Imponente e desafiador, o promontório do Espichel esconde segredos nas entranhas. Uma equipa de espeleólogos procura avidamente as ligações escondidas entre as grutas já conhecidas.

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O lago da Sala dos Tubulares confere mistério à Gruta do Frade, uma cavidade descoberta em 1996 e inventariada nas duas últimas décadas por espeleólogos como Farlei Dias. Ainda não se conhece totalmente a profundidade deste lençol de água.

Texto: João Cláudio Santos e Gonçalo Pereira Rosa

Fotografias: Francisco Rasteiro

Eis um pensamento provocatório: a serra da Arrábida, e particularmente as arribas do cabo Espichel, podem, de alguma maneira, ser comparadas ao queijo emmental! Tal como com o famoso queijo suíço, também as falésias registam uma superfície menos compacta do que a primeira impressão sugere. Na verdade, as arribas que se debruçam a sul sobre o mar estão repletas de cavidades – algumas minúsculas, outras de inesperada monumentalidade.

Aliás, como sucedeu com o célebre produto lácteo do cantão de Berna, também os “buracos” podem afinal ter uma explicação distinta: no queijo, durante anos, pensou-se que seriam obra de bactérias até se perceber que os orifícios na estrutura do emmental resultam afinal do contacto do leite de vaca com pedaços de feno nos baldes de processamento. No caso das cavidades da Arrábida, a verdadeira força modeladora pode não ser a água infiltrada por cima no subsolo, como anteriormente se pensava. 

Recuemos no tempo. Em 1978, as pás de uma máquina da pedreira da serra dos Pinheiros desvendaram acidentalmente uma cavidade no subsolo. Era uma novidade para o concelho de Sesimbra. A exuberância da Gruta do Zambujal e as morfologias ali patentes (designadas por espeleotemas) captaram a atenção do país. Houve casos nefastos de predação e venda até a autarquia local garantir a segurança do espaço: a entrada conhecida da gruta situa-se em terreno privado, embora o subsolo constitua legalmente domínio público. 

Foi o primeiro vislumbre dos espeleotemas que o tempo e as condições particulares da serra da Arrábida foram capazes de gerar, produzindo pacientemente depósitos minerais secundários com morfologias arrebatadoras, maioritariamente compostas por calcite ou aragonite. Outras descobertas seguir-se-iam ainda no século XX, continuando a saga iniciada na Gruta do Zambujal.

Quando se penetra num mundo subterrâneo desta natureza é impossível esconder a estupefacção. Por fora, a serra parece compacta, robusta, como um único bloco colocado à boca da península de Setúbal, erguendo-se do mar há milhões de anos e enfrentando-o nas vertentes sul e oeste. Por dentro, porém, a história é outra: há autênticas catedrais cristalinas esculpidas pacientemente pelo mais virtuoso dos escultores – o tempo. A minúcia de algumas formações e o requinte das suas dobras e voltas, desafiando a gravidade apesar da sua iminente fragilidade, são arrebatadoras e até intimidantes.

Depois da descoberta da Gruta do Zambujal decorreram quase duas décadas até que se organizasse um grupo espeleológico plenamente dedicado à prospecção e inventariação da área, o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA). Desse trabalho pioneiro, resultou a identificação de várias cavidades e, lentamente, foi-se definindo um novo sistema subterrâneo no maciço da Arrábida. Ninguém o imaginava em 1978, mas acredita-se hoje que será altamente provável que várias cavidades entretanto descobertas na serra e dispersas por diferentes cotas de altitude sejam, na verdade, parte do mesmo sistema de grutas, ligado por troços ainda desconhecidos e ostentando uma das maiores diversidades de espeleotemas do mundo. Este inimaginável mundo mineral tem sido inventariado e estende-se hoje às grutas do Frade, da Utopia, do Fumo, da Furada, do Coelho e do Zambujal. 

O conjunto expressa diferenças nos tipos de concrecionamento de cada cavidade, apesar de possuir uma certa identidade comum. Enquanto recapitulamos esta circunstância, parece inverosímil que tudo tenha começado com um buraco do tamanho da palma da mão.

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O inventário fotográfico exigiu diversos testes de iluminação das galerias até a equipa dispor de experiência suficiente e de equipamento adequado para registar mais do que os olhos humanos captam na penumbra. Rui Martelo e Francisco Rasteiro repousam antes de nova actividade na Gruta do Frade.

EM 1996, o espeleólogo Francisco Rasteiro fazia prospecção na imediação de uma rocha que os pescadores de Sesimbra se habituaram a designar por Pedra do Frade. A cota baixa, quatro metros acima do nível do mar, era pouco promissora – apenas com vestígios (sabemos agora) de uma sala abatida. Mesmo assim, Rasteiro encontrou então um pequeno orifício de onde saía uma forte corrente de ar. Em linguagem espeleológica, esse é um dos primeiros indícios promissores: a saída de ar pode sinalizar uma galeria no interior. Pouco se via para o interior e o jovem espeleólogo levou o assunto a consideração junto da comunidade nacional da disciplina. “Não foi valorizado”, diz hoje, com uma gargalhada. “Pensaram que não seria mais do que o resultado da força da maré.”

 

Nos anos seguintes, o fundador do NECA desenvolveu, com vários colegas, actividades intensas de desobstrução. Em 1999, para assombro de todos, entraram naquela que hoje é conhecida como a Gruta do Frade, uma sequência imponente de galerias, túneis, espeleotemas delicados e até um lago profundo na última sala. 
A edição portuguesa da National Geographic deu a conhecer este tesouro escondido na edição de Junho de 2002. 

A grande maioria dos espeleotemas resulta de um processo iniciado no exterior com a infiltração da água da chuva que, ao atravessar o solo, se torna cada vez mais rica em gás carbónico, ganhando a capacidade de dissolver a rocha calcária. À medida que a água percorre a rede de fracturação, aumenta o seu teor em bicarbonato de cálcio e, quando atinge um espaço vazio de certa dimensão, dá-se a evaporação e a libertação do dióxido de carbono. Como consequência, o carbonato de cálcio precipita e origina as mais variadas formas cristalinas que adornam solo, tecto e paredes das grutas. Os valores de pluviosidade e as características do coberto vegetal são dois factores preponderantes para o crescimento dos espeleotemas: o primeiro define a quantidade de água infiltrada e o segundo altera as condições químicas da água e organiza o escoamento subterrâneo. 

As características litológicas, tectónicas e estruturais regionais influenciam depois cada espeleotema, pois condicionam a concentração ou a difusão do escoamento interno e a maior ou menor probabilidade de precipitação dos minerais. 
A estabilidade dos valores de temperatura e humidade, característicos das grutas, é determinante para a precipitação dos espeleotemas, tornando-os dependentes dos contextos bioclimáticos exteriores em distintos períodos da sua evolução. Na Arrábida, existem grutas a mais de duzentos metros de altitude, como as do Fumo e do Zambujal, e outras – integradas no mesmo sistema – quase ao nível do mar. Os respectivos espeleotemas são verdadeiros registos climáticos, contando a história remota da Arrábida nos anéis de crescimento das formações de gotejamento e até nas várias etapas de crescimento dos espeleotemas. 

Durante muitos anos, pensou-se que o único mecanismo de formação de grutas em ambiente cársico seria o desgaste e a dissolução provocados pela penetração da água no subsolo e o processo mais comum de identificação destas estruturas era consequentemente a perseguição dos cursos de água à medida que esta se sumia pelo subsolo e percorria as entranhas de uma serra. 

Na Arrábida, porém, esse mecanismo é distinto. Tudo indica que cada galeria foi também dissolvida pelo mar em diferentes etapas da evolução geológica da serra, constituindo um testemunho remoto de níveis muito mais elevados a que chegavam as águas oceânicas. Consequentemente, a pista mais útil para um espeleólogo da Arrábida é o fluxo do ar e não necessariamente a água. Essa mudança de paradigma tornou-se bem palpável no dia de um incêndio à superfície.

Há alguns anos,um minúsculo incêndio à superfície no cabo Espichel apanhou desprevenida uma equipa do NECA em trabalho de campo na Gruta do Frade. 

Pelas circunstâncias especiais de maré e de dificuldade de acesso e transporte do equipamento necessário, a gruta requer campanhas de pelo menos 24 horas, o que significa que os espeleólogos entram para as entranhas da serra, com apoio de uma pequena embarcação, e saem quando a maré se renova no dia seguinte... se entretanto o mar cooperar. Já aconteceu as condições de mar não permitirem um resgate e a equipa resignar-se a passar mais um dia na gruta. E, entre gargalhadas, os membros mais antigos da equipa gostam também de lembrar o dia em que saíram para o exterior e a embarcação de apoio não estava à sua espera por esquecimento do piloto. “Parecíamos gaivotas na falésia, a torrar ao sol”, brinca Francisco Rasteiro.

Nesta ocasião, o pequeno incêndio forneceu uma pista importante. Embora remoto e a muitos metros de distância, lá em cima, o fumo disseminou-se pelo sistema e chegou à Gruta do Frade, ameaçando até a respiração dos exploradores. “Percebemos que aquela gruta, tão perto do nível do mar, teria de estar ligada de alguma maneira à superfície por passagens que ainda desconhecemos”, diz Rasteiro. Esse indício juntava-se a outros argumentos que sustentavam a mesma conclusão: uma rara aranha cavernícola foi identificada na Gruta do Fumo e na Gruta do Frade, sugerindo igualmente uma via transitável, uma vez que o trajecto à superfície seria impossível para um organismo da escuridão. Ossadas de animais são regularmente encontradas em várias grutas, indiciando ligações labirínticas internas. E a sustentação mais forte para essa hipótese proveio precisamente da circulação do ar.

“Há locais nas várias grutas onde o ar é por vezes sugado ou onde detectamos noutras ocasiões potentes correntes de ar”, diz Francisco Rasteiro. “É o indício mais prometedor quando estamos no contexto de uma gruta porque sugere continuações, mesmo que à nossa frente se deparem estruturas de calcite aparentemente sólidas e compactas. O próprio eco varia no interior da gruta quando o som encontra obstáculos ou quando consegue propagar-se para mais longe.” 

Com a areia que o mar ciclicamente traz, a calcite forma uma massa que cimenta e que transforma os avanços da equipa num desafio penoso. “Nunca nos preocupámos muito com eventuais sismos que ameaçassem a integridade das estruturas”, diz Rasteiro. “A calcite tem a extraordinária capacidade de aglutinar novamente e cimentar tudo em pouco tempo. Em contrapartida, torna muito morosa a progressão.”

O progresso numa gruta não cartografada é uma tarefa tão penosa como aliciante. É literalmente terreno novo para a ciência. Avança-se com cuidado e metro a metro, procurando não danificar estruturas periclitantes mas seguindo essa estranha corrente de ar – por norma uma aragem de boa ventura. Nos últimos vinte anos, a equipa tem também produzido uma ampla inventariação fotográfica, resolvendo desafios relacionados com a sensibilidade dos espeleotemas e as questões logísticas associadas ao acesso e à iluminação. Em algumas ocasiões, a própria análise posterior das fotografias cuidadosamente catalogadas por Francisco Rasteiro permitiu levantar novas hipóteses e sustentar planos futuros de intervenção.

À medida que as actividades nas grutas se desenvolviam, o grupo constatou empiricamente a presença de diferentes espeleotemas. Uma classificação estética ou cromática não bastava – mesmo a olho nu, detectavam-se diferentes processos envolvidos em cada configuração, o que exigia uma base de dados. Munidos da mais relevante bibliografia internacional sobre o tema (uma vez que a investigação geológica sobre espeleotemas nacionais é ainda insípida), o grupo juntou exemplos do que via na Arrábida e do que encontrava nos livros da especialidade. 
A quantidade e a variedade de formações fotografadas era tão grande que se tornou necessário organizar os registos por cavidade, mas também por espeleotemas e, dentro destes, por subtipos e variedades.

As formações do tipo excêntrico ou helictites desenvolvem-se nas paredes e tectos das grutas e assumem, normalmente, formas contorcidas que desafiam a gravidade. Dependendo do mecanismo que as origina, podem ainda ser separadas em dois subtipos: subaéreas e subaquáticas. Outras variações morfológicas em relação aos tipos e subtipos definem-se como variedades e descrevem o aspecto desviante da formação. Há designações tão vastas quanto as formas adoptadas. Na linguagem do Frade, não é raro ouvir os espeleólogos a designar este ou aquele pináculo como helictite vermiforme, rabo de peixe ou asa de borboleta.  

Os espeleotemas são também agrupados de acordo com as características do fluxo de água que os precipita. Neste sentido, a escorrência e o gotejamento assumem um papel fundamental na profusão dos espeleotemas, uma vez que originam as formações carbonatadas mais comuns; tubulares, estalactites, estalagmites, colunas, mantos e bandeiras. Quando a génese dos espeleotemas se deve à água que precipita por capilaridade, observam-se formas mais complexas como as excêntricas, o frost-work, as caixas-de-correio ou a calcite-algodão. Estas dependem da estabilidade ambiental das cavidades, limitando a sua precipitação a áreas mais confinadas e muitas vezes de difícil acesso. Em algumas galerias é a água que se acumula no solo que origina os espeleotemas subaquáticos dentro de gours, pequenas poças forradas de cristais, adornadas com pérolas, “nenúfares” e dedos de gruta. No caso de grutas freáticas costeiras, também se podem formar sobrecrescimentos freáticos em espeleotemas ou POS (acrónimo de Phreatic Overgrowths on Speleothems), igualmente subaquáticos, mas muito mais raros, dada a influência decisiva da água salgada no seu crescimento.

Primeiro com naturais dificuldades, depois com desenvoltura, a equipa do NECA dedicou-se nos últimos anos à identificação no Sistema do Frade dos tipos reconhecidos na bibliografia internacional. Chegou a 35 tipos diferentes de espeleotemas e esse registo incomum captou a atenção internacional. A detecção dos sobrecrescimentos freáticos pode igualmente fornecer dados sugestivos para a geologia da região, uma vez que estes revestimentos alaranjados de aragonite sobre outras formações submersas em água salobra sugerem alterações pontuais dos níveis do mar. É a mistura da água doce, proveniente da superfície, com a água salgada que aumenta a capacidade de dissolução desse fluido sobre a rocha e permite o desenvolvimento de cavidades. As marés e tempestades promovem a entrada de grandes quantidades de sedimentos, desenvolvendo patamares e criando diversos ambientes de deposição. No fundo, é aí que reside a origem destas catedrais.

Até ao fecho desta edição, conheciam-se cerca de três quilómetros inventariados de grutas no Sistema do Frade, implantado por sua vez numa área que se calcula ser de quatro quilómetros quadrados. Todos os meses, mais acima ou mais abaixo na falésia, exploram-se novas ligações no interior da terra com uma paixão inigualável pela descoberta. Pontualmente, quando o mar e a meteorologia o permitem, os exploradores aventuram-se na Gruta do Frade, jóia do conjunto, e preparam-se para pelo menos um dia de aventura nas entranhas da serra. O recolhimento é invejável num local onde não se vê o Sol nem as estrelas e onde a rede de telemóvel não penetra, mesmo que isso signifique um corte temporário com a civilização. 

Na manhã do dia 11 de Setembro de 2001, a equipa entrou na Gruta do Frade para três dias de exploração. Quando saiu, o mundo mudara radicalmente na sequência dos atentados nos Estados Unidos. Dentro da gruta, porém, nada na serenidade imponente da rocha denunciava o caos do exterior. 

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A vila de Sesimbra (em segundo plano) atrai milhares de turistas todos os anos, mas o carso da Arrábida Ocidental, onde se implanta o Sistema do Frade, permanece ainda repleto de incógnitas.

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