Índice do artigo

 

Este jovem leão foi um de três membros do bando de Marsh, do Quénia, mortos em 2015. Tinha comido a carcaça de uma vaca envenenada com um insecticida pelos pastores masai. Os leões tinham caçado várias vacas. 

Texto: Edwin Dobb

Fotografias: Charlie Hamilton James

Nas últimas semanas, dois leões tinham caçado vacas e cabras.
Os pastores masai da região queniana de Osewan estavam fartos.

Resolvam o problema até ao Natal, pediram os masai ao Serviço de Vida Selvagem do Quénia (KWS), em Dezembro do ano passado. Caso contrário, tratariam eles do assunto. “Sabemos como matar leões”, acrescentou um jovem guerreiro masai em suaíli, durante uma acesa reunião comunitária. Não se referia apenas às lanças usadas pelos seus companheiros. Estava também a falar do veneno, uma arma de eleição actualmente utilizada pelos pastores que vêem os leões como ameaças à sua subsistência e não como o símbolo nacional que as autoridades tentam proteger.

Kenneth Ole Nashuu, vigilante do KWS, decidiu que a melhor solução consistiria em realojar os leões de Osewan, a norte do Parque Nacional Amboseli, onde estão em contacto com gado vivo, para um parque nacional vizinho, Tsavo West. Primeiro, porém, os animais teriam de ser adormecidos com tranquilizantes. 

Na véspera de Natal, Ole Nashuu e outros vigilantes receberam Luke Maamai, do grupo de conservação Lion Guardians. Entraram para um Land Cruiser, dirigiram-se a uma clareira no mato e estacionaram. Sob a Lua luminosa, esperaram com os faróis desligados que os predadores aparecessem. Sabiam que eram dois machos irmãos.

Maamai é masai. Instalou um altifalante no tejadilho e emitiu, para a noite escura, a gravação do balido de uma cria de búfalo moribunda, um som ao qual os leões não conseguem resistir. Passados 15 minutos, um animal de grande porte saiu das sombras à direita. Ole Nashuu ligou os faróis. Era uma leoa, uma de duas irmãs associadas aos irmãos, mas não eram suas parentes. A menos de dez metros da frente do nosso veículo, a leoa deslocou-se cuidadosamente até uma pequena árvore onde Maamai colocara entranhas de cabra como isco. Ole Nashuu fez sinal a um veterinário sentado num segundo Land Cruiser, de espingarda carregada com um dardo tranquilizante.

Depois de ajudar os homens a carregar a leoa adormecida para uma jaula, Ole Nashuu felicitou o grupo pelo sucesso da missão. A remoção da fêmea iria perturbar o bando e impedir os irmãos de atacarem o gado da comunidade, disse. A afirmação pareceu-nos peculiar, uma vez que os dois jovens machos ainda andavam à solta.

Mais tarde, nessa mesma noite, eu e o guia Simon Thomsett, perito queniano em aves de rapina, tentávamos dormir dentro do seu Land Cruiser quando ouvimos rugidos e grunhidos. Eram os dois leões em busca da fêmea. A equipa disparou dardos e capturou um dos irmãos, mas o outro fugiu. O macho e a fêmea capturados foram posteriormente libertados em Tsavo West. Experiências anteriores sugerem que, provavelmente, não terão sobrevivido: quando libertados no domínio de outro bando sem um período de adaptação, os leões são tratados como intrusos e, com frequência, sujeitos a mortes dolorosas.

“Queremos dar-lhes uma segunda oportunidade”, diz Francis Gakuya, chefe dos serviços veterinários do KWS, organização responsável pela vida selvagem do Quénia. No entanto, muitos especialistas acham que, nestas situações, seria mais útil abater de imediato os leões problemáticos. 

Entretanto, contrariando a teoria do vigilante sobre bandos desfeitos, o macho remanescente continuou a caçar gado. Desta vez, os pastores não procuraram ajuda. Envenenaram o macho e a outra fêmea, temperando uma carcaça de cabra ou de vaca com substâncias químicas que mataram os leões quando estes devoraram o animal morto. Quando o KWS tomou conhecimento do sucedido e enviou um veterinário ao local para investigar, os corpos dos leões já tinham apodrecido.

O veterinário também encontrou os restos mortais de abutres e de uma hiena, provavelmente apenas uma fracção dos animais que morreram depois de comerem a carcaça contaminada – a “cena do crime” alargada, comum nos casos de envenenamento de vida selvagem. Infelizmente, o veterinário não recolheu amostras para testes, apesar de certos venenos poderem permanecer no organismo durante bastante tempo. Por isso, as únicas pessoas que sabem qual a substância responsável pela morte dos leões são aquelas que menos provavelmente a revelarão. 

No Quénia e um pouco por toda a África, o veneno é utilizado no abate de criaturas de pequeno porte para fins alimentares (o impacte do veneno na saúde humana é incerto), na caça furtiva de elefantes e rinocerontes para extracção das presas e na obtenção de partes dos corpos dos animais para utilização na medicina tradicional. O uso de veneno também é recorrente quando pessoas e animais selvagens se cruzam e costuma envolver um pesticida, porque os pesticidas são baratos, fáceis de comprar e mortíferos.

“O envenenamento é um grande problema”, reconhece Francis Gakuya. E a avaliar pelo episódio de Osewan, continua por resolver. O envenenamento retaliatório pode acontecer em qualquer altura e em qualquer lugar, mas as provas costumam ser fortuitas. Mesmo assim, quase todas as pessoas que participam na vigilância da vida selvagem do Quénia concordam que está em curso um provável aumento do número de casos de envenenamento, pois há mais conflitos entre seres humanos e animais selvagens.

As zonas protegidas do Quénia estão sob cerco, incluindo as reservas e parques mais famosos do Sul do país: Masai Mara, Amboseli, Tsavo West e Tsavo East. O desenvolvimento de infra-estruturas está a invadi-las. Espera-se que a população queniana, que já exerce pressão sobre os recursos, quase duplique para mais de 80 milhões de habitantes até 2050 e muito território bravio será entretanto transformado em explorações agrícolas, bloqueando o movimento dos animais.

Por consequência, as terras adjacentes aos parques estão a tornar-se inóspitas para a vida selvagem. Para elefantes e outros animais de grande porte que precisam dessas áreas para migrar entre parques, para se dispersarem sazonalmente em busca de alimento e água e para parir, a invasão humana é catastrófica.

O Quénia encontra-se numa encruzilhada. “Já não estamos a preservar o país como um refúgio de vida selvagem”, diz Simon Thomsett, referindo-se ao crescimento económico acelerado do Quénia. “Estamos a tentar ser o Dubai de África.” Pode parecer uma afirmação extremista, mas é difícil contestar os factos.

O leão é o animal selvagem emblemático do Quénia, mas há menos de dois mil exemplares no país inteiro: há cinco décadas, havia 20 mil.
A espécie desapareceu de cerca de 90% do seu território original. Alguns especialistas prevêem que, dentro de 20 anos, os leões estejam reduzidos a números parecidos com os de um jardim zoológico, vivendo em condições parecidas com as de um jardim zoológico. 

Cada envenenamento deliberado aproxima ainda mais o Quénia do que o fotógrafo de vida selvagem africana Peter Beard chamou o “fim do jogo”.

Há muito que se usa veneno para caçar animais selvagens e matar inimigos em todo o mundo. Na África Oriental, a árvore do género Acocanthera contém um composto que, mesmo em doses pequenas, pode parar o coração de um mamífero de grande porte e é popular há séculos. Mais recentemente, o uso de estricnina para controlo de “pragas” era tão rotineiro que até George Adamson, o aclamado conservacionista carinhosamente conhecido no Quénia como Baba ya Simba (Pai dos Leões, em suaíli), a utilizava para se livrar das hienas incómodas.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar