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BROCÉLIANDE. A lenda explica que a faia de Ponthus nasceu das ruínas do castelo de um cavaleiro do rei Artur.

Texto: Juana Salabert

Com uma beleza paisagística e monumental sem igual, a antiga Armórica, que em finais do século IV serviu de refúgio aos bretões fugidos da ilha da Bretanha na sequência das invasões anglo-saxónicas, é a região mais sedutora de França.

Na Bretanha, abundam monumentos megalíticos. Aqui nasceram, de alguma maneira, as lendas ligadas ao Graal, a bilingue e druídica Bretanha, a “pequena pátria” do rei Artur e de Júlio Verne, onde o mago Merlim descansa no seu sono eterno sob os nove círculos de encantamento idealizados pela fada Viviane na floresta de Brocéliande. Tudo neste território cativa o viajante.

Em 1532, estas terras uniram-se a França, mas mantiveram uma identidade palpável. O fulgor céltico que seduziu pintores como Monet e Gauguin foi igualmente o mesmo que dificultou as campanhas de César na Gália. Uma vitória rapidamente posta em causa pelos divertidos Astérix e Obélix. Na verdade, a Bretanha inteira é uma “poção mágica” para os que aqui chegam, que apenas devem temer que a beleza dos seus céus e da sua terra lhes possa cair em cima seduzindo-os para sempre.

O percurso pela Bretanha mais bretã, no sentido linguístico e identitário, começa em Nantes, a pujante ex-capital do ducado, eleita pelos franceses, juntamente com Bordéus, como a cidade com melhor qualidade de vida da sua República. Até 1926, ano em que se iniciou o assoreamento de dois braços do Loire e o desvio do rio Erdre, esta cidade esplendidamente preservada era assolada por inundações constantes. 

No Museu do Castelo dos Duques da Bretanha, onde Henrique IV conseguiu que fosse assinado em 1598 o Edicto de Nantes que assegurava a liberdade religiosa, o visitante poderá ter uma ideia do que o espera antes de se deixar submergir no bulício das ruas medievais do Bouffai ou de admirar as carrancas das fachadas da antiga ilha de Feydeau. Também é possível visitar a Catedral de Saint-Pierre-et-Saint-Paul e a passagem coberta Pommeraye com a sua escadaria ornamentada e balaustradas do século XIX. 

BICICLETA BRETANHA

CIRCUITOS DE BICICLETA: 1. Pontivy-Nantes. Este percurso faz parte da rota Velodyssée que liga Roscoff, no Norte da Bretanha, a Hendaya, no País Basco francês. O itinerário é composto por nove etapas de 23 a 35 quilómetros. Boa parte da viagem segue ao longo do canal Nantes-Brest. 2. Roscoff-Concarneau. A rota que liga o Canal da Mancha e a costa tem etapas em Finistère e Quimper. 3. O vale de Blavet. Existem quatro percursos fáceis que incluem as capelas deste idílico vale bretão. rando.tourismebretagne.com

O sugestivo Museu Verne, o excelente Museu de Belas-Artes e o Grande Teatro da Praça Graslin completam o roteiro. Perto deste último, encontra-se o belíssimo restaurante modernista La Cigale e o Lieu Unique, carismático cenário cultural implantado na velha fábrica de bolachas Lu de 1885.

A cidade-natal do criador do capitão Nemo, que é homenageado com um bonito busto no belo Jardim Botânico, reconverteu os estaleiros da ilha de Nantes num espaço que teria encantado Verne e os tripulantes do Nautilus. A extraordinária Galeria das Máquinas, criadas por Delarozière e Orefice, presidida pelo Grande Elefante animado com 12 metros de altura e pelo Carrocel dos Mundos Marinhos, impulsionou este bairro nas margens do Loire, repleto de parques e galerias de arte. É um contraponto cosmopolita à pior face do seu enriquecimento produzido em grande parte graças ao comércio de escravos. Aqui perto, no cais de Fosse, existe também um monumento do artista Wodiczko que evoca esse passado. 

Para captar a alma bretã, convém visitar primeiro a floresta de Brocéliande, perto de Rennes. Vestígio do frondoso Ar Goat da época anterior à desflorestação empreendida pelos romanos, esta maravilhosa floresta encantada onde teria chegado José de Arimateia com o Graal, foi percorrida de seguida pelos Cavaleiros da Távola Redonda, de acordo com o Centro do Imaginário Arturiano no Castelo de Comper. Ali nasceu a fada Viviane, por quem Merlim se apaixonou e que educou Lanzarote no seu palácio de cristal, sob as águas do lago da aldeia de Paimpont, no centro da floresta mítica. Para lá da visita ao túmulo de Merlim e à Fonte de Barenton, é necessário aventurar-se no vale sem regresso, enfeitiçado por Morgana, para chegar ao lago Espelho das Fadas e à Árvore de Ouro, do escultor Danvin. Já fora da área do bosque, ergue-se o Castelo de Trécesson, reconstruído no século XIV.

floresta bretanha

REFÚGIO DE MAGOS E FADAS: 1. Floresta de Huelgoat. É famosa pelo seu caos de rochas arredondadas cobertas de musgo e líquenes que, de acordo com a lenda, foram dispersas pelo gigante Gargântua. Aqui também existem lugares míticos como o rio Argent, domínio das fadas, a gruta de Artur e a caverna do diabo. O ponto mais fotografado é a imensa rocha Champignon e a Roche Tremblant, com 100 toneladas, que se move ligeiramente quando pressionada num ponto específico. 2. Floresta Brocéliande. Aqui concentram-se numerosos locais do universo arturiano: o túmulo de Merlim, a fonte de Barenton onde o mago se encontrava com a amada Viviane, o Vale sem Retorno da bruxa Morgana, a Árvore de Ouro e a Fonte da Juventude.

A caminho do golfo de Morbihan, “simbólico mar interior sacudido por diferentes superstições” segundo Guy de Maupassant, é recomendável parar no esplêndido Castelo de Josselin, jóia renascentista do início do século XVI. De seguida, o viajante deverá dirigir-se a Vannes, conhecida pelas suas casas tradicionais e jardins junto das muralhas construídas no século XIII sobre vestígios galo-romanos. Vannes é o ponto de partida para descobrir uma das 17 baías mais célebres do mundo, de acordo com um inquérito recente. Berço de lendas, como a considerava Guy de Maupassant, a comarca abrange mais de sessenta ilhas “druídicas, misteriosas e encantadas que carregam às costas túmulos, menires, dólmenes”. 

O célebre escritor atravessou a pé estas margens e extasiou-se em frente do Castelo de Suscinio, delimitado por um fosso contíguo aos pântanos que actualmente constitui um refúgio ornitológico. O enorme cabo Quiberon serve de referência para as formosas praias da costa selvagem, grutas e penhascos. Guy de Maupassant ajudou igualmente a celebrizar os monumentos pré-históricos da península de Locmariaquer, que designou como pátria dos druidas, mas ficou sobretudo maravilhado com os imensos alinhamentos paralelos megalíticos “plantados como avenidas”, de Menec e de Kermario na fascinante Carnac. 

Símbolo de mistérios e ritos ancestrais, à semelhança de Stonehenge, Carnac deslumbra pela vertiginosa extensão de campos de menires, alguns dos quais com serpentes gravadas na base, e cromeleques a céu aberto. Estes gigantes de pedra com mais de cinco mil anos deram origem a uma infinidade de lendas como a de Saint-Cornély que se refere a um exército de soldados petrificados e mencionada por Mérimée e por Flaubert, a dos kerrigons, duendes dançarinos que habitariam o local, ou a lenda do mágico voo anual e realinhamento celestial durante a Noite de Natal. Outras tradições aludem a Júlio César, que teria daqui contemplado o combate dos seus legionários contra a tribo gala dos vénetos.

Satisfeita a alma com a contemplação do passado, o viajante deverá embarcar num ferry rumo à preciosa Belle-Île, a maior das ilhas bretãs no Mor-braz (oceano em bretão para diferenciar de Mor-bihan, o mar pequeno). Nesta ilha, a actriz Sarah Bernhardt comprou, em 1894, um forte junto do farol na Pointe des Poulains. A residência é actualmente um museu que celebra a sua memória.

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GR-34, O TRILHO DOS FISCAIS. De St-Nazaire ao Mont St-Michel, todo o litoral está marcado por uma rota de 1.800 quilómetros imaginada em 1791. O percurso ganhou o nome porque servia para controlar o contrabando. No século XX, foi abandonado e em 1968 foi transformado na rota GR-34, ostentando as clássicas marcas vermelhas e brancas. O itinerário percorre enseadas e penhascos, passa por povoados e faróis com fabulosas panorâmicas. Geralmente realiza-se em etapas de 2 ou 8 dias. No Verão, convém reservar antecipadamente os alojamentos. Uma rede de autocarros liga os pontos de partida e chegada ao trilho. https://bretagne.ffrandonnee.fr

Belle-Île é famosa pela sua enorme Cidadela Vauban, de 1549, assim como pelas praias, penhascos rochosos e pela plêiade de coloridas aldeias piscatórias e pequenos portos vizinhos. A pitoresca Sauzon, no estuário do rio com o mesmo nome, seduziu o impressionista Claude Monet, que no seu porto de Port Coton pintou mais de trinta obras-primas. Le Palais, a pequena capital de um animado porto, respira joie de vivre e seduz com os seus cafés e mercados, como o da Praça da República.

De regresso a Morbihan, Port-Louis surpreende os visitantes com a sua encantadora cidadela. A construção iniciada em 1590 foi terminada poucas décadas depois por Corbineau, sob ordens directas do cardeal Richelieu, que aqui fundou a primeira Companhia das Índias. Um interessante museu foca-se na importância da Companhia, transferida depois pelo ministro Colbert para a vizinha Lorient, cidade arrasada durante a Segunda Guerra Mundial e hoje conhecida pelo seu Festival Intercéltico de Música e pelo Centro Náutico instalado na temível base de submarinos construída pelos nazis. 

A partir da bonita Quimperlé, junto da floresta de carvalhos e faias de Carnoët e a localidade de Belon, afamada pelas suas ostras, o viajante saboreia a cada passo pelas regiões da Cornualha e Finistère a essência mas permanente de uma Bretanha presa às suas tradições e à língua herdada dos celtas, que ali se estabeleceram no século VI a.C. Os icónicos toucados femininos – tão fundamentais que, durante a Segunda Guerra Mundial, os resistentes antinazis lançaram de pára-quedas, juntamente com as armas destinadas à Resistência, a goma essencial para manter a sua firmeza – e os conjuntos escultórios representando o Calvário espalhados um pouco por todo o lado, definem este país salpicado de igrejas góticas.

Nesta terra de música, a melodia toca-se com harpas e biniou (gaita-de-foles). Subsistem em várias tradições as lendas de sereias. Como Marie-Morgane, a tradução da endiabrada Dahut, filha do rei Gradlon e causadora do afundamento da imaginária cidade de Ys. Passado e futuro, mito e modernidade reflectem-se nas mesmas águas. 

Às povoações de Le Pouldu e Pont-Aven chegaram, em 1886, Paul Gauguin, Émile Bernard e Maurice Denis, fundadores do efémero sintetismo, hoje conhecido como escola de Pont-Aven. Os pintores procuravam inspiração e preços módicos. 

O visitante moderno deverá dirigir-se para a portuária Concarneau. A sua célebre Ville Close é uma ilhota medieval amuralhada e unida a terra firme por duas pontes. Este conjunto excepcional de ruelas intramuros e a belíssima Casa do Governador, flanqueada por torres e um torreão, tem um encanto difícil de descrever. Possui um bonito Museu da Pesca no antigo arsenal. Da Porta dos Vinhos situada na espessa muralha, obtém-se um magnífico panorama do agitado porto de pesca. Banhada por praias muito peculiares, a aldeia seduz também pela sua intensa vida marinheira. Trata-se do maior porto de atuneiros de França e é o local perfeito para desfrutar dos soberbos marisco e peixe locais e do famoso molho armoricano.

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DE RIO EM RIO, DE NANTES AO MAR. O percurso da Bretanha por barco é uma das opções mais plácidas e familiares. As embarcações têm cozinha, camarotes ou camas que se transformam em mesas e sofás. Podem alugar-se por dias ou semanas. Canal Nantes-Brest. 236 eclusas permitem navegar ao longo de 360 quilómetros desde a cidade de Nantes ao porto de Brest, passando por cidades encantadoras como Rohan, a Abadia de Bon-Repos ou a Fortaleza Josselin. O percurso pode ser concluído numa semana. Canal do Blavet. Este desvio do canal de Nantes segue o curso do rio Blavet, entre Pontivy e Lorient (58km, 28 eclusas). Atravessa um vale de carvalhos e pinheiros, capelas solitárias e casarões centenários ligados por trilhos. canauxdebretagne.org

Quimper é um das mais belas e luminosas cidades da Bretanha. Antiga capital do reino da Cornualha, foi fundada nas margens do Odet e do seu afluente Steir pelo lendário soberano Gradlon (cuja estátua equestre se divisa entre as agulhas da catedral) depois do afundamento da mítica cidade de Ys. A catedral de estilo gótico-flamejante de Saint-Corentin, na praça com o mesmo nome, com a sua cor alva e linhas elegantes, é enriquecida por bonitos vitrais. Em frente, encontra-se o excelente Museu de Belas-Artes que expõe magníficas telas dos pintores de Pont-Aven, assim como obras de Corot, Fragonard, Rubens e Jordaens, entre outros artistas. Conta também com uma sala dedicada ao grande poeta Max Jacob, nascido em Quimper em 1876. 

O poeta morreu em 1944, num campo de concentração. Fora detido em Paris pelos nazis devido à sua ascendência judaica. A sala Max Jacob exibe agora vários retratos do escritor, produzidos pelos seus amigos Picasso e Cocteau e também desenhos e documentos privados.

A cidade de Quimper possui bonitas ruas de estilo medieval com casas tradicionais cujos nomes recordam as corporações ou grémios, como a de Kéréon, que então agregava os sapateiros. Por aqui encontram-se também praças encantadoras como a de Beurre e o excelente mercado coberto de Saint-François para lá de uma esplêndida zona pedonal junto ao rio Steir. O bairro dos ceramistas que tornaram a cidade famosa é o de Locmaria. Aqui aconselha-se a visita à igreja românica do século XII e ao jardim medieval do priorado, que simboliza o Paraíso, na margem do Odet. Os teatros, centros culturais, numerosos restaurantes e lojas de crepes, bem como o Festival da Cornualha em Julho, focado na música e cultura bretãs, são um bom exemplo da sua vitalidade. 

O último segmento da viagem remete para as espectaculares Pontas de Van e de Raz, termo que alude a uma violenta corrente marinha, no cabo de Sizun.
É impossível não ficar esmagado pela força da ondulação indómita. Encavalitadas sobre o oceano a 70 metros de altura, estas pontas eram o local onde os druidas mortos seriam embarcados para a sua morada final na ilha de Sein.

“Um mar que ainda é fada e por vezes uma fada malvada, repleto de prodígios, ébria e dançarina sobre os belos jardins de rocha e espuma”, assim escreveu o genial escritor Julien Gracq (1910-2007). Com a sua Baía dos Afogados e o Abismo do Inferno, a Finistère Sul alcança o clímax na espectacular península em forma de cruz de Crozon. Espraia-se em frente das montanhas Negras de Menez Hom e da baía de Douarnenez, célebre pelas suas lutas operárias do início do século XX motivadas pela indústria de conservas. O trilho que percorre a ponta de Raz aproxima-se desta beleza quase trágica que aqui traz todos os anos mais de um milhão de visitantes.  

Actividades Em plena natureza

Sulcada por trilhos pedestres, itinerários adaptados para bicicletas e canais fluviais, a Bretanha é um campo inesgotável para o viajante que escolhe prescindir do automóvel para se lançar à descoberta do território ao ritmo lento proporcionado pela bicicleta.

A grande vantagem desta região consiste na sua diversidade de paisagens. Na costa, os faróis, portos, penhascos e praias juncam as rotas pedestres e os percursos de bicicleta. No interior, os circuitos passam junto de fortalezas medievais, canais e florestas de carvalhos, faias e castanheiros centenários. A viagem pode ser completada com visitas rápidas aos molhes, pequenas capelas solitárias, grutas escondidas na vegetação, vestígios celtas ou monumentos megalíticos. Por outro lado, o visitante encontra-se nas terras do rei Artur e do mago Merlim, um universo de fábulas que pode ser acompanhado no terreno. 

Destacam-se as excelentes infra-estruturas desta região francesa, desde a sinalização aos alojamentos, que tornam a viagem fácil e muito agradável.

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