A bióloga Angelica Crottini precisou de semanas até conseguir avistar o primeiro sapo-de-unha em Itália, mas no Mindelo avistou várias centenas na mesma noite.

Numa reserva criada para proteger as aves, investigadores têm encontrado um mundo pujante de exuberância biológica ao nível do solo. 

Texto: Mário Rio

No último Outono, celebraram-se discretamente os 70 anos da Reserva Ornitológica de Mindelo. Para a história, o Parque Nacional da Peneda-Gerês, classificado em 1971, ficará sempre como a mais antiga área protegida portuguesa, mas poucos sabem que um dos fundadores da ornitologia moderna em Portugal, Joaquim Santos Júnior, ainda antes de existir o enquadramento legal que daria lugar à rede nacional de áreas protegidas, mobilizou-se para salvaguardar a preservação de uma área costeira onde realizava sessões de anilhagem de aves, ao abrigo de legislação florestal. 

Ainda hoje, no Mindelo, anilham-se aves regularmente, mas agora vários biólogos do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO) concentram-se aqui para procurar anfíbios também. 

O Sol aproxima-se do horizonte e um grupo de ciclistas desloca-se para sul, aproveitando a derradeira luz do dia. Dois peregrinos com o cajado e a vieira seguem pelo passadiço de madeira que corre paralelo ao oceano rumo a norte. Quando a noite cai naquela que a partir de 2009 se designa como Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo, os anfíbios tornam-se activos. 

Com uma passada resoluta, olhar aquilino, calças sujas de terra nos joelhos e uma lanterna frontal na testa, a bióloga italiana Angelica Crottini sabe o que procura. Há sete anos, mudou-se da Alemanha para o CIBIO e, embora o seu trabalho de campo se centre em Madagáscar, onde já descreveu várias espécies novas para a ciência, acabou por não ficar indiferente à quantidade e diversidade de anfíbios que se podem descobrir nesta área periurbana. 

Duas das seis espécies de sapos que se podem encontrar na Reserva Ornitológica de Mindelo: o sapo-de-unha (à esquerda) e o sapo-parteiro-comum (à direita).

Pouco nos afastámos do automóvel quando ela avisa com um tom de voz calmo mas assertivo: “Cuidado onde põem os pés!” A estrada de terra batida parece absolutamente estéril, mas, face à minha perplexidade, Angelica põe-se de cócoras e afasta cuidadosamente a escassa vegetação que desponta entre os rodados de automóvel no solo arenoso. Do tamanho de moscas, pequenos sapos--corredores acabados de completar a metamorfose procuram esconder-se da nossa presença. Mesmo que Angelica faça amiúde os cinco quilómetros que separam a sua casa do Mindelo pelo simples prazer de observar estes animais, esta não é uma visita de lazer. 

Bárbara Santos é doutoranda do CIBIO e desenvolve um projecto sobre as comunidades de bactérias presentes na pele e no trato digestivo dos anfíbios. Este trabalho está a ser realizado com recurso a amostras recolhidas em Madagáscar e no Mindelo, onde se revelou muito mais simples obter o número necessário de amostras nos diferentes estádios de desenvolvimento dos anfíbios: captura os espécimes necessários nas imediações da entrada da própria reserva.

Numa charca temporária no cordão dunar, entre milhares de girinos de sapo-de-unha, Angelica Crottini (à esquerda) tenta, com ajuda de colegas do CIBIO, capturar um tritão. 

Angelica Crottini está decidida a caminhar até ao extremo meridional da área protegida, onde espera que algumas charcas se mantenham com água. Pelo caminho, no cordão dunar, avistam-se dezenas de sapos-de-unha-negra e as pequenas reservas de água ainda estão repletas de girinos. Com um sorriso rasgado, Angelica revela: “Durante o meu mestrado no Norte de Itália, precisei de quarenta dias para avistar o meu primeiro sapo-de-unha. Aqui, numa noite, posso observar 300.” 

É um testemunho eloquente sobre o sucesso de conservação de uma área protegida que nasceu para proteger aves migradoras e acabou por consolidar um bastião de salvaguarda de anfíbios.

Esta percepção é idêntica à de um investigador galego, também agora investigador integrado no CIBIO. Em 2011, após terminar um pós-doutoramento na Universidade de Cornell nos Estados Unidos, Guillermo Velo-Antón chegou ao Norte do país e não queria acreditar na diversidade e abundância das espécies de anfíbios aqui presentes. Guillermo não nos acompanha nesta saída de campo, porque a espécie com que trabalha é especialmente “adepta” de chuva. 

As salamandras-de-pintas-amarelas são espécies abundantes na reserva. No pico de actividade, são tão numerosas que é preciso ter atenção a cada passo. 

Fazendo jus a esta reputação, apesar da noite húmida, com a Primavera avançada e a falta de precipitação, de facto acabamos por não avistar nenhuma salamandra-de-pintas-amarelas, mas a sua abundância aqui permitiu ajudar a responder a várias questões de filogenética das populações ibéricas. 

Em 2017, Guillermo publicou, com colegas do CIBIO e da Universidade de Oviedo, um estudo que demonstrou que, mesmo entre as salamandras do Mindelo e as de uma população apenas 100 quilómetros mais a norte, nas rias de Vigo, há diferenças não apenas genéticas mas também na dimensão e forma da cabeça dos adultos. Actualmente o investigador orienta, com Bastian Egeter,  a tese de mestrado de Sara Peixoto, que procura testar a detecção de anfíbios com recurso à análise de DNA suspenso na água das charcas. Uma metodologia que pode vir a revolucionar o trabalho de campo dos herpetólogos.

A Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo será uma das raras áreas protegidas do mundo servida por metropolitano, mas que mantém uma biodiversidade surpreendente que já não passa despercebida. “Na Primavera, encontrei aqui dois herpetólogos holandeses que andavam num périplo pela Península e que tinham o Mindelo no topo da sua lista de hot spots”, resume a bióloga.

Em poucas semanas, os dias quentes de Verão vão trazer os banhistas até ao areal e os anfíbios vão procurar refúgio na areia ou debaixo de um tronco de árvore em decomposição. Depois, os dias ficarão mais curtos e as aves que estiveram na origem da classificação deste território iniciarão a sua migração pós-nupcial rumo aos climas mais temperados do Sul – farão aqui, como sempre, uma paragem para reabastecimento. No dia em que chegar a chuva, as salamandras, sapos e tritões vão sair dos seus refúgios e vão tomar conta das charcas e das dunas como fazem há milhões de anos.

Ao longe as luzes de Vila do Conde e a foz da ribeira de Silvares. Com a Primavera já avançada, a noite húmida dá uma derradeira oportunidade a um sapo-de-unha-negra para explorar as dunas antes da inactividade imposta pelo estio. Javier Lobón-Rovira, herpetólogo asturiano e doutorando do CIBIO com trabalho de campo na África Austral, é também um apaixonado pela fotografia que não perde a oportunidade no Mindelo para enriquecer o seu portfólio.

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