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falcões

O xeque Butti bin Maktoum bin Juma al Maktoum, membro sénior da família real do Dubai, posa com alguns dos seus falcões preferidos. O xeque contribuiu para introduzir alterações importantes na falcoaria do Médio Oriente, trocando as aves selvagens por aves criadas em cativeiro.

Durante séculos, os seres humanos desenvolveram laços únicos com os falcões. Agora, um xeque e o seu falcoeiro estão a criar aves de uma forma que possa servir de modelo à sua protecção. 

Texto: Peter Gwin

A luz azul da madrugada revela os contornos sombreados do deserto da Arábia, enquanto o xeque Butti bin Maktoum bin Juma al Maktoum e o seu filho se ajoelham para orar.

A areia está fria e vêem-se os rastos das caminhadas nocturnas de uma raposa do deserto. Ali perto, as silhuetas de 12 pequenos pilares marcam a base de uma duna, no topo da qual um homem instala uma mesa para chá. Ao fundo, é possível avistar o brilho da linha do horizonte do Dubai, uma antiga povoação isolada transformada em cidade portuária hipermoderna pelo xeque Rashid bin Saeed al Maktoum, avô do xeque actual. 

Ao fundo, uma cascata de preocupações e obrigações aguarda o xeque Butti: decisões administrativas, negócios de imobiliário, assuntos da família real, pedidos de consultoria de vários locais do Médio Oriente e mais além. No entanto, tudo isto está a um mundo de distância. Aqui, na paisagem silenciosa dos seus antepassados beduínos, o xeque encontra paz junto dos seus falcões.

Estamos em Setembro e os falcoeiros dos Emirados Árabes Unidos (EAU) treinam afanosamente as aves para a caça e para a temporada de corridas que se avizinha. Todos os dias, o xeque Butti, o filho Maktoum e o seu séquito levantam-se às quatro horas da manhã e conduzem mais de uma hora até ao deserto para treinarem as suas aves, antes que o calor se torne escaldante.

À medida que o céu vai clareando, reparo que os 12 pilares são falcões encapuçados, pousados em poleiros, aguardando em silêncio o treino do dia. Há falcões-peregrinos em tons de chocolate e nata, falcões-gerifaltes com pintas brancas, sacres castanhos-claros e híbridos de diferentes espécies. O grupo integra linhagens europeias, asiáticas e outras provenientes de regiões selvagens do Árctico. Estas são apenas algumas das centenas de aves do xeque e compõem, possivelmente, uma das mais requintadas colecções de falcões de todos os tempos. 

Pani, um dos assistentes do xeque, oferece-me uma chávena de chá e apressa-se a preparar o isco para o primeiro falcão a treinar. “Bom dia, Howard”, diz o xeque ao homem careca e magro ao meu lado. Howard Waller, de 57 anos, é o seu criador de falcões, amigo e confidente. A voz do xeque é animada e entusiástica e os dois homens iniciam uma conversa animada sobre falcões, saltitando de tópico em tópico.

Falam sobre as aves que ali estão, equipadas, e de outras que vivem nos aviários do xeque. Discutem os méritos das dietas à base de codorniz e pombo, da forma adequada para desenvolver massa muscular, dos pormenores de doenças como a aspergilose e a pododermatite ulcerativa. Distinguem os juvenis que demonstram personalidades agressivas daqueles que parecem passivos. Também comentam boatos sobre aquisições de outros falcoeiros do Dubai e novidades das comunidades de falcoaria de países vizinhos, como a Arábia Saudita, o Qatar e o Bahrein. Prevêem, com entusiasmo, as respostas um do outro e comunicam usando termos ininteligíveis para qualquer outra pessoa.

Falam nas suas aves preferidas: Delua, Dedo Branco, Velho Bedford e, claro, o falecido Hasheem e as linhagens que deles derivaram, cada qual com a sua própria combinação genética de esquemas de cores e personalidades. E depois há a Branca. As suas vozes vibram de emoção ao mencionarem a Branca, uma ave com um ano que poderá ser o falcão mais belo que qualquer deles alguma vez viu na vida.

Foi assim todas as manhãs durante as quase duas semanas que o xeque, amavelmente, me deixou observar as suas sessões de treino, acompanhado pelo fotógrafo Brent Stirton. Antes de os primeiros raios de sol cruzarem a linha do horizonte, os dois falcoeiros caminhavam deserto adentro – apenas os dois – imersos na sua conversa.

O Dubai tem um centro comercial inteiramente dedicado às necessidades de falcões de caça e de corrida.

Nos últimos 20 anos, o xeque Butti e Howard contribuíram para alterações importantes na falcoaria árabe. Cruzam e criam à mão cada ave que usam, uma prática que se considerava impossível antes de falcões-peregrinos criados em cativeiro serem cruzados com sucesso em 1942 pelo falcoeiro do líder nazi Hermann Göring, Renz Waller (sem qualquer relação de parentesco com Howard). Também é uma prática que Howard e o xeque Butti consideram ter grandes repercussões para a conservação dos falcões, numa altura em que várias espécies enfrentam ameaças, desde a perda de habitat ao tráfico ilegal de animais selvagens.

Assim que o Sol se torna uma bola cor de laranja no horizonte, a conversa termina abruptamente e a sessão de treino inicia-se. Maktoum, de 27 anos, calça uma pesada luva de cabedal e retira delicadamente do poleiro um dos falcões encapuçados, um jovem peregrino. Entra num Toyota 4x4 e conduz algumas centenas de metros. O xeque Butti segura aquilo que parece uma cana de pesca com uma corda presa na extremidade e uma asa de codorniz atada ao fim da corda e começa a abanar a vara, desenhando arcos amplos com a asa esvoaçante.

Lá ao fundo, Maktoum desaperta o capuz de cabedal da cabeça do falcão e liberta-o. A ave bate as asas e sobe na atmosfera límpida e fresca, detectando imediatamente o isco e voando na sua direcção, com a cabeça seguindo os arcos da asa oscilante. O xeque Butti grita-lhe: “Ha!” O falcão ganha altitude, descreve uma curva apertada e mergulha sobre o isco; no último segundo, porém, o xeque afasta a asa de codorniz. “Ha!”, chama o xeque. O falcão ziguezagueia desajeitadamente enquanto corrige a trajectória. Quando me sobrevoa, consigo ouvir o silvo suave do batimento das asas. Os seus olhos (oito vezes mais aguçados do que os do ser humano) estão fixados no isco como raios laser. O falcão ganha altitude e mergulha. O xeque volta a puxar o isco no último segundo. 

Por fim, à terceira tentativa, o xeque Butti deixa a ave capturar a asa e pousar com ela na areia fina. Pani substitui rapidamente o isco por um peito de codorniz e o falcão começa a desfazer a carne fresca.
O xeque dá instruções explícitas sobre a quantidade exacta que a ave pode comer. Se comer demasiado, o peregrino ficará gordo e lento. Se não comer o suficiente, não ganhará músculo.

“É um jovem macho”, diz Howard. “Ainda está a aprender como se caça. O segredo é não o deixar ficar frustrado. Queremos que ele apanhe o isco antes de desistir.”

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