, Kepler Cascades, Undine Falls, Wraith Falls…

As mais conhecidas e comoventes são as Lower Falls, onde o Grande Canyon do rio Yellowstone se estreita até quase estrangular o caudal entre as paredes de um prolongado precipício. Os hoodoos ou chaminés de fadas surgem das profundidades como dentes afiados em cujos nichos nidificam aves de rapina. Depois do estrondo e da nuvem de gotas volatilizadas, a corrente cai do seu rumo horizontal e despenha-se a grande altura.

As pradarias, as montanhas e as florestas cobrem quase dois terços do parque. Aí, domina o frondoso pinheiro lodgepole, a palavra que poderia ser traduzida como “vara de tipi” e que relembra que esta foi a terra das nações índias. Embora localizado na cordilheira das montanhas Rochosas, Yellowstone ocupa uma zona de transição entre as Grandes Planícies, o Sul do Planalto e o Norte da Grande Bacia. Isto transforma-o num excelente exemplar da floresta temperada e dota-o, além disso, de grande variedade paisagística e biológica. Ao mesmo tempo, faz do parque uma encruzilhada. Embora tenham sido os crow a habitarem o vale do rio Yellowstone, a região viu igualmente a passagem de pés negros, shoshones, bannocks, gros-ventre e inclusivamente sioux.

A paisagem volta a captar os sentidos do visitante para os embarcar num mar de pausados sobressaltos e poderosos caleidoscópios. O olhar funde-se com pequenos arcos-íris ondulantes; o olfacto  e o paladar percebem o amargo hediondo do enxofre;  o tacto capta a energia do solo e sente a humidade quente da água, dispersa em finos chuviscos que não vêm das nuvens; e a audição acolhe a respiração de uma terra viva que exala o seu poder com a contundência de um canhão. Se existe algo que o ambiente obriga a recordar de forma permanente é o facto de o visitante se encontrar sobre um supervulcão. Que está activo.

Em frente do magnífico Riverside Geyser, em pleno apogeu do seu jorro ascendente a 23 metros sobre o rio Firehole, o visitante conseguirá reportar-se a épocas passadas do calendário geológico. Há 640 mil anos, o ponto quente que está subjacente sob a superfície de Yellowstone provocou a última grande erupção das dez que já aconteceram ao longo de 12,5 milhões de anos 

Como consequência, formou-se uma imensa caldeira com quase 4.000 km2. Este supervulcão constitui o coração do parque, cuja actividade alimenta mais de duzentos géiseres, fumarolas e milhares de fontes termais.

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Ao caminhar pelo Upper Geyser Basin, a maior concentração de géiseres do mundo, o assombro do visitante será comparável ao que deveriam ter sentido os primeiros homens brancos que entraram neste território. Esses caçadores e exploradores anteciparam-se à expedição de Washburn-Langford-Doane em 1870 e à que foi liderada por Ferdinand Vandeveer em 1871, que definiram as bases para a declaração de Yellowstone como área protegida. Um deles foi Jim Bridger que, ao regressar das suas longas viagens, descreveu montanhas de cristal e lagoas fumegantes. O topógrafo do exército J.W. Gunnison acreditou nele e viajou até Yellowstone para o confirmar. No seu regresso, falava de solos que retumbavam como o galopar dos cavalos, de jorros que disparavam com roncos aterradores e de fontes onde a água era tão quente que permitia cozinhar.

É inquietante ler as crónicas de Gunnison sabendo que, mais tarde ou mais cedo, Yellowstone voltará a entrar em erupção. Por isso, o visitante acaba por ser percorrido por um calafrio perante as explosões do géiser Old Faithful, ou quando em Back Basin observa a actividade do maior dos géiseres, o Steamboot, capaz de elevar colunas de água a ferver a mais de 90 metros de altura.

As fontes termais constituem outro dos aliciantes originados sob o solo do parque. Em Porcelain Basin, vestem-se de um opaco e brilhante turquesa mas, geralmente, são tão transparentes e banhadas de tantas cores que parecem portais para outros mundos. A mais famosa é a Grand Prismatic Spring, pelo seu tamanho e os seus intensos tons vermelhos, azuis, amarelos, verdes e ocres. Talvez o visitante fique ainda mais surpreendido com as nascentes mais pequenas, como a delicada Morning Glory Pool. Curiosamente, as cores das fontes devem-se aos microrganismos que prosperam com o calor.

A caminho do Norte existem diversos pontos de visita obrigatória: as fumarolas de Roaring Mountains, as paredes vítreas de Obsidian Cliff e a muralha de colunas basálticas de Sheepeater Cliff, junto do Gardiner.

O principal objectivo é chegar a Mammoth Hot Springs e contemplar estas nascentes singulares originadas pela água quente que, ao deslizar pelas vertentes, vai depositando em cada patamar o carbonato de cálcio que transporta. O resultado é uma paisagem fantástica de perfis ondulados e cores pastel que esculpe novas formas todos os dias.

De Tower-Roosevelt e depois de ver a árvore petrificada e as montanhas reflectidas em Floating Island Lake, o visitante dirige-se a Canyon Village. A caminhada detém-se nas piscinas sulfurosas e nos poços de Sulphur Caldron e Mud Volcano, aproximando-se depois de Dragon’s Mouth Spring, talvez comparável a uma porta do inferno.

Se existe algo que o ambiente obriga a recordar de forma permanente é o facto de o visitante se encontrar sobre um supervulcão.

O emblemático Fishing Bridge oferece a primeira panorâmica do lago Yellowstone. Com 352km2 e a metade meridional dentro dos limites da grande caldeira, éo maior lago de montanha dos Estados Unidos. Na sua margem esquerda, encontrase West Thumb, uma baía circular cuja origem se situa numa erupção ocorrida há 174 mil anos. O West Thumb Geyser Basin oferece outra colecção de fumarolas, géiseres junto da margem e fontes termais como a Bayss Pool que, com 16 metros, é a mais profunda do parque nacional.

Há um século e meio, Warren Angus Ferris, funcionário da American Fur Company, decidiu comprovar se seriam reais as maravilhas que se contavam sobre Yellowstone. Transformou-se sem querer no primeiro turista do parque. No livro que escreveu depois da viagem, Life in the Rocky Mountains (1840), notou: “Perante a magnitude e o insólito que avança sobre os meus olhos, tive de exclamar, como a rainha do Sabá, que não me tinham contado nem metade.”

CADERNO DE VIAGEM

Chegar: Salt Lake City recebe voos internacionais. Cody e Jackson são os aeroportos domésticos mais próximos.

Deslocar-se: A melhor opção é o automóvel ou a autocaravana.

Dormir: O parque tem 9 hotéis e 12 zonas para acampar.

Permissão de entrada: Deve adquirir uma autorização por pessoa e por veículo. Inclui a visita ao Parque Grand Teton.

www.nps.gov/yell/index.htm

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