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Cinco famílias awá, oriundas de Posto Awá, uma base avançada criada pelo Departamento de Assuntos Indígenas do governo brasileiro, partem para uma excursão pela floresta. Os awá que vivem em comunidades sedentárias e sentem falta da floresta realizam estes périplos para voltarem a ligar-se aos hábitos tradicionais. O Brasil só iniciou em 1987 a sua actual política de ausência de contacto com os grupos indígenas isolados. 

Nas florestas amazónicas do Brasil e do Peru, mineiros, rancheiros e madeireiros ilegais estão a invadir as terras ancestrais dos últimos povos isolados.

Texto: Scott Wallace e Chris Fagan 

Fotografias: Charlie Hamilton James

Os rodados dos pneus deixados sobre a terra vermelho-sangue são profundos e recentes.
Tainaky Tenetehar desmonta da sua moto para examiná-los. 

“Foram deixados hoje de manhã”, afirma, com a convicção de um batedor veterano habituado a detectar qualquer sinal de movimento humano nestas terras fronteiriças sem lei.

Através de binóculo, observa as colinas ondulantes da savana queimada pelo fogo que se estendem até à cumeeira coroada de árvores. Aqui, numa das fronteiras mais polemicamente debatidas do Brasil, as marcas de pneus têm um único e agoirento significado.  

“Madeireiros”, diz Tainaky. O inimigo. 

Tainaky, que também é conhecido pelo seu nome português, Laércio Souza Silva Guajajara, vira-se para os seus companheiros, quatro homens da tribo guajajara, que desmontam das respectivas motos desgastadas pela estrada. A patrulha é um grupo invulgar: os homens usam calças de ganga com padrão de camuflado, óculos de aviador e lenços sobre o rosto para se protegerem da poeira da estação seca. 

“Vamos atrás deles?”, pergunta Tainaky.

A perseguição de madeireiros ilegais tornou-se a assinatura de patrulhas como esta. Já incendiaram carrinhas, apreenderam armas e motosserras e mandaram embora madeireiros furiosos. Os líderes de patrulha, incluindo Tainaky, de 33 anos, já receberam várias ameaças de morte. Alguns membros usam nomes falsos para esconder a identidade. Em 2016, três foram assassinados no espaço de um mês.

Pertencem a uma força composta por cem membros, indígenas voluntários sem formação específica, que se auto-intitula Guardiões da Floresta. Este grupo e outros semelhantes surgiram nos últimos anos para enfrentar a vaga crescente de abate madeireiro ilegal que dizima zonas florestadas protegidas na região oriental do estado amazónico do Maranhão, incluindo a Terra Indígena de Arariboia, com 4.150 quilómetros quadrados. Juntamente com as florestas, estão a desaparecer também os animais selvagens que, há muitas gerações, sustentam a cultura de caça dos guajajara. Os lagos que deram origem aos rios e ribeiros secam devido à desflorestação. Peixes e aves estão a morrer.

As probabilidades são adversas para os guajajara, mas eles adoptaram estratégicas eficazes de sobrevivência desde os primeiros contactos sangrentos com estranhos, ocorridos há séculos. A maioria tem conhecimento dos hábitos do mundo exterior e muitos já lá viveram. Ainda mais complicada é a luta travada por outra tribo, com quem partilham a reserva de Arariboia: os awá. Vários bandos de nómadas awá (o povo mais isolado, ou “não contactado” do Leste da Amazónia) deambulam pela floresta no centro do território, vivendo num estado de luta quase constante contra os guinchos dos guindastes e das motosserras e, na estação seca, o fumo dos incêndios florestais.

Confinados ao coração, cada vez mais pequeno, da floresta, os awá são particularmente vulneráveis. No entanto, mesmo nas secções ainda praticamente intocadas da floresta tropical situada ao longo da fronteira ocidental do Brasil com o Peru, grupos isolados têm de viver em fuga permanente para escapar aos ataques do abate madeireiro ilegal, da prospecção de ouro e, agora, do tráfico de drogas. 

Com efeito, a segurança de um número estimado de 50 a 100 tribos isoladas e não contactadas encontra-se sob ameaça em toda a bacia do Amazonas. Estes grupos representam a maioria das tribos isoladas remanescentes do mundo. As únicas que existem actualmente fora da Amazónia vivem no mato Chaco, no Paraguai, nas ilhas Andamã, no oceano Índico, e na região ocidental da Nova Guiné, na Indonésia. Os números podem parecer pequenos, mas os defensores dos direitos indígenas dizem que há algo muito mais importante em jogo: a preservação dos últimos vestígios de um estilo de vida que praticamente desapareceu do planeta, um estilo de vida que sobreviveu à margem da nossa economia industrial.

“Quando uma etnia ou grupo humano desaparece… a perda é enorme”, afirma o activista dos direitos indígenas Sydney Possuelo. “O rosto da humanidade torna-se mais homogéneo e a humanidade em si torna-se mais pobre.” 

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