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Na sua primeira viagem à Gorongosa (e a África), E. O. Wilson utilizou o seu experiente faro para identificar um gafanhoto, que emite uma espuma malcheirosa e venenosa.

O biólogo E. O. Wilson visitou o famoso parque natural moçambicano. Recuperando dos danos provocados pela guerra civil, a Gorongosa enfrenta agora um novo desafio: a desflorestação da sua montanha sagrada.

Texto de Edward O. Wilson
Fotografias de Joel Sartore

Na monção de Verão, que se prolonga do fim de Novembro a meados de Março, as nuvens e a chuva são trazidas pelos ventos alísios que sopram de oeste sobre Moçambique, vindos do oceano Índico. Atravessando a costa, refrescam as terras florestadas do planalto de Cheringoma, depois a savana e as pradarias de aluvião do Grande Vale do Rifte. Por fim, sopram sobre as encostas da serra da Gorongosa, onde libertam grandes torrentes de chuva.

O maciço da Gorongosa, que atinge 1.863 metros de altitude, tem níveis de pluviosidade de quase dois metros por ano. É suficiente para sustentar uma floresta tropical luxuriante no cume e a oriente, no vale do Rifte, um parque que foi em tempos um dos refúgios de vida selvagem mais ricos do mundo. Antes de a guerra civil o deixar devastado, o Parque Nacional da Gorongosa era povoado por elefantes, búfalos-africanos, hipopótamos, leões, facoqueros e mais de uma dezena de espécies de antílopes. Agora, alguns desses animais estão a regressar, em grande parte graças a Greg Carr, um empresário e filantropo norte-americano que lidera um projecto para restaurar a Gorongosa. Em 2010, o governo de Moçambique corrigiu um erro cometido aquando da sua criação, alargando as suas fronteiras de modo a abranger a serra da Gorongosa, onde se localizam as nascentes dos rios que lhe sustentam a vida.

No Verão de 2011, fui à Gorongosa para apoiar os esforços de Carr. O parque é um excelente local para transmitir as dificuldades de estudar biologia na actualidade. A floresta tropical de altitude existente na serra da Gorongosa, com quase 75 quilómetros quadrados de extensão, é uma ilha ecológica num mar de savana e pradaria. Trata-se de um local de difícil acesso e, por isso, tem permanecido praticamente inexplorado por biólogos. A minha própria especialidade, as formigas, era uma página completamente em branco quando iniciei a intervenção. Para um naturalista, não existe íman mais forte do que uma ilha inexplorada. Ao visitar a serra da Gorongosa, aquando da minha primeira viagem a África, senti-me entusiasmado com a ideia da surpresa e da descoberta. 

A Gorongosa aloja grande diversidade de espécies pequenas, mas os animais de grande porte recuperam lentamente dos danos provocados pela caça furtiva e pela guerra civil.

Enquanto permaneci no parque, tive como assistente Tonga Torcida, um jovem nascido na própria serra da Gorongosa. Tonga foi um dos primeiros da sua aldeia a concluir o ensino secundário, uma proeza relevante, uma vez que, depois do sétimo ano, a frequência escolar exige o pagamento de propinas e de um uniforme que poucas famílias locais conseguem suportar. Fluente em quatro línguas e trabalhando com conhecimento profundo da Gorongosa, ele planeia tornar-se biólogo especialista em vida selvagem.

Tonga contou-me uma história do seu povo sobre a Criação e explicou-me a razão que os leva a considerarem a serra da Gorongosa sagrada. No princípio dos tempos, disse-me, Deus vivia com os seus povos na montanha. Os seres humanos eram gigantes e não tinham medo de pedir favores especiais a Deus. Cansado por ser constantemente importunado, o Criador mudou-se para o céu. Apesar disso, os gigantes persistiram, subindo à montanha para fazerem os seus pedidos. Por fim, de maneira a pô-los na ordem, Deus decidiu torná-los pequenos. Depois disso, a vida tornou-se muito mais difícil. Disse a Tonga que esta crença – e a sua lição moral – era parecida com alguns trechos do Antigo Testamento.

A Gorongosa sofreu certamente uma queda vertiginosa do seu estado de graça. Três anos depois de Moçambique se tornar independente em 1975, teve início a guerra civil, que se prolongou por 17 anos. Criado pelo governo português em 1960, o parque transformou-se num campo de combate. Os seus escritórios e instalações turísticas foram destruídos. Soldados errantes mataram muitos dos animais de grande porte. Depois da assinatura dos acordos de paz, mas antes de a ordem ser restaurada na Gorongosa, os caçadores furtivos mataram um número ainda maior de animais, vendendo a carne em mercados das proximidades. No final, praticamente todas as grandes espécies selvagens estavam quase ou totalmente extintas. Apenas os crocodilos, rápidos a deslizar pelas margens lodosas até à segurança dos rios, escaparam com poucos danos.

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Rapazes locais capturam rãs e libelinhas em redor da queda de água de Murombodzi, na serra da Gorongosa, durante o Bioblitz de 2011. Neste evento, recolheram-se amostras de vida selvagem.

A eliminação dos animais selvagens de grande porte teve consequências ambientais importantes. Nos lugares onde as zebras deixaram de pastar, o capim e os arbustos lenhosos adensaram-se e os incêndios florestais deflagrados por raios tornaram-se mais ameaçadores. Como os elefantes já não derrubavam as árvores para se alimentarem dos ramos, algumas florestas aumentaram de densidade. Com a redução acentuada das fezes e carcaças de animais selvagens de grande porte, a população de alguns necrófagos diminuiu abruptamente.

 

Naturalistas por um dia, dezenas de crianças que vivem na serra trouxeram a Wilson sacos cheios de espécimes para identificar durante o Bioblitz. Descobriram sobretudo insectos. “Na montanha, as coisas grandes desapareceram”, diz o fotógrafo Joel Sartore.

No entanto, a base ecológica composta por vegetação e animais pequenos, incluindo uma miríade de espécies de insectos e outros invertebrados, permanece praticamente intacta.
O Parque Nacional da Gorongosa contém uma grande variedade de habitats. Talvez por isso, ainda sustenta uma enorme biodiversidade. Na totalidade do parque, foram encontradas 398 espécies de aves (das quais cerca de 250 são residentes), 122 de mamíferos, 34 de répteis e 43 de anfíbios. É provável que existam dezenas de milhares de espécies de insectos, aracnídeos e outros invertebrados ainda por descobrir.

Durante uma década, após o final da guerra civil, enquanto o processo democrático ganhava raízes, a Gorongosa permaneceu em ruínas. Entretanto, Greg Carr interessara-se pelo país e procurava uma forma de ajudar. Depois de fazer fortuna no sector dos serviços de mensagens de voz e de Internet, voltara-se para a actividade filantrópica. Em 2004, o governo de Moçambique e Carr firmaram um acordo, ao abrigo do qual o norte-americano ajudaria a planear a recuperação do parque. Desde então, ele fez muito mais do que isso e dedicou-se pessoalmente ao restauro da Gorongosa, suportando a maioria das despesas e transformando-o em ocupação a tempo inteiro. O Ministério do Turismo de Moçambique estabeleceu uma parceria de longo prazo com Carr para gerir e desenvolver o parque.

Hoje, passada menos de uma década, a Gorongosa percorre o caminho rumo à recuperação. Animais de grande porte, incluindo búfalos-africanos e elefantes, foram importados da África do Sul e estão a multiplicar-se. Seguir-se-ão os elandes e as zebras. Embora ainda se encontrem muito abaixo dos valores máximos anteriores à guerra, manadas de animais de pasto já abundam na savana e na pradaria. O equilíbrio ecológico está a regressar juntamente com a megafauna, bem como os visitantes da Europa e da América do Norte. Foram construídas excelentes instalações no acampamento central de Chitengo e nos acampamentos para exploradores no interior. Em Chitengo, uma laje de pedra cravejada de buracos de balas foi preservada como memorial da guerra.

Os feitos da equipa de Greg Carr e do povo de Moçambique são impressionantes. Contudo, o restauro de um parque danificado é muito mais difícil do que a criação de um novo parque e a Gorongosa (sobretudo a serra) está longe de se encontrar fora de perigo. Durante a guerra civil, enquanto soldados saqueadores invadiam a montanha, os agricultores de subsistência começaram a abrir clareiras encosta acima, criando lotes. 

Os agricultores chegaram à floresta tropical do cume e começaram a derrubar as árvores e a converter o solo fértil em campos de milho e de batata. Na última década, a área da floresta tropical original foi reduzida em mais de um terço.

O recuo da floresta implica a sobrevivência de menos plantas e animais, mas a eliminação total da floresta, uma possibilidade real para os próximos dez anos se se mantiver o ritmo de destruição actual, seria catastrófica para todo o parque. A capacidade da montanha para captar, reter e libertar gradualmente a água da chuva das monções desapareceria. A água passaria a escoar rapidamente e a humidade fornecida ao resto do parque tornar-se-ia sazonal em vez de durar o ano inteiro. Perante a nova aridez, a vida no parque e em seu redor seria menos sustentável, tanto para as pessoas como para os animais.

Como agora abrange a serra, o parque já tem autoridade para preservar o perímetro da floresta. Contudo, esta não estará segura até serem dadas alternativas às pessoas que a destroem. O turismo faz parte da solução de Carr, mas ele também contratou equipas para criar vários berçários onde se cultivam rebentos de árvores da floresta tropical e ganha forma o processo de recuperação da área original da floresta. O parque está a criar escolas e clínicas de saúde para os autóctones no sopé da montanha. Por fim, está planeada a construção de um centro de investigação e formação científica no acampamento de Chitengo. A sua ênfase incidirá no ambiente interior do parque e na preservação da sua biodiversidade.

 Para recolhermos uma amostra da biodiversidade da serra da Gorongosa, Greg e eu decidimos organizar um “Bioblitz” no local e assegurar a participação da comunidade que vive nas zonas baixas da encosta. Pedimos a Tonga Torcida que nos ajudasse na organização do evento e recrutasse crianças para serem nossas ajudantes. 

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Mineiros com licenças governamentais escavam em busca de ouro, a 1.500 metros do limite do Parque Nacional da Gorongosa e dentro da bacia hidrográfica que o suporta. O parque só terá futuro com actividades sustentáveis para as populações.

Os Bioblitzs são contagens de espécies identificadas numa área restrita durante um período fixo de tempo, geralmente 24 horas. Seguem regras simples: os participantes procuram dentro de um raio estabelecido em redor de um ponto focal, auxiliados por naturalistas locais familiarizados com grupos de organismos e capazes de identificar as espécies descobertas. O Bioblitz decorreu numa elevação com cerca de 1.100 metros de altitude na serra da Gorongosa. Cedendo perante as necessidades logísticas neste local distante (tive de ser transportado até lá de helicóptero), limitámos o tempo a duas horas e eu era o único especialista presente. Consegui identificar a maioria dos insectos e das aranhas segundo as suas famílias taxonómicas, mas alguns espécimes obrigaram-me a adivinhar.

O evento foi uma animação, com correrias e gritos. As crianças, entre os 4 e os 12 anos, revelaram-se caçadoras extraordinariamente dotadas. Estavam ansiosas por ouvir o que eu tinha para dizer sobre os seus achados. Tonga traduziu as nossas conversas e, no final das duas horas, eu contara um total de 60 espécies, pertencendo a 39 famílias e 13 ordens.

Descobrimos insectos e artrópodes estranhos, na sua maioria muito pequenos. Havia numerosíssimos himenópteros (a ordem que inclui as formigas, as abelhas e as vespas), coleópteros (besouros) e dípteros (moscas). Embora avistássemos um número pequeno de formigas, uma espécie foi identificada como a raramente observada Dorylus bequaerti. Também detectámos aves, répteis, anfíbios e um rato.

Para a maioria das pessoas, a designação “animal selvagem” significa mamíferos e aves, que sofreram bastante na serra da Gorongosa. As pessoas anseiam por ver animais selvagens de grande porte e eu não fujo à regra. Mas a vida selvagem também inclui as pequenas coisas, como os insectos e outros invertebrados que constituem os alicerces dos ecossistemas terrestres. Por isso, a Gorongosa não me desiludiu. Bem pelo contrário: satisfez todos os desejos de aventura e descoberta que sinto desde a infância, quando tinha a mesma idade dos meus ajudantes na serra da Gorongosa e me aventurava nas florestas do Alabama e da Florida com uma rede, uma pá e frascos de recolha. 

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