turismo animais exóticos

Em Lucky Beach, na ilha de Phuket, uma família diverte-se durante uma sessão fotográfica com elefantes juvenis. Muitos viajantes desconhecem o treino a que os elefantes são sujeitos e vêem estas experiências pitorescas como oportunidades especiais. Na Tailândia, há cerca de 3.800 elefantes em cativeiro. Mais de metade trabalha na indústria do turismo.

As experiências de contacto directo com animais exóticos estão na moda, estimuladas pelas redes sociais. No entanto, nos bastidores, os animais envolvidos em actividades turísticas costumam levar uma existência miserável.

Texto: Natasha Daly
Fotografias: Kirsten Luce

Regressei para ver como estava um bebé. 

Pouco depois do crepúsculo, viajo num carro que se desloca penosamente sobre uma estrada lamacenta, no meio da chuva, passando por filas de elefantes presos com grilhetas. Estive aqui há cinco horas, quando o Sol brilhava, quente e alto, e os turistas passeavam, montados em elefantes. 

Agora, avanço a pé e mal consigo avistar o caminho iluminado pela lanterna do meu telemóvel. Quando o poste da vedação me trava, sigo o caudal da água da chuva que desliza pelo chão de betão até atingir três grandes patas cinzentas. Uma quarta pata está levantada, fortemente apertada por uma corrente e sufocada por um aro de espigões metálicos. Quando a fêmea de elefante se cansa e pousa a pata, os espigões enterram-se ainda mais fundo no seu tornozelo. 

Meena tem 4 anos e 2 meses, o equivalente a 2 ou 3 anos humanos. É portanto uma bebé grande. Khammon Kongkhaw, o seu mahout, ou tratador, disse-me antes de ali chegar que Meena está presa com uma corrente com picos porque tende a dar coices. Khammon é o responsável por Meena no Parque de Aventuras com Elefantes de Maetaman, perto de Chiang Mai, no Norte da Tailândia, desde que ela tinha 11 meses. Disse-me que só coloca a corrente durante o dia e que a retira à noite. Neste momento, já é noite. 

Pergunto a Jin Laoshen, o funcionário do Parque de Maetaman que me acompanha nesta visita nocturna, qual a razão para a corrente ainda estar a magoar o animal. Ele diz-me que não sabe. 

 

Maetaman é um de muitos parques com animais existentes em Chiang Mai, região repleta de turistas. As multidões trepam todos os dias para as trombas dos elefantes. Espicaçados pelos aguilhões (varas longas munidas de um gancho metálico afiado na ponta) dos mahouts, os animais erguem os turistas no ar enquanto as máquinas fotográficas disparam. Os turistas observam os mahouts a aguilhoar os elefantes – um dos animais mais inteligentes do planeta – para que eles atirem dardos ou pontapeiem enormes bolas de futebol.

A indústria aproveita-se do amor das pessoas pelos animais, mas procura frequentemente maximizar os lucros explorando esses animais desde o nascimento até à morte.

Meena é um dos dez elefantes do espectáculo de Maetaman. Para ser mais exacta, ela é uma pintora. Duas vezes por dia, Kongkhaw coloca um pincel na ponta da sua tromba e pica-lhe o rosto com um prego de aço para lhe guiar as pinceladas de cores primárias que arrasta sobre o papel. Muitas vezes fá-la pintar um elefante selvagem na savana. Os seus quadros são vendidos aos turistas. 

A vida de Meena foi planeada para seguir um curso idêntico ao de aproximadamente 3.800 elefantes que vivem em cativeiro na Tailândia e muitos outros milhares por todo o Sudeste Asiático. Actuará em espectáculos até ter cerca de 10 anos. Depois disso, passará a ser um animal para montar: os turistas sentar-se-ão sobre um banco amarrado ao seu dorso, realizando vários passeios por dia. Quando Meena estiver demasiado velha ou doente para ser montada (entre os 55 e os 75 anos), morrerá. Se tiver sorte, beneficiará de alguns anos de reforma. Passará grande parte da vida acorrentada dentro de um estábulo. 

Os parques com animais selvagens, como o existente em Maetaman, atraem pessoas de todo o mundo para conviver com animais como Meena, representando uma fatia lucrativa da florescente indústria de viagens mundial. Actualmente, o número de viagens internacionais duplicou em relação ao de há 15 anos.

5 Regras para observar animais selvagens

Descobrir como observar animais exóticos de uma forma humana pode ser confuso. Observá-los a uma distância segura em ambiente selvagem é o ideal, afirmam os defensores do bem-estar animal. Para avaliar o modo como as infra-estruturas tratam os animais em cativeiro, pode usar como termo de referência as normas internacionalmente reconhecidas, inspiradas num relatório governamental do Reino Unido datado de 1965. Conhecidas como as “cinco liberdades”, são seguidas por grupos de bem-estar animal em todo o mundo e pelas associações de médicos-veterinários dos EUA, Canadá e Europa. 

1. Livres de fome e de sede: Procure locais onde os animais pareçam bem alimentados e tenham acesso permanente a água limpa. 

2. Livres de desconforto: Repare se os animais dispõem de um ambiente adequado, incluindo abrigo, espaço amplo, área de repouso confortável e um lugar recôndito para se refugiarem das multidões. 

3. Livres de dores, lesões ou doenças: Evite locais onde os animais tenham lesões visíveis ou sejam obrigados a participar em actividades que possam lesioná-los ou causar-lhes sofrimento – ou cujos recintos não estejam limpos. 

4. Livres para exprimirem comportamentos normais: Estar acorrentado, actuar em espectáculos e interagir com turistas – servindo para serem montados, posar para fotografias ou serem lavados por eles – não são actividades normais para um animal selvagem, mesmo nascido em cativeiro. 

5. Livres de medo e tristeza: Tenha consciência de que o treino baseado no medo, a separação das crias das suas progenitoras à nascença, os ruídos artificiais e as grandes multidões provocam stress.

O turismo com animais selvagens não é novo, mas as redes sociais estão a pôr a indústria ao rubro. Actividades outrora publicitadas essencialmente em guias de viagens são agora partilhadas em auto-retratos captados por turistas de mochila às costas, viajantes de autocarro e “influenciadores” das redes sociais, com um toque no ecrã do telemóvel. Quase todos os “millennials” (pessoas com entre 23 e 38 anos) utilizam as redes sociais quando viajam. As suas selfies são uma publicidade viral para os parques e estimulam as experiências de contacto próximo com os animais.

Apesar de toda a visibilidade proporcionada pelas redes sociais, elas não mostram o que acontece fora do alcance das máquinas fotográficas. As pessoas não costumam ter consciência de que muitos dos animais existentes nesses parques vivem em condições semelhantes às de Meena ou até piores.

Eu e a fotógrafa Kirsten Luce resolvemos compreender de que maneira os animais existentes em diversos parques são tratados depois de as multidões partirem.

À saída de Maetaman, fazemos uma viagem de cinco minutos de carro, subindo uma colina até chegarmos a uma propriedade com uma placa de madeira onde se lê: “EcoValley dos Elefantes: onde há elefantes em boas mãos”. Aqui não há passeios de elefante, nem demonstrações de pintura, nem outros espectáculos. Os turistas podem observar os animais num campo de capim, circundado por árvores. 

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Turistas posam com elefantes no Parque de Aventuras com Elefantes de Maetaman, perto de Chiang Mai, na Tailândia. É frequente os jovens elefantes realizarem proezas e os mais velhos servirem de montada para passeios. Para os tornar obedientes nas interacções com humanos, os juvenis são “dobrados” ou treinados com golpes dolorosos de um gancho metálico.

O livro de visitas de EcoValley está repleto de elogios de turistas que vêem aqui elefantes sem correntes e partem satisfeitos por apoiarem uma infra-estrutura que consideram ter ética. O que muitos não sabem é que, embora aparentemente livres, os elefantes de EcoValley são trazidos até aqui todos os dias do vizinho parque de Maetaman e que os dois parques pertencem efectivamente à mesma empresa. 

Meena também foi aqui trazida uma vez, mas tentou fugir para a floresta. Meena Kalamapijit é dona de Maetaman e de EcoValley, ambos inaugurados em Novembro de 2017 para atrair turistas ocidentais. Afirma que os seus 56 elefantes são bem tratados e que os passeios e espectáculos constituem o exercício de que os animais necessitam. Diz também que o comportamento de Meena melhorou bastante desde que o seu mahout começou a utilizar a corrente com espigões. 

 

Nesta reportagem, documentamos turistas a observar animais em cativeiro em todo o mundo. Na Tailândia, vimos homens norte-americanos a abraçarem tigres em Chiang Mai e jovens adolescentes no rio Amazonas a tirarem selfies com crias de preguiça. A maior parte dos turistas ignora que os tigres adultos podem ter sido privados de garras, drogados ou ambos. Ou que há sempre crias disponíveis para os turistas abraçarem porque os felinos são obrigados a procriarem a um ritmo acelerado e as crias são retiradas às progenitoras poucos dias após o nascimento. Ou que os elefantes são montados e fazem truques sem magoarem as pessoas porque foram “domados” em bebés e ensinados a temer o aguilhão. Ou que as preguiças amazónicas são ilegalmente retiradas da selva e é frequente morrerem poucas semanas depois.

Ao visitarmos arenas e baias de alojamento em três continentes e no arquipélago do Hawai, fazendo perguntas sobre a maneira como os animais são tratados e obtendo respostas que nem sempre batiam certo, tomámos consciência da forma metódica e sistemática como o sofrimento animal é escondido. 

O sucesso económico da indústria depende, em grande medida, da persuasão do público de que os animais expostos, montados ou alimentados a troco de dinheiro, também estão a divertir-se.

Este sucesso deve-se, em parte, ao facto de os turistas em situações que lhes são desconhecidas e desejosos de ter uma experiência positiva nem sequer pensam na hipótese de estarem a contribuir para maltratar os animais. As redes sociais agravam a ilusão: recomendações distraídas feitas por amigos e definidores de tendências legitimam os parques antes mesmo de um turista se aproximar de um animal. Esse papel desempenhado pelas redes sociais neste problema  começa agora a ser reconhecido. 

Em Dezembro de 2017, depois de uma reportagem de investigação conduzida pela National Geographic sobre o turismo de vida selvagem na Amazónia brasileira e peruana, o Instagram introduziu uma nova função: agora, os utilizadores que procurem um de várias dezenas de hashtags (por exemplo, #slothselfie [auto-retrato com preguiça] ou #tigercubselfie [auto-retrato com cria de tigre]), são notificados de que o conteúdo que estão a visualizar pode ser nocivo para os animais selvagens.

 É fácil encontrar Olga Barantseva no Instagram. “Fotógrafa da Rússia. Fotografando sonhos”, lê-se no seu resumo biográfico. Encontra-se com os seus clientes para fazer sessões fotográficas em cenários naturais situados nos arredores de Moscovo, usando animais selvagens mantidos em cativeiro.

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Numa floresta dos arredores de Moscovo, Stepan, um urso castanho de 26 anos que é uma estrela nas redes sociais, senta-se entre uma modelo com asas  de anjo e a sua dona, Svetlana Panteleenko. Fotógrafos residentes em Moscovo pagam 670 euros para captar a cena para as suas contas de Instagram.

Para comemorar os seus 18 anos, Sasha Belova ofereceu a si própria uma sessão fotografada por Olga, junto de uma alcateia. “Era o meu sonho,” diz, enquanto mexe nervosamente nos cabelos, que foram penteados nessa manhã. “Os lobos são selvagens e perigosos.” Os lobos são mantidos em pequenas jaulas, num jardim zoológico para animais de companhia, quando não estão a participar em sessões fotográficas. 

A família Kravtsov também contratou Olga Barantseva para fotografar os seus primeiros retratos de família profissionais – os cinco membros da família, tremendo e sorrindo na floresta de bétulas, na companhia de um urso chamado Stepan.

Há seis anos que Olga fotografa pessoas com animais selvagens. “Despertou como estrela”, nas suas palavras, em 2015, quando dois ou três órgãos de comunicação social internacionais a descobriram na Internet. O seu público cresceu explosivamente para mais de 80 mil seguidores em todo o mundo. “Quero mostrar harmonia entre pessoas e animais”, afirma.

Num dia frio de Outono, sob uma coroa de folhas de bétula douradas, numa colina a partir da qual se avista um lago de águas gélidas, Alexander Levin, de dois anos e meio de idade, vestido com uma camisola às riscas amarelas e pretas a imitar uma abelha, segura timidamente na pata de Stepan.

Os donos do urso, Yury e Svetlana Panteleenko, amansam a sua estrela com comida para o convencerem a aproximar-se do rapaz. Clic. Parece uma amizade ternurenta. Os donos atiram uvas a Stepan para conseguirem que ele abra completamente a boca. Clic. O urso parece sorrir.

 

O casal Panteleenko muda constantemente Stepan de sítio, ajustando-lhe as patas, alimentando-o e posicionando Alexander, enquanto Olga, de cabelo cor-de-rosa, vestindo calças de ganga e uma parka, vai captando cada momento. Clic. Uma fotografia vai para a sua conta do Instagram. Rapaz e urso nos bosques dourados da Rússia, uma imagem saída de um conto de fadas. Eis uma reviravolta contemporânea numa antiga tradição russa de exploração de ursos para entretenimento.

Noutro dia, nessa mesma floresta, eu e Kirsten juntamo-nos a um grupo de 12 jovens mulheres, com contas de Instagram praticamente idênticas, repletas de fotografias de sonho, com modelos acariciando mochos, lobos e raposas. Armadas com máquinas fotográficas sofisticadas, embora com um número ainda modesto de seguidores, todas pretendem conquistar um público idêntico ao de Olga Barantseva. Cada uma pagou ao casal Panteleenko cerca de 670 euros para captar fotografias de moda acompanhadas pelo derradeiro troféu: um urso no bosque. 

Stepan tem 26 anos. É uma idade avançada para um urso-pardo e o animal mal consegue andar. Segundo o casal Panteleenko, foi comprado a um pequeno jardim zoológico aos 3 meses de idade. Dizem que o trabalho do urso, com um número contínuo e constante de sessões fotográficas e filmes, rende dinheiro suficiente para mantê-lo alimentado. 

Um vídeo publicado na conta de Instagram de Svetlana Panteleenko proclama: “Amor e comida boa conseguem transformar qualquer um num ursinho de peluche :-).” E assim, sem mais, as redes sociais pegam num único exemplo de turismo local com animais e difundem-no para o mundo inteiro. 

 A quando da sua estreia em 2013, a longa-metragem documental “Blackfish” provocou uma reacção rápida e decisiva por parte do público norte-americano. O documentário contava a história de Tilikum, uma orca angustiada do SeaWorld em Orlando (EUA), mostrando em pormenor a existência a que as orcas podem ser sujeitas em cativeiro. Centenas de milhares de espectadores indignados assinaram petições. Empresas com acordos de parceria, como a Southwest Airlines, cortaram relações com o SeaWorld. O número de espectadores nos parques aquáticos do SeaWorld diminuiu e o valor das suas acções caiu a pique. 

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James Regan reconhece que se sentiu chocado com o que viu em “Blackfish”. Em lua-de-mel no Hawai com a sua mulher, Katie, este homem nasceu em Inglaterra, país onde o último parque de mamíferos marinhos fechou definitivamente as portas em 1993. Encontro-me com ele no Dolphin Quest Oahu, uma empresa de turismo de luxo que vende experiências de mergulho com golfinhos, no Kahala Hotel & Resort, um hotel mesmo em cima da praia, imediatamente a leste de Honolulu. O casal Regan pagou 200 euros cada para nadarem com um golfinho-roaz durante 30 minutos, integrando um grupo pequeno. Esta unidade da Dolphin Quest no Hawai acolhe seis golfinhos. Há outra no arquipélago.

Os golfinhos-roazes são a espinha dorsal de uma indústria disseminada por todo o planeta.
O negócio de mergulho com golfinhos baseia-se na interacção, em piscinas, com golfinhos nascidos em cativeiro e golfinhos capturados em ambiente selvagem. A popularidade destas experiências que todos querem fotografar reflecte a insensibilidade que rodeia as interacções com golfinhos: no Ocidente, o público rejeita cada vez mais os espectáculos que obrigam animais a realizarem proezas atléticas ou divertidas, mas muitos ainda consideram a natação com golfinhos em cativeiro um rito de passagem clássico das férias.

Katie Regan queria nadar com golfinhos desde que era pequena. O marido ri-se e descreve o que pensa da Dolphin Quest: “Eles pintam um quadro muito bonito. Quando estamos na América, toda a gente sorri.” No entanto, reconhece que o facto de a infra-estrutura estar integrada no seu hotel permite aos turistas ver a alimentação e tratamento dos golfinhos. De seguida, volta a falar em “Blackfish”. Katie protesta: “Pára de transformar o meu sonho numa coisa horrível!” 

Rae Stone, presidente da Dolphin Quest e veterinária especializada em mamíferos marinhos, afirma que a empresa doa dinheiro a projectos de conservação e informa os turistas sobre os perigos enfrentados pelos mamíferos marinhos em ambiente selvagem. Explica que, ao pagarem por esta experiência, os turistas estão a ajudar os primos selvagens dos golfinhos que vivem em cativeiro. 

Rae Stone sublinha igualmente que a Dolphin Quest recebeu a certificação de “humana”, atribuída pela organização sem fins lucrativos para o bem-estar animal American Humane. Note-se que a Walt Disney Company, accionista maioritário da National Geographic, proporciona contacto directo com golfinhos em algumas excursões de férias e em Epcot, um dos seus parques em Orlando. A Disney afirma cumprir as normas de bem-estar animal da Associação de Jardins Zoológicos e Aquários, uma organização sem fins lucrativos que forneceu acreditação a mais de 230 infra-estruturas em todo o mundo.

Eis um debate aceso: será que até as unidades com normas rigorosas, veterinários no quadro e piscinas carregadas com água do mar filtrada podem proporcionar um tratamento verdadeiramente humano aos mamíferos marinhos? Rae Stone, da Dolphin Quest, acredita que sim. 

As vozes críticas, incluindo a Humane Society of the United States, que não apoia a manutenção de golfinhos em cativeiro, rejeita essa perspectiva, afirmando que estes animais evoluíram de maneira a percorrerem grandes distâncias nadando em grupos sociais complexos, condições essas que não podem ser reproduzidas no espaço confinado de uma piscina. É isso que explica o facto de o National Aquarium, em Baltimore, ter anunciado, em 2016, que os seus golfinhos serão transferidos para um santuário à beira-mar em 2020.

Alguns parques temáticos dos EUA criam os seus próprios golfinhos, uma vez que desde 1972 este país impôs restrições à captura de animais selvagens. Noutros lugares, porém, os golfinhos ainda são retirados do ambiente selvagem e transformados à força em artistas. 

Na China, onde não há legislação nacional reguladora do bem-estar dos animais mantidos em cativeiro, os golfinários com animais capturados em estado selvagem são um negócio florescente: existem actualmente 78 parques de mamíferos marinhos e há mais 26 em construção no país.

 Para usufruir da oportunidade única de ver os raros golfinhos-roazes do mar Negro, os habitantes da cidade interior de Kaluga, a 150 quilómetros de Moscovo, não precisam de sair da sua cidade. No parque de estacionamento do centro comercial Torgoviy Kvartal, foi instalado um aquário temporário, branco e insuflável: o Golfinário Itinerante de Moscovo. 

No interior da cúpula insuflada, as famílias ocupam os seus lugares em redor de uma pequena piscina. A instalação é tão diminuta que até os lugares mais baratos, a 8 euros cada, são atingidos por salpicos de água.

“Os meus filhos estão doidos de alegria”, diz uma mulher chamada Anya, apontando na direcção de dois esfuziantes rapazes, aos saltos nos lugares. No meio do júbilo, na água que parece demasiado baixa e demasiado turva, dois golfinhos de ar indiferente nadam em círculos. 

A Rússia é um dos poucos países (a Indonésia é outro) onde existem oceanários itinerantes. Os golfinhos e as belugas, que precisam de se manter imersos em água para sobreviver, são colocados em banheiras no interior de camiões e deslocados de cidade para cidade. A Rússia não tem legislação que regule a forma como os mamíferos marinhos devem ser tratados em cativeiro. 

Os espectáculos são o braço doméstico de um intenso tráfico mundial de golfinhos e pequenas baleias promovido por russos. Os golfinhos-roazes do mar Negro não podem ser capturados sem licença, mas os pescadores russos podem capturar belugas e orcas ao abrigo de quotas legais para fins científicos e didácticos. Algumas belugas são legalmente vendidas a aquários em todo o país. Actualmente, a Rússia só autoriza a captura de cerca de uma dúzia de orcas por ano para fins científicos e didácticos, e o governo começou a reprimir a exportação desde Abril de 2018. No entanto, na opinião de investigadores estatais, orcas russas são ilegalmente capturadas para exportação para a China, onde podem ser vendidas por milhões de euros.

As orcas mantidas em cativeiro são demasiado grandes para os espectáculos itinerantes. Quando contactei os donos do Golfinário Itinerante de Moscovo e de outra empresa, o Espectáculo das Baleias Brancas, em telefonemas separados, para lhes perguntar qual a origem dos seus golfinhos e belugas, os dois homens, Sergey Kuznetsov e Oleg Belesikov, desligaram o telefone. 

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Belugas actuam num aquário desmontável sob uma tenda insuflável em Saratov, na Rússia. Nem todo o turismo orientado para a fauna implica deslocações a destinos exóticos: espectáculos itinerantes levam os animais às pessoas, em pequenas cidades da Rússia. As belugas, capturadas em águas territoriais russas, não vivem muito tempo nestas condições.

Os cerca de doze oceanários itinerantes da Rússia são divulgados como uma forma de levar animais selvagens até pessoas que poderão nunca ter oportunidade de ver o oceano. Hoje, em Kaluga, vendo os golfinhos fazerem proezas, pais e crianças exprimem o mesmo sentimento: imaginem só, golfinhos, aqui, na minha cidade. O oceano por encomenda.

 Os proprietários e gestores de atracções turísticas com animais selvagens, afirmam com frequência que os seus animais vivem mais tempo em cativeiro do que os seus homólogos selvagens, porque assim estão protegidos de predadores e de perigos ambientais. Os animais estão consigo para toda a vida. Fazem parte da família.

Alla Azovtseva, treinadora de golfinhos de longa data na Rússia, abana a cabeça. “Não vejo qualquer sentido neste trabalho. A minha consciência rói-me. Olho para os meus animais e sinto vontade de chorar”, diz. Alla. Neste momento, treina baleias-piloto para fazerem proezas no Moskvarium de Moscovo, um dos maiores aquários da Europa (não relacionado com os espectáculos itinerantes de golfinhos). 

Conta que se apaixonou pelos golfinhos no fim da década de 1980, depois de ler um livro escrito por John Lilly, o neurocientista norte-americano pioneiro da investigação sobre inteligência animal. Passou 30 anos a treinar mamíferos marinhos para que estes realizassem proezas. Pelo caminho, porém, foi-se sentindo cada vez mais triste por obrigar criaturas sociais altamente inteligentes a viverem vidas isoladas e estéreis, no interior de pequenos tanques. “Posso comparar a situação dos golfinhos com a de um físico a varrer ruas”, afirma. “Quando não estão a fazer proezas ou a treinar, limitam-
-se a flutuar na água, com o focinho virado para baixo. Na mais profunda depressão.”

Alla conta que em muitos aquários da Rússia os animais morrem pouco depois de serem colocados em cativeiro, sobretudo os que participam em espectáculos itinerantes. Ela explica com clareza que está a falar da globalidade da indústria existente na Rússia e não do Moskvarium, mas diz conhecer muitos aquários que, silenciosa e ilegalmente, substituem os animais por animais novos. 

Desde 2003 que é ilegal capturar golfinhos-roazes do mar Negro para fins de entretenimento. No entanto, segundo a minha interlocutora, os proprietários de aquários que querem aumentar o número de golfinhos de forma rápida e barata compram os golfinhos ali caçados furtivamente. Por serem ilegalmente adquiridos, contudo, estes golfinhos não possuem os microchips normalmente implantados nos cetáceos que vivem em cativeiro na Rússia – uma forma de identificação exigida.

Alguns aquários contornam a proibição retirando os microchips dos golfinhos mortos e implantando-os em golfinhos substitutos. “As pessoas são pessoas”, resume Alla Azovtseva. “Assim que vêem uma oportunidade, aproveitam-na.” Diz não ser capaz de continuar a fazer o seu trabalho na indústria e que decidiu contar tudo por querer que o público saiba a verdade sobre as origens e o tratamento dado a muitos dos mamíferos marinhos que gostam de observar. Trocamos um olhar. Ambas sabemos as prováveis consequências destas palavras para o seu sustento. “Não me importo de ser despedida”, diz, num tom desafiador. “Quando não há nada a perder, um indivíduo torna-se genuinamente corajoso.”

 Estou sentada à beira de uma enorme piscina nas colinas da zona tailandesa da fronteira entre a Tailândia e Myanmar, numa estância turística onde os quartos custam, em média, cerca de 890 euros por noite. Atrás da piscina, lá ao fundo, elefantes caminham num vale luxuriante. Sentada a meu lado, encontra-se Stephanie van Houten, de 20 anos. De ascendência holandesa e francesa, nasceu e foi criada em Tóquio e estudou na Universidade de Michigan. A sua educação cosmopolita e a sua cara bonita são a mistura perfeita para as suas ambições – tem o perfil exacto para ser bem-sucedida como influenciadora no Instagram. É portanto uma pessoa com um número de seguidores suficiente para atrair patrocinadores que subscrevam as suas publicações e, consequentemente, as suas viagens, guarda-roupa e contas bancárias. Em 2018, marcas  de moda, viagens e tecnologia, entre outras, gastaram cerca de 1.420 milhões de euros em publicidade com influenciadores nas redes sociais.

Stephanie já aqui esteve anteriormente, no Anantara Golden Triangle Elephant Camp & Resort. Desta vez, no âmbito de um acordo entre a marca e a influenciadora, ela participará num piquenique com elefantes e publicará imagens do evento para a sua legião de mais de 25 mil seguidores no Instagram. Como contrapartida, ser-lhe-á feito um desconto de várias centenas de euros na conta do hotel.

Em Anantara, os campos são verdes e, pelo menos durante o dia, muitos dos 22 elefantes da unidade hoteleira estão amarrados a cordas com mais de 30 metros de comprimento, para se poderem deslocar e conviver. No entanto, espera-se que deixem os turistas tocar-lhes e praticar ioga perto deles.

Depois do seu piquenique com os elefantes, vejo Stephanie editar as centenas de fotografias que tirou ao longo do dia. Selecciona uma imagem com o seu elefante favorito, Bo. Ela gosta da fotografia porque sente uma ligação com Bo e acha que essa ligação será transmitida aos seus seguidores. Faz a publicação às 21h30 – uma hora em que a maioria dos seus seguidores estarão ligados à Internet. Acrescenta uma extensa legenda, terminando-a com “a minha história de amor com esta criatura incrível” e o hashtag #stopelephantriding. De imediato, os “gostos” dos seguidores começam a acumular-se – mais de mil, bem como comentários com o emoji de corações nos olhos. 

Anantara está apenas ao alcance dos ricos ou de influenciadores destacados. Qualquer outra pessoa que deseje uma experiência semelhante pode fazer uma pesquisa num motor de busca e procurar, por exemplo, “santuário de elefantes na Tailândia”.

Com o aumento da procura de experiências turísticas éticas, começaram a surgir unidades hoteleiras de preço acessível, que muitas vezes se intitulam “santuários”, disponibilizando contactos directos humanos e próximos com elefantes. Tomar banho na companhia de elefantes – os turistas dão-lhes banho com lama, salpicam-nos com água dentro de um rio ou fazem ambas as coisas – tornou-se uma actividade muito popular. Todavia, os elefantes que tomam banho, tal como os elefantes que são montados ou que actuam em espectáculos, precisam de ser, em certa medida, domados para se tornarem obedientes.

 Em  Ban Ta Klang, uma minúscula aldeia na região oriental da Tailândia, casebres modestos pintam a região cor de carmim. Em frente de cada casa, existe uma ampla plataforma de bambu. 

No entanto, a primeira nota em que reparo é nos elefantes. Algumas casas têm um, outras chegam a ter cinco. Encontram-se debaixo de oleados, telhados de chapa metálica ou árvores. Alguns estão em grupo, progenitoras e crias, mas a maior parte são solitários. Quase todos os elefantes têm correntes nas patas, ou peias – algemas que unem as duas patas dianteiras.

Na Tailândia, Ban Ta Klang – conhecida como a Aldeia dos Elefantes – é o principal centro de treino e comércio de elefantes em cativeiro. 

“São elefantes domésticos”, corrige Sri Somboon. Junto da sua plataforma no exterior, uma cria de 2 meses corre junto da mãe. Sri aponta na direcção do outro lado da estrada  para o terceiro elefante a seu cargo, um macho de 3 anos amarrado a uma árvore. O animal sacode a cabeça para trás e para a frente, varrendo o ar à sua volta com a tromba. Parece que vai enlouquecer. 

Está no meio do seu treino e revela-se um bom pintor, diz Sri. Já foi vendido e, quando o treino terminar, começará a trabalhar num campo de turistas no Sul do país. 

Ban Ta Klang e a região em seu redor, integradas na província de Surin, reivindicam a proveniência de mais de metade dos 3.800 elefantes mantidos em cativeiro da Tailândia. Muito antes da enxurrada de turistas, já era o centro do comércio de elefantes: os animais eram capturados na selva e domesticados para o transporte de troncos. Agora, todos os anos, em Novembro, centenas de elefantes oriundos desta região são apresentados, comprados e vendidos na principal cidade da província, Surin.

Certa noite sento-me na companhia de Jakkrawan Homhual e Wanchai Salangam. Cerca de metade das pessoas de Ban Ta Klang que tratam de elefantes não são seus donos. Recebem um salário modesto de um proprietário rico e treinam as crias para fins de entretenimento. Ao cair da noite, milhares de térmitas caminham na nossa direcção, atraídas pela lâmpada incandescente que ilumina a plataforma de bambu. O nosso tema de conversa é o treino dos elefantes. 

Phajaan é o método tradicional e brutal que demora dias ou semanas a quebrar a vontade de um jovem elefante. Há muito que é utilizado na Tailândia e em todo o Sudeste Asiático para domar elefantes selvagens, que ainda representam uma grande parte dos elefantes do país que vivem em cativeiro. O método phajaan consiste em amarrar os elefantes com cordas e confiná-los em estruturas estreitas de madeira, passando fome e sendo repetidamente espancados com aguilhões, pregos e martelos até a sua vontade ser vergada. Não se conhece ao certo a incidência actual do phajaan na sua forma mais severa. O governo tem perseguido, desde 2012, a importação ilegal de elefantes retirados das florestas do vizinho Myanmar, principal origem dos animais da Tailândia capturados na selva. 

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Gluay Hom, um elefante de 4 anos treinado para executar proezas diante de turistas, está acorrentado a um poste na Quinta e Jardim Zoológico de Crocodilos de Samut Prakan, perto de Banguecoque. Não consegue apoiar a pata direita dianteira, já inflamada, e na têmpora, tem uma úlcera ensanguentada, resultante do tempo em que está deitado no chão.

Pergunto aos dois homens de que maneira são domadas e treinadas as crias nascidas em cativeiro. Explicam-me que, quando o animal tem cerca de 2 anos, os mahouts amarram a progenitora a uma árvore e arrastam lentamente a cria para longe. Uma vez separados, a cria é confinada. Picando-a com um aguilhão na orelha, ensinam-na a movimentar-se: esquerda, direita, virar, parar. Para ensinar um elefante a sentar-se, “amarramos-lhe as patas dianteiras. Um mahout, posicionado atrás dele, utiliza um aguilhão. O outro puxa uma corda nas patas dianteiras”, diz Jakkrawan Homhual. E acrescenta: “Para treinarmos o elefante, precisamos de utilizar o aguilhão para o elefante saber.”

Os seres humanos identificam o sofrimento de outros humanos através de sinais universais: as pessoas soluçam, estremecem, choram e exprimem a dor com a voz. Os animais não possuem linguagem universal para a dor. Muitos não possuem canal lacrimal. Muitas criaturas – por exemplo, os animais presos em ambiente selvagem – mascaram os sintomas de dor para não se mostrarem fracos diante dos predadores. Reconhecer que um animal não humano se encontra em sofrimento é difícil e frequentemente impossível.

Mas nós sabemos que os animais sentem dor. Todos os mamíferos têm uma neuroanatomia semelhante. As aves, os répteis e os anfíbios possuem receptores da dor. Há uma década, os cientistas tinham recolhido mais provas da dor sentida pelos peixes do que da dor sentida pelos recém-nascidos humanos. Uma criança de 4 anos com espigões espetados na carne exprimiria a sua dor gritando. Um elefante de 4 anos limita-se a ficar parado no mesmo sítio, à chuva, sacudindo a pata no ar.

Os turistas vêem os elefantes a ser montados e a fazerem proezas. Não vêem os animais a serem “domados” e ensinados a temer o aguilhão.

 De todos os animais em sofrimento silencioso que vi em piscinas e jaulas pelo mundo fora, as piores recordações que guardo são de um elefante e de um tigre. Viviam na mesma instalação, a Quinta e Jardim Zoológico de Crocodilos de Samut Prakan, cerca de 25 quilómetros a sul de Banguecoque. O elefante, Gluay Hom, de 4 anos, estava guardado sob um estádio. O tigre idoso, Khai Khem, de 22 anos, passava os dias preso com uma corrente curta num estúdio fotográfico. Ambos apresentavam sinais inconfundíveis de sofrimento: o elefante, muito magro, tinha uma pata dobrada e inchada pendurada no ar, uma grande ferida a sangrar na têmpora e os olhos revirados. O tigre tinha um abcesso dentário de tal maneira grave que a infecção estava a corroer a parte de baixo da mandíbula. 

Quando contactei o dono da empresa, Uthen Youngprapakorn, para o inquirir sobre estes animais, ele respondeu-me que o facto de eles ainda não terem morrido era prova de que estavam a tratá-los adequadamente. De seguida, ameaçou-me com um processo judicial.

Seis meses depois de eu e Kirsten regressarmos da Tailândia, pedimos a Ryn Jirenuwat, a nossa intérprete de tailandês, residente em Banguecoque, para saber notícias de Gluay Hom e de Khai Khem. Ela deslocou-se a Samut Prakan e observou-os durante várias horas, enviando-nos fotografias e imagens de vídeo. Gluay Hom ainda estava vivo, de pé, dentro da mesma baia, com a perna ainda dobrada num ângulo que não era natural. Os elefantes a seu lado eram só pele e osso. Khai Khem ainda estava acorrentado pelo pescoço a um gancho no chão. “Limita-se a permanecer no seu canto escuro”, escreveu Ryn na mensagem. “Quando ouve pessoas a aproximar-se, volta-se e vira-lhes as costas. Parece que a única coisa que quer é ser engolido pelo muro.”

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