permafrost

A cratera de Batagaika, na zona oriental da Sibéria, com quase um quilómetro de largura  e em processo de crescimento, é a maior de muitas existentes no Árctico. À medida que o solo permanentemente gelado e gelo enterrado derretem, o solo abate, formando crateras ou lagos.

permafrost do Árctico está a derreter mais depressa do que o esperado, libertando gases que poderão acelerar as alterações climáticas, entre outras consequências.

Texto: Craig Welch

Fotografias: Katie Orlinsky

Kolyma, por baixo de um enorme penhasco de terra prestes a colapsar. Era Verão na zona oriental da Sibéria, muito acima do Círculo Polar Árctico, naquela região da Rússia que fica mais perto do Alasca do que de Moscovo. Não havia qualquer ínfima partícula de gelo ou de neve à vista. No entanto, neste penhasco chamado Duvanny Yar, o Kolyma mastigara e expusera o que está por baixo: uma camada de solo permanentemente gelado, também conhecido como permafrost, com centenas de metros de profundidade, que está a aquecer depressa. Ramos de árvore, outra matéria vegetal e partes do corpo de animais da Idade do Gelo (mandíbulas de bisonte, fémures de cavalo, ossos de mamute) foram despejados numa praia que sugava as botas de Serguei. “Adoro Duvanny Yar”, disse, enquanto retirava fósseis do lodo. “É como um livro. Cada página é uma história sobre a história da natureza.” 

Em 23 milhões de quilómetros quadrados, as alterações climáticas estão a escrever um novo capítulo. O permafrost do Árctico não está a derreter gradualmente, contrariando as antigas previsões dos cientistas. Em termos geológicos, está a derreter quase da noite para o dia. Tal como os solos semelhantes aos de Duvanny Yar, moles e em processo de dissolução, estão a revelar vestígios de animais selvagens antigos e massas de carbono que foram encerrados em terra congelada durante milénios. Entrando na atmosfera sob a forma de metano ou dióxido de carbono, o carbono promete acelerar as alterações climáticas, enquanto os seres humanos se esforçam por controlar as emissões de combustíveis fósseis.

 

Poucas pessoas compreendem melhor esta ameaça do que Serguei Zimov. Num posto de investigação periclitante instalado na aldeia garimpeira de Cherskiy, a cerca de três horas de lancha motorizada de Duvanny Yar, Serguei passou décadas a escavar os mistérios de um Árctico em aquecimento. Enquanto o fazia, ajudou a revolucionar o conhecimento convencional, sobretudo a ideia de que, na era glaciar do Plistocénico, o extremo setentrional era um deserto ininterrupto de gelo e solos finos com vegetação rasteira.

Na verdade, a abundância de fósseis de mamutes e de outros herbívoros de grande porte encontrados em Duvanny Yar e noutros locais sugerem que a Sibéria, o Alasca e a zona ocidental do Canadá foram prados férteis, repletos de ervas e salgueiros. Estas plantas e animais foram morrendo e o frio abrandou a sua decomposição. Ao longo do tempo, foram enterrados por sedimentos soprados pelo vento, encerrando-os no solo permanentemente gelado. Como tal, o permafrost do Árctico é muito mais rico em carbono do que os cientistas pensaram em tempos.

degelo

O DEGELO ACELERA. O desaparecimento inesperadamente rápido do permafrost rico em gelo do Árctico poderá libertar milhares de milhões de toneladas adicionais de metano e dióxido de carbono na atmosfera todos os anos, uma ameaça ainda não devidamente integrada nos modelos climáticos. Os cientistas estão a descobrir paisagens desestabilizadas onde o permafrost que antes descongelava alguns centímetros por ano pode agora derreter abruptamente até três metros em dias ou semanas, transformando locais previamente congelados em zonas pantanosas e acelerando as emissões de até 1.600 gigatoneladas de carbono ainda retido por baixo do solo. JASON TREAT, MATTHEW W. CHWASTYK E RYAN WILLIAMS FONTES: DAVID OLEFELDT E OUTROS, NATURE COMMUNICATIONS, 2016; MERRITT TURETSKY E OUTROS, NATURE, 2019; RÓISÍN COMMANE, UNIVERSIDADE DE COLUMBIA; TED SCHUUR, UNIVERSIDADE DO NORTE DO ARIZONA; EPA 

Novos achados sugerem que o carbono será libertado mais depressa à medida que o planeta aquecer. Devido à inesperada velocidade do aquecimento do Árctico e à forma preocupante como as águas do degelo se deslocam através das paisagens polares, os investigadores suspeitam que, por cada aumento de 1ºC da temperatura média da Terra, o solo permanentemente gelado possa libertar o equivalente a quatro a seis anos de emissões de carvão, petróleo e gás natural – entre o dobro e o triplo daquilo que os cientistas calculavam há poucos anos. Se não controlarmos o nosso uso de combustíveis fósseis, daqui a poucas décadas o permafrost poderá ser uma fonte de gases com efeito de estufa tão grande como a China (o maior emissor do mundo) o é actualmente.

 

Os modelos não têm ponderado este factor.
O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas (IPCC na sigla internacional) só no passado recente começou a incluir o solo permanentemente gelado nas suas projecções. 

O potencial de aquecimento do planeta pelo permafrost é minúsculo, quando comparado com o nosso. No entanto, se temos esperança de limitar o aquecimento a 2ºC, como 195 países concordaram fazer nos Acordos de Paris, em 2015, novas investigações sugerem que poderemos ter de reduzir as emissões oito anos mais cedo do que previsto pelos modelos do IPCC, só para compensar o degelo actualmente em curso. Talvez este seja o motivo menos valorizado para acelerar a transição para energias mais limpas: para alcançar o objectivo definido para combater o aquecimento, teremos de ser ainda mais rápidos do que pensamos. 

REVOLUÇÃO NA PAISAGEM. À medida que o gelo retido no solo congelado derrete, a água do degelo desloca-se através do permafrost, descongelando-o ainda mais e levando ao abatimento do solo superior. Formam-se assim lagoas que são mais tarde drenadas, acelerando o processo de desabamento de outros solos congelados. O processo chama-se degelo abrupto e está a acelerar a libertação de carbono retido e a mudar visivelmente o Árctico.

Serguei Zimov chegou pela primeira vez a Cherskiy na década de 1970, como estudante universitário para colaborar no levantamento cartográfico de uma expedição. Regressou anos mais tarde e fundou a Estação de Ciência do Nordeste, inicialmente sob os auspícios da Academia Russa das Ciências. Serguei é agora o seu proprietário e gere-a com o filho, Nikita. É uma operação improvisada, com um orçamento limitado e equipamento em segunda mão. No entanto, a estação atrai cientistas interessados no Árctico, oriundos de todo o mundo.

Certo dia, no Verão de 2018, eu e a fotógrafa Katie Orlinsky juntámo-nos a Serguei a bordo de um velho barco que transporta mantimentos até um posto de monitorização de carbono na baía de Ambarchik, junto da foz do rio Kolyma, no oceano Árctico. Atravessámos os prados esponjosos caminhando sobre um passadiço construído com antigos radiadores a óleo. Serguei sondava o terreno com um bastão metálico enquanto caminhava. Tem feito muito isso, ultimamente, para verificar a profundidade do solo permanentemente gelado que ainda se encontra rijo.

O permafrost apresenta-se coberto por uma camada de terra e detritos vegetais que pode alcançar quatro metros de espessura. Essa camada activa do solo costuma perder o gelo no Verão e voltar a congelar no Inverno, protegendo o permafrost da subida da temperatura à superfície. Na Primavera de 2018, porém, uma equipa que trabalhava com Nikita descobriu que a camada superficial de terra nos arredores de Cherskiy não congelara, de todo, durante a escura noite polar. Era um acontecimento inédito: o mês de Janeiro na Sibéria é tão brutalmente frio que o bafo humano pode congelar numa fracção de segundo, algo a que os indígenas yakuts chamam “o sussurro das estrelas”. O solo a 75 centímetros de profundidade deveria estar congelado. Em vez disso, parecia uma papa.

“Há três anos, a temperatura ao nível do solo, acima do permafrost, era de -3ºC”, disse Serguei Zimov. “Depois passou a ser -2ºC. Depois, -1ºC. Este ano, a temperatura foi 2ºC.”

CENÁRIOS DO DEGELO:   1. Tundra em Chamas - Os incêndios na tundra, outrora raros, são mais comuns à medida que o aquecimento global torna o Árctico mais verde. Os incêndios derretem a camada superior do solo e deterioram o solo permanentemente gelado que se encontra por baixo.  2. Deslizamentos  - Quando o permafrost descongela junto de uma encosta, um riacho ou um rio, poderá desencadear um deslizamento de terras, expondo rapidamente mais permafrost e acelerando o processo de degelo.  3. Alargamento dos Lagos - Lagos que congelavam por completo no passado ficam agora parcialmente líquidos no Inverno e aumentam de tamanho quando o permafrost descongela. O calor permite que os micróbios se alimentem de matéria orgânica ao longo do ano, libertando gases com efeito de estufa. 4. Represas de Castores - Cada vez mais quente, a tundra tem mais e maiores arbustos. Estes atraem castores, que represam os riachos, criando lagoas e lagos, acelerando assim o desaparecimento do permafrost e alterando a paisagem.

Por um lado, isso não surpreende. Os cinco anos mais quentes do planeta desde o fim do século XIX foram posteriores a 2014 e o Árctico está a aquecer a uma velocidade duas vezes superior ao resto do planeta, pois está a perder o gelo marinho que o ajudava a arrefecer. Em 2017, a tundra da Gronelândia sofreu o seu incêndio florestal mais grave de que há memória. Dias antes de aterrarmos na Sibéria, os termómetros da localidade norueguesa de Lakselv, 390 quilómetros acima do Círculo Polar Árctico, registaram uns historicamente escaldantes 32ºC. As renas do Árctico esconderam-se nos túneis das estradas em busca de alívio.

 

As temperaturas do solo permanentemente gelado de todo o mundo estão a subir há meio século. O degelo localizado do permafrost, sobretudo em aldeias onde o crescimento urbano perturba a superfície, permitindo a penetração de calor, já provocou a erosão de orlas costeiras, afectou estradas e escolas, destruiu canalizações e fez desabar grutas onde os caçadores do Árctico armazenam carne de morsa e gordura de baleia. Os verões quentes já estão a mudar a vida dos habitantes do Árctico. 

No entanto, a situação documentada pela família Zimov em 2018 foi completamente diferente, com implicações que ultrapassam de longe o Árctico: o degelo ocorreu durante o Inverno. Paradoxalmente, os culpados eram os nevões. A Sibéria é seca, mas em vários invernos anteriores a 2018 foi sufocada por nevões. A neve funcionou como um cobertor, encurralando o calor do Verão no solo. Num posto de investigação a 18 quilómetros de Cherskiy, Mathias Goeckede, do Instituto Max Planck de Biogeoquímica, na Alemanha, concluiu que a profundidade da neve duplicara em cinco anos. Em Abril de 2018, as temperaturas da camada activa tinham subido 6ºC.

O metano, um potente gás com efeito de estufa, borbulha do solo que derrete sob os lagos do Árctico. No Inverno, o gelo de superfície sequestra o gás. Neste lago junto de Fairbanks, no Alasca, cientistas perfuraram o gelo com uma broca e incendiaram uma fuga de metano.

O fenómeno não se limitava à Sibéria. Durante muitos anos, Vladimir Romanovsky, especialista em permafrost, observou a camada activa completamente congelada em meados de Janeiro, em cerca de 180 postos de investigação do Alasca. Contudo, estes sítios também sofreram nevões recentemente e o congelamento deslizou para Fevereiro e depois Março. Em 2018, oito dos locais estudados por Vladimir, nos arredores de Fairbanks, e uma dezena deles na península de Seward, nunca chegaram a congelar por completo.

A nível mundial, o solo permanentemente gelado contém até 1.600 gigatoneladas de carbono – quase o dobro do existente na atmosfera. Ninguém espera que tudo, ou sequer a maior parte disso, derreta. Até há pouco tempo, os investigadores presumiam que o permafrost perderia, no máximo 10% do seu carbono. No entanto, pensava-se que isso demoraria até 80 anos.

 

Quando a camada activa deixou de congelar no Inverno, tudo acelerou. O calor acrescido permite aos micróbios consumirem material orgânico do solo, emitindo dióxido de carbono ou metano ao longo de todo o ano, em vez de em apenas alguns meses do Verão. E o calor do Inverno penetra até ao próprio solo, descongelando-o mais depressa.

“Muitos dos nossos pressupostos estão a cair por terra”, disse Róisín Commane, uma especialista em química. Róisín e os colegas descobriram que a quantidade de CO2 vinda da vertente norte do Alasca durante o Inverno aumentou 73% desde 1975. “Estamos a tentar perceber o que se passa no Árctico observando o Verão”, mas a história começa depois de o Sol se pôr.”

Alguns invernos com muita neve não bastam para chamar-lhe tendência. No Inverno passado, houve menos neve em Cherskiy e o solo voltou a arrefecer consideravelmente. Também caiu pouca neve em Fairbanks. Contudo, em alguns locais estudados por Vladimir Romanovsky, no Alasca, a camada activa voltou a reter calor suficiente para impedir o congelamento total.

A aldeia de Newtok, no Alasca, com 380 habitantes, está a encolher à medida que o permafrost vai derretendo. Em busca de aves para caçar num dia de Verão, quatro rapazes yupik (a partir da esquerda, Kenyon Kassaiuli, Jonah Andy, Larry Charles e Reese John) atravessam um passadiço alagado.

“É espantoso”, disse Max Holmes, director-adjunto do Centro de Investigação de Woods Hole, que estudou o ciclo do carbono no Alasca e em Cherskiy. “Imaginava o degelo do permafrost como um processo lento e gradual e que talvez isto fosse uma fase de cinco anos diferente. Mas e se não for? E se a situação mudar muito mais depressa? 

Se a mudança começar a alimentar-se a si própria, como já acontece, por exemplo, no caso do gelo marinho árctico? O gelo marinho reflecte os raios solares, mantendo as águas frias por baixo da superfície. No entanto, à medida que o gelo derrete, as águas escuras absorvem esse calor, que, por sua vez, derrete mais gelo.

Por norma, é difícil prever qual o ponto de viragem que desencadeia a ocorrência destes acontecimentos circulares. “Sabemos que há limiares que não queremos transpor”, disse Chris Field, director do Instituto Woods para o Ambiente da Universidade de Stanford. “Mas não conseguimos defini-los com precisão.”

No caso do solo permanentemente gelado, há mesmo muito que não conseguimos ver. Em vez disso, os cientistas estudam amostras pequenas, acompanham outras à distância e inferem o resto – ao contrário do gelo marinho do Árctico, que pode ser sempre medido por satélite. “Podemos aceder à Internet e ver exactamente o que aconteceu ao gelo marinho”, disse o especialista Ted Schuur, da Universidade do Norte do Arizona. “No caso do solo permanentemente gelado, temos dificuldade em observá-lo. Temos escassas ferramentas necessárias para medir o que se passa.”

Um tipo de permafrost preocupa particularmente os investigadores: os cerca de 20% que contêm enormes depósitos de gelo sólido. Parte desse gelo formou-se quando a água penetrou nos solos e congelou ao atingir o permafrost. Outra parte foi criada ao longo de milhares de anos, durante os invernos árcticos, quando o solo se contraiu e rachou em padrões poligonais. Na Primavera, a água do degelo encheu essas fendas, que voltaram a congelar mais tarde. Ao longo do tempo, o gelo enterrado cresceu e transformou-se em gigantescas cunhas envoltas em solo permanentemente gelado. Duvanny Yar está repleto delas. 

Uma estrutura destas pode desagregar-se rapidamente. Quando o permafrost se desintegra, o mesmo acontece ao gelo enterrado. À medida que a água escoa, transporta calor que dissemina o degelo, deixando atrás de si um rasto de túneis e bolsas de ar. O solo afunda-se para preencher essas cavidades, criando depressões à superfície preenchidas com água do degelo e da chuva. A água aumenta a profundidade dos charcos e corrói as suas margens de gelo: os charcos transformam-se em lagoas e as lagoas transformam-se em lagos. Isto leva a que uma área maior de solo aqueça e, consequentemente, que mais gelo derreta.

O “degelo abrupto”, como os cientistas designam este processo, muda toda a paisagem. Desencadeia deslizamentos de terras. Na ilha de Banks, no Canadá, os cientistas puderam documentar que as derrocadas de grande escala aumentaram 60 vezes entre 1984 e 2013. O degelo abrupto derruba florestas. Há 15 anos que Merritt Turetsky, ecologista da Universidade de Guelph, monitoriza o degelo abrupto numa floresta de abetos negros nos arredores de Fairbanks. Ela descobriu que, neste local, as cheias estão a desestabilizar raízes e troncos de árvores. Merritt suspeita que todas as árvores da sua “floresta bêbeda” cairão em breve e serão engolidas por novas zonas pantanosas. “Ainda há pequenas bolsas de terra, mas temos de atravessar alguns sítios muito húmidos para lá chegar”, disse.

Todo o degelo do permafrost gera emissões de gases com efeito de estufa. No entanto, as águas estagnadas aceleram o processo. O gás borbulhante que provém da lama privada de oxigénio existente sob lagoas e lagos não é unicamente composto por dióxido de carbono, mas também por metano, um gás com efeito de estufa 25 vezes mais potente do que o CO2. Há duas décadas que a ecologista Katey Walter Anthony da Universidade do Alasca mede o metano emitido pelos lagos do Árctico. Segundo os seus cálculos mais recentes, publicados em 2018, os novos lagos criados pelo degelo abrupto poderão quase triplicar as emissões de gases com efeito de estufa.

Não sabemos, ao certo, se esta mensagem mereceu atenção suficiente por parte dos responsáveis pelas políticas públicas. Em Outubro passado, o IPCC apresentou um novo relatório sobre a mais ambiciosa de duas metas de temperatura acordadas na conferência de Paris de 2015. O planeta já aqueceu cerca de 1ºC desde o século XIX. Segundo o relatório, um cenário com um aumento máximo do aquecimento global em 1,5ºC em vez de 2ºC, exporia menos 420 milhões de pessoas a vagas de calor extremo frequentes e reduziria para metade o número de plantas e animais que enfrentam a ameaça da perda de habitat. Também poderia salvar uma área de solo permanentemente gelado de cerca de dois milhões de quilómetros quadrados. No entanto, para atingir a meta de 1,5ºC, segundo o IPCC, o mundo teria de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 45% até 2030, eliminá-las completamente até 2050 e desenvolver tecnologias capazes de retirar de novo da atmosfera enormes quantidades desses gases.

Os solos antigos do permafrost árctico, aqui visíveis na parede da cratera de Batagaika, contêm os restos orgânicos de folhas, erva e animais que morreram há milhares de anos, durante a Era Glaciar. Todo esse carbono tem estado retido, em segurança, na terra congelada.

O desafio talvez seja ainda maior. O relatório sobre a meta de 1,5ºC foi o primeiro em que o IPCC levou em consideração as emissões do solo permanentemente gelado, mas não incluía as emissões causadas pelo degelo abrupto. Os modelos climáticos ainda não são suficientemente sofisticados para captar esse tipo de alteração rápida da paisagem. A pedido da National Geographic, Katey Walter Anthony e Charles Koven, modelador do Laboratório Nacional de Lawrence Berkeley, fizeram cálculos que levam em consideração as emissões causadas pelo degelo abrupto. Segundo estimam, para travar o aumento da temperatura em 1,5ºC, teríamos de eliminar por completo as nossas próprias emissões de combustíveis fósseis pelo menos 20% mais cedo – o mais tardar, em 2044, seis anos antes do agendado pelo IPCC. Isto dá-nos apenas um quarto de século para transformar por completo o sistema da energia global. 

“Estamos a enfrentar um futuro incerto, com um conjunto incompleto de ferramentas” disse Charles Koven. “A incerteza não é só nossa. Há muitas variáveis incertas.” Existe mais do que uma forma de criar novos lagos, por exemplo.

Algumas semanas depois de partir da Sibéria, eu e Katie Orlinsky demos um passeio de jangada nos Portões do Alasca do Parque Nacional do Árctico com o ecologista Ken Tape. Um hidroavião deixou-nos, e ao nosso guia fluvial Michael Wald, no lago Gaedeke. Daí em diante,  avançámos para sul pelo rio Alatna. Dois quilómetros depois, encontrámos ramos mastigados junto da margem. Estávamos no rio há uma semana quando chegámos a um lago com 15 hectares que não existia no passado. Ao centro, existia uma enorme estrutura construída por castores.

Há anos que Ken Tape usa fotografias captadas por via aérea e satélite para monitorizar a forma como plantas e animais selvagens estão a mudar no Alasca e como isso poderá afectar o permafrost. À medida que este derrete e as estações de crescimento se prolongam, o Árctico modifica-se. A título de exemplo, os arbustos das planícies ribeirinhas do Alasca quase duplicaram de tamanho. Embora o crescimento da vegetação absorva mais carbono, um inquérito realizado por peritos em 2016 concluiu que o aumento do verde no Árctico não é, de longe, suficiente para compensar o degelo do solo permanentemente gelado.
A vegetação está a conduzir os animais para norte. “Assim que pensei em castores, percebi que poucas espécies deixam marcas tão visíveis a ponto de conseguirmos distingui-las do espaço”, disse.

Em imagens recolhidas entre 1999 e 2014, abrangendo apenas três bacias hidrográficas, Ken avistou 56 novas estruturas construídas por castores que não existiam na década de 1980. Os animais estão a colonizar o Norte do Alasca, deslocando-se oito quilómetros por ano. Ken pensa que existem agora oitocentas estruturas de castores em lagoas no Alasca árctico, incluindo o enorme complexo do Alatna. Ken apelidou-o de Lodge Mahal.

Era uma visão impressionante: um monte de ramos e rebentos, com cerca de 2,5 metros de altura e 10,5 metros de largura, revestido por lama e musgo, erguendo-se no meio de um lago com águas ao nível da cintura, rodeado por pântanos. A água fora desviada do rio por uma série de represas. “Todo aquele pântano em redor de Lodge Mahal é novo”, disse Ken Tape. “Se recuássemos 50 anos, não haveria castores aqui.”

Ken Tape e Michael Wald queriam explorar o Alatna em parte porque um guia já encontrara madeira mastigada por castores ao longo do rio Nigu. O Nigu nasce junto do lago Gaedeke, a nascente do Alatna, mas do outro lado da Divisória Continental – razão pela qual flui para norte, rumo ao rio Colville e ao oceano Árctico. Ao longo do rio Alatna, acima de Lodge Mahal, encontram-se outras lagoas e represas abandonadas. Ken crê que os castores estão a caminho da vertente norte e que estão a usar o Alatna como rota através da cordilheira Brooks. “Estamos a assistir a uma expansão em tempo real”, diz.

Ele não consegue provar que as alterações climáticas provocam esta mudança: a população de castores tem estado a recuperar desde que o comércio de peles chegou ao fim, há um século e meio. De qualquer forma, os “engenheiros” de dentes fortes poderão reconstruir as paisagens do solo permanentemente gelado. “Imagine que era um construtor e pedia autorização para fazer três represas em metade dos riachos da tundra árctica”, diz Ken Tape. “Seria este o resultado.”

Ken já viu uma amostra desse resultado. A sudeste de Shishmaref, na península de Seward, fotografias de um afluente do rio Serpentine não mostram qualquer alteração entre 1950 e 1985. Em 2002, os castores chegaram e inundaram a paisagem. Em 2012, parte das terras tinha cedido, transformando-se em zonas pantanosas.
O permafrost estava a desaparecer.

Algumas centenas de castores não mudarão o Árctico, mas estes animais podem estar a dirigir-se para norte, para o Canadá e para a Sibéria, e reproduzem-se depressa. A experiência da Argentina é educativa: em 1946, vinte castores foram propositadamente introduzidos no Sul para promover o comércio das peles. A população actual é de cerca de cem mil animais.

Na visão da família Zimov sobre o passado e o futuro do solo permanentemente gelado no Árctico, os animais selvagens também representam um papel essencial, mas estamos a falar em animais maiores do que castores, com efeitos mais benevolentes sobre o permafrost. Na opinião de Serguei Zimov, as manadas de bisontes, mamutes, cavalos e renas que vagueavam sobre as estepes do Plistocénico faziam mais do que comer a erva – cuidavam dela. Fertilizavam-na com os seus dejectos e compactavam-na, calcando musgos e arbustos e expondo rebentos de árvores.

A partir da última era glaciar, esses prados secos e ricos foram substituídos, na região oriental da Sibéria, por tundra húmida, dominada por musgos a norte e florestas a sul. Entre os principais actores dessa mudança, segundo Serguei Zimov, encontram-se os caçadores humanos que dizimaram as manadas de grandes herbívoros, há cerca de dez mil anos. Sem herbívoros que fertilizassem o solo, a erva murchou. Sem erva para absorver a água, o solo tornou-se mais húmido. Musgos e árvores invadiram a paisagem. No entanto, se os seres humanos não tivessem explorado o ecossistema para lá do ponto de viragem há milhares de anos, ainda haveria mamutes a pastar na Sibéria.

Há quase 25 anos, nas terras baixas junto de Cherskiy, Serguei criou um projecto de demonstração com 144 quilómetros quadrados, chamado Parque do Plistocénico. A sua ideia era trazer os grandes herbívoros de volta e verificar se eles trariam consigo as pradarias. Ele e, mais tarde, Nikita, cercaram cavalos selvagens e mandaram vir iaques e ovelhas do lago Baical, a bordo de carrinhas. Na Primavera passada, Nikita trouxe 12 bisontes da Dinamarca. Em 2018, a família Zimov juntou esforços com o geneticista George Church, da Universidade de Harvard, que acredita que um dia conseguirá clonar um mamute. Talvez estes animais, actualmente extintos, venham a caminhar um dia pelo Parque do Plistocénico.

O parque é o derradeiro teste à hipótese de Serguei Zimov e, espera ele, uma protecção contra futuras alterações climáticas. Os prados, sobretudo quando cobertos de neve, reflectem mais luz solar do que a floresta escura. Os herbívoros pisam a neve espessa, permitindo que o solo liberte calor. Ambas as acções arrefecem a terra. Se os animais selvagens conseguirem restaurar os prados, poderão abrandar o degelo do permafrost e, por conseguinte, as alterações climáticas. Contudo, para fazer mesmo a diferença, teríamos de libertar o equivalente a jardins zoológicos inteiros de animais em milhões de hectares do Árctico.

Segundo a família Zimov, as provas dadas pelo seu parque de 14.400 hectares são promissoras. Mesmo com cerca de cem animais, os prados do parque mantêm-se substancialmente mais frescos do que o solo em redor.

O fosso existente entre as ambições dos Zimov e a realidade do parque é inquestionavelmente grande. Numa visita durante a tarde, eu e Katie caminhámos sobre pradarias molhadas até uma secção pantanosa para ver os cavalos. À distância, um bisonte solitário escondeu-se. Nikita sentou-nos num minitanque com oito rodas e levou-nos a passear, avançando sobre os salgueiros e esmagando-os. Após uma subida íngreme, atravessámos uma zona com alguns larícios finos.
É por isto que ele precisa de herbívoros gigantes, disse Nikita: “De momento, não tenho animais capazes de eliminar estas árvores.” O investigador passa muito tempo a angariar fundos para manter o seu conceito a funcionar.

Alguns cientistas contestam as estimativas de Serguei Zimov em relação ao número de animais de grande porte que vagueava pela Sibéria no Plistocénico ou insistem que a sua teoria de mudança ecológica, passada e presente, é demasiado simplista. Acima de tudo, a maioria das críticas parece nivelada pela audácia dos Zimov. Max Holmes, de Woods Hole, que os conhece bem, acha que existe uma centelha de genialidade no seu trabalho. Os Zimov estão “no limite, mas é aí que se costumam originar as grandes ideias e as grandes mudanças”, disse.

Fora do Parque do Plistocénico, o mundo moderno tem reagido com complacência ao aquecimento do Árctico. Há décadas que ignoramos as provas das alterações climáticas e esperamos que a situação não fique excessivamente má. Estamos a contar com avanços tecnológicos que parecem sempre além do nosso alcance. E fazemos tudo isto apesar de os climatólogos dizerem que todos os sinais apontam para a necessidade de medidas urgentes e audazes. 

Os Zimov são diferentes. Passaram a vida inteira a combater uma paisagem inclemente que recompensa a obstinação. A tentativa de salvar o permafrost restaurando a estepe árctica será assim tão mais louco, perguntam, do que esperar que os seres humanos reformulem completamente o sistema de energia mundial? Talvez precisemos mesmo de uma loucura.

“A luta contra as alterações climáticas tem de ser travada de diferentes formas e em várias frentes”, disse Nikita. Só com uma combinação de respostas é que o futuro poderá não ser “completamente miserável”.

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