No Serengeti, a morte está por perto. O trabalho em equipa é essencial, mesmo para o macho de juba escura conhecido como C-Boy.

Texto: David Quammen 
Fotografias: Michael Nichols

É costume dizer que os gatos têm nove vidas, mas o mesmo não se diz do leão do Serengeti.

Nesta paisagem que não perdoa, a vida é dura e precária e a morte é… a morte. Para o maior predador africano, tal como para as suas presas, a vida tende a ser curta. Com sorte, um macho adulto pode atingir a provecta idade de 12 anos em ambiente selvagem. As fêmeas podem viver mais, chegando por vezes aos 19 anos. A esperança de vida à nascença é muito inferior para qualquer leão, se tivermos em conta a elevada mortalidade entre as crias, metade das quais morre antes dos 2 anos. No entanto, a sobrevivência até à idade adulta não é garantia de morte pacífica. Para um certo jovem macho, robusto e de juba escura, conhecido pelos investigadores como C-Boy, o fim parecia ter chegado na manhã de 17 de Agosto de 2009. 

A bióloga sueca Ingela Jansson, que trabalhava como assistente de campo num estudo de longo prazo sobre leões, estava lá para ver. Travara conhecimento com C-Boy em encontros anteriores e fora ela quem lhe dera o nome. Ele tinha agora 4 ou 5 anos e estava a chegar ao apogeu. Ingela estava sentada num Land Rover a dez metros de distância, quando três outros machos se abeiraram de C-Boy e tentaram matá-lo. A luta para sobreviver contra estas probabilidades reflectiu uma verdade maior sobre o leão do Serengeti: o risco contínuo de morte, ainda maior do que a capacidade de a causar, é aquilo que molda o comportamento social deste animal feroz.

No dia em questão, junto ao leito seco do rio Seronera, Ingela fora observar o bando conhecido como Jua Kali. Prestava igualmente atenção aos machos adultos, incluindo os “residentes” do grupo. Em rigor, os machos não pertencem a nenhum bando, formando em vez disso coligações com outros machos e exercendo controlo sobre um ou mais bandos, padreando as crias e tornando-se residentes, mantendo laços frouxos com o grupo. 

Também desempenham um papel importante ao participarem no abate das presas, contribuindo desta forma para a vida do bando com algo mais do que esperma e protecção. Ingela sabia que os machos residentes de Jua Kali eram C-Boy e o seu único parceiro de coligação, um conquistador chamado Hildur. Aproximando-se do rio, ela viu à distância um macho perseguido por outro.
O leão em fuga era Hildur.

Depois, encontrou um grupo de quatro machos no capim. Ingela reconheceu alguns como membros de outra coligação, um grupo de quatro jovens machos ambiciosos, identificados nos seus cartões de registo com o tristemente célebre nome de Assassinos.

Um dos leões tinha um dente a sangrar, o canino inferior direito, indiciando uma luta recente.
O outro estava estendido, como se desejasse desaparecer solo adentro. O macho estendido emitia um rosnado constante e nervoso. Aproximando-
-se no seu jipe, Ingela viu a cor escura da sua juba e percebeu que se tratava de C-Boy, ferido, isolado e rodeado por três dos Assassinos. 

Também reparou numa fêmea lactante, a leoa do bando Jua Kali equipada com coleira de rádio. A lactação indiciava a existência de crias jovens, escondidas algures num covil, cujo presumível progenitor seria C-Boy ou Hildur. Por isso, este confronto entre C-Boy e os Assassinos significava um desafio pelo controlo dos direitos sobre o bando. Se os novos machos o assumissem, matariam as crias dos seus rivais para provocar o cio nas fêmeas mais depressa.

Segundos mais tarde, o combate reacendeu-se. Os três Assassinos circundaram C-Boy e, por turnos, investiam contra ele vindos de trás, arranhando-lhe os quadris, mordendo-lhe a coluna, enquanto ele se virava, rosnava e rebolava desesperadamente, tentando desaparecer. Quase suficientemente perto para sentir os salpicos de saliva e cheirar malevolência, Ingela observava tudo boquiaberta, tirando fotografias.
A poeira voava, C-Boy rodopiava e rugia e os Assassinos tiravam partido da sua vantagem, evitando-lhe as mandíbulas, recuando, aproximando-se dele por trás, afundando-lhe os dentes na carne, fazendo feridas atrás de feridas, até a pele das suas patas traseiras parecer uma pele velha e perfurada. Ingela pensou estar a testemunhar o evento terminal da vida de um leão. Se os ferimentos imediatos não o matassem, as infecções bacterianas posteriores certamente o fariam. 

 

Os Assassinos, uma coligação de quatro machos, foram assim designados devido aos ataques mortíferos lançados contra fêmeas e contra os rivais. Como os territórios de qualidade são um recurso precioso, o combate e a subjugação dos rivais fazem parte da luta natural.

Num instante, porém, tudo acabou. Foi um minuto de luta, talvez. Separaram-se. Os Assassinos afastaram-se e instalaram-se sobre um monte de térmitas, com uma vista de comando sobre o rio, enquanto C-Boy se esgueirou. Estava vivo, por enquanto, mas fora derrotado.

Ingela não o viu durante dois meses. Poderia estar morto. Enquanto isso, os Assassinos começaram a fazer os seus avanços sobre as fêmeas de Jua Kali. As crias pequenas de C-Boy ou Hildur desapareceram – mortas pelos machos conquistadores, talvez abandonadas à fome ou negligenciadas o suficiente para serem comidas pelas hienas. As fêmeas retomariam assim o cio e os Assassinos teriam novas ninhadas. C-Boy fora preterido. As leoas de Jua Kali esquecer-se-iam dele. É esta a fria aritmética da sociedade leonina.

Os tigres são solitários. Os pumas são solitários. O leão é o único felino verdadeiramente social, vivendo em bandos e coligações, cuja dimensão e dinâmica são determinadas por um complexo balanço de custos e benefícios relacionados com a evolução.

Por que razão o comportamento social, ausente noutros felinos, se tornou tão importante para eles? Será uma adaptação necessária para caçar presas grandes? Facilitará a defesa das crias pequenas? Derivará dos imperativos da competição pelo território? Os pormenores sobre a sociedade leonina foram emergindo sobretudo nos últimos quarenta anos e muitas das principais revelações foram produzidas por um estudo contínuo dos leões num único ecossistema: o Serengeti.

O Parque Nacional do Serengeti abrange 14.750 quilómetros quadrados de planícies de capim e zonas florestais junto à fronteira setentrional da Tanzânia. O parque teve origem numa reserva de animais selvagens pequena fundada pela administração colonial britânica na década de 1920 e foi formalmente criado em 1951. O ecossistema maior, dentro do qual grandes manadas de gnus, zebras e gazelas migram sazonalmente seguindo as chuvas até locais com erva mais fresca, inclui várias reservas de animais selvagens (designadas para a caça) junto à fronteira ocidental do parque, outras terras sob regimes de gestão mista (incluindo a Área de Conservação de Ngorongoro) ao longo da fronteira oriental e uma extensão transfronteiriça (a Reserva Nacional de Masai Mara) no Quénia. Além dos grupos migratórios, há populações de damaliscos, topis, cobes, impalas, búfalos, facoqueros e outros herbívoros. Nenhum outro lugar de África sustenta uma abundância tão concentrada de ungulados numa paisagem tão aberta. Por consequência, o Serengeti é um sítio esplendoroso para leões e ideal para os investigadores de leões.

George Schaller chegou aqui em 1966, a convite do director dos Parques Nacionais da Tanzânia, para estudar os efeitos da predação dos leões sobre as populações de presas. Biólogo lendário pela sua dureza e astúcia, George realizara investigação sobre gorilas da montanha. Quando se está a fazer o primeiro estudo pormenorizado de qualquer espécie, disse-me recentemente, “agarra-se o que se pode”. Por isso, ele compilou um enorme volume de dados durante três anos e três meses de trabalho de campo intensivo. O livro daí decorrente, “The Serengeti Lion”, transformou-se no texto de referência primordial. 

Seguiram-se outros investigadores. O jovem inglês Brian Bertram sucedeu a Schaller e permaneceu ali durante quatro anos, tempo suficiente para começar a destrinçar os factores sociais que afectam o sucesso reprodutivo e para explicar um fenómeno importante: o infanticídio perpetrado pelos machos. Brian documentou quatro casos em que uma nova coligação de machos matou crias de uma ninhada cujo controlo acabara de assumir. Jeannette Hanby e David Bygott vieram a seguir e reuniram provas de que a formação de coligações (sobretudo coligações com três ou mais elementos) ajuda os leões machos a ganhar e manter o controlo dos bandos e, por conseguinte, a produzir mais descendência sobrevivente. 

Em 1978, Craig Packer e Anne Pusey assumiram a responsabilidade do estudo, tendo realizado trabalho de campo no Centro de Investigação de Gombe Stream com Jane Goodall. Anne manteve-se 12 anos no projecto dos leões, assinando em co-autoria alguns ensaios importantes. Craig continua a trabalhar neste tema, liderando o Projecto dos Leões do Serengeti, que integra a investigação de Ingela Jansson. Com os 35 anos de trabalho de Craig somados ao que George e os outros fizeram, o Projecto do Leão do Serengeti representa um dos mais longos estudos de campo contínuos centrados numa só espécie. “Se dispusermos de um conjunto de dados de longo prazo, descobrimos o que de facto acontece”, disse-me George Schaller.

Uma das coisas que acontece é a morte. Embora seja inevitável para todas as criaturas, as especificidades do momento em que ocorre e a sua causa conjugam-se em padrões relevantes.

Após a sua experiência penosa com os Assassinos, C-Boy cedeu o domínio sobre o bando Jua Kali e deslocou-se para oriente. Hildur, o seu parceiro de coligação, de tão pouca utilidade durante a refrega, acompanhou-o. Só voltei a ver C-Boy três anos mais tarde. 

Ele e Hildur tinham-se assenhoreado então do controlo de dois outros bandos, Simba East e Vumbi, cujos territórios se situam entre as planícies abertas e kopjes (afloramentos rochosos) a sul do rio Ngare Nanyuki. Esta não é a zona mais hospitaleira do Serengeti para os leões e as suas presas, mas proporcionou a C-Boy e a Hildur a oportunidade de um novo começo. 

Eu viajava por essa zona com Daniel Rosengren, outro sueco aventureiro, que assumira as funções de vigilante dos leões anteriormente desempenhadas por Ingela Jansson. No meio do nada, a leste da área turística principal e a sul do rio, os grandiosos panoramas de pradaria sobem e descem suavemente, pontuados a cada meia dúzia de quilómetros por um aglomerado de kopjes. Estas rochas graníticas adornadas com árvores e arbustos erguem-se sobre as planícies, proporcionando sombra, segurança e pontos de observação aos leões em repouso. Podemos conduzir durante dias neste canto do parque sem avistar um único veículo turístico. Juntamente com Michael (Nick) Nichols e a sua equipa fotográfica, que estava a passar alguns meses num acampamento de investigação junto ao leito do rio, tínhamos a zona só para nós.

Nessa tarde, o sinal de rádio nos auscultadores de Daniel conduziu-nos a Kopjes Zebra, onde, no meio do coberto, encontrámos a fêmea do bando Vumbi com colar de rádio ao pescoço. A seu lado estava um macho magnífico de juba espessa que descia em cascata pelo seu pescoço e ombros, em tons castanhos e negros. Era C-Boy.

A apenas 12 metros de distância, mesmo utilizando binóculo, não consegui detectar sinais de ferimentos nos seus flancos ou traseiro. Os rasgões tinham cicatrizado. “Nos leões, a maioria das cicatrizes desaparece ao fim de algum tempo, excepto se forem à volta do nariz ou da boca”, disse-me Daniel. C-Boy conseguira uma vida nova num local novo, com leoas novas, e parecia prosperar. Ele e Hildur tinham padreado várias ninhadas novas.
E na noite anterior (soubemo-lo por Nick Nichols, que o viu) as fêmeas do bando Vumbi tinham trazido um elande, uma grande presa. C-Boy colocara a pata dianteira de macho imperioso sobre a carcaça, reclamando as primeiras dentadas. C-Boy alimentara-se primeiro, escolhendo as melhores partes, mas sem comer demasiado, antes de ceder a vez às leoas e às crias. Hildur andava por outras paragens, presumivelmente a cortejar outra fêmea no cio. Portanto, estes dois viviam uma bela vida, com todas as prerrogativas dos machos residentes. Isto aconteceu doze horas decorridas após encontrarmos provas de que o problema o seguira para leste. 

O problema era concorrência masculina. Bem cedo, na manhã seguinte, Daniel conduziu-nos para norte, desde o acampamento de Nick Nichols até ao rio, em busca de um bando conhecido como Kibumbu, cujas pequenas crias pertenciam a outra coligação. Estes machos tinham estado ausentes nos últimos meses e Daniel interrogou-se sobre quem poderia tê-los suplantado. Era essa a sua missão, dentro do contexto mais alargado dos estudos leoninos: documentar as idas e vindas, os nascimentos e as mortes, as associações e retiradas que afectam o tamanho do bando e a estabilidade territorial. Se o bando Kibumbu tivesse novos progenitores, quem seriam eles? Daniel tinha uma suspeita e confirmou-a quando, no meio do capim alto junto ao rio, encontrámos os Assassinos.

 

Os filhotes mais velhos, como estes juvenis do bando Vumbi, são criados juntos numa creche. Unidas pela causa de criar uma geração, as fêmeas do bando amamentam e cuidam das suas crias e das outras.

Eram uns diabretes bem parecidos, um quarteto com 8 anos, descansando num grupo amigável. Pareciam desagradáveis e convencidos. Foram apelidados de “Os Assassinos” em 2008 por um assistente de campo, com base na inferência de que tinham atacado três fêmeas com coleiras de rádio, uma a uma, de forma sistemática, a sul do rio Seronera. Esta violência de machos contra fêmeas não era aberrante; poderia até ser adaptativa para os machos em alguns casos, abrindo espaço para os bandos por si controlados através da remoção da concorrência representada pelas fêmeas vizinhas.

Embora Daniel me tenha dito os seus nomes individuais tal como registados nos cartões (Malin, Viking…), preferia chamá-los pelos números: 99, 98, 94 e 93. Observado de perfil, o macho 99 tinha uma juba escura, embora não tão escura como a de C-Boy. Inspeccionando com binóculo, reparei numas quantas feridas pequenas no lado esquerdo do focinho do 99.

Dois dos outros, 93 e 94, mexeram-se, virando-se para nós. À luz dourada do nascer do Sol, vimos ferimentos também no focinho: um corte no nariz, um pequeno hematoma e um golpe, ainda purulento, sob a orelha direita. São recentes, disse Daniel. Aconteceu qualquer coisa ontem à noite. E não foi apenas uma luta pela partilha de alimento; os parceiros de coligação não costumam causar estes danos uns aos outros. Deveria ter sido uma briga com outros leões. Isso levantava duas perguntas. Com quem tinham os Assassinos travado combate? E qual seria o aspecto do outro nesta manhã? Depois, à medida que o dia avançava e dávamos outras voltas, pareceu-nos que C-Boy tinha desaparecido.

“A maioria dos leões morre em combate uns com os outros”, disse-me Craig Packer, respondendo-me a uma pergunta sobre mortes. “A primeira causa de morte entre os leões, num ambiente imperturbado, são os outros leões.” 

Craig dividiu a questão em categorias. Pelo menos 25% da perda de crias deve-se a infanticídio perpetrado por novos machos. Também as fêmeas, tendo oportunidade, matam ocasionalmente as crias dos bandos vizinhos. Podem até matar outra fêmea adulta se ela entrar desprevenidamente no seu território. Os recursos são limitados e os bandos são territoriais.

Os machos funcionam de maneira igualmente ciumenta. “As coligações de machos são gangs e, se encontrarem um macho estranho a cortejar as suas damas, matam-no.” E os machos matam fêmeas adultas, se tal convier aos seus objectivos, como mostraram os Assassinos. Vêem-se muitos ferimentos de dentadas nos leões, o que comprova a luta competitiva por alimento, território, sucesso reprodutivo e sobrevivência. Com sorte, as feridas cicatrizam. Com menos sorte, o vencido é morto numa feroz batalha leonina ou afasta-se a coxear, perdendo sangue, talvez  incapacitado, talvez destinado a morrer lentamente devido a infecção ou fome. “Por isso, o leão é o inimigo número um dos leões”, disse Craig. “Em última análise, é por isso que os leões vivem em grupos.” A posse do território é fundamental e os melhores territórios (locais que ele apelida de pontos quentes, como confluências entre riachos, onde as presas tendem a concentrar-se) servem de incentivo à cooperação social. “A única forma de monopolizar um destes pontos quentes, muito valiosos e escassos, é formando um gang de companheiros do mesmo sexo que funcionem como uma unidade”, afirmou, pensando como um leão.

Esse tema ressaltou fortemente da investigação de Craig, realizada com vários colaboradores e estudantes ao longo das décadas. Em conclusão, não é apenas a necessidade de esforço conjunto para matar e defender contra a morte que leva as leoas a viver em bandos. É igualmente a necessidade de proteger a descendência e conservar esses territórios valorizados. Embora o tamanho dos bandos varie consideravelmente, desde apenas uma fêmea adulta até um máximo de 18, os bandos de tamanho intermédio são os mais bem sucedidos na protecção das suas crias e manutenção do domínio territorial. Os bandos demasiado pequenos tendem a perder crias. Os períodos de cio das fêmeas adultas estão frequentemente sincronizados, sobretudo se um episódio de infanticídio perpetrado por um macho tiver eliminado todos os juvenis e reposto os seus relógios a zero. Logo, crias de progenitoras diferentes costumam nascer aproximadamente na mesma altura.

Isto leva à formação de creches, grupos em que as fêmeas amamentam e protegem todas as crias. Estes cuidados cooperativos são encorajados pelo facto de as fêmeas de um bando serem aparentadas – mães e filhas, irmãs e tias, partilhando um interesse genético no sucesso reprodutivo umas das outras. Mas os bandos demasiado grandes também resultam mal, devido à excessiva competição interna. Um bando com duas a seis fêmeas adultas parece ser o ideal para as planícies.

O tamanho das coligações de machos é ditado por uma lógica semelhante. As coligações formam-se, tipicamente, entre jovens machos que atingiram uma idade que já não lhes permite permanecer com o seu bando natal, abandonando-o juntos para enfrentar a idade adulta. Um par de irmãos pode associar-se a outro par, de meios-irmãos ou primos, ou mesmo a indivíduos não aparentados que encontrem, solitários, nómadas e necessitando de parceiros. Se juntar demasiados machos com estas características num bando errante, cada um ansioso por alimento e oportunidades de acasalar, será a loucura. Mas um macho sozinho ou uma coligação demasiado pequena  também sofrerão desvantagens.

Era esse o dilema de C-Boy. Sem outro parceiro além de Hildur, um macho muito desejoso de acasalar, mas pouco ávido de luta, C-Boy enfrentou praticamente sozinho os Assassinos. Nem a sua juba negra resplandecente conseguia neutralizar as probabilidades de três contra um. Talvez ele já estivesse morto por esta altura. Nesse caso, apercebemo-nos, aqueles pequenos ferimentos nos rostos dos três Assassinos poderiam ser as últimas evidências de C-Boy que alguém veria.

Nessa noite, os Assassinos fizeram nova incursão. Tinham descansado todo o dia, deixando o Sol torrar os seus focinhos e secar-lhes as feridas. Duas horas depois do pôr do Sol, começaram a rugir e partiram. Eu e Daniel recebemos notícias pelo walkie-talkie de Nick Nichols, que estivera de vigia. Saltámos para o veículo de Daniel e avançámos rumo à escuridão. Agora, éramos cinco: atrás do volante, Reba Peck, a mulher de Nick, fazia o jipe deslizar, com os faróis apagados. Não havia Lua. Nichols tinha óculos de visão nocturna e uma câmara de infravermelhos. O seu assistente e videógrafo, Nathan Williamson, estava a postos para captar som ou ligar os holofotes de infravermelhos. Viajámos lentamente atrás dos leões. Eles não pareciam minimamente preocupados com a nossa presença. Tinham mais em que pensar.

Seguimo-los por um antigo trilho de búfalos, depois por um bosque denso de acácias. Mantínhamo-los à vista com os faróis baixos e, nos locais que estes não atingiam, com um monóculo térmico. Sentado no tejadilho saltitante do veículo, vi através do monóculo quatro corpos de leão brilhando como velas numa gruta.

De repente, outra figura grande, com olhos cor de laranja brilhantes, apareceu ao nosso lado quando passei a lâmpada do meu capacete sobre ela. Era uma leoa, dando-se a conhecer aos Assassinos. Daniel não conseguiu reconhecê-la, mas ela estaria presumivelmente com o cio. Quando repararam nela e se viraram na sua direcção, afastou-se timidamente, perseguida pelos quatro, e, por um instante, pensámos tê-los perdido. Mas apenas um macho continuou no seu alcance; não voltaríamos a vê-lo naquela noite. Depois desta distracção amorosa, os outros três reagruparam e prosseguiram a marcha. Atravessaram uma estrada e viraram para sul, entrando insolentemente no território do bando Vumbi e dos seus defensores residentes, C-Boy e Hildur. Fizeram pausas aqui e além para deixar o seu odor, esfregando as testas contra arbustos, arranhando e aspergindo o solo. Não era um ataque furtivo; estavam a publicitar-se, a fazer uma afirmação. Entretanto, já tinham mudado de rumo e dirigiam-se ao acampamento de Nick. Os três leões deram pouca importância ao nosso pequeno complexo de lona, com os seus odores a pipocas, frango e café. Cerca de quatrocentos metros antes, deitaram-se para descansar. Durante este hiato, mesmo antes da meia-noite, Nick e a sua equipa regressaram ao acampamento. Eu e Daniel ficámos com os Assassinos. Ele fez o primeiro turno de sono, ressonando suavemente no banco traseiro do Land Rover, enquanto eu fiquei a pé, montando vigia. Meia hora mais tarde, os leões levantaram-se e começaram a deslocar-se novamente; acordei Daniel e seguimos caminho.

Foi assim que tudo se passou durante o resto da noite: um pouco de caminhada, um pouco de sono. De vez em quando, durante uma paragem, erguiam as vozes e deixavam-nas ressoar. Ouvido de perto, o rugido de três leões é um som imponente, alto, gutural e rouco, como se forjado numa grande fornalha de poder, confiança e ameaça. Ninguém respondia às vocalizações. Quando a alvorada chegou, estavam de volta à estrada depois do périplo pelo território Vumbi, caminhando para ocidente rumo a um kopje onde encontrariam uma sombra para passar o dia. Era sábado de manhã. Eu e Daniel deixámo-los lá.

Os ferimentos nos focinhos e a ausência de C-Boy continuavam por explicar. Junto ao rio Ngare Nanyuki, a política leonina parecia desenrolar-se com fluidez. 

Ao fim da tarde de domingo, encontrámos o bando Vumbi em Kopjes Zebra, poucos quilómetros a sul do local onde os Assassinos tinham feito o seu circuito invasivo. Talvez o bando tivesse sido levado a descer pelos rugidos ou talvez tivesse simplesmente vagueado até lá. Contámos três fêmeas, descansando satisfeitas à sombra, e todas as suas oito crias. Sabíamos que outra fêmea fugira numa incursão de acasalamento com o sedutor Hildur. Não havia sinais de C-Boy.
A sua ausência soava a mau augúrio.

Na tarde de domingo, de volta a Kopjes Zebra. Hildur e a sua fêmea tinham regressado ao grupo, mas não C-Boy. Vamos tentar Kopjes Gol, sugeriu Daniel. Com sorte, veremos o bando Simba East e talvez ele esteja lá. Essa era a minha prioridade: queria encontrá-lo, morto ou vivo. Por isso, conduzimos em direcção a sudoeste, enquanto Daniel escutava os sons de Simba East através dos auscultadores. Encontrámos o bando num pequeno kopje: três fêmeas e três crias grandes, descansando entre as rochas radiantes. Uma vez mais, não havia sinais de C-Boy.

Com o pôr do Sol do Serengeti pintando o horizonte atrás de nós, regressámos a Kopjes Zebra. Nick e Reba ainda lá estavam, com os membros do bando Vumbi, que se tinham agachado entre a relva e começado a rugir. O rugido dos leões pode ter uma série de significados e este coro encerrava um tom misterioso. Quando se calaram, ficámos à escuta. Não se ouviu resposta.

Nick e Reba saíram para o acampamento. Daniel estacionou o veículo ao lado dos Vumbi. Ele queria que eu experimentasse a emoção assustadora de ouvir o rugido de um leão mesmo em cima de mim. Desta vez, Hildur juntou-se ao bando, com os seus tons baixos profundos de macho raspando e trovejando. Quando terminaram, continuámos a ouvir com atenção. Mais uma vez, nada. Eu estava pronto para me ir embora. Para efeitos jornalísticos, estava preparado a declarar C-Boy “desaparecido ou possivelmente morto”.

Espere, disse a dado momento Daniel. Havia uma agitação no escuro. Pediu o meu capacete. Apontando a luz sobre Hildur e os outros, Daniel fê-la assentar sobre uma nova figura, uma figura grande, com uma juba escura: C-Boy. Estava de volta. Viera a correr, ao ouvir o som dos rugidos.

O seu focinho apresentava-se liso. Os seus flancos estavam intactos. Fosse quem fosse que os Assassinos tinham atacado duas noites antes, não fora ele. C-Boy instalou-se confortavelmente ao lado da fêmea equipada com a coleira. Em breve acasalaria novamente. Era um leão com 8 anos, saudável, exigindo respeito dentro de um bando.

Tudo é transitório. A vida de C-Boy pode prolongar-se alguns anos, mas ele está sujeito a doenças, ferimentos, caos, deslocação, fome e morte. O Serengeti não tem piedade pelos idosos, desafortunados ou incapacitados. Ele não será sempre feliz. Agora, contudo, parecia feliz. 

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