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A caravela-portuguesa (Physalia physalis) é um cnidário notável, apesar de temível. À superfície, costuma detectar-se apenas o flutuador, normalmente com tons azuis e arroxeados, mas, por baixo do espelho de água, podem espraiar-se tentáculos urticantes com dezenas de metros. O Departamento de Oceanografia e Pescas da universidade dos Açores tem um programa de monitorização destas populações sempre que elas se aproximam de zonas de veraneio. Pouco se sabe ainda sobre esta espécie peculiar.

Uma expedição da Fundação Oceano Azul, da National Geographic Society e da Fundação Waitt mergulhou nas águas dos Açores em busca de informação sobre biodiversidade e indicadores do sucesso das medidas de conservação. O balanço é agridoce.

Texto de João Rodrigues

Bem abaixo da superfície, vale a pena reflectir sobre o impacte humano no mar.

À medida que as ondas golpeavam violentamente o casco, o vento percorria o convés do Santa Maria Manuela com um assobio ensurdecedor. O nervosismo no rosto do comandante aumentava ao ritmo dos solavancos da embarcação. No horizonte, o céu escurecia. Uma frente oceânica que prometia não dar tréguas aproximava-se velozmente, carregada de ira de Éolo e Neptuno. 

Navegando em contra-relógio, o veleiro octogenário com 67 metros de comprimento conseguiu abrigar-se a norte da ilha da montanha-mor de Portugal, colocando a salvo a sua carga preciosa. No interior, encontravam-se dezenas de investigadores oriundos de todo o mundo, acompanhados por toneladas de equipamentos científicos. Era uma força de elite preparada para a maior expedição ao mar dos Açores desde que há memória.

Se existem lugares inacreditáveis neste planeta, um deles é o arquipélago mais recente da Macaronésia no extremo ocidental da Europa, a 1.360 quilómetros para oeste de Portugal continental. Composto por nove ilhas vulcânicas que emergiram das profundezas do oceano Atlântico Norte, os Açores são um paraíso para os olhos de qualquer um. O azul hipnotizante do mar e o verde gritante das montanhas reinam num cenário digno de um conto de fadas. No entanto, é a magia do seu universo subaquático que o torna verdadeiramente especial.

Veja nesta galeria algumas das fotografias recolhidas nesta expedição.

Abaixo da superfície do mar, existe um oásis de biodiversidade marinha que seduz a comunidade científica desde os primórdios da ciência. Vários naturalistas oitocentistas maravilharam-se com a riqueza marinha dos Açores e ficaram para a história as campanhas oceanográficas aqui realizadas pelo rei Dom Carlos e pelo príncipe Alberto do Mónaco no início do século XX.

Apelidado por muitos como a encruzilhada do Atlântico, este reino acolhe habitantes de origens diversificadas – de vejas e barracudas de climas tropicais e subtropicais a cavacos e badejos do Mediterrâneo, passando por abróteas e bodiões-vermelhos de águas temperadas ou frias. Estima-se que cerca de 3.500 espécies vivam interligadas neste mosaico complexo e diversificado de habitats costeiros, oceânicos, pelágicos e bentónicos.

É nesta região que a cordilheira submarina conhecida como crista médio-atlântica, atravessada por inúmeras falhas tectónicas, separa as placas continentais americana, euro-asiática e africana. É uma metrópole selvagem agitada, conhecida pelo seu magnífico buffet oceânico, que atrai grandes predadores como espadartes, atuns, jamantas, tubarões, tartarugas e cetáceos. Viajantes esfomeados de um Atlântico distante deliciam-se aqui com cardumes de pequenos peixes pelágicos, krill, camarões, lulas e organismos gelatinosos como a famosa caravela-portuguesa.

As condições únicas que aqui se reuniram ao longo de milhões de anos de evolução fizeram, destas águas, o El Dorado da biodiversidade marinha do mar português.

Às seis horas, o sol espreitava timidamente ao largo da ilha do Corvo, iluminando a agitação matinal que se fazia sentir no convés do navio. “Camaradas, todos sabemos o que temos a fazer. Vamos a isto!”, disse com entusiasmo Emanuel Gonçalves, o biólogo marinho da Fundação Oceano Azul, líder da expedição Oceano Azul. A estibordo, Paul Rose, explorador do projeto Mares Prístinos da National Geographic e líder-adjunto da expedição, acenava com a cabeça em sinal de concordância. Nesse preciso instante, cientistas das mais variadas disciplinas como a biologia, a ecologia, a geologia, a cartografia e a oceanografia davam início às suas operações.

Após análise das misturas gasosas e montagem dos escafandros, os mergulhadores lançaram-se ao mar em lanchas rápidas com destino aos recifes costeiros da ilha. Aos dez e aos vinte metros de profundidade, enquanto uns faziam censos visuais de peixes, outros lidavam com algas e invertebrados marinhos, com o objetivo de caracterizar as comunidades, quantificar a biomassa e comparar zonas com e sem proteção.

“Para conseguirmos uma amostragem mais completa, tentámos explorar também uma zona abaixo das áreas de mergulho recreativo”, regista Emanuel Gonçalves, já no seu gabinete na Fundação Oceano Azul, em Lisboa. “Muitas vezes, espécies que são sobreexploradas nas zonas costeiras preferem estes habitats de maior profundidade.”

A necessidade urgente de proteger o mar que banha um país com raízes salgadas alimentou o sonho da expedição Oceano Azul. 

Resultado do seu impulso conservacionista, a Fundação Oceano Azul abraçou o compromisso de financiar investigação científica sólida para ajudar o país a dar um salto de gigante na área da conservação marinha. Um primeiro eco desse compromisso foi esta expedição, uma parceria com o Governo Regional, a Fundação Waitt e o projecto Mares Prístinos da National Geographic Society, e que contou com o Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa, a Universidade dos Açores e a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental.

Comparativamente à área terrestre, o território marinho português é imenso. Com quatro milhões de quilómetros quadrados, a área marinha sob jurisdição nacional representa a terceira maior da União Europeia e a décima primeira mundial. Uma jurisdição desta envergadura traz enormes responsabilidades. É possível que até ao ano 2020 sejam colocados em marcha mecanismos de conservação para que 14% do mar português sejam formalmente áreas marinhas protegidas. 

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