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Um elefante come um petisco nocturno no Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. Muitos elefantes do parque foram abatidos e o seu marfim usado para comprar armas durante a guerra civil de 15 anos que terminou em 1992. Com a caça furtiva controlada, a população destes animais está a recuperar.

Dizimada por uma longa guerra civil, a vida selvagem do Parque Nacional da Gorongosa está a recuperar. O futuro dos animais depende da esperança que for dada às comunidades que vivem nas redondezas.

Texto: David Quammen
Fotografias: Charlie Hamilton James

Numa manhã quente do final da estação seca, no início de Novembro, um helicóptero vermelho e preto deslocava-se velozmente para leste, sobrevoando a savana coberta de vegetação do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique.

O piloto veterano Mike Pingo, originário do Zimbabwe, controlava a manete. Louis van Wyk, especialista sul-africano em captura de animais selvagens, tinha o corpo parcialmente do lado de fora do habitáculo e segurava uma arma de cano longo com dardos carregados de anestésicos. Ao lado de Mike Pingo, sentava-se Dominique Gonçalves, uma jovem ecologista moçambicana que é responsável pela gestão dos elefantes no parque.

Mais de 650 elefantes vivem actualmente na Gorongosa, um aumento robusto desde os anos da guerra civil no país (1977-1992), período em que a maioria dos elefantes do parque foi  chacinada e a sua carne e marfim vendidos para comprar armas e munições. Com a população de elefantes novamente em recuperação, Dominique queria instalar um marcador de GPS numa fêmea adulta de cada grupo matriarcal.

Seleccionou um animal de uma manada que corria numa clareira, onde as árvores cresciam com pouco espaço entre si. Mike Pingo conduziu o helicóptero para perto do solo, tanto quanto as árvores o permitiam. Dez elefantes adultos – com crias pequenas a seu lado e acompanhados de perto por juvenis – fugiram do ronco
dos rotores. Embora obrigado a disparar a uma distância superior à habitual, Louis van Wyk acertou com um dardo no quadril direito da fêmea escolhida. 

Mike pousou e os dois especialistas saltaram do helicóptero, avançando pelo meio do capim espezinhado até alcançarem a fêmea sedada. Minutos mais tarde, chegou uma equipa de terra com equipamento mais pesado, técnicos auxiliares e um vigilante da natureza armado. Dominique Gonçalves fixou um pequeno pau na ponta da tromba do elefante, abrindo-a de modo a garantir uma respiração desobstruída. Deitado sobre o flanco direito, o animal começou a ressonar alto. Um técnico recolheu uma amostra de sangue de uma veia da orelha esquerda. Outro técnico ajudou Louis a instalar a coleira de marcação logo abaixo do pescoço da fêmea.

Dominique recolheu um esfregaço de saliva do animal e um esfregaço rectal, guardando-os em frascos e selando-os. Calçou uma luva de plástico no braço esquerdo e inseriu-o profundamente no recto do animal, retirando um punhado de fezes fibrosas cor de ocre que seriam utilizadas para analisar a composição do regime alimentar do elefante. O grande flanco do animal subia e descia suavemente, ao ritmo do murmúrio de trombone emitido pela tromba.

“Louis, podes ver se está prenhe?”, perguntou a investigadora.

“Falta pouco para parir”, respondeu Louis depois de analisar o leite aguado que escorria dos úberes distendidos da fêmea.

O crescimento da população de elefantes é apenas uma parte das boas notícias relativas à Gorongosa. A maioria dos animais de grande porte, incluindo leões, búfalos-africanos, hipopótamos e gnus, existe agora em número muito superior ao registado em 1994, pouco depois do fim da guerra. No reino da conservação, no qual demasiados indicadores anunciam pessimismo e desespero, o sucesso em grande escala é raro.

 

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Gabriela Curtiz (camisa azul), treinando para ser guia de safári, aponta um leão para os membros do clube de garotas da Vila dos Vinhos. Embora morem a poucos quilômetros do parque, até essa viagem, as meninas nunca tinham visto um leão.

Louis van Wyk acabou de ajustar a coleira de marcação e Dominique Gonçalves arrumou as amostras. Foi injectado um fármaco na veia da orelha para despertar o animal e a equipa recuou até uma distância segura. Passado um minuto, a fêmea levantou-se, abanando a cabeça ensonada, e afastou-se a passos largos, juntando-se à manada. A monitorização dos dados informará Dominique e os colegas sobre os padrões de deslocação dos elefantes, alertando-os caso a manada atravesse uma fronteira do parque em direcção a um campo agrícola, permitindo assim ao agricultor tomar medidas para salvar as suas culturas. 

É assim que funciona o Projecto de Restauro da Gorongosa, uma parceria iniciada em 2004 entre o governo moçambicano e a Fundação Gregory C. Carr, sediada nos EUA. Para que elefantes, hipopótamos e leões prosperem num parque delimitado, é preciso garantir que os seres humanos que vivem fora do parque também prosperem. 

Estendendo-se sobre uma planície de aluvião situada na extremidade meridional do Grande Vale do Rifte, em África, abrangendo savanas, florestas, zonas húmidas e um grande corpo de água chamado lago Urema, a Gorongosa foi em tempos uma reserva de caça: a administração colonial portuguesa criou-a em 1921 para a prática de desportos de lazer, removendo do território as pessoas que ali partilhavam a paisagem com a vida selvagem. Em 1960, a data da classificação como parque nacional, a Gorongosa continha cerca de 2.200 elefantes, duzentos leões e 14 mil búfalos-africanos, bem como hipopótamos, impalas, zebras, gnus e outros exemplares icónicos da fauna africana.

No entanto, o seu isolamento revelou-se fatal. Na devastadora guerra civil de 15 anos que se seguiu à independência em 1975, a Gorongosa serviu de refúgio à Resistência Nacional Moçambicana (ou RENAMO), as forças rebeldes com ideologia de direita que receberam apoio militar da vizinha Rodésia (actual Zimbabwe) e da África do Sul. Quando o exército nacional avançou para confrontá-los, travaram-se combates no terreno, ataques com foguetes à sede do parque. Registou-se uma carnificina na savana. 

Além do massacre de elefantes, milhares de zebras e outros animais de grande porte foram mortos para consumo da sua carne ou por mera diversão. Uma trégua travou a guerra em 1992, mas a caça furtiva continuou e mesmo as comunidades vizinhas instalavam armadilhas para capturar quaisquer animais comestíveis que restassem. Na viragem para o século XXI, o Parque Nacional da Gorongosa estava arruinado.

As circunstâncias eram igualmente sombrias para as aldeias em redor da Gorongosa. Cerca de cem mil pessoas viviam num território que os responsáveis pelo ordenamento classificam actualmente como zona-tampão – a maioria das famílias trabalhava na produção de milho e de outras culturas de subsistência, mal conseguindo alimentar-se. As crianças careciam de ensino e cuidados de saúde. 

Quando o solo se esgotava e o milho não crescia, os agricultores abatiam a floresta, queimavam as culturas e plantavam um novo talhão. Por fim, os cortes e plantações expandiram-se das encostas mais baixas da serra da Gorongosa – um maciço granítico que paira 1.863 metros acima da fronteira ocidental do parque – para zonas mais altas e húmidas. Outrora coroada por uma floresta tropical densa, a montanha alberga a nascente do rio Vunduzi, que faz a água correr através do parque e da sua rica planície de aluvião. No início do século XXI, grandes parcelas de floresta de montanha e de outros locais da zona-tampão, com 5.400 quilómetros quadrados, já tinham sido eliminadas. 

Este ciclo de perda e desespero começou a aproximar-se do fim em 2004, quando o presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, visitou a Universidade de Harvard para proferir uma palestra a convite de um norte-americano chamado Greg Carr. Em 1986, Carr e um amigo criaram a empresa Boston Technology que, premonitoriamente, oferecia soluções para ligar sistemas telefónicos através de computadores. Seguiu-se outra empresa de sucesso e, em 1998, ainda antes de completar 40 anos, Greg estava do lado certo de um negócio valioso, vendendo a sua empresa por 800 milhões de dólares. “O meu passatempo era ler livros de capa mole que custavam cinco dólares cada”, disse-me durante uma conversa em Gorongosa. “Era muito mais dinheiro do que eu precisava.”

Criou a Fundação Carr, uma instituição filantrópica, antes de saber ao certo para que fim. No entanto, o trabalho do biólogo Edward O. Wilson despertara nele um forte interesse pela conservação. Em simultâneo, estava a aprofundar os seus conhecimentos sobre direitos humanos e os seus grandes promotores, incluindo Nelson Mandela. Estas duas linhas de estudo convergiram mais tarde, quando Carr soube que Mandela, então presidente da África do Sul, estava a colaborar com o presidente de Moçambique para criar “parques da paz” – parques nacionais transfronteiriços para a conservação da vida selvagem e benefício das populações locais.

“O presidente Chissano adorava parques nacionais”, contou Carr. Na primeira visita ao local, em 2004, “convidou-me a restaurar Gorongosa”.

Três anos mais tarde, Greg assinou um acordo de longo prazo com o governo. O contributo para o desafio seria, além dos recursos financeiros e conhecimentos de gestão, uma visão partilhada de que a Gorongosa poderia transformar-se num “parque de direitos humanos”. Isso significava gerar benefícios palpáveis para as populações vizinhas – em matéria de cuidados de saúde, ensino, agronomia, desenvolvimento económico – e proteger a sua paisagem, corpos de água e todos os tipos de diversidade biológica. A National Geographic Society também financia campanhas científicas e de conservação dentro e em redor do parque, bem como acções de desenvolvimento comunitário e projectos de ensino e formação de mulheres. 

Numa manhã chuvosa de quinta-feira, em Abril, nove raparigas saltavam à corda em Mecombezi Ponte, uma aldeia a cerca de 30 quilómetros do parque. Usavam T-shirts azul-escuras com as palavras “Rapariga do Clube” impressas nas costas e um pequeno selo redondo do Parque Nacional da Gorongosa à frente. Reunidas num semicírculo em redor das raparigas, estavam dez madrinhas voluntárias, que ofereciam o seu tempo para vigiar e proteger silenciosamente estas raparigas dos perigos que enfrentam: o casamento precoce forçado, a gravidez frequente, os problemas de saúde e a interrupção dos estudos.

O Clube das Raparigas de Mecombezi Ponte é um de 50 clubes organizados e patrocinados pelo parque para aumentar o tempo de frequência escolar de cerca de duas mil raparigas na zona--tampão. As segundas, quartas e sextas-feiras são dedicadas à alfabetização. As terças-feiras são reservadas para conversas sobre saúde e reprodução. As quintas-feiras, como eu e Greg Carr vimos, destinam-se à brincadeira. As mulheres cantavam e batiam palmas enquanto as raparigas saltavam alegremente à corda por turnos. Cheio de boa vontade, Greg Carr tentou saltar à corda. As raparigas eram melhores do que ele.

 

Patos-assobiadores-de-faces-brancas levantam voo acima de um esquadrão de pelicanos e cegonhas pousados no rio Sungué, na Gorongosa, que alimenta o lago Urema. Mesmo na época seca, o lago e os seus canais tributários acolhem um número abundante de aves.

Para o meu interlocutor, os Clubes de Raparigas são uma componente fundamental do ressurgimento do Parque Nacional da Gorongosa. A dissuasão dos homens de caçarem os animais selvagens do parque – através de modos de subsistência alternativos e de um reforço das patrulhas de vigilantes – é importante, mas insuficiente. As mulheres são decisivas. Se a população humana da zona-tampão continuar a crescer constantemente, devido ao casamento precoce das raparigas e respectivas famílias numerosas, nenhum esforço produzido dentro das fronteiras do parque será suficiente para proteger a paisagem e a fauna. “Em contrapartida, se as raparigas frequentarem a escola e as mulheres tiverem oportunidades, terão famílias com dois filhos”, disse Greg Carr. 

A solução faz parte do movimento que procura emancipar as mulheres locais. “É aqui que o desenvolvimento humano e a conservação se fundem”, acrescentou Carr. “Direitos para mulheres e crianças, alívio da pobreza – é disso que África precisa para salvar os seus parques nacionais.”

Antes de partir, assistimos a uma pequena cerimónia. Uma aluna do sexto ano chamada Helena Francisco Tequesse deu um passo em frente, apresentando-se e, com a ajuda de um cartão laminado, leu uma declaração com dez direitos e dez deveres das crianças. “As crianças têm direito a serem alimentadas e o dever de não desperdiçarem comida”, leu. “As crianças têm direito a viver num ambiente saudável e o dever de cuidarem dele.”

“Isto é fantástico”, disse Greg Carr. “Quando aqui cheguei, a percentagem de mulheres que sabiam ler na zona-tampão era zero.” Ele pediu às raparigas que dissessem o que queriam ser quando crescessem. Cada uma deu um passo em frente e disse o seu nome, respondendo com convicção: enfermeira; parteira; professora, outra enfermeira, uma agente policial. 

Embora situada fora das fronteiras do parque, a serra da Gorongosa é uma parte imprescindível do ecossistema da Gorongosa. A montanha não se limita a captar a chuva e a distribuí-la pela planície de aluvião do parque. Acrescenta uma diversidade de altitudes, climas, solos, vegetação e animais selvagens à Gorongosa. Em 1969, o ecologista Ken Tinley propôs que a serra, bem como o planalto e os habitats costeiros a oriente da fronteira do parque, igualmente ricos em diversidade, fossem unidos e integrados numa única zona de gestão.

A ideia criou raízes e transformou-se numa visão da Gorongosa “da montanha até ao mangal”. Em 2010, as terras altas da serra da Gorongosa foram incluídas no parque. O topo da montanha abrange a nascente do Vunduzi e algumas zonas isoladas de floresta. Nas zonas de baixa altitude, as populações continuavam a cortar, a queimar e a cultivar. Não tinham muito mais opções.

Pouco depois, o director florestal do parque, um moçambicano chamado Pedro Muagura, apresentou a seguinte sugestão: porque não cultivar café em parcelas de montanha já anteriormente desflorestadas? O café podia ser cultivado à sombra das árvores autóctones replantadas, proporcionando algum rendimento aos habitantes, enquanto a floresta recuperava. Pedro Muagura é agora o director do parque. E a sua ideia de plantar café está a florescer.

Quentin Haarhoff é o principal perito em café do parque. Estávamos a subir até à zona do projecto do café numa estrada íngreme com marca de rodados que subia pela encosta meridional do maciço, passando por campos de sorgo e milho, algumas cabanas e uma plantação de ananases. Ligeiramente mais acima, chegámos à altitude propícia ao cultivo do cafeeiro. 

“Esta montanha tem um ambiente fantástico”, disse Quentin. Boa humidade, temperaturas frescas e sem grandes flutuações e não há geada. 

O cultivo de sementes de cafeeiro e a recuperação da floresta numa região intermitentemente assolada pela guerra ainda é uma tarefa complicada. No entanto, os agricultores locais estão a aceitar essa missão.

Estacionámos o nosso veículo e inspeccionámos um viveiro de 260 mil rebentos de cafeeiro à sombra das árvores: cada uma cresce num pedaço de solo envolta numa manga de plástico. Num local mais acima na encosta, deslocámo--nos entre árvores produtivas, do tamanho de arbustos, plantadas em filas ao longo da encosta à sombra. O parque emprega actualmente 180 pessoas neste sector, explicou Quentin Haar-
hoff. É um projecto-piloto. O plano consiste em mostrar como se faz – pés de cafeeiro, à sombra de árvores nativas, adubados com esterco, em terrenos limpos manualmente, com hortaliça, frutos e leguminosas crescendo como culturas secundárias entre as filas – e depois dar formação e fornecer ferramentas, rebentos e sementes de cafeeiro e oferecer um bom preço pelo café colhido, que é comprado pela Produtos Naturais, uma empresa que pertence à divisão de finanças sustentáveis do parque.

A Produtos Naturais processa o café na nova fábrica localizada nas proximidades e vende o grão torrado a grossistas moçambicanos. O café e outras culturas altamente lucrativas (como o caju) garantirão melhores condições de vida aos autóctones e desabituarão os agricultores da cultura de corte e queimada do milho, protegendo deste modo não só o que resta da floresta da montanha, mas também reflorestando zonas que foram abatidas. “Não sou cientista, mas as aves voltaram, as abelhas voltaram”, disse Quentin Haarhoff.
“A natureza está a soltar um suspiro de alívio.”

A natureza é resiliente, mas os seus suspiros de alívio, as tendências de recuperação e ressurgimento, exigem mais do que a reflorestação de encostas montanhosas e medidas de protecção contra a caça furtiva. Uma matilha de mabecos (um predador nativo, desaparecido durante a guerra) foi libertada no parque em 2018, após várias semanas de aclimatação num recinto de grandes dimensões. Uma pequena manada de zebras, retirada do seu curral, entrou num atrelado, com cautela, e foi libertada na natureza.
E um leopardo solitário foi avistado.

Noutro tempo, os rinocerontes-negros também deambularam pela Gorongosa, mas essa reintrodução afigura-se difícil por gerar um risco elevado de atrair caçadores furtivos com fins comerciais.
É um projecto ainda na gaveta. A recuperação total precisa de tempo e de espaço. A dimensão temporal é reconhecida num acordo a longo prazo entre o grupo de Carr e o governo, renovado em 2018 por mais 25 anos. É claro que, em termos ecológicos, esses 25 anos são apenas um começo. 

A importância do espaço (maiores zonas protegidas costumam acolher mais diversidade e mais plenitude ecológica) ajuda a explicar por que razão Greg Carr e os seus colegas, incluindo parceiros do governo moçambicano, são a favor do alargamento futuro da Gorongosa, segundo o modelo da montanha-até-ao-mangal atrás referido. Imaginam um ecossistema maior na Gorongosa – inteiramente protegido e gerido de forma sustentável, abrangendo agricultores bem-sucedidos e outros negócios locais – unindo a serra da Gorongosa, a oeste, ao parque do Sul do vale do Rifte, as grandes parcelas de floresta de madeiras duras do planalto de Cheringoma, imediatamente a leste do vale, e as singulares florestas costeiras e pântanos do Sul do delta do rio Zambeze. A peça costeira deste quebra-cabeças já beneficia de alguma protecção enquanto Reserva Nacional de Marromeu, uma região selvagem pantanosa e sem estradas, onde abundam aves e búfalos-africanos.

Noutra bela manhã, eu e Greg Carr descolámos de avião, na companhia de Marc Stalmans, director do departamento científico do parque, e rumámos para leste, em direcção a Marromeu. Sobrevoámos de perto a savana, o palmar e, de seguida, a floresta densa do planalto. Greg Carr prevê que quem sobrevoar esta paisagem daqui a 50 anos – seja Dominique Gonçalves ou outra pessoa da sua geração – poderá avistar um grande número de animais selvagens: dez mil elefantes, mil leões. Talvez cinquenta mil búfalos.

“É difícil, mas exequível”, disse. “Agrada-me a ideia de estar mesmo no limite do possível.”

“Difícil” é um eufemismo. O último censo aéreo de animais selvagens no parque, em Outubro de 2018, revelou um aumento contínuo de muitas espécies – mais búfalos, mais cudos, muito mais impalas. Além da reintrodução de mabecos-africanos, as populações de zebras, gnus e elandes também cresceram. As patrulhas realizadas pelos vigilantes – 261, incluindo um grupo pequeno, mas crescente de mulheres – mantiveram a caça furtiva em níveis mínimos. Os últimos censos mostram que os objectivos de Greg Carr estão muito distantes, mas se o limite do possível for alcançável, será aqui, no Parque Nacional da Gorongosa.

Mike Pingo aterrou o helicóptero na praia de Marromeu e, durante uma breve paragem no local, eu, ele e Marc Stalmans falámos sobre o búfalo-africano enquanto Greg Carr passeava. Os búfalos precisam de capim, água e ocasionalmente de sombra, mas pouco mais – disse o meu interlocutor. Antes da guerra civil, havia 55 mil aqui, na Reserva Nacional de Marromeu. Depois da guerra, restavam apenas dois mil búfalos e, mesmo estes, só sobreviveram porque o terreno costeiro alagadiço dificultava a caça. 

Neste instante, reparámos que Carr descalçara os sapatos e encaminhava-se para o mar, recuando perante as ondas, como frequentemente faz, como um miúdo pequeno. Quando voltou, começou a imaginar uma estalagem na praia, neste mesmo local, atraindo os turistas para usufruir da costa e da vida selvagem, e um centro de investigação marinha, ancorando o grande e variado ecossistema: a montanha, o vale, o lago, o planalto, as terras húmidas costeiras, os mangais, a praia.

“Se juntarmos isto tudo, teremos algo extraordinário”, disse entusiasmado.

Regressámos ao helicóptero. Ao descolarmos, passámos sobre uma considerável manada de búfalos, escuros e elegantes. Cada um tinha um casal de garças, luminosamente brancas, pousado no seu dorso. Assustadas com o nosso barulho, as aves levantaram voo, assemelhando-se a um bando de anjos da guarda de regresso à base. 

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