patagónia

Os bagualeros são vaqueiros que capturam gado de criação bravo. Na imagem, fazem uma pausa enquanto procuram vacas na península de Antonio Varas, na Patagónia chilena. Poucos homens escolhem a vida de bagualero. “É uma vida bonita, mas dura”, diz Sebastián García Iglesias (à esquerda).

Texto: Alexandra Fuller
Fotografias: Tomás Munita

Na imensidão bravia da Patagónia, os vaqueiros testam as suas capacidades em confronto com alguns dos mais violentos animais de criação do planeta.

Esta é uma história de sangue, coragem e tradição. 

À semelhança da maioria das histórias deste tipo, nela existem cavalos, homens corajosos e resistentes e, evidentemente, vidas, braços e pernas em risco. À semelhança de tantas histórias, a paisagem é miticamente bravia, por ser quase impossível de alcançar pelos meios mais comuns e cómodos.

Comece por consultar um mapa topográfico em busca de Sutherland, uma ponta de terra infiltrada mar adentro, no estreito da Última Esperança, na Patagónia austral do Chile. Nas proximidades deste lugar, não há estradas nem povoados. A norte, situa-se o Parque Nacional Torres del Paine e, para lá dele, os campos de gelo selvagens e intransponíveis que isolam a Patagónia chilena do resto do país. A oeste, o Pacífico austral parece uma manta azul manchada por inúmeras ilhotas. A leste, fica o golfo frequentemente de águas enfurecidas pelos tristemente célebres ventos que por ele sopram e, portanto, nem sempre navegável em segurança. E, por fim, temos Puerto Natales, com as suas simpáticas lojas e restaurantes para turistas.

Sebastián García Iglesias tem 26 anos e é engenheiro agrónomo de formação, mas vaqueiro de coração. Mostra a atitude ponderada de quem foi criado com animais de grande porte à sua volta. O seu lendário tio-avô, Arturo Iglesias, nasceu na cidade de Puerto Natales em 1919. A família foi das primeiras a fixar-se nesta região, em 1908, instalando um armazém de mercearias para colonos. Pouco depois, a família fundou a Estancia Mercedes num pedaço de terra aninhado de frente para o mar e de costas voltadas para as montanhas.

Em 1960, Arturo adquiriu a Estancia Ana María, uma fazenda só acessível de barco ou de cavalo para aqueles que estivessem dispostos a uma viagem de dez horas, atravessando uma turfeira onde nos vemos repetidamente atolados até ao ventre. Como se a fazenda não fosse suficientemente longínqua, Arturo fundou um povoado em Sutherland, uma zona quase inatingível dentro da Estancia Ana María. Durante algum tempo, Arturo morou com a mulher e dois filhos numa casinha em Sutherland, até que a mulher, talvez enlouquecida pelo isolamento, fugiu com um pescador. O vaqueiro e os seus dois filhos agora sem mãe acabaram por partir, reconduzindo o gado de volta à civilização.

Reses tresmalhadas da manada de Arturo regressaram ao estado selvagem e reproduziram-se. A selecção natural tornou-as maiores e mais ferozes. Todos os verões, Arturo agrupava-as, partindo da Estancia Ana María com a sua matilha de cães pastores e os seus cavalos de maior confiança. Por vezes, fazia transportar de barco as suas vacas bravas – baguales, ou “gado de criação selvagem” por oposição a “gado bravo” – até Puerto Natales, para aí as vender. Outras vezes conduzia-as por terra, ao longo de falésias de rebordo aguçado, através de turfeiras e passando sobre rochas escorregadias, trazendo consigo um cavalo de carga e um touro bravio à arreata, de cigarro enrolado à mão perpetuamente colado ao lábio inferior.

Agora, porém, a família Iglesias, já com poucos (ou nenhuns) laços afectivos ao lugar, decidiu vender a fazenda Ana María, incluindo Sutherland, a um ganadeiro rico. O rancheiro dera autorização a Sebastián para capturar baguales nesta terra por uma última vez. Nesse intuito, Sebastián começou a procurar os melhores bagualeros de Puerto Natales para ajudá-lo e permitiu que o acompanhássemos, talvez em parte porque ele espera um dia andar com turistas bagualeando e mantendo viva a tradição.

Fui avisada desde o início: esta expedição a Sutherland não seria um transporte normal de gado. Só para chegarmos a Sutherland teríamos de acompanhar Sebastián e mais três bagualeros a cavalo, juntamente com 20 cavalos e 30 cães pastores, percorrendo um caminho traiçoeiro e perigoso.

Telefonei para casa em busca de apoio moral. Contei ao meu pai que me tinham aconselhado a levar óculos de protecção na mala. Fez-se um breve silêncio do outro lado da linha. “Os óculos só servem para invadir a Polónia, ora bolas! Não para reunir meia dúzia de vacas”, resmungou ele. Nascido na Grã-Bretanha, mas tendo praticado agricultura na Zâmbia, ele sempre achou normal mergulhar na escuridão do vale do Zambeze para enxotar elefantes do seu bananal ou expulsar crocodilos das lagoas de piscicultura da minha mãe. “Qual é o objectivo desse exercício?”

A vida dos gaúchos: Ora capturando animais bravos, ora montando-os em exibições locais, os bagualeros mantêm viva a tradição da Patagónia.

“Cinquenta baguales, se conseguirem apanhá-los”, disse eu. Em primeira instância, a aventura vale dinheiro, mas, como é evidente, encerra outras coisas mais difíceis de definir.

Foi a vez de a minha mãe pegar no telefone. Recordou que me arrastara nas suas cavalgadas ganadeiras quando eu era criança, passando a salto vacas através da fronteira de Moçambique durante a guerra da Rodésia. “Lembro-me disso”, disse eu. “Fui muito valente.”

“Palermice”, respondeu-me ela. “Foste uma fracota.” Ao fundo, conseguia ouvir o meu pai zombando que, se eu conseguisse sobreviver aos touros, ainda havia uns tantos crocodilos nas lagoas de piscicultura para umas lutas, se eu quisesse. Os óculos de protecção poderiam dar jeito para isso, acrescentou. Os meus progenitores rebentaram em gargalhadas estridentes.

Não embalei os óculos de protecção na mala, mas quando me defrontei com um bagual em Sutherland, nem sequer me lembrei deles. A folhagem à minha frente abateu-se como se fosse derrubada por um bulldozzer. Tinham-me prevenido que, se tal acontecesse, deveria trepar a uma árvore. Mas antes sequer de conseguir mover o meu cavalo, o touro apareceu. Mesmo com 30 cães mordendo-lhe as canelas, rasgando-lhe a carne macia abaixo do rabo, o animal mantinha-se imparável e empenhado numa carga destruidora. Não havia um único bagualero à vista. O touro não arredou pé, de flancos a arquejar. Parecia avaliar a situação. Há quem ache tonto atribuir emoções aos animais, mas creio que essas pessoas nunca olharam nos olhos um touro bravo em fúria.

 

Dei meia volta e subi uma ladeira com o meu cavalo, direitos a um tufo de árvores. Quando era criança, passava horas a fio entre os ramos de uma robusta acácia rubra, onde me sentia invisível e mais poderosa. Porém, há muito que essa magia se esfumara e este touro parecia capaz de destruir qualquer árvore para cima da qual eu trepasse, mesmo se eu usasse a sela como trampolim. “Os touros investem contra nós”, tinham-me avisado. “Por isso, trepa até à copa.”

Na noite anterior, o bagualero Abelino Torres de Azócar, de 42 anos, um homem com capacidades sobre-humanas e elegância impassível, contara-nos a história de uma expedição antiga. “Não sei se aquele touro era o diabo, mas parecia”, dissera. “Púnhamos armadilhas, disparávamos sobre ele, dávamos-lhe punhaladas, mas ele não morria.” Certa noite, o animal irrompeu pelo acampamento e atacou os bagualeros enquanto dormiam. “Ouvimos ramos a quebrar, mas não tivemos tempo de fugir. O touro destruiu completamente a tenda, connosco lá dentro. Ficámos cobertos de cortes e nódoas negras.”

Agora, a história parecia estar a acontecer-me a mim. Fui educada por pessoas rijas, que me ensinaram a bravura e a confiar em mim, mas, posta à prova, uma pessoa tem dificuldade em conhecer os limites da sua coragem e resistência.

Sebastián garantira que um barco haveria de chegar a Sutherland para embarcar os baguales, os cães, os cavalos e nós próprios. No entanto, a viagem de ida fora difícil. Em vez de um ou dois dias, demorámos uma semana e a vegetação recuperara, com vingança aparente, desde os tempos de Arturo. “Vamos chegar a Sutherland amanhã”, anunciou em vão Sebastián por mais do que uma vez. Os cavalos teimavam em querer dar meia volta por resvalarem no solo escorregadio. Por duas vezes, um cavalo de carga caiu fora do trilho, rebolando desamparado até ficar preso numa árvore ou numa rocha. De cada vez, demorámos horas até resolvermos o problema, mesmo contando com os cães para mordiscar as pernas do animal e com os homens para o puxarem com cordas. “Tudo corre na perfeição”, disse Sebastián à namorada, no derradeiro contacto por telemóvel que haveríamos de ter durante algum tempo. Ela implorou-lhe que pensasse em regressar antes que fosse tarde. “Não, não. Está tudo óptimo”, disse ele.

Na terceira noite, quando Sutherland ainda se encontrava a um número incerto de dias de distância, esgotaram-se os mantimentos. A fome não era inédita entre os bagualeros da expedição. Costumavam viajar com pouca carga para não sobrecarregar os cavalos já de si em dificuldades. “Mas tomem atenção aos cães”, avisaram, com base na sua experiência. “Vão começar a comer o cabedal.” Os cães, porém, tornaram-se caçadores furtivos. Enquanto enxugávamos as roupas encharcadas e tentávamos aquecer-nos em redor da fogueira, eles comeram os atilhos das esporas de Sebastián, o revestimento de couro de um cantil e a cilha de uma sela. “Amanhã vamos apanhar um bagual e então comemos”, previu Sebastián.

Na quarta manhã, os bagualeros tiveram como pequeno-almoço cigarros e erva-mate, uma tisana supressora do apetite que proporciona a energia de uma chávena de café forte. Partiram cedo do acampamento para abrir um trilho mais à frente. Eu fiquei no acampamento, encarregada de manter as fogueiras acesas, de impedir os cavalos de regressar a casa e de travar o acesso dos cães ao cabedal. Em três dias, já perdera peso. Agora, o frio apossara-se permanentemente de mim, primeiro das extremidades e, em seguida, dos ossos. Não havia maneira de conseguir calor. Mesmo perto da fogueira, o vento soprava a chuva gelada para o interior do abrigo improvisado.

Quando os bagualeros voltaram ao acampamento, várias horas mais tarde, vinham enregelados e encharcados até à pele, com as mãos dilaceradas pelos espinhos e pelos cabos das catanas. À vez, foram secando as roupas sobre o fumo da fogueira. Abelino, sem proferir palavra, aconchegou-me os ombros com o casaco. “Um carinho intemporal, instintivo”, disse eu, mais tarde, quando alguém me perguntou o que me havia impressionado mais nos bagualeros.

Talvez exista um método suave para retirar o gado bravo de Sutherland e conduzi-lo ao mercado, mas desconheço-o por completo. E acreditem que ponderei todas as alternativas quando aquele touro irrompeu da floresta. Na maior parte do planeta, os sistemas de criação abafam a violência existente entre o consumidor e o consumido. Aqui, o prato da balança desequilibra-se, mais justamente, a favor do animal.

“O bagualero vive de mãos dadas com o gado bravo, utilizando capacidades humanas”, dissera Sebastián. “Com uma arma em punho, ficamos com vantagens a mais. Mas no corpo a corpo corremos perigo de vida.” Em meados da década de 1960, um touro finalmente apanhou Arturo, numa turfeira que atravessámos no primeiro dia da nossa jornada. Arturo desmontara do cavalo e, por isso, foi forçado a enfrentá-lo sozinho. “As coisas não lhe correram bem”, contou Sebastián. O touro esmagou-lhe os dentes, desfazendo-os em estilhaços. Os chifres perfuraram-lhe os testículos. Os companheiros de Arturo dispararam alguns tiros para o ar e o animal foi-se embora, deixando Arturo ensopado no seu sangue. Ele pediu que o ajudassem a montar de novo no cavalo e cavalgou até à estancia da família Iglesias, aguardando aí que um barco o transportasse ao hospital.

Quando os profissionais de saúde do hospital de Punta Arenas viram Arturo, propuseram a sua castração imediata para o salvar da morte quase certa devido a infecção. Em vez disso, Arturo implorou à enfermeira que lhe envolvesse as partes feridas em sal. Em seguida insistiu que queria os dentes esmagados substituídos por dentaduras. Saiu do hospital intacto como homem, exibindo um sorriso artificialmente cintilante.

A pergunta surgiu: “E isso vale a pena?” A resposta a esta pergunta depende evidentemente do que se quer dizer com “isso” e do conjunto de valores pelos quais cada um pauta a sua vida. Por outras palavras, depende daquilo a que se dá mais valor: a grandeza do sofrimento ou a banalidade do conforto. E da maneira como cada um aprecia verdadeiramente a vida e o seu modo de vida. “Uma pessoa sem ligação aos antepassados e à sua terra está condenada a andar aos tropeções”, disse Sebastián. “Para nós, isto é um modo de vida, não apenas uma maneira de ganhar dinheiro.”

E ainda bem que ele sentia isso, porque era evidente que não haveria 50 baguales para carregar a bordo do barco que os iria levar ao mercado em Puerto Natales. O mau tempo empurrara a maioria dos animais para oeste, além de Sutherland, longe do limite de resistência dos cavalos e dos cães. Em vez de capturarmos cinco animais por dia, sentir-nos-íamos afortunados se conseguíssemos um de dois em dois ou de três em três dias.

E mesmo esse número parecia um resultado imponente. Depois de os bagualeros conseguirem descobrir um toiro e laçá-lo no mato denso, ainda precisavam de descorná-lo e de amarrá-lo a uma árvore durante dias até ele ficar exausto para tornar o animal suficientemente maleável para ser atado a um cavalo e convencido a embarcar.

Começava a duvidar se chegaria inteira ao final desta viagem. Afinal, o primeiro toiro com que me defrontei parecia ter a atenção fixada em mim e eu ainda não conseguira descobrir uma árvore adequada para trepar. De súbito, apareceram os quatro bagualeros, cavalgando floresta afora, com a mão nas rédeas e a outra numa corda. Ao avistá-los, o toiro fugiu para o arvoredo, na direcção do lago. Fui no encalço do grupo a distância segura. Ao chegar ao lago, o touro ficara estrangulado numa das cordas. Num esforço para ressuscitá-lo, alguém puxara a língua da criatura para fora da boca. Outra pessoa saltava-lhe sobre o ventre sem quaisquer resultados. A vida fugiu-lhe dos olhos, que passaram de negro a verde glacial. Abelino tirou o chapéu e enxugou a sobrancelha. Vivo, o toiro representava um mês de salário. Morto, era apenas comida para nós e para os cães.

Ao longo das duas semanas que se seguiram, os homens capturaram meia dúzia de vacas, alguns toiros e um vitelo. Um touro afogou-se no lago e uma vaca saltou de uma falésia e ficou enforcada. O acampamento fedia, redolente de animais e de carne. Os homens sentiam-se cada vez mais sozinhos, contando piadas que ninguém traduzia, para minha protecção. Disseram-me, contudo, que o bordel de Puerto Natales, poiso favorito de Arturo no passado, ardera por completo há algum tempo.

O barco só viajaria até Sutherland se o bom tempo se mantivesse. “Vai tudo correr bem”, disse Sebastián. O barco de facto chegou e os bagualeros embarcaram todos os animais. A maioria dos membros da equipa safou-se com arranhões e nódoas negras; alguns tinham dores musculares nas costas. O velho cavalo de carga, claudicando das quedas sofridas ao longo do trilho, trepou coxeando alegremente para bordo. Um cão fora esmagado contra uma árvore por um touro e, desorientado pelo trauma, fugira. Outro sobrevivera depois de ser arrastado por uma cascata abaixo.

No momento em que o barco rumou a Puerto Natales, reflecti sobre o futuro da Estancia Ana María. Aparentemente, a próspera indústria turística poderá dominar o futuro da região. Os baguales serão sem dúvida exterminados. A invulgar coragem dos bagualeros tornar-se-á tema de histórias contadas junto a fogueiras. Ficará desvendado o mistério da região e o seu lado bravio será domesticado. Sebastián ergueu uma cerveja e fez uma saúde à terra, aos seus antepassados e a nós. “A esta vida!”, disse. Todos bebemos e Sutherland desapareceu do horizonte.

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