Um tubarão-baleia nada com cardumes de peixes juvenis na extremidade setentrional da península do Iucatão.

O Recife Mesoamericano, na América Central, tem metade do comprimento do seu famoso homólogo australiano. Em muitos aspectos, porém, é mais extraordinário.

Texto de Kenneth Brower

Nos mangues ao largo do leste da América Central, junto ao recife Mesoamericano, o mundo apresenta-se dividido em dois.

Há o mundo de cima e o de baixo. Quando desligámos os motores e remámos para afastar o barco do sol quente de Abril e abrigá-lo à sombra da floresta, eu e o biólogo Will Heyman, meu companheiro de viagem, contemplámos a simplicidade que avistávamos em cima. Vimos as coroas verdes de uma das menos diversas de todas as florestas tropicais, onde com frequência existe apenas uma única espécie de árvore: o mangue-vermelho.

A salinidade, as vagas das tempestades e o lodo com fraco teor de oxigénio desincentivam o crescimento da vegetação rasteira nos mangues, por isso pouco havia para apreciar sob as copas. Uma orquídea ocasional. Uma trepadeira rara. Um esquadrão de caranguejos guardando buracos na lama. Um caranguejo do mangue de grande porte instalado na parte inferior de um tronco. Alguns insectos. Uma garça-tricolor empoleirada sobre uma raiz de mangue.

Debrucei-me sobre a borda da embarcação para recolher amostras da lama em redor das raízes, trazendo fragmentos de cerâmica à superfície. Noutros tempos, os mangues do recife Mesoamericano confinavam com as fronteiras da antiga civilização maia. Pensei em guardar uma recordação no bolso. Com tamanha abundância, que mal poderia fazer? “Limita-te a apanhar e largar”, aconselhou Will. Ouvindo os salpicos dos fragmentos atirados borda fora, remámos até outro local. Ali, nas águas paradas, observámos o milagre do mundo de baixo.

Na linha de água, as raízes desta floresta florescem para baixo, expandindo as barbas desalinhadas, misturando-se com tapetes de algas, ofiurídeos esguios, estrelas-do-mar corpulentas e os pequenos organismos filtradores em forma de vaso, conhecidos por tunicados, devido às “túnicas” cor de laranja, roxas ou brancas. Havia também corais moles, ostras e esponjas em múltiplas tonalidades. Nada aqui se mostra sem adornos.

Os mangues são berçários fundamentais. Cardumes de peixes juvenis afastam-se para evitar as raízes arqueadas. Cada cardume assemelha-se a uma nuvem pálida de peixes translúcidos. As nuvens mais pálidas mal se vêem, compostas por criaturas acabadas de nascer pouco maiores do que as larvas de mosquito. Estas pequenas partículas são demasiado pequenas para merecerem nome. Estarão destinadas a passar a idade adulta numa pradaria de ervas marinhas, num recife de coral, no oceano aberto ou aqui mesmo, nos mangues? É muito cedo para dizer.

E assim corre a vida no recife da América Central. Cada componente deste mundo tripartido de mangue, erva marinha e recife de coral está por sua vez dividida em dois: o mundo de cima apresenta uma simplicidade elementar e o de baixo uma complexidade desconcertante.

O sistema do recife Mesoamericano estende-se por mil quilómetros ao longo do México, Belize, Guatemala e Honduras. O seu primo australiano, a Grande Barreira de Coral, é realmente maior, com os seus 2.300 quilómetros de comprimento.

Os domínios do mangue, da erva marinha e do recife de coral estão tão ligados por correntes, marés e necessidades mútuas que não é possível separá-los.

No entanto, embora com menos de metade do comprimento, o recife Mesoamericano consegue ser, de certa maneira, mais admirável.

Neste local, os contornos da plataforma continental promoveram o desenvolvimento de uma plataforma de recife subaquática que começa a poucas centenas de metros da costa em alguns pontos e até trinta quilómetros ao largo da costa noutros. A plataforma serve de suporte a uma grande variedade de tipos de recife e a uma profusão de corais única no hemisfério ocidental. Se o recife Mesoamericano leva alguma vantagem sobre o seu parente australiano gigantesco no Pacífico, deve-se à sua proximidade relativamente a terra firme e à intimidade da sua ligação com os habitats dos sistemas aquáticos terrestres. Neste local, os domínios do mangue, da erva marinha e do recife de coral estão tão ligados por correntes, marés e necessidades mútuas que não é possível separá-los.

Os mangues mesoamericanos formam linhas de defesa múltiplas para o sistema de recife. A primeira linha é a floresta de mangue alto que existe ao longo da costa e sobe pelas embocaduras dos rios de maré. A segunda linha, e por vezes uma terceira e uma quarta, ocorre ao largo da costa, em locais onde novos rebentos de mangues assentaram raízes sobre uma série de cristas marinhas que se aproximam da superfície. Cada aglomerado vai reunindo debaixo de si, pouco a pouco, as componentes de uma ilhota. Estas ilhotas transformam-se em ilhas (ou cayos) de mangue, organizadas em arquipélagos lineares. Os aglomerados de cayos funcionam como barreiras, beneficiando a erva marinha ao moderar a acção tidal e o recife de coral, interceptando os sedimentos, adubos e toxinas que escorrem de terra.

Além da sua função de defesa, os mangues são uma fonte de carbono. Podem largar toneladas de folhas por hectare todos os anos. Fungos e bactérias decompõem-se entre os resíduos e consomem-nas, antes de serem consumidos por vermes e crustáceos minúsculos, que, por sua vez, alimentam organismos de maiores dimensões.

A vida corre dos mangues para o mar. Em simultâneo, uma contracorrente cheia de vida flui no sentido inverso, carregada de ovos, larvas e, por vezes, fêmeas prenhes de criaturas do recife que utilizam os mangues como berçário. Se existe um peixe emblemático desde ciclo de vida é o bodião-rabo-de-fogo. O nome científico desta espécie é perfeito (Scarus guacamaia), que deriva do idioma taino. Huacamayo significa “arara”. As semelhanças são assombrosas: o peixe tem o bico do papagaio e a cor da arara-azul-e-amarela. O bodião começa pequeno nos mangues e acaba em todo o seu esplendor colorido no recife, com mais de um metro de comprimento, o maior peixe herbívoro do Atlântico.

Os mangues não são uma mera conveniência para este animal. São uma necessidade absoluta. Quando os arrancam para criar espaço para empreendimentos turísticos, por exemplo, a espécie tende a extinguir-se nesse local, com repercussões em todo o ecossistema. A co-evolução criou um equilíbrio entre o recife de coral e o seu bodião. Quando o peixe herbívoro de bico afiado é pescado ou eliminado por outro meio, o recife entra em declínio e os seus corais ficam revestidos pelos tapetes de algas habitualmente devorados pelo bodião.

O naturalista John Muir explicou-nos há mais de um século o que acontece quando os seres humanos começam a desbravar um ecossistema estável. “Quando tentamos destacar uma coisa isolada, descobrimos que está ligada a tudo o resto no universo”, escreveu. Os bodiões são o exemplo perfeito. O recife Mesoamericano é uma secção do universo onde as ligações são particularmente estreitas.

Uma planície de erva marinha começa a nascer com a germinação de uma espécie pioneira como a Halodule wrightii, de folhas planas e finas, ou a Syringodium filiforme, de fios longos. As ervas pioneiras acabam por dar lugar àThalassia testudinum, a espécie clímax, que possui lâminas planas, semelhantes a tiras, cujo comprimento máximo pode atingir 60 centímetros. Das várias espécies de erva marinha 

identificadas ao largo da América Central, a Thalassia testudinumé a mais comum. Como as outras, é uma angiospérmica, uma planta com flor, tendo resolvido o problema da polinização subaquática sem abelhas e desenvolvido a dispersão submarina de frutos, que se limita a largar para serem levados pela corrente. A reprodução sexual não é uma grande preocupação para a espécie. Durante a maior parte da sua vida, a Thalassia testudinum é casta. A manutenção e a expansão da pradaria realizam-se, em grande parte, através de reprodução vegetativa: a germinação assexuada a partir de caules enterrados.

Os rizomas de Thalassia testudinum, com caules subterrâneos, avançam horizontalmente sob a areia e são ancorados por um enorme sistema de raízes. À semelhança dos mangues, retêm os sedimentos que, de outra forma, poderiam sedimentar sobre os corais. Trata-se de um serviço vital. Os corais construtores de recifes precisam de água limpa. A unidade básica de uma colónia de coral, o animal minúsculo (o pólipo) obtém a maioria do seu alimento graças à fotossíntese empreendida pelas algas residentes nos seus tecidos. A sedimentação, que tapa a luz solar e mata os pólipos, é uma das principais causas do declínio de corais no mundo. A eliminação de sedimentos pelas ervas marinhas é um serviço recíproco. A Thalassia testudinum prospera em águas calmas protegidas pelas barreiras de recife contra a rebentação e as correntes geradas pelo vento: ao reter os sedimentos, está a retribuir-lhes o favor. Da mesma forma que o pólipo de coral vive em simbiose interna com as suas algas residentes, o recife de coral vive em simbiose externa com a erva marinha. 

Vista de um barco a boiar à superfície, a Thalassia testudinum parece tão monótona como um campo de milho ou alfafa. No entanto, mergulhando em apneia na pradaria ao nível da erva, com a máscara de mergulho separando as lâminas, os pormenores e a diversidade sobressaem. As lâminas mais velhas e escuras estão incrustadas com epífitos, “musgos” submarinos compostos por centenas de espécies. Películas de algas e bactérias sobre as lâminas são alimento para organismos minúsculos, que por sua vez alimentam camarões e peixes pequenos. A erva marinha é uma estação intermédia, uma escola preparatória, para várias espécies que eclodem sob a protecção dos mangues e estão destinadas a passar a vida adulta no recife.

Cardumes coloridos de peixes pequenos pairam sobre a pradaria submarina enquanto a corrente agita as ervas. Ocasionalmente afugentamos peixes-papagaio e peixes-cirurgião adultos, vindos do recife para se alimentarem de erva. Por vezes, encontramos entre as folhas de Thalassia testudinumuma tartaruga-verde, uma tartaruga-de-pente ou uma tartaruga-boba a tasquinhar na erva. Aqui e além, a pradaria marinha é atravessada por aquilo que parecem ser trilhos de animais selvagens. Estes animais têm a forma de dirigíveis, pesam 450 quilogramas ou mais e são parentes do elefante: estamos no local de alimentação dos manatins.

  

Representante de uma espécie ameaçada, um crocodilo-americano com três metros caça entre a Thalassia testudinum, junto à margem de um leito de mangues em Banco Chinchorro, ao largo da península do Iucatão. “Aconteça o que acontecer, assegura-te de que o meu corpo volta para casa”, disse Jeff Wilder-muth, assistente do fotógrafo Brian Skerry, quando ambos entraram na água. “Não quero ficar enfiado algures, por baixo de um tronco de mangue.” Quando Jeff espicaçou o crocodilo que avançava na sua direcção com uma vara de plástico, ele não se afastou. Abriu as mandíbulas e seguiu em frente. “Nada se compara à sensação de ser caçado”, disse Brian depois de fugir com Jeff.

Apartir do convés do barco à superfície, o recife parece uma paisagem marinha cheia de beleza, mas minimalista: a linha branca da rebentação ao longo da frente, as águas azul-turquesa sobre os baixios do recife e, mais além, o azul profundo do mar aberto. Porém, à semelhança dos habitantes que albergam em terra, as paredes da barreira de recife constituem um mundo dividido.

Ajuste a máscara de mergulho, respire fundo e atire-se borda fora. É então que o verdadeiro recife se revela: uma concentração de vida e um espectro de cores sem comparação com nada existente no mundo atmosférico. O recife é uma cidade pululante de milhares de organismos. Abrigando-se onde seja possível nas vielas da cidade de coral, escondidos em buracos perfurados nos próprios corais ou empoleirados sobre eles, vêem-se amêijoas, caranguejos, camarões, vermes, pepinos-do-mar de uma diversidade impressionante. 

O recife de coral está ameaçado pela acidificação do oceano e por episódios de aquecimento das águas. A sobrepesca, a construção junto à costa e o ritmo crescente da prospecção de petróleo também são preocupantes.

No entanto, quando o Sol se põe na Primavera e a Lua está cheia, a magia ainda acontece. Junto a Silk Cays, ao largo da costa meridional do Belize, milhares de lucianos vêm desovar num recife chamado Gladden Spit. Atraem pelotões de tubarões-baleia, que se banqueteiam com os ovos e, por vezes, também com cientistas marinhos. Estes tubarões, os maiores peixes da zona, alimentam-se de plâncton. Gladden Spit é o primeiro sítio onde foram observados a consumir ovos de peixe. A reunião de lucianos, dos predadores que os comem e dos tubarões colossais que se alimentam dos ovos é espectacular.

Com equipamento de mergulho, Will e eu descemos até 15 metros de profundidade e nadámos em direcção a uma enorme bola formada por lucianos. Uma torre escura e ciclónica girava lentamente sobre si mesma, dividindo-se em milhares de indivíduos quando nos aproximámos. Afastando-se da rotação uniforme, grupos de indivíduos nadando bem próximos subiam rapidamente para desovar, libertando nuvens brancas de ovos e esperma. Estes coalesciam numa nuvem que se avolumava, envolvendo-nos. Estivemos algum tempo perdidos naquela mancha branca composta por ovos e esperma. Depois, uma ténue forma cinzenta materializou-se e apareceu a bocarra gigantesca de um tubarão-baleia. Seguiram-no outros da mesma espécie, golfinhos e tubarões-buldogue.

Seguimos o grupo até ficarmos sem ar. À tona de água, insuflámos os coletes e regressámos ao barco. A Lua cheia atraiu os lucianos: a sua desova coincide com as marés vivas da Primavera, que transportam os ovos fertilizados até aos mangues. Os tubarões-baleia vieram até aqui, conduzidos pelos indícios misteriosos de que se servem para navegar. Esta noite, os ecossistemas interligados do recife Mesoamericano abriram-se. Quando tentamos destacar uma coisa isolada, descobrimos que ela se liga a tudo o resto no sistema solar.

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