As raposas-do-árctico chegam a roubar 40 ovos de ganso-das-neves por dia, escondendo-os para alimentar as suas crias. 

Imobilizada no espaço e no tempo, a ilha Wrangel é um paraíso para a vida selvagem.

Texto: Hampton Sides

O semirrígido acelera pelo meio da chuva gelada, contornando grandes blocos de gelo, subindo e descendo sucessivamente a forte ondulação do mar de Chukchi, enquanto tacteamos lentamente o rumo na direcção de uma orla costeira obscurecida pelo nevoeiro.

Embora o guia russo assevere que existe uma grande ilha mesmo à nossa frente, tenho dúvidas. Por fim, a neblina dissipa-se e, de repente, a ilha ergue-se diante de nós, com a sua presença escura acentuada pelas refracções da atmosfera do Árctico: um território de 146 quilómetros de comprimento, com montanhas douradas pintalgadas por cores berrantes das flores da tundra. 

Ao avistar este panorama em 1881, John Muir, o primeiro visitante a descrever a ilha Wrangel ao mundo, alardeou o seu lirismo. Chamou-lhe “uma grandiosa imensidão bravia na sua frescura incólume”, terra “agrestemente solitária” situada no “mais distante extremo da Criação, queimado pelo gelo”. 

Actualmente, a ilha Wrangel é uma das reservas naturais menos frequentadas e de acesso mais restrito em todo o mundo. Para ser visitado, este território requer a obtenção de várias licenças do governo e o acesso só é permitido por helicóptero durante o Inverno ou por navio quebra-gelos no Verão. Aguardando-nos junto ao local de aterragem, em Rodgers Cove, encontra-se o vigilante da natureza Anatoly Rodionov, um russo forte e musculado, vestido com uniforme camuflado de tons cinzentos acastanhados, que traz uma pistola de alarme e um pulverizador de gás de pimenta usado como repelente contra ursos. Anatoly vive aqui durante todo o ano, “aprisionado” na companhia de alguns colegas e de uma população de ursos-polares esfaimados. 

Privet e bem-vindos a Ostrov Vrangelya!”, exclama, com o entusiasmo exagerado de um jovem esfomeado de sol e de companhia humana. “Durante nove meses, só ver três cores: branco, preto e cinzento. Eu não gostar do Inverno aqui!”

 

Uma fêmea de urso-polar e duas crias farejam presas. A ilha Wrangel já foi apelidada de maternidade dos ursos-polares. Há anos em que centenas de fêmeas passam aqui o Inverno com os seus filhotes. 

Anatoly conduz-nos, através de uma praia de cascalho juncada de ossos de baleia e morsa, até Ushakovskoye, uma cidade-fantasma da era soviética. Há barris ferrugentos empilhados por toda a parte. Cabanas envoltas numa crosta de gelo, algumas das quais destruídas para obtenção de lenha, foram construídas sobre a turfa esponjosa formada por líquenes e musgo. Estruturas de radar em desintegração inclinam-se na direcção do mar e o cabo de fixação de uma antena de rádio agita-se ao sabor do vento forte. As janelas de um balneário russo foram fixadas com pregos de 12,5 centímetros para manter os ursos à distância. 

Duzentos e setenta e cinco metros mais à frente, um jovem macho curioso fareja com interesse. Anatoly fita-o com ar conhecedor. “Aquele patife fazer-nos visita noite passada”, resmunga.

A ilha Wrangelfoi classificada como zapovednik (reserva natural sob gestão federal) em 1976 e continua a ser uma das mais frias e longínquas zonas de paisagem bravia protegidas da Rússia. 

Com 7.510 quilómetros quadrados, a ilha localiza-se sobre o meridiano 180º e bem poderíamos chamar-lhe Galápagos do extremo setentrional: apesar da severidade do clima, e em muitos sentidos por causa dele, Wrangel possui enorme abundância de animais. A ilha é o mais importante território do planeta para os ursos-polares. Sabe-se que um número máximo de 400 ursas desembarca aqui no Inverno para criar os seus filhotes. Como as alterações climáticas tornam o gelo flutuante menos fiável, nos últimos anos os ursos-polares têm procurado refúgio na ilha de Verão. Wrangel assegura igualmente o sustento da maior população mundial de morsas do Pacífico e possui a única colónia de nidificação do ganso-das-neves em toda a Ásia. Serve de lar a corujas-das-neves, bois-almiscarados, raposas-do-árctico e renas, bem como populações de lemingues e aves marinhas. E contudo, em flagrante contraste com a lamacenta região continental da Sibéria, aqui não existem mosquitos. 

Desde tempos remotos que a ilha Wrangel tem estado posicionada sobre aquilo que poderíamos denominar como rebordo do gelo. Como a ilha nunca ficou completamente gelada nas glaciações mais recentes, nem nunca foi completamente inundada pela água do mar durante os períodos de recuo dos gelos, os solos e plantas dos vales localizados no seu interior proporcionam um vislumbre de uma tundra incólume do Plistocénico, sem igual no planeta. “Uma visita a Wrangel representa um recuo ao passado em centenas de milhares de anos”, diz Mikhail Stishov, cientista do WWF (Fundo Mundial para a Natureza), que viveu 18 anos na ilha. “Trata-se de um lugar com biodiversidade antiga, mas também muito frágil.” 

Segundo crêem os paleontólogos, Wrangel foi também o derradeiro local do planeta onde viveram os mamutes-lanudos. Uma subespécie anã subsistiu ali até aproximadamente 1700 a.C., mais de seis mil anos depois de as populações de mamutes se extinguirem em todos os outros lugares. As suas presas curvas podem ser encontradas por toda a ilha, jazendo sobre as praias, nos leitos dos riachos ou mesmo encostadas às cabanas dos vigilantes da natureza. São troféus de uma época passada. “Quando as pirâmides estavam a ser construídas no Egipto, havia elefantes a deambular por Wrangel”, diz Alexander Gruzdev, director da reserva. “A sua proximidade e, em contraste, o seu simultâneo isolamento relativamente  às massas continentais da Ásia e da América do Norte criaram uma estrutura natural única. Não existe mais nenhum lugar assim no planeta.” 

Embora os animais do Árcticohá muito prosperem em Wrangel, o mesmo não se pode dizer acerca dos seres humanos. Situada a 140 quilómetros ao largo da costa nordeste da Sibéria, Wrangel foi, durante muitos séculos, pouco mais do que um boato, uma miragem, um sonho envolto em nevoeiro. Era talvez uma ilha, possivelmente um continente, talvez uma passagem mágica até ao pólo. Ao longo de grande parte do século XIX, a “Terra de Wrangel” representou um hipotético reino localizado do outro lado do mundo conhecido. Antes de ser provada a sua existência, a ilha Wrangel foi sucessivamente designada por vários nomes provisórios: terra de Tikegen, ilha Plover, terra de Kellett. Wrangel pairava na imaginação dos cartógrafos e alguns presumiam que a ilha seria um prolongamento da Gronelândia, que se estendia através do pólo. 

No século XIX e até ao início do século XX, praticamente todas as expedições de exploração que se aventuravam até às proximidades de Wrangel estavam condenadas. Em inícios da década de 1820, caçadores chukchi oriundos da costa nordeste da Sibéria referiram ao explorador russo Ferdinand von Wrangel a existência de uma terra a norte que por vezes, em dias de boa visibilidade, podia ser avistada. Wrangel navegou rumo a essa terra mítica, mas foi impedido pelo gelo e fracassou na sua tentativa, não obtendo sequer um vislumbre da ilha. Quase trinta anos depois, o comandante de um navio inglês em busca da expedição de Sir John Franklin pensou ter lobrigado uma grande ilha no Árctico, tremeluzindo ao longe. Mais tarde, vários comandantes de navios baleeiros insistiram tê-la avistado, embora as suas reivindicações fossem contestadas, uma vez que o Árctico é famoso pelas suas miragens. 

Uma expedição norte-americana enviada ao Árctico em 1879 aproximou-se bastante de Wrangel. Foi o suficiente para que o seu comandante, George Washington De Long, apurasse não se tratar, afinal, de um continente polar. No entanto, De Long nunca conseguiu desembarcar em Wrangel: o seu navio, o USS Jeannette, ficou retido nos gelos polares durante quase dois anos, até se afundar 1.290 quilómetros a noroeste. 

Foi só em Agosto de 1881 que um grupo de norte-americanos a bordo do navio a vapor Thomas L. Corwin, que patrulhava o Árctico em busca do perdido Jeannette, desceu em Wrangel e provou, de uma vez por todas, a existência de terra firme. O grupo de busca, no qual se incluía o jovem Muir, hasteou a bandeira dos EUA e reivindicou Wrangel como nova possessão norte-americana em nome do seu presidente.

O grupo do Corwinchamou à ilha Nova Colúmbia, mas o nome nunca vingou. Nesse mesmo ano, Muir publicou em São Francisco a primeira descrição de Wrangel numa série de artigos jornalísticos, mais tarde compilados num diário. 

A ilha permaneceu em isolamento quase total durante mais de trinta anos. Seguiu-se então uma série de sucessivas expedições malogradas, começando pela expedição ao Árctico canadiano de 1913, cujos sobreviventes se viram obrigados a abandonar o seu bergantim Karluk, esmagado pelo gelo, caminhando penosamente durante 130 quilómetros sobre o gelo polar até se refugiarem em Wrangel. Quando foram salvos oito meses mais tarde, onze dos 25 homens tinham perecido em Wrangel ou nas suas proximidades. Uma iniciativa canadiana lançada em 1921 para povoar a ilha Wrangel redundou em mais quatro mortes. 

Em 1926, os soviéticos, numa tentativa de alargarem a sua soberania a Wrangel, promoveram a deslocação forçada de chukchi provenientes da Sibéria para a ilha. Uma minúscula colónia subsistiu ali até à década de 1970, época em que, com a criação da área protegida, os descendentes dos povoadores originais começaram a ser repatriados para o continente. A região em redor de Wrangel não é conhecida por possuir reservas petrolíferas substanciais e, mesmo que as possuísse, é provável que a presença do gelo durante quase todo o ano tornasse a sua extracção proibitivamente difícil e dispendiosa. 

Num futuro previsível, Wrangel continuará a ser um laboratório natural para os animais do Árctico e para os humanos que os estudam. Os cientistas que visitam a ilha afirmam existir algo memorável e imponente nesta paisagem do Plistocénico. “Sentimo-nos como se tivéssemos chegado ao fim da Terra”, afirma Daniel Fisher, paleontólogo da Universidade de Michigan.

“É um ambiente incólume”, diz Irina Menyushina, que passou 32 temporadas na ilha Wrangel estudando a coruja-das-neves e a raposa-do-árctico. “Sentimo-nos tão próximos dos processos mais primitivos do universo – o nascimento, a morte, a sobrevivência, o recuo e o avanço das populações. Todos os anos, sempre que regresso a Wrangel, sou de novo infectada pelo Árctico.”

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