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Um Pangolim-comum chamado Tamuda procura formigas ou térmitas para comer, num centro de recuperação do Zimbabwe. Estavam nas mãos de traficantes que provavelmente teriam contrabandeado as suas escamas para a Ásia, onde seriam utilizadas em remédios tradicionais.

Crê-se que os Pangolins serão o mamífero mais traficado. As suas escamas, compostas por queratina (o mesmo material das unhas), não possuem propriedades curativas provadas cientificamente, mas são procuradas pela medicina tradicional chinesa. Todas as oito espécies estão sob ameaça de extinção, apesar de o comércio internacional ter sido proibido em 2017. Os peritos estimam que mais de um milhão de Pangolins terão sido caçados entre 2000 e 2013.

Texto: Rachael Bale  Fotografias: Brent Stirton

É do tamanho de um golden retrıever e tem o corpo coberto de escamas. 

De cauda esticada paralelamente ao solo para se equilibrar, Tamuda tem as pequenas patas dianteiras à frente do corpo, como um T. rex.

O tratador guia suavemente o jovem Pangolim na direcção de uma termiteira e começa a parti-la com uma picareta. Com a voz, incentiva Tamuda: “Formigas.” O animal chega ao local e começa a comer, com a língua quase do comprimento do corpo revistando as fendas e as longas garras imitando a picareta.

Depois de comer durante alguns minutos, Tamuda avança um pouco mais. O tratador mostra--lhe uma nova termiteira. Desta vez, o Pangolim não demonstra interesse. Deita-se de lado como uma criança de 2 anos prestes a fazer uma birra. Enrola o corpo à volta da perna do tratador, que se baixa e tenta removê-lo delicadamente, mas Tamuda quer atenção.

Clare Trainor, Taylor Maggiacomo E Kaya Berne.  Fontes: Dan Challender, Grupo Especializado Em Pangolins Da Uicn; Agência De Investigação Ambiental; Lista Vermelha Da Uicn; Sarah Heinrich, Universidade De Adelaide; Scott Trageser, Creative Conservation Alliance; Katie Schuler, Coral & Oak Studios

Olhando para cima e fitando o rosto do ser humano, estica as patas, implorando que este lhe pegue ao colo. O tratador tenta mostrar-se inflexível, pois o seu trabalho é ensinar Tamuda a desenvencilhar-se sozinho, mas o apelo é demasiado forte. Acaba por pegar em Tamuda ao colo e embala-o.

A aula de Tamuda decorria na Fundação Tikki Hywood, um centro de recuperação de Pangolins nos arredores de Harare, no Zimbabwe. A infra-estrutura acolhe animais resgatados do tráfico por Lisa Hywood e a sua equipa. Lisa é uma mulher feroz. Tão depressa entoa cantigas de embalar aos animais que salvou como vocifera contra a crueldade do homem. Desde 2012, salvou mais de 180 Pangolins. Tikki Hywood é igualmente o lar de outros animais resgatados, como palancas-negras, vacas, uma cabra atrevida e um par de burros chamados Jesus e Mary.

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No centro de salvamento da Fundação Tikki Hywood, no Zimbabwe, cada Pangolim (como Tamuda, na imagem) tem o seu próprio tratador. Os Pangolins criam laços estreitos com os seres humanos que cuidam deles e os ensinam a alimentar-se de formigas e térmitas. Resgatado quando era bebé, Tamuda era teimoso e endiabrado, diz o seu tratador.

Os Pangolins jovens gostam de se sentir em lugares altos. As progenitoras transportam-nos às cavalitas nos primeiros meses de idade para que as crias possam observá-las e aprendam a comportar-se. É provável que Tamuda passasse a maior parte do tempo assim, até ao dia em que ele e a sua progenitora foram retirados do seu habitat por caçadores furtivos. Quando uma Pangolim com crias tem medo, enrola-se numa bola, protegendo com a armadura de escamas a cria e o seu próprio ventre macio coberto de penugem como um pêssego. É uma boa defesa contra um leão, mas não tem utilidade quando o predador é um ser humano. Bastam as mãos para os agarrar. 

Tamuda e a progenitora chegaram ao centro de recuperação no início de 2017. Um agente da patrulha fronteiriça do Zimbabwe capturou um homem vindo de Moçambique que tentava entrar no país com os animais dentro de um saco. Segundo a organização de vigilância de tráfico de animais selvagens Traffic, cerca de um milhão de Pangolins foi caçado furtivamente entre 2000 e 2013. Acredita-se que os Pangolins são o mamífero mais traficado do mundo.

Os agentes responsáveis pela aplicação da lei no Zimbabwe sabem que, quando confiscam um Pangolim, devem levá-lo a Lisa Hywood. Ela é uma das poucas pessoas do mundo capaz de manter Pangolins vivos em cativeiro. Estas criaturas sensíveis são difíceis de alimentar, pois ingerem apenas determinadas espécies de formigas e térmitas, um regime alimentar muito difícil de reproduzir em cativeiro.

No entanto, ao deixá-los vaguear sozinhos pela propriedade várias horas por dia com mães substitutas que os protejam, Tikki Hywood ajudou muitos animais a recuperarem para poderem ser devolvidos à natureza. “Sempre que alguém nos traz um Pangolim, interrogo-me se será o último do Zimbabwe”, diz Lisa Hywood, que fundou o centro em 1994.

Todas as oito espécies de Pangolins, quatro africanas e quatro asiáticas, estão em perigo de extinção devido ao tráfico ilegal. É por essa razão que o tratador de Tamuda não é identificado nesta reportagem. Ele e Lisa temem que, se os traficantes souberem quem são os tratadores, estes possam ser perseguidos por criminosos ávidos de acesso aos animais resgatados.

Na China, mais de duzentas empresas farmacêuticas produzem cerca de sessenta tipos de remédios tradicionais contendo escamas de Pangolim.

Os Pangolins são parentes mais próximos dos ursos e dos cães. Constituem uma ordem taxinómica própria e, se desaparecerem, não restará nada semelhante a eles na Terra. O comércio internacional das quatro espécies de Pangolins asiáticos é proibido desde 2000. Em 2017, foi aprovada uma proibição do comércio internacional das oito espécies, com o voto dos 183 governos que fazem parte da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), o tratado que regula o comércio transfronteiriço de animais selvagens e de partes dos seus corpos.

Pelo menos 67 países e territórios de seis continentes estiveram envolvidos no comércio de Pangolins, mas as maiores remessas de escamas tiveram origem nos Camarões, na Nigéria, na Serra Leoa e no Uganda, segundo uma análise da Traffic. Destinavam-se sobretudo à China.

“Na última década, registou-se um enorme crescimento do comércio intercontinental dos Pangolins, principalmente das suas escamas”, diz Dan Challender, da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), a autoridade global que classifica o grau de ameaça de cada espécie. Anteriormente, a maioria da caça furtiva e contrabando de Pangolins ocorria na Ásia. Esta mudança significa que os Pangolins asiáticos estão a tornar-se difíceis de encontrar e que o valor das escamas justifica os custos adicionais para contrabandear Pangolins de África para a Ásia.

Os Pangolins são consumidos como carne na África Ocidental e Central e por algumas tribos indígenas do Sul da Ásia e do Sudeste Asiático. Partes do seu corpo são igualmente utilizadas no Gana, na Nigéria, na África do Sul e noutros locais da África subsaariana como remédios tradicionais. E algumas pessoas do Vietname e da China consideram a carne de Pangolim uma iguaria. No entanto, é a procura das suas escamas que afecta mais a existência deste animal.

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No Vietname, um especialista em medicina tradicional de sexta geração demonstra como prepara ervas para misturar com as escamas secas de Pangolim que a mulher está a triturar. Acredita--se que as escamas são úteis para o tratamento de uma série de maleitas, mas não existe base científica para validar tais afirmações.

As escamas de Pangolim, normalmente secas, trituradas em pó e processadas em comprimidos, são utilizadas em diversas fórmulas da medicina tradicional chinesa, desde tratamentos para ajudar mães lactantes a remédios para alívio da artrite e do reumatismo. É possível encontrar escamas em mercados medicinais em toda a Ásia, incluindo o Vietname, a Tailândia, o Laos e Myanmar.

Na China, onde estes tratamentos continuam a ser consentidos pelo governo, mais de duzentas empresas farmacêuticas produzem cerca de sessenta tipos de poções tradicionais contendo escamas de Pangolim, segundo um relatório de 2016 da Fundação para a Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Ecológico da China. Todos os anos, as províncias chinesas aprovam colectivamente que essas empresas usem uma média de 26,6 toneladas de escamas, um valor que representa aproximadamente 73 mil Pangolins.

Os Pangolins da China tornaram-se visivelmente escassos em meados da década de 1990, segundo alguns relatórios, devido ao excesso de caça. As empresas chinesas continuaram a fabricar produtos com Pangolim, recorrendo ostensivamente a duas fontes legais: escamas armazenadas, retiradas a Pangolins caçados na China antes de as suas populações diminuírem; e outras importadas pelo país antes de as proibições entrarem em vigor.

Os registos do comércio de Pangolins da CITES revelam que a China importou quase 15 toneladas de escamas durante o período entre 1994 e 2014 – claramente insuficiente para satisfazer a procura das empresas farmacêuticas. Com frequência, os governos provinciais não verificam se as empresas vão buscar escamas em armazéns ou se pelo contrário as obtêm por via ilegal através de Pangolins capturados recentemente, comenta Zhou Jinfeng, director do grupo Conservação da Biodiversidade da China, sediado em Pequim, que tem investigado o tráfico de Pangolins. Zhou duvida que as escamas armazenadas na China sejam suficientes para satisfazer as necessidades das empresas mais de duas décadas depois de os Pangolins terem praticamente desaparecido do país. “Não acredito”, diz. “Passados tantos anos, ainda têm tantas em armazém?” 

Ninguém sabe ao certo quantas toneladas de escamas de Pangolim são contrabandeadas todos os anos. Essa é a própria natureza do mercado negro. Sabemos, porém, que são muitas e que as maiores quantidades são enviadas para a China. Em 2017, funcionários alfandegários chineses confiscaram 11,9 toneladas de escamas de Pangolim, correspondentes a cerca de trinta mil animais. Foi uma das maiores capturas individuais de que há registo. No ano passado, as autoridades de Hong Kong apreenderam sete toneladas de escamas numa única remessa a caminho da China.

No total, quase 30% das apreensões de escamas realizadas no mundo entre 2010 e 2015 destinavam-se à China, segundo a Traffic. Tendo em conta que, num cálculo conservador, as apreensões poderão representar cerca de um quarto do comércio ilegal, estes valores sugerem que centenas de milhares de Pangolins são massacrados todos os anos. A National Geographic solicitou comentários a várias agências governamentais chinesas, mas não recebeu qualquer resposta.

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Um caçador de uma aldeia indonésia afirma fazer entregas semanais de Pangolins na cidade de Surabaya. Os Pangolins estão protegidos por leis nacionais nos países onde existem e é proibido comercializá-los internacionalmente. Apesar disso, a caça furtiva e o tráfico representam ameaças para a sobrevivência dos Pangolins.

Continuam a existir empresas chinesas que desenvolvem esforços para criar Pangolins em grande escala, de forma a manterem um fornecimento regular. Segundo o grupo Conservação da Biodiversidade da China, desde 2016, o governo emitiu dez licenças para criação de Pangolins em vários tipos de infra-estruturas, desde centros de recuperação a empresas de investimento. Mais de vinte empresas farmacêuticas, juntamente com empresas do Uganda, Laos e Camboja, iniciaram uma “aliança de criação” em 2014.

O problema é que ninguém sabe como criar Pangolins a uma escala comercial. “Não podemos satisfazer a procura através da criação”, diz Paul Thomson, biólogo e co-fundador da associação sem fins lucrativos Save Pangolins. “Os Pangolins sofrem de stress com muita facilidade. E não recuperam depressa. A maioria dos Pangolins não sobrevive mais de duzentos dias em cativeiro.”

Essas conclusões não fazem esmorecer alguns empresários chineses. Em 2013, uma mulher chinesa chamada Ma Jin Ru fundou um negócio de criação de Pangolins chamado Olsen East Africa International Investment Co. Ltd., em Kampala, no Uganda, com uma licença provisória da Autoridade para a Vida Selvagem do Uganda e, mais tarde, com financiamento de uma fundação chinesa com ligações ao Estado. Pouco depois, uma empresa chamada Asia-Africa Pangolin Breeding Research Centre foi igualmente registada e licenciada em Kampala.

Ambas as empresas foram alvo de rusgas, em 2016 e 2017, respectivamente, por autoridades ugandesas que suspeitavam que as instalações serviam para encobrir o tráfico de Pangolins selvagens capturados. A licença atribuída à Olsen East Africa, por exemplo, permitia a criação em cativeiro, mas os investigadores suspeitavam que as empresas estariam na verdade a capturar e a comercializar Pangolins sem licença.

Em 2016, foi criado outro Centro de Investigação da Reprodução de Pangolins Ásia-África em Moçambique, que mais tarde se tornou suspeito aos olhos das autoridades moçambicanas responsáveis pela gestão de animais selvagens pelas mesmas razões. Na China, investigadores da associação sem fins lucrativos de Zhou tentaram visitar várias empresas licenciadas e todas recusaram o pedido de acesso.

É tremendamente difícil manter Pangolins vivos em cativeiro. Além do seu regime alimentar único, eles precisam de cuidados especiais por serem propensos a úlceras no estômago e pneumonia, geralmente causadas por stress. Seis jardins zoológicos e uma associação sem fins lucrativos dos EUA importaram 46 Pangolins do Togo em 2016, com o objectivo de estudar os animais em condições controladas e estabelecer uma população auto-sustentável. Até ao início de Março, já tinham morrido dezasseis. 

Os Pangolins não são difíceis de encontrar nos Camarões. Encontram-se em mercados ao ar livre onde se vende carne de caça. São expostos, mortos, ao lado de macacos e pitões, sobre mesas articuladas. Estão à venda à beira da estrada, onde vendedores os seguram de cabeça para baixo pelas caudas para que os condutores possam vê-los. São uma visão tão comum que nos fazem pensar: se nenhuma destas pessoas parece ter dificuldades em encontrar Pangolins, quão perto da extinção poderão estar?

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Nos Camarões, uma jovem que gere uma banca de alimentos, prepara-se para matar um Pangolim-arborícola no beco atrás de sua casa. Há muito que os camaroneses comem os animais, embora este comércio tenha sido recentemente proibido. As escamas de Pangolim, anteriormente deitadas fora, são agora vendidas a comerciantes de animais selvagens nas cidades.

Na verdade, não sabemos ao certo quantos existem. Nocturnos, solitários e tímidos, são difíceis de contar. Dados compilados pela Traffic e outras organizações não governamentais tornam evidente que um número alarmante de Pangolins estão a ser consumidos nos Camarões e exportados desse país e de outros da África Ocidental e Central.

Quando eu e o fotógrafo Brent Stirton nos deslocámos aos Camarões no Verão passado, contactámos Angelia Young. Esta sul-africana que vive em Yaoundé com o marido e três filhos, estava a organizar a inauguração do primeiro centro de recuperação de Pangolins dos Camarões. Levou-nos a um restaurante no bairro de Bastos, onde se situam as embaixadas e residem os expatriados. Mostrou-nos os menus: por cima do cuscuz, da banana-da-terra e do feijão--verde, estava escrito porco-espinho, antílope e Pangolim.

Esta ementa era vulgar em qualquer restaurante da cidade, disse a nossa interlocutora. A carne de caça é popular nos Camarões, onde muitos a preferem à carne de animais domésticos. Antes disso, quando visitámos um mercado numa vila rural onde uma jovem mulher estava a preparar uma refeição à base de Pangolim para vender, perguntei-lhe por que razão o cozinhava.

“Porque não?”, disse-me. “É bom.”

Nós não pedimos Pangolim (é ilegal caçar, vender ou comprar Pangolins nos Camarões), mas tínhamos curiosidade em ver se o restaurante o teria disponível. O cozinheiro mostrou-se satisfeito em atender ao nosso pedido, trazendo uma travessa de pequenos corpos cinzentos congelados. Fingindo sermos turistas curiosos, abrimos a boca em sinal de espanto e tirámos fotografias.

Angelia levou-nos depois para sua casa, que, como todas as outras casas da sua rua, estava rodeada por um muro alto e grosso para garantir a sua segurança. Quando encostámos o carro, vi um rapaz vestido com o uniforme da escola. Era Nathan, o filho mais novo, passeando aquilo que parecia ser um cão. Ele apontava a lanterna para o espaço entre o passeio e o muro do vizinho, mantendo-se atento ao animal de estimação.

Quando nos aproximámos mais, vi que não era um cãozinho, mas sim um Pangolim. A pequena criatura cheirava e remexia a terra, em busca de formigas. Um acompanhante de Pangolins, que supervisionava a saída, seguia-os de perto, mantendo-se atento ao animal e ao rapaz. Tratava-se de um dos Pangolins resgatados por Angelia Young e encontrava-se em sua casa para recuperar a saúde. 

“Estou sempre a salvar animais. Gatos, cães, aves, tudo. Acabei por salvar Pangolins sem saber como cuidar deles”, comentou, quando recordou o seu primeiro salvamento, em finais de 2016. “A única pessoa que me atendou o telefone foi a Lisa, no Zimbabwe.”

Lisa começou a enviar a Angelia embalagens com medicamentos e cobertores para tratar dos Pangolins, juntamente com instruções sobre a saúde dos animais. As suas conversas acabaram por estar na origem do centro de reabilitação que Young se preparava para abrir – a Fundação Tikki Hywood dos Camarões.

Angelia Young apresentou-nos a Nathan, de 8 anos, e disse-lhe que íamos dar um passeio a pé até ao supermercado da esquina comprar chalotas. Deixámos o Pangolim entregue ao olhar atento do acompanhante e, pelo caminho, Nathan disse que gostava muito dos Pangolins e estava entusiasmado por poder ajudá-los. Pareceu-me evidente que se sentia orgulhoso da sua mãe. Ao lado da banca de produtos instalada na rua, um grupo de homens e mulheres chineses comiam o seu jantar. Cumprimentaram-nos em francês, com grandes sorrisos. Quando começámos a ver os legumes, Angelia fez um pequeno aceno para a esquerda com o queixo. Perto da porta lateral do edifício, atrás de uma pequena vedação de madeira, havia uma arca frigorífica. Sobre ela, estavam várias dezenas de escamas de Pangolim a secar. Angelia e Nathan trouxeram algumas chalotas e outros legumes enquanto eu passeava pelo local para ver melhor as escamas, o que não foi difícil: não estavam escondidas.

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Um Pangolim espreita do interior de uma caixa, a caminho de uma montanha isolada no Vietname, onde 25 Pangolins resgatados do comércio ilegal serão libertados na natureza. Sediada no Parque Nacional de Cuc Phuong, a associação Save Vietnam’s Wildlife ajudou a formar a primeira equipa contra a caça furtiva do país e salvou mais de mil Pangolins.

“Claro que é uma visão chocante: estão mesmo à frente da nossa cara”, disse Angelia mais tarde. “Para eles, não é nada. Vêem-se por todo o lado.”

Um grande carregamento  de escamas de Pangolim seria contrabandeado para os Camarões em breve, disseram-nos os investigadores da organização sem fins lucrativos Last Great Ape Organization, durante a nossa visita. 

Assim que deixei o país, agentes policiais e responsáveis pela vida selvagem interceptaram o carregamento e detiveram seis pessoas. As escamas de Pangolim tinham chegado num camião proveniente da República Centro-Africana, onde foram provavelmente adquiridas a comerciantes de menor escala. O plano, disse Eric Kaba Tah, da Last Great Ape, era levar o carregamento até Douala, onde os contrabandistas o venderiam ao degrau acima da cadeia de fornecimento. Frequentemente, o destino seguinte das escamas seria a Nigéria, seguindo depois para a China, a Malásia ou o Vietname.

“Estamos a ver cada vez mais produtos à base de animais selvagens na sub-região do Centro de África, atravessando os Camarões e a Nigéria, onde os traficantes acreditam que a aplicação das leis relativas à vida selvagem não é tão forte”, disse Eric Kaba Tah. É útil para os traficantes que já existam rotas de contrabando entre África e a Ásia para outros produtos à base de animais selvagens. Carregamentos de escamas de Pangolim foram descobertas juntamente com marfim, dentes de hipopótamo e outras partes ilícitas de animais.

As redes de crime organizado que movimentam o marfim também traficam escamas de Pangolim, segundo o Centro de Estudos Avançados de Defesa, um grupo de investigação sediado em Washington, que se concentra em redes ilegais, incluindo a criminalidade organizada contra animais selvagens. Esta criminalidade está por norma associada a lavagem de dinheiro, fraude fiscal e posse ilegal de armas, entre outros crimes.

A China é o maior consumidor de escamas de Pangolim, mas não tem de ser assim, diz Steve Given, antigo director associado do American College of Traditional Chinese Medicine, em São Francisco. Ele identificou pelo menos 125 alternativas à base de ervas, minerais e animais na farmacopeia da medicina chinesa, dependendo daquilo que for necessário tratar num paciente. “Não existe virtualmente razão nenhuma para alguém usar clinicamente chuan shan jia”, disse, referindo-se ao nome tradicional das escamas de Pangolim.

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Mascarados para proteger as suas identidades, agentes da unidade de crime organizado da Costa do Marfim sentam-se sobre 3,6 quilogramas de escamas de Pangolim apreendidas em 2017 e 2018, cujo destino provável seria a China ou o Vietname. Como as quatro espécies de Pangolim asiático se encontram em perigo, os traficantes começaram a visar as espécies africanas.

A medicina ocidental não encontrou, até à data, provas de que as escamas de Pangolim, que são compostas por queratina – o mesmo material existente nas unhas, no cabelo e no corno de rinoceronte – tenham efeitos terapêuticos nos seres humanos. No entanto, os manuais de medicina tradicional dizem que as escamas podem ser eficazes para tratar desequilíbrios do corpo.

Enquanto milhões de pessoas continuarem a recorrer à medicina tradicional em busca de alívio (e até é provável que esse número aumente porque a medicina tradicional chinesa está prestes a integrar oficialmente o compêndio médico da Organização Mundial da Saúde), a educação dos prestadores de cuidados de saúde e pacientes em relação a alternativas será uma forma importante de proteger os Pangolins da extinção.

De regresso aos Camarões, Angelia Young contou que estava a planear libertar três Pangolins na natureza e convidou-nos a acompanhá-la. Dois dos Pangolins tinham sido encontrados numa garagem e um fora entregue por uma mulher que o recebera como oferta. Enquanto o carro saltava numa estrada de terra batida, pensei nos Pangolins enrolados em caixas na parte de trás do carro, certamente em pânico com a viagem que lhes fora imposta pelos seus salvadores. As estradas encontravam-se demasiado esburacadas para chegar ao local de entrega habitual, por isso parámos num campo aberto.

Enquanto caminhávamos alguns metros campo adentro, Angelia poisou o primeiro Pangolim no solo. O animal correu para o capim alto e desapareceu. Vimos apenas um ligeiro movimento na parte de cima das ervas. Passados 15 minutos, os outros dois Pangolins foram igualmente libertados. Foi, no mínimo, uma desilusão.

Na viagem de regresso, interroguei Angelia sobre um mercado de carne de caça pelo qual passáramos à saída. Tinha porcos-espinhos à venda e havia escamas de Pangolim a secar nas imediações. Não seria provável que os Pangolins que ela acabara de libertar fossem também caçados em breve?

Era bastante possível – admitiu ela. “É uma sensação agridoce deixá-los ir. Não há segurança.” Apesar disso, acrescentou, há uma segunda hipótese. Talvez se reproduzam antes de apanharem chuva, contribuindo com mais algumas crias para uma população cada vez menor. Todos os Pangolins contam, disse. 

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