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serra da estrela

Os cântaros são a designação popular para alguns picos graníticos da serra da Estrela.  Formações imponentes, desafiam os sentidos e ajudam a explicar os processos geológicos de formação e evolução da serra.

A Serra da Estrela povoou o imaginário de gerações de portugueses e procura agora o reconhecimento internacional. Até ao início do próximo ano, está em curso uma candidatura a geoparque da rede mundial da UNESCO.

Texto: Paulo Rolão

Fotografias: Filipe Patrocínio

Quinta da Taberna, concelho da Guarda.
O acesso não é fácil. Há casas destroçadas e paredes desabadas – a aldeia está ao abandono. Com um sorriso enigmático, o geógrafo Emanuel de Castro entra nas ruínas de um casebre e aponta para a parede de fundo. “Está a ver aquelas rochas? São o geossítio mais antigo do geoparque”, diz.

Olho o curioso amontoado de rocha nua e acobreada e sou interpelado pelo geólogo Hugo Gomes: “Na realidade, estas rochas têm cerca de mil milhões de anos”. É uma idade impressionante, talvez demasiado impressionante para que o comum dos seres humanos a consiga integrar num referencial conhecido. Como situá-lo na longa história do planeta? “Para um bom termo de comparação, basta dizer que, nessa altura, ainda não havia formas de vidas complexas na Terra!”, elucida o geólogo. Após a revelação, volto a observar os metassedimentos rochosos com maior respeito. Afinal, nem tudo é o que parece e recolho, neste casebre arruinado, uma lição valiosa sobre a irrelevância da história humana na cronologia do planeta.

Nessa era remota, a configuração dos continentes pouco tinha em comum com a configuração contemporânea – seria praticamente irreconhecível para um viajante no tempo. Ao longo de milhões de anos, o planeta atravessou fases embrionárias, modificou-se e tornou-se mais pacífico após a sua violenta formação. Os continentes à deriva ajustaram-se, encaixaram-se ou separaram-se, como num puzzle em que as peças demoram um certo tempo até a imagem global fazer sentido.

A Península Ibérica, outrora uma ilha errante, acoplou-se à actual Europa (dando origem aos Pirenéus), com implicações radicais na disposição do terreno. É provável que os ciclistas da Volta a Portugal que todos os anos sofrem nestas encostas íngremes não culpem as forças tectónicas pelo seu sacrifício físico, mas foi de facto a compressão da placa africana que provocou cicatrizes marcantes no terreno – a terra enrugou-se, baixou, subiu e elevou à superfície rochas e minerais que até então residiam nas profundezas da terra e dos mares. Foi assim que surgiu, há cerca de dez milhões de anos, a elevação da serra da Estrela rumo aos céus. 

O planalto da Torre é, desde há muito, o ponto mais desejado para quem visita a serra. Preenche a sensação de se estar no ponto mais alto de Portugal continental e de registar, para a posteridade, uma fotografia junto da torre de pedra com nove metros que ajuda a perfazer os dois mil metros de altitude. É o ponto de fuga para o qual convergem todos os olhares e todos os desejos. Quando a visibilidade o permite, a perspectiva é abrangente e incute respeito. Para a comunidade de desportistas de Inverno, nas últimas seis décadas, a Torre é também o centro nevrálgico onde se desfruta a neve nos meses mais rigorosos.

Preparemo-nos para mais um salto no tempo – mas não no espaço – e recuemos 30 mil anos: vivia-se uma das diversas fases glaciárias da Terra. As temperaturas seriam muito inferiores às actuais. O planalto da Torre estava então coberto por uma vasta massa de neve e gelo com 90 metros de espessura que cobria completamente o topo. O Quaternário, uma das fases mais frias da vida do planeta, iniciara-se há 2,6 milhões de anos e registou diversas oscilações climáticas, como um ioiô térmico, alternando entre períodos glaciários e períodos interglaciários.

Há 30 mil anos, pela quantidade de neve e gelo acumulados e devido à configuração pouco acidentada do planalto, o gelo começou a deslizar pelas vertentes da serra formando glaciares, esses rios de gelo que descem lentamente encostas abaixo como se fossem seres vivos. No caso concreto, foram sete os glaciares que se precipitaram a partir do ponto mais alto: os pequenos glaciares de Alvoco e da Estrela, e os grandes glaciares do Covão Grande, do Covão do Urso, de Alforfa (que desembocava na actual Unhais da Serra), de Loriga (onde hoje existe um complexo de piscinas fluviais bastante concorrido) e o imponente Vale do Zêzere (cujo glaciar “desaguava” nas imediações de Manteigas).  

“Foi aqui que teve lugar um dos fenómenos de glaciarismo mais meridionais de toda a Europa. É uma das razões para o enfoque deste geoparque no glaciarismo”, esclarece Emanuel de Castro. “E foi a partir daqui que começou a grande aventura!”, acrescenta Hugo Gomes. A grande “aventura”, afinal, são os percursos talhados pelos glaciares serra abaixo, com a maior concentração de gelo encaminhada para o vale do Zêzere, ao longo da falha da Vilariça.

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