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No centro de monitorização da Passagem para Peixes de Coimbra, duas janelas permitem observar e recolher dados preciosos para o estudo dos hábitos migratórios das várias espécies de peixes diádromos

A engenharia deu as mãos à conservação da natureza no Mondego. O resultado é um dos mais entusiasmantes projectos nacionais.

Texto e fotografias: Pedro Baptista

Há pouco mais de trinta anos, o Mondego, o maior rio inteiramente português, corria sem obstáculos e as espécies de peixes migradores encontravam nele um habitat contínuo. De carácter temperamental, os caudais eram variáveis ao longo do ano. Camões louvou “as doces e claras águas” do rio no Outono, mas, nos meses de Verão, o leito do rio tornava-se um imenso areal, por onde serpenteava um pequeno curso de água. Na Primavera, em contrapartida, as chuvas e o degelo da serra da Estrela engrossavam o “Basófias”.

A partir da década de 1970, entrou em cena a engenharia hidráulica. Foi implementado um plano para aproveitamento hidráulico da bacia do rio, que levou à construção das barragens da Aguieira, da Raiva e de Fronhas, do Açude-Ponte de Coimbra, de diques de protecção contra cheias, de estações elevatórias e de infra-estruturas de rega. Durante duas décadas, foram realizadas dragagens e construídos novos leitos aluvionares revestidos.

Todo esse processo contribuiu para tornar artificial o regime hidrológico natural do rio e grande parte do seu leito, alterando a vida das populações, mas também todo o ecossistema fluvial, com particular impacte sobre os peixes diádromos ou migradores – espécies de peixes que, ao longo do seu ciclo de vida, migram entre ecossistemas marinhos e de água doce. As infra-estruturas transversais construídas passaram a ser obstáculos à deslocação destes peixes, que viram assim o seu habitat diminuído. Na década de 1980, era normal avistar milhares de lampreias agregadas a jusante do Açude-Ponte de Coimbra e que aí ficavam retidas sem conseguirem continuar a viagem rio acima, pois embora o projecto incluísse uma estrutura para permitir a subida dos peixes, esta revelou-se ineficaz. Mais tarde, a construção de outros pequenos açudes, entre Montemor-o-Velho e Penacova, reduziram ainda mais o habitat disponível para as espécies de peixes migradores.

Em 1998, de uma conversa informal entre um técnico da Agência Portuguesa para o Ambiente (APA, ex-INAG) e o investigador da Universidade de Évora/MARE, Pedro Raposo Almeida, surgiu o desafio para a reabilitação dos habitats de peixes diádromos da bacia hidrográfica do Mondego. Desde então, foram desenvolvidos diversos projectos que totalizam um investimento superior a seis milhões de euros, o último dos quais envolvendo uma lista extensa de entidades públicas e privadas a que se juntaram os municípios de Coimbra, Penacova e Vila Nova de Poiares.

A estrutura de betão da nova Passagem para Peixes (conhecida pelo acrónimo PPPeixes), construída pela APA com a colaboração do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, dificilmente passa despercebida a quem atravessa a ponte pedonal do Açude-Ponte de Coimbra. Em funcionamento desde 2011, contribuiu de forma decisiva para a recuperação das populações piscícolas do Mondego. Além de permitir o acesso a um troço do rio com 31 quilómetros entre Coimbra e Penacova, permitiu aos peixes migradores regressarem à parte terminal de dois dos seus afluentes, os rios Ceira e Alva.

Para prosseguirem a sua viagem para montante, os peixes migradores que chegam a Coimbra têm de detectar a entrada da estrutura e nadar 125 metros por um canal artificial, constituído por 23 bacias sucessivas, pensado, calculado e construído para lhes facilitar o percurso.

Na parede de betão dos metros finais da estrutura, antes da derradeira curva que os levará de volta ao rio, surgem duas janelas. É através delas que, no edifício de monitorização da PPPeixes, é possível observar e recolher imagens dos animais que passam pela estrutura, numa sala repleta de informação técnica e de modelos à escala real das espécies-alvo do projecto.

Todos os peixes que sobem e descem o rio são filmados e posteriormente contados. Mensalmente é recolhido 1 terabyte de imagens que fornece informação preciosa e única ao nível da Europa. Entre 2013 e 2016, mais de três milhões de animais usaram a PPPeixes, permitindo conhecer melhor os comportamentos migratórios das espécies e validando a eficácia do projecto de engenharia.

Para além da estrutura construída em Coimbra, foi necessário também intervir em mais seis locais entre Montemor-o-Velho e Penacova onde os açudes existentes constituíam constrangimentos à passagem dos peixes. Graças a estas passagens, os peixes migradores passaram a poder deslocar-se entre o estuário do Mondego e a bacia da barragem da Raiva em Penacova, num troço contínuo de 60 quilómetros em contraste com os 15 quilómetros efectivamente disponíveis para a reprodução destas espécies antes da sua construção.

O projecto incorporou as adaptações necessárias para permitir a circulação de peixes migradores, contribuir para um incremento do efectivo populacional destas espécies e, com isso, promover a sustentabilidade da actividade da pesca, bem como a rendibilidade de outras actividades com importância económica na região, como a canoagem. São oito as espécies-alvo deste projeto: lampreia-marinha, sável, savelha, enguia-europeia, muge, barbo-do-norte, boga-comum e truta-do-rio. Apenas a solha-das-pedras não foi incluída na lista, pois “devido às dificuldades que esta espécie tem para vencer correntes de água, não pôde ser abrangida”, resume Pedro Almeida. Há espécies que nem o engenho do homem consegue salvar.

Da primeira vez em que fui à janela da PPPeixes para fotografar, fui acompanhado por Carlos Baptista, engenheiro da APA e responsável pelas operações de funcionamento do Açude-Ponte de Coimbra, profundo conhecedor do rio, do seu regime hidrológico e dos seus peixes. Nesse dia, decorria uma importante operação de manutenção: a limpeza dos vidros das janelas no edifício de monitorização. Estas acumulam um filme de bactérias e algas que prejudica a visualização e a recolha de imagens. Para o remover, é necessário esvaziar a passagem e, na altura, passavam vários exemplares de sável, alguns com mais de 50 centímetros, que com o esvaziamento ficaram retidos nas bacias. “Esta espécie é muito sensível ao stress, vamos fazer isto com rapidez para ver se não perdemos nenhum”, lembrou Carlos Baptista.

Em menos de dez minutos, os vidros estavam limpos, o nível de água reposto, os peixes retomavam o percurso e voltei à janela para os ver.
A observação através de um vidro de peixes com quatro quilogramas a nadar pela vida é um espectáculo fascinante. Desconfiados, passam pelas bacias com surpreendente rapidez. “O sável está a regressar ao Mondego”, resume mais tarde Pedro Almeida, mas a preocupação persiste com esta espécie que, em Portugal, mantém o estatuto de “Em perigo”. Apesar de alguma recuperação, os números de efectivos são um décimo do que seriam noutros tempos e o rio tem capacidade para muito mais.

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