Papagaios: as Aves mais Humanas

Os papagaios podem ser tão inteligentes como uma criança de 3 anos e alguns vivem até aos 80. Cantam, dançam, imitam-nos e arrebatam os nossos corações. Esta popularidade tornou-se uma ameaça para eles.

Texto: Christine Dell’Amore 

Fotografias: Joel Sartore

Por vezes, os sons emitidos por uma vocalista a aquecer a voz pairam nos aviários do Parque de Aves do Rio Umgeni. E quem será a diva em questão? Uma fêmea de papagaio chamada Molly. Este papagaio-de-fronte-azul aprendeu a cantar escalas com um dono anterior. Muitos dos papagaios deste jardim zoológico e centro de reprodução em Durban, na África do Sul, foram salvos depois de serem abandonados por pessoas mal preparadas para os desafios de terem uma ave grande e carente. Além de ruidosos e destrutivos, alguns papagaios são tão inteligentes como uma criança de 3 anos.

Mesmo assim, a vontade de ter um papagaio pode ser irresistível. Altamente sociáveis e inteligentes, as aves criam laços fortes com os seus donos. Junte-se a isso a sua capacidade para imitar vozes humanas e não é coincidência que os papagaios sejam, indiscutivelmente, a ave de estimação mais popular do planeta.

Em alguns casos, porém, a sua popularidade está a prejudicá-los. Apesar de programas de reprodução bem implementados em todo o mundo, muitos papagaios ainda são ilegalmente capturados em estado selvagem. As quadrilhas da criminalidade organizada que ganham milhares de milhões de euros a traficar animais como elefantes e rinocerontes acrescentaram os papagaios ao seu repertório. O tráfico ilegal de papagaios está a aumentar na América Latina e nas Caraíbas, onde as leis podem ser permissivas ou difíceis de aplicar. 

“Nos Estados Unidos, a probabilidade de comprar um papagaio criado em cativeiro é de 99%”, diz Donald Brightsmith, zoólogo da Universidade Texas A&M. No entanto, “se estiver no Peru, na Costa Rica ou no México, as probabilidades de ter sido capturado na natureza são de 99%”.

A procura de animais de estimação, juntamente com a desflorestação e a perda de habitat, é o principal motivo para os papagaios estarem actualmente classificados com o estatuto de ameaçados de extinção. Quase todas as 350 espécies de papagaios, com excepção de quatro, são protegidas ao abrigo da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies de Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES). 

A espécie mais cobiçada de todas é o papagaio-cinzento, o mais falador de todos. Nas últimas quatro décadas, pelo menos 1,3 milhões de papagaios cinzentos foram exportados legalmente dos 18 países onde vivem, segundo a CITES. Centenas de milhares morreram provavelmente durante o transporte ou foram capturados nas florestas húmidas da África Ocidental e Central.

O centro deste comércio é a África do Sul, que exporta mais papagaios-cinzentos do que qualquer outro país. Historicamente, a maior parte das encomendas provém dos EUA e da Europa, mas o medo da gripe das aves e as restrições ao comércio de aves afectaram negativamente esses mercados. O Médio Oriente preenche agora esse vazio. A África do Sul exportou milhares de papagaios para a região em 2016.

Nesse ano, a CITES tomou a polémica decisão de acrescentar o papagaio-cinzento ao Anexo I, uma designação que abrange as espécies ameaçadas de extinção. Para continuar a vender aves no estrangeiro, os criadores têm agora de provar aos inspectores da CITES que os seus papagaios foram criados em cativeiro. A maioria das crias nascidas em cativeiro tem uma anilha de identificação permanente nas patas. Os traficantes podem ter descoberto como colocar essas anilhas em aves selvagens e nem sempre é fácil distinguir uma ave criada em cativeiro de uma selvagem. Poderá, contudo, existir uma maneira de fazê-lo.

Especialistas em genética da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, esperam desenvolver um método com base genética para determinar se uma ave foi capturada na natureza ou criada em cativeiro, identificando perfis genéticos diferentes. Este trabalho, baseado no DNA, poderá resultar na criação de um teste que permita a um criador, comprador ou inspector fronteiriço recolher a amostra de uma ave e descobrir a sua origem de imediato. Um método semelhante poderá utilizar os isótopos químicos das penas dos papagaios para revelar o respectivo regime alimentar, que indica o local de origem.

Nos últimos anos, houve progressos encorajadores para os papagaios: a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos já anunciaram que não importarão mais papagaios-cinzentos capturados em ambiente selvagem.

Também há histórias de sucesso. O papagaio de Porto Rico, uma espécie criticamente ameaçada, estava reduzida a 13 indivíduos na década de 1970, uma quebra demográfica que se devia maioritariamente à perda de árvores antigas com cavidades para nidificação. Os biólogos iniciaram um programa de reprodução em cativeiro e começaram a instalar caixas de nidificação fabricadas com canos de PVC. Existem agora centenas de aves selvagens e criadas em cativeiro, embora dois furacões devastadores em 2017 tenham causado contrariedades temporárias.

Com mais de 350 espécies, a família dos papagaios  (que também inclui os periquitos, as araras, as caturras e as catatuas) encontra-se disseminada por cinco continentes. Os locais com maior diversidade são a Amazónia, a Nova-Guiné e a Austrália.

O desafio a longo prazo, dizem os conservacionistas, é convencer o público de que os papagaios são mais do que os companheiros divertidos. São centenas de espécies que vivem em quase todos os continentes, mas podem, dentro de pouco tempo, voar discretamente para fora do alcance do radar e rumo à extinção.

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