Dragoeiro de Icod. O maior dragoeiro das Canárias tem 500 a 600 anos de idade. Como esta árvore não apresenta anéis de crescimento no seu tronco, a idade é calculada pelo número de ramificações. 

A imensidão do Teide confere à ilha um leque de paisagens. Praias atractivas durante todo o ano combinam harmoniosamente com serras florestadas e um cume que a neve por vezes pinta de branco.

Texto: Mar Ramírez

Desde a região florestada e húmida do Norte à calidez do sul, dos dragoeiros à laurissilva, essa floresta de aparência mágica, Tenerife é uma ilha de contrastes, com aldeias tipicamente camponesas e vilas piscatórias.

Às quatro horas da madrugada, quando se sente o frio que vem dos cumes e se avista um céu sem nuvens cuja escuridão é cortada apenas por um extraordinário tapete pontilhado de estrelas, o viajante pode perguntar-se: o que faço aqui? Provavelmente a sua viagem terá começado no dia anterior, a 2.350 metros de altitude, junto da Montaña Blanca, uma acumulação de alva pedra-pomes. Deixando o asfalto, o visitante dispõe-se a subir por um trilho até ao mais alto cume espanhol, o Teide (3.718m). O seu inconfundível perfil cónico coloca-o, juntamente com o Fujiyama, entre os vulcões mais belos do mundo.

Os guanches chamavam-lhe Echeide e consideravam-no a morada de Guayota, a divindade maligna a quem atribuíam o fogo, os estrondos e tremores da montanha, aqui encerrada pelo deus supremo Achamán. Do topo, abarcam-se as sete ilhas Canárias mas apenas em dias particularmente limpos de nuvens. Por toda a parte, o visitante contacta com um labirinto de lavas que parecem flores minerais e paisagens impressionantes. Subindo continuamente pelo rasto de velhas erupções, como os Huevos del Teide ou grandes rochas que caíram ravina abaixo, o visitante atinge o refúgio de Altavista em pouco menos de duas horas. A altitude (3.270m) e a secura do ar sentem-se e exigem hidratação permanente.
Por norma, os montanheiros deitam-se cedo e partem montanha acima de madrugada, num silêncio quase reverencial. Na borda da cratera, o cheiro a enxofre das fumarolas recorda a todos a presença de um vulcão adormecido. Quando o Sol surge de repente, a sombra do cone projecta-se no mar, encurtando-se conforme o astro se eleva no céu. 

Os visitantes podem descer comodamente usando o teleférico até Cañadas del Teide, uma imensa caldeira de forma elíptica com 10 a 16 quilómetros de diâmetro. A flora aproveita o longo sono eruptivo para romper entre a bagacina, tecendo um tapete vivo e impressionante a mais de dois mil metros de altitude. No parque nacional, crescem 168 plantas superiores, 58 das quais endémicas das ilhas. A margarida do Teide compõe vistosos bouquets, a piorneira inunda o ar com o aroma embriagante das suas pequenas flores brancas. Entre todas, destaca-se talvez o tajinaste, cujas espectaculares inflorescências vermelhas ou azuis podem medir três metros de altura. As milhares de flores diminutas surgem anualmente entre Maio e Junho e converteram-se em decoração urbana, como se pode ver na bonita aldeia de Vilaflor, na zona sul da caldeira vulcânica. 

A estrada TF-21 atravessa Cañadas del Teide, convidando o viajante a deter-se nos locais mais emblemáticos do parque nacional mais visitado de Espanha: Llanos de Ucanca, Minas de San José e La Ruleta, a partir do qual se caminha até Roques de García. Estas gigantescas setas de lava são enquadradas pelo Teide em fundo e, à esquerda, o Chahorra ou Pico Viejo, a boca da última erupção, ocorrida em 1798. Os relatos contam que a lava jorrou durante três meses.

A sedução exercida pelos cumes é permanente em Tenerife,  pois o vulcão é visível de qualquer ponto da ilha. À chegada a San Cristóbal de la Laguna, a antiga capital, o visitante sente que gostaria de aqui viver, mesmo sem conseguir ver o vulcão. Talvez seja devido ao espírito jovem que os estudantes universitários lhe imprimem, o facto de ser uma das mais belas cidades das Canárias ou pelo seu traçado urbano secular, desenhado como uma rosa-dos-ventos. Em 2019, cumpre-se o vigésimo aniversário da classificação do local como Património Mundial pela UNESCO. 

No dia de São Cristóvão de 1496, Alonso Fernández de Lugo derrotou definitivamente os guanches e incorporou as ilhas na coroa de Castela. A nova cidade iniciou uma época de esplendor e qualquer colono com aspirações sociais deveria aqui ter uma casa. Desta forma, foi alimentado o espectacular labirinto de portais e vestíbulos de pedra vulcânica vermelha e negra talhada. 

O principal encanto destas ruas são as janelas e varandas feitas com madeira de pinheiro das Canárias, cujo tom avermelhado pinta a cidade de tons cálidos. Este espectáculo só é superado pelos vistosos tapetes coloridos feitos com areias vulcânicas que se produzem para o dia do Corpo de Cristo. Em redor da catedral, o ambiente e a cor dos edifícios do centro histórico fazem lembrar algumas cidades coloniais como Havana ou Cartagena das Índias. 

Anaga, o maciço que prolonga a ilha a nordeste, foi uma península em tempos antigos. Certa noite de fogo e lava, beijou Tenerife e juntou-se a ela para a eternidade. A floresta de laurissilva, decorada pelo voo das pombas autóctones (pombo das Canárias e pomba-torcaz-de-bolle) é uma das preciosidades da vida selvagem de Tenerife. Esconde-se numa antiga ilha que, após sucessivas vagas de lava, ficou unida ao Norte de Tenerife.Entre tortuosas ravinas encontra-se uma das florestas de laurissilva mais notáveis do planeta.

Alimentada pelas nuvens e pela humidade gerada pelos ventos alísios, a floresta pode ser explorada pelo caminhante através de trilhos cujo traçado segue o dos antigos guanches.

As árvores que integram a laurissilva evocam o loureiro com as suas folhas cobertas de uma camada cérea: o loureiro-real, o pau-branco, o loureiro-cerejeira, o til, o barbusano. Entre estas preciosidades, proliferam musgos e líquenes, grandes samambaias, lianas e uma coorte de plantas que criam um entrançado verde de extraordinária beleza. Desempenham também um papel vital na protecção do solo fértil e ajudam a reter a humidade que se converterá em cursos de água permanentes que correm ladeira abaixo, como o da ravina de Afur, o único existente no maciço de Anaga.

Saindo desta zona, abandona-se o menceyato onde os guanches subsistiam com recurso à criação de cabras e ao cultivo de cevada nas terras férteis das ravinas e onde a laurissilva era a fonte de lenha. 

A costa sudeste de Anaga constitui um dos melhores bancos de pesca de Tenerife desde que não haja zarzuelo. É com este nome que os pescadores de San Andrés reconhecem o mau estado do mar quando vêem o espumaço branco das ondas em Roque de Antequera, o espigão vulcânico onde se inicia o litoral mais agreste e solitário de Anaga. Muitas embarcações encalharam nas bajas ou ilhas submersas em frente desta costa, cujas falésias se erguem a 500 metros de altitude. 

E qual é o sabor de Tenerife? Ao visitante, depois de percorrer as ravinas de Anaga, as lulas parecem mais saborosas e tenras quando consumidas ao abrigo do porto de San Andrés. Nas Canárias, não é preciso uma revolução gastronómica para usufruir de uma boa mesa. As papas arrugadas, na sua versão mais suave ou mais condimentada, e o milho que o visitante vê crescer nas ravinas convertem a simplicidade no melhor condimento. 

Desde o pequeno-almoço, composto pelo energético gofio feito com uma base de farinha torrada, até ao almoço, onde não pode faltar o puchero das Canárias,  um cozido à base de legumes, carne e hortaliças que pode ser consumido em qualquer bar ou guachinche – os tradicionais estabelecimentos que abundam em Tenerife –  é muito fácil repor forças em Tenerife.

Além dos saborosos queijos de cabra, frescos ou semicurados, não falta o peixe, como o cherne, o badejo e o mero. Mas é a veja a rainha da cozinha insular. Guisada com pele, é fácil encontrar-se em qualquer restaurante, salvo se a agitação do mar tiver impedido a sua captura. Para os dias festivos, reservam-se os pratos de coelho em salmorejo, um molho tradicional apaladado.

Entre palmeiras e cactos, uma paisagem que recorda África devolve o visitante ao antigo acesso marítimo da ilha, o local onde se situa o porto de Santa Cruz. Na década de 1970, foi trazida areia do Saara para transformar a praia Las Teresitas num ponto mais turístico. As suas pedras escuras ficaram cobertas por um manto dourado, numa violação da natureza vulcânica da ilha. Em frente da praia, um dique evita que a maré arraste a areia dourada. 

A capital, Santa Cruz, é um lugar de paragem obrigatória durante o famoso Carnaval de Tenerife, mas Santa Cruz continua a ser uma cidade muito animada durante todo o ano e bastante afastada do turismo, uma vez que os visitantes alojam-se sobretudo nos complexos hoteleiros da região meridional da ilha como Los Cristianos e Playa de Las Americas onde o Sol é uma presença quase permanente. 

Ao chegar ao vale de Orotava e ao admirar o manto de bananeiras, buganvílias, araucárias e palmeiras, o visitante percebe por que motivo o geógrafo Alexander von Humboldt, a caminho da sua expedição à América do Sul, em 1799 se ajoelhou em frente do que considerou uma das mais belas paisagens do mundo. Na actualidade, um miradouro presta-lhe homenagem.

Graças à sua pujança agrícola, nasceu Puerto de la Cruz. Hoje, os turistas procuram o lago Martiánez, um paraíso azul artificial junto do mar, desenhado por César Manrique e inaugurado em 1977. Indispensável antes de partir é o passeio pelo Jardim Botânico, onde florescem 2.500 espécies tropicais, com 150 tipos de palmeiras, que crescem desde 1788 neste éden em plena cidade.

Rumo a oeste o visitante encontra uma das imagens mais icónicas de Tenerife: Icod de los Vinos, uma cidade de belas casas coloniais. Sem ser milenário, apesar da sua fama (tem 500 a 600 anos), o gigantesco dragoeiro exibe a sua emblemática figura ramificada com o pico do Teide a servir de cenário de fundo. Dois símbolos que reflectem o poder geológico da ilha e a assombrosa vegetação que aqui se desenvolve. 

Destino para observar golfinhos e baleias-piloto

Embora se desfrute uma perspectiva magnífica de Los Gigantes a partir de Punta de Teno, a melhor forma de contemplar estas enormes falésias à luz do entardecer é a partir do mar. As embarcações partem de Puerto de los Gigantes, o local mais próximo, e de Los Cristianos e Puerto Colón. As excursões marítimas a partir destes três portos duram 2 a 5 horas e são justificadas pelo avistamento de golfinhos. No caso do golfinho-roaz e da baleia-piloto, o êxito está quase garantido em qualquer altura do ano pois esta zona de Tenerife acolhe uma população permanente destas espécies. O cachalote aparece na Primavera, assim como diferentes espécies de baleias que se aproximam da ilha durante as suas migrações anuais. No total, contabilizam-se 21 espécies de cetáceos.

A costa sudoeste de Tenerife mantém-se resguardada dos ventos alísios e as suas águas transparentes e ricas em plâncton beneficiam a vida marinha. As embarcações que respeitam as normas de avistamento de cetáceos para evitar perturbá-los estão identificadas com a bandeira “Barco azul”. Mais informação em: www.webtenerife.com/que-hacer/naturaleza/avistamiento-cetaceos.

Afur e Taganana

O trilho circular PR-TF8 (15km) percorre as paisagens florestadas e rurais de Anaga. A partida faz-se em Afur, descendo pela ravina até à praia de Tamadite, a menos de três quilómetros. Se o visitante optar por encurtar o passeio, poderá regressar a Afur pelo mesmo caminho. O trilho prossegue até ao casario de Chorro e à povoação de Taganana. De seguida, sobe através de laurissilva até à casa florestal de Anaga (832m) e desce para Afur pelo trilho de Inchirés.

Montanha Guajara

A perspectiva mais espantosa do circo de Cañadas e inclusivamente do próprio Teide é obtida na montanha Guajara (2.718m). No topo, permanecem ainda vestígios do observatório construído em 1910 pelo astrónomo Jean Mascart para estudar a passagem do cometa Halley. Se as nuvens não o impedirem, consegue ver-se toda a costa e o Sul de Tenerife. O caminho de ida e volta (13,5km), bem sinalizado, inicia-se no parque de estacionamento do miradouro do Teide (2.150m) e sobe em ziguezague até à crista. O visitante deverá transportar água para beber durante o percurso e levar protector solar. 

Rota pelo vulcão Chinyero, entre lava e pinheiros

A última erupção registada em Tenerife foi a do vulcão Chinyero (1.561m). Em 1909, a lava jorrou durante dez dias sem causar vítimas. O trilho PR-TF43 parte da costa, em Garachico, e sobe até o Chinyero, contornando-o. Como se trata de um trecho com um grande desnível, pode optar-se por outras variantes do PR-TF 43 que se iniciam em Santiago del Teide ou San José de los Llanos. O mais comum é seguir simplesmente o caminho circular que rodeia o Chinyero (6,7km) entre 1.400 e 1.548m de altitude e que se percorre em duas horas e meia a pé. O ponto de partida é uma curva acentuada entre os quilómetros 14 e 15 da estrada TF-38 que une Chio e Cañadas del Teide. Ali começa a estrada fechada ao trânsito que se aproxima de Chinyero pelo lado sul. A paisagem é fantástica: pinheiros das Canárias crescem entre escoadas lávicas.
A altitude adoça o clima enquanto o Teide se perfila a sudeste.

De Chamorga a Roque Bermejo

Chamorga, uma tranquila aldeia da península de Anaga, é o princípio e o fim de uma excursão até à bonita baía de Roque Bermejo, apenas acessível por mar ou a pé. O caminho bem sinalizado começa a subir durante um quilómetro através de manchas de laurissilva e grutas que foram habitadas pelos guanches até à crista de Casas de Tafada. De seguida, desce pela outra ladeira rumo ao Farol de Anaga e a Roque Bermejo, uma agreste pirâmide de lava muito próxima da costa.  Na enseada, existem algumas casas, um bar e o molhe construído para abastecer o farol com lenha. O trilho de retorno (PR-TF6) até Chamorga é mais directo e sobe a ravina afastando-se da base ao aproximar-se da povoação. Distância: 9km. 

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