mar argentina

Alforrecas flutuam nas imediações de uma floresta de laminárias ao largo da ilha De los Estados, na Argentina. As laminárias gigantes (Macrocystis pyrifera) são das maiores algas do oceano e podem medir mais de 45 metros de comprimento. As suas florestas acolhem um dos mais diversificados ecossistemas do planeta.

Um dos lugares mais isolados do planeta é também um dos que possui maior abundância de vida selvagem. A Argentina tenciona mantê-lo assim.

Texto e Fotografias: Enric Sala 

A baía Thetis, junto da extremidade da Terra do Fogo, na Argentina, é o ponto mais meridional que podemos visitar no continente americano. 

Poucos turistas o fazem. “Isto é um mau sítio para navegar”, escreveu o comandante James Cook no seu diário, em 1768, avisando os futuros navegadores para se manterem longe do banco de laminárias. No entanto, a baía proporciona alguma protecção contra os bem conhecidos mares violentos e ventos fustigantes da região. A bordo do Hanse Explorer, num dia frio e nublado de Fevereiro de 2018, lançámos à água um pequeno semirrígido e atravessámos a baía, manobrando a embarcação rumo à costa, com o cuidado de evitar os mantos espessos de laminárias e os bancos de areia que emergem com a maré baixa.

Eu liderava uma expedição do Projecto Mares Prístinos da National Geographic Society, numa parceria com o governo argentino, o governo regional da Terra do Fogo e o Fórum para a Conservação do Mar da Patagónia. Estava acompanhado pelo meu velho amigo e colega Claudio Campagna, co-fundador do Fórum em 2004, um homem que dedicou a vida ao estudo e protecção dos mamíferos marinhos da Argentina. O nosso objectivo era reunir informações científicas e produzir um documentário que fundamentasse a proposta para uma nova reserva marinha protegida nas águas argentinas.

A criação destas áreas protegidas marinhas é a missão à qual dediquei uma vida inteira. Ao longo da última década, a nossa equipa dos Mares Prístinos juntou-se a parceiros locais para ajudar governos a proteger mais de cinco milhões de quilómetros quadrados de oceano da acção nociva da sobrepesca e de outras ameaças. As nossas expedições levaram-nos a mergulhar em todo o mundo – das ilhas de recifes de coral no oceano Pacífico aos arquipélagos gelados do Árctico.

A expedição até à extremidade da Terra do Fogo era particularmente importante para mim, não só pelas decisões políticas que poderíamos incentivar, mas também porque sinto uma ligação pessoal àquele território. Em 1973, Paul Dayton, meu amigo e mentor científico, realizou investigações científicas pioneiras no local. Enfrentando ventos polares, granizo e neve, Paul e os seus amigos mergulharam na baía Thetis e na ilha De los Estados, a leste. Mediram e contaram laminárias gigantes e os invertebrados que vivem por baixo dessas pradarias que forram a orla costeira. 

Ninguém estudara estes habitats subaquáticos e parte da nossa missão era actualizar os censos de Paul. Eu assistira, em primeira mão, às mudanças dramáticas noutras latitudes causadas pela sobrepesca e pelas alterações climáticas, das quais se destacam o lixiviamento e morte dos recifes de coral e a diminuição do gelo marinho do Árctico durante o Verão. O que iríamos encontrar sob a  superfície, 45 anos após a visita de Paul?

Ao desembarcarmos na praia, eu e Claudio percebemos de imediato que caminhávamos sobre uma sepultura colectiva. Antigas ossadas de leões-marinhos eram esmagadas a cada passo – um legado deixado por caçadores da primeira metade do século XX. Leões-marinhos e lobos-marinhos-sul-americanos tinham sido abatidos indiscriminadamente, sobretudo para obtenção de peles e gordura, destinada ao fabrico de óleo. 

mar argentina

Um grande caracol passa por um ouriço-do-mar que mastiga o caule da alga Lessonia na Isla de los Estados, Argentina.

Na época de Paul Dayton, estas espécies já estavam protegidas pela legislação argentina, mas ainda não recuperaram na actualidade. Segundo os investigadores, o número de leões-marinhos corresponde a um quinto do que existia há mais de setenta anos, possivelmente devido à diminuição dramática do número de fêmeas em idade reprodutora e da vasta pegada da pesca industrial.

“No passado, os animais eram abatidos directamente”, contou Claudio. “Agora também estamos a privá-los de alimento.” Três dias antes da nossa visita à baía Thetis, vimos um superarrastão de 110 metros no porto de Ushuaia. Os arrastões e os palangreiros pescam junto do limite da plataforma continental da Terra do Fogo, no ponto onde começa o oceano profundo.

Mais perto da costa, as condições climáticas são tão brutais durante a maior parte do ano que poucos se dão ao trabalho de mergulhar aqui. No entanto, uma vez que o tempo estava relativamente calmo quando chegámos, conseguimos mergulhar em redor da ilha durante duas semanas.

As águas frias e ricas em nutrientes alimentam as florestas de laminárias gigantes onde se aloja um dos mais resplandecentes ecossistemas marinhos do mundo. Os caules destes organismos chegam a medir 45 metros de altura, desde as profundezas à superfície. As laminárias gigantes continuam a crescer depois de atingirem a superfície, criando um dossel vegetal que filtra a luz solar como os vitrais de uma catedral.

Paul foi muito generoso: digitalizou e copiou os seus cadernos de campo escritos à mão: as páginas de 1973 estavam repletas de observações de história natural. Trouxemo-los connosco como se fossem tesouros. As pradarias marinhas parecem todas iguais quando vistas a partir da superfície, mas tudo muda debaixo de água.

Paul descobrira que cada uma das pequenas baías tinha características peculiares. Numa baía, as laminárias estavam cobertas apenas por uma ou duas espécies de amêijoas. Noutra, por pequenos corais macios. Numa terceira, por minúsculos pepinos-do-mar, dos quais irrompiam plumas com ramificações finas para capturar partículas de alimento na nutritiva água do mar.

Para nosso espanto, as mesmas espécies ainda viviam em cada baía. As condições oceanográficas deverão ter-se mantido semelhantes ao longo do último meio século. As alterações climáticas ainda não deixaram uma marca permanente aqui. Isto pareceu-me uma dádiva maravilhosa e gerou uma sensação de alegria incontida. 

Ficámos igualmente espantados pela abundância de vida. Em quase todos os centímetros quadrados do leito marinho, vivia um organismo vivo: esponjas brancas e amarelas, algas incrustantes cor-de-rosa, tunicados. As laminárias gigantes curvam-se no fundo do mar devido ao peso dos mexilhões que crescem sobre elas. Estrelas-do-mar azuis banqueteavam-se com os mexilhões, caracóis e bernardos-eremitas!

Certo dia, interrompemos os mergulhos e aventurámo-nos até à bacia situada para lá do limite da plataforma continental. A bacia de Yaganes é o centro de um enorme ecossistema, interligado, que se estende desde a extremidade meridional do Chile e da Argentina até à Antárctida, criando uma convergência entre as águas dos oceanos Pacífico, Atlântico e Antárctico. O nosso engenheiro, Brad Henning, trouxera várias National Geographic Dropcams – esferas de vidro (borossilicato) que funcionam como caixas estanques e protegem câmaras e luzes de qualidade cinematográfica. As Dropcams têm um sistema de pesos que as levam a descer até ao fundo do mar e trazem as câmaras de volta horas mais tarde. Tínhamos esperança de que captassem imagens inéditas do leito marinho.

As Dropcams não desiludiram. Quando Brad nos mostrou uma selecção dos vídeos filmados pelas câmaras, ficámos de boca aberta. Bacalhaus, pescadas do Chile e outros peixes das profundezas acorreram ao isco fixo na Dropcam. Muitas destas espécies são excessivamente exploradas na bacia. O facto de ainda conseguirmos vê-las aqui significa que as suas populações podem recuperar se os seres humanos o permitirem. 

Depois da expedição, trocámos o fato de mergulho por um fato formal e reunimos com decisores do governo argentino numa tentativa de exercer pressão em prol da protecção dos oceanos, juntamente com os nossos parceiros do Fórum para a Conservação do Mar da Patagónia e da Tompkins Conservation. Alex Muñoz, director da divisão da América Latina do Projecto Mares Prístinos, apresentou os resultados da nossa expedição ao governo, para fundamentar o plano de criação do Parque Marinho de Yaganes. Também exibimos o documentário da nossa expedição em Buenos Aires, mostrando as maravilhas dos mares de Yaganes e da Terra do Fogo à sociedade civil argentina.

“Assistira às mudanças dramáticas dos nossos oceanos, causadas pelas alterações climáticas: a morte dos recifes de coral e a diminuição do gelo marinho do Árctico. O que iríamos encontrar
aqui, sob a superfície?”

Em Dezembro, o Parlamento reuniu-se em sessão extraordinária para apreciar a proposta. Todos nos sentíamos nervosos. Sabíamos que a Administração Nacional dos Parques e alguns líderes políticos apoiavam a nossa proposta, mas, ao abrigo da legislação argentina, a proposta de lei para autorizar o parque teria de ser aprovada pela Câmara dos Representantes e pelo Senado.

Após algumas negociações tensas, a Câmara votou no dia 5 de Dezembro. Fiquei perplexo.
A proposta de lei foi aprovada com 196 votos a favor e nenhum contra. Foi uma afirmação favorável à conservação como nunca vi noutro país. O Senado deu a bênção no dia 2 de Dezembro. O Chile já designara o seu parque marinho a sul do cabo Horn um ano antes. Há quarenta anos, o Chile e a Argentina estiveram perto de uma guerra por motivo de uma disputa sobre os direitos territoriais a sul da Terra do Fogo. Agora, os presidentes dos dois países gostariam de distinguir a zona como “parque marinho de paz”, possivelmente a maior zona oceânica transfronteiriça protegida.

“Hoje é um dia de alegria para todos os argentinos”, comentou Claudio ao telefone, depois da aprovação da proposta para a criação do parque. A alegria não toca apenas os argentinos. Como tive o privilégio de explorar estas águas, sinto que o oceano recuperou alguma força para nos enfrentar na nossa luta inexorável para esvaziá-lo de vida. Graças à liderança de dois governos, a integridade do grande ecossistema do mar do fim do mundo será mantida durante muitos anos.

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