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serra da estrela

Charcas do planalto. As charcas e lagoas permanentes do Planalto Superior da serra da Estrela constituem um habitat único, acolhendo flora e fauna raras. 

Texto: Paulo Rolão

A serra da Estrela é local de todas as estações do ano. Em território do Aspiring Geopark, onde fermenta até à Primavera de 2019 uma candidatura à rede de geoparques da UNESCO, propomos uma visita às vertentes oriental e sul. E ao seu coração – o da serra e do visitante.

Splash! Poucos segundos depois, o corpo emerge à superfície e grita “Isto é melhor do que a Caparica!” Estendidos em toalhas de praia sobre o relvado, os familiares riem-se do espalhafato do banhista. Em redor, além da relva e das margens amuradas, existem bares e esplanadas, um parque de campismo nas proximidades e, um pouco mais ao longe, árvores que dão sombra àqueles que a procuram.  

Estamos na praia fluvial de Valhelhas, onde o rio Zêzere se acalma – por força da represa que o estanca e alarga – depois da correria que o faz vir aos trambolhões bem perto dos Cântaros do cume da Estrela, onde nasce.

Afastamo-nos, mas ainda a tempo de vermos diversos banhistas a refrescarem-se e outros a sulcarem as águas ziguezagueando em colchões de ar, bóias ou canoas.

Valhelhas é só um dos muitos lugares de usufruto fluvial reconvertidos nos últimos anos. Subindo em direcção a Manteigas e antes de Sameiro, a vista abarca algo inusual: uma pista de esqui e snowboard… artificial. Também aqui, o Zêzere proporciona uma concorrida praia fluvial e respectivas estruturas de apoio.

Mais adiante encontra-se Manteigas, em pleno coração da serra. A vila é um chamariz pela sua localização geográfica e pelas especificidades que reúne. É a primeira povoação a ser visitada pelo Zêzere e, pelo facto de assentar na falha tectónica da Vilariça, que se encontra activa, proporciona que, mediante furos no solo, se encontre água a temperaturas entre 45 e 47ºC. 

Há mais de cem anos que visitantes rumam às termas de Manteigas para aproveitar as propriedades terapêuticas e medicinais da água captada a cem metros de profundidade. 

Nas imediações do Inatel de Manteigas, parte um trilho pedestre que permite ligar a pé um trecho do Zêzere após este descer das alturas da serra. É um lugar idílico, onde abundam pequenos lagos de água tão transparente que torna irresistível um mergulho. Depois do interregno, o Zêzere desliza no seu percurso secular com o maciço central da Estrela como pano de fundo. Em frente, espraia-se o extenso vale glaciar.

O vale glaciário do Zêzere é um dos mais grandiosos “postais ilustrados” da Estrela e é o maior do género em Portugal. Tem 13 quilómetros de extensão e a estrada que o percorre é uma das mais cénicas do país – um verdadeiro ziguezague panorâmico onde a dimensão esmagadora do relevo reduz o ser humano à escala dos fenómenos passageiros. É uma estrada que nunca cansa pelo enquadramento paisagístico e pela forma como as forças da natureza e o glaciar que o moldou esculpiram um vale em perfeita forma de U há milhares de anos. Para cima, ficam o planalto Central e a sua emblemática Torre, os Cântaros, a vastidão da Nave de Santo António, os covões Cimeiro, da Ametade e de Albergaria.

A estrada exige atenção, não só pela sua estreiteza a meia encosta, mas também para não perder de vista o desvio para o Poço do Inferno. Existem diversos “poços do Inferno” espalhados por Portugal, mas este é único, embora ainda mal conhecido.
Resulta de um metamorfismo de contacto entre xistos e granitos. Geologia à parte, trata-se de uma queda-dágua com dez metros de altura que, ao embater no solo, forma um lago com uma água tão cristalina que se torna irresistível para o mergulho, como se possuísse um íman.
A linha de água da ribeira de Leandres é o pretexto da Pequena Rota do Poço do Inferno, um trilho serpenteante, de dificuldade média, que contorna a cascata e permite, além da água, o contacto com uma das zonas mais verdejantes da serra. Das muitas formas possíveis de tomar contacto com a Estrela, a caminhada é de longe a experiência mais revigorante e pura.

São três os rios que nascem na Estrela: o Mondego, o Alva e o Zêzere. Mas a água está presente em todo o lado. No total, existem 25 lagoas de maiores e menores dimensões. No vale do Rossim, na estrada que liga Manteigas à aldeia do Sabugueiro e a curta distância das Penhas Douradas, a lagoa parece retirada de um postal dos Alpes Suíços.
A exploração proporciona surpresas adicionais: a praia em plena serra, numa cota elevada. As margens e os seus nichos arenosos com frequência coloridos pelos guarda-sóis dos visitantes. Obrigatória é também a Lagoa Comprida, um antigo covão agora delimitado por uma barragem, que marca o trajecto do glaciar que por aqui passou.

Está em curso uma nova aventura na Estrela: uma candidatura de parte significativa do território à rede de geoparques da UNESCO. Em causa, estão formações geológicas ímpares e um território sucessivamente ocupado e domesticado por comunidades humanas. A candidatura do geoparque é subscrita por nove municípios serranos.

Na vertente nordeste da serra, o rio Mondego é desviado artificialmente, através de um canal, para a ribeira do Caldeirão, num registo inconfundível de modernidade e intervenção humana.
A dois passos, porém, mantém-se uma das actividades que marcam culturalmente a Estrela. A pastorícia foi indissociável da montanha. A época em que os pastores erravam pela serra, por vezes semanas a fio, conduzindo rebanhos e acompanhados pelos fiéis cães, perdura na memória. As aldeias de montanha foram sendo consumidas pela voracidade dos tempos, mas a pastorícia subsiste, honrando velhas tradições. 

As aldeias da Corujeira (onde se realiza o Festival da Lã), de Meios (onde existe a Fábrica de Tecelagem, activa e onde os antigos teares manuais ainda funcionam), Fernão Joanes (em cujo topo estão as choças e as eiras que serviam de abrigo aos pastores) e Famalicão da Serra são testemunhas da relação humana dos aldeãos com a montanha e exemplos (ainda) vivos da transumância. O tempo nunca voltará para trás e os pastores tenderão, um dia, a ser uma recordação grata da humanização suave da paisagem, mas não deixa de ser reconfortante encontrar, aqui e acolá, estes homens e mulheres decididos a não se vergar e fiéis ao estilo de vida de muitas gerações familiares.

Regresse-se ao mundo da água. Existem sete vales glaciares que deixam cicatrizes na serra e no território. Três impressionam pela imponência e dimensões: o vale do Zêzere, o de Loriga e o de Alforfa.

Loriga é uma bela aldeia encaixada no fundo do vale mas são as águas da ribeira que injectam vida na comunidade. As piscinas fluviais, distribuídas por socalcos, marcam a paisagem. Um pouco diferente é o vale de Alforfa: não tem a forma clássica de U, mas foi igualmente local de passagem de um glaciar. É mais íngreme do que o do Zêzere e desemboca em Unhais da Serra, no limite meridional da Estrela. À semelhança de Manteigas, também está assente numa falha tectónica activa e as termas de Unhais, associadas a um hotel recente, são agora procuradas para curas. Água, sempre água.

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