membracídeos

Um membracídeo do género Bocydium ostenta sobre a cabeça esferas semelhantes a um fungo mortal para os insectos.

Os Membracídeos da floresta tropical são mestres em disfarces e escondem ainda muitas surpresas.

Texto: Douglas Main
Fotografias: Javier Aznar González de Rueda

Se houvesse um concurso para o insecto mais estranho do mundo, os membracídeos teriam bastantes probabilidades de conquistar o primeiro lugar. Quando vir um pela primeira vez, irá certamente pensar: o que são aquelas estranhas protuberâncias no corpo? 

Muitos membracídeos ostentam saliências excêntricas, como o conjunto de esferas do Bocydium sp., semelhante à hélice de um helicóptero (em cima). Outros são mais tímidos, imitando chifres, folhas ou excrementos de insecto. Outros ainda fingem ser formigas ou vespas. Há mais de quarenta espécies identificadas e cerca de setecentas à espera de descrição científica.

Os entomólogos explicam que estas formas singulares emergem do pronoto especialmente modificado dos membracídeos – uma secção do tórax que, noutros insectos, se assemelha a uma pequena placa parecida com um escudo. No entanto, os membracídeos são os miúdos criativos da turma, e os seus pronotos arqueiam em espigões ou globos grotescos.

Nenhum destes insectos minúsculos é maior do que uma moeda de cinco cêntimos. Vivem em árvores e plantas de todo o mundo e uma boa percentagem encontra-se nas zonas tropicais do continente americano. Uma folha da floresta tropical do Equador, onde foram captadas as imagens desta reportagem, poderia facilmente alojar mais espécies de membracídeos do que as que existem em toda a Europa.

Os membracídeos são membros de uma enorme e diversificada ordem de insectos conhecida como Hemiptera, na qual se incluem as cigarras e as cigarrinhas. Como outros animais da sua ordem, estão equipados com instrumentos bucais para perfurar os caules das plantas e sugar os sucos do interior. Tal como os mosquitos, têm dois tubos semelhantes a agulhas interligados, um para extrair fluidos, o outro para segregar saliva que impede os fluidos de coagular.

Como se contentam frequentemente com a refeição oferecida por uma só planta durante toda a vida, os membracídeos não representam uma ameaça para culturas com valor económico. Essa é uma das razões pelas quais os membracídeos não foram tão estudados como os seus parentes próximos. Esta lacuna significativa no conhecimento sobre estes insectos não permite ainda apurar a finalidade das suas enigmáticas alterações morfológicas. 

É bem possível que estes pronotos acentuados contribuam para os proteger dos predadores. Espinhos e farpas sinalizam que eles talvez sejam difíceis de engolir e as cores vivas são indícios da presença de toxinas. A mimetização também representa um papel defensivo. Os estranhos globos que emergem do corpo do Bocydium sp. assemelham--se aos globos dos fungos do género Cordyceps, um predador de insectos abundante nas florestas tropicais.

Embora os pronotos sejam grandes, são igualmente ocos e leves, permitindo aos insectos voar com uma facilidade surpreendente. Encontram-se equipados com nervos e estruturas semelhantes a cabelos, que recebem estímulos desconhecidos. Embora seja tentador imaginar a informação que os membracídeos podem recolher com estes receptores, o seu principal modo de comunicação consiste no uso das vibrações transmitidas pelas plantas. Ao contrário das suas primas cigarras, que comunicam esfregando partes do corpo e produzem uma vocalização estridente, os membracídeos abanam e sacodem os corpos para enviar sinais através das plantas, explica Rex Cocroft, investigador da Universidade do Missouri. Rex e outros investigadores gravam estas vibrações com dispositivos semelhantes a microfones que revelam um coro de chamamentos, cliques, chilreios e canções, embora nenhum destes sons seja audível pelo ouvido humano.

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Conhecidas pela sua dedicação parental, as progenitoras de membracídeos da espécie Alchisme tridentata vigiam as crias até os juvenis terem idade suficiente para voar. As ninfas possuem farpas e tonalidades vermelhas e amarelas, prováveis avisos para o mau sabor que a sua ingestão provocará no predador. 

Esta capacidade de comunicar entre si ajuda os membracídeos a defender os seus juvenis. Ao contrário da maioria das progenitoras de insectos, que abandonam os ovos logo após a postura, várias progenitoras de membracídeos mantêm-se presentes e vigilantes, protegendo a descendência até as ninfas crescerem e voarem para longe. Quando alguns predadores, como o percevejo-asiático, se aproximam, a ninfa mais próxima faz soar o alarme abanando o corpo e produzindo um “chilreio” vibracional. Os irmãos captam a vibração e juntam-se ao coro, amplificando o sinal. Entrando em acção, a progenitora confronta o invasor, batendo furiosamente as asas, provocando um zunido ou pontapeando-o com as patas traseiras.

Por vezes, os membracídeos são ajudados por formigas e outros insectos que os protegem em troca de melada, um líquido doce segregado pelos membracídeos por estarem constantemente a sugar a seiva das plantas. A captura de membracídeos que têm formigas como aliadas pode ser doloroso: “Ficamos com dezenas de picadas nas mãos”, queixa-se Chris Dietrich, curador de insectos nos Serviços de História Natural do Illinois. No entanto, a admirável variedade destes insectos bizarros gera inúmeras surpresas. “O trabalho com insectos é como ter Natal todos os dias”, resume Stuart McKamey.

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Bem armado, o Alchisme grossa possui barbelas semelhantes a espinhos que podem dissuadir potenciais predadores. Este insecto perturbado empoleirou-se numa folha vermelha depois de voar para longe do fotógrafo Javier Aznar González de Rueda. Outros membros desta espécie são habitualmente encontrados em folhagem semelhante à sua própria tonalidade. Podem parecer pouco apetitosos, mas não há necessidade de desafiar a sorte dando nas vistas. 

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