Austrália: Natureza sem limites

O Território do Norte abrange um colorido manto de paisagens a sul de Darwin. É a última fronteira da Austrália, uma terra primitiva onde os aborígenes preservaram a sua cultura ancestral.

Texto: Teresa Artigas

O guia de viagens dizia isto sobre Darwin: cosmopolita, multicultural, moderna, situada ao fundo de uma baía em frente do mar de Timor, possui um agradável clima tropical, praias esplêndidas, zonas húmidas e dista apenas 150 quilómetros do Parque Nacional Kakadu.

Estas linhas sobre a capital do Território do Norte tinham-me encorajado a empreender a viagem a esta remota região da Austrália. De certo modo, o centro urbano de Darwin recordava-me as cidades norte-americanas com novos cunhos traçados a régua e esquadro, de ruas largas e sem quase nenhum vestígio de edifícios históricos. A minha intenção não era passar o tempo à procura de monumentos culturais, mas sim submergir no ambiente desta cidade pioneira antes de me lançar à aventura na magnífica natureza do Território do Norte.

“Darwin desapareceu duas vezes”, comentou a jovem recepcionista do hotel. “A primeira, em 1942, sob as bombas dos japoneses, a segunda, em 1974, varrida pelo tufão Tracy.” No que toca à primeira devastação, lembrei-me do final do filme “Austrália” (2008), quando a cidade é bombardeada pela aviação nipónica. Quanto aos efeitos do Tracy, começava a aperceber-me de que, apesar do tempo decorrido, o tufão era uma ferida não cicatrizada que marcou uma era na vida da cidade. Entre arte aborígene, paleontologia e história natural, o Museu e Galeria de Arte do Território do Norte, em Conacher Street, alberga uma exposição vibrante dedicada ao Tracy. O rugido do tufão numa gravação efectuada no Natal de 1974 provoca-nos arrepios. Torna-se palpável imaginar aquele vento furioso soprando a 280 km/h numa filmagem da devastação que provocou.
A reconstrução demorou três anos e, desde então, não cessou.

O coração de Darwin encontra--se em Mitchell Street. Restaurantes, cinemas, galerias de arte, lojas e agências de viagens atraem turistas e a população local. Aqui pode comprovar-se a variedade de nacionalidades – mais de cinquenta – que povoam Darwin, para além dos habitantes originários, os aborígenes. Sucessivas vagas de imigração a partir do século XIX trouxeram até aqui europeus e asiáticos, adicionando mais nacionalidades ao caldeirão étnico. Esta diversidade é bem evidente nas mesas dos restaurantes, onde, para além de carne de canguru e perca-gigante, o peixe mais abundante, oferece-se uma incrível variedade de pratos asiáticos.

E as praias? Existem e são excelentes, como Mindil e Casuarina, embora os sucessivos cartazes com advertências sobre as letais vespas--do-mar, uma medusa venenosa, e os crocodilos de água salgada nos tirem a vontade de mergulhar.

São riscos controlados que ocorrem sobretudo na estação das chuvas, de Outubro a Abril. Por sorte, existem muitas outras actividades disponíveis nas praias. O pôr do Sol é aqui um espectáculo exuberante. E o mercado de Mindil, aberto às quintas-feiras e domingos, de Maio a Outubro, é um convite à imersão nos aromas e sabores que os vendedores de comida de rua oferecem.

No dia seguinte, contrato uma visita às ilhas Tiwi. É a única forma de aceder a este arquipélago situado a cem quilómetros de Darwin, que acolhe praias de areia avermelhada e onde 90% da população continua a ser aborígene. Mal continha a minha impaciência por seguir rumo a sul, até Kakadu e à sua deslumbrante natureza.

O Crocosaurus Cove, a escassos dez minutos de carro do aeroporto de Darwin, oferece um início de viagem de grande impacte. Neste parque, podem observar-se as 70 espécies de crocodilos que habitam na Austrália, com dezenas de crias frequentemente amontoadas umas sobre as outras. As espécies de água salgada medem mais de cinco metros e pesam 700 quilogramas. A actividade fundamental do Crocosaurus Cove é a possibilidade de confraternizar com estes animais pré-históricos submergindo no interior de uma jaula ou atirando-lhes enormes pedaços de carne. Nenhuma das duas opções me seduziu. Quando vi estes maravilhosos répteis do outro lado do vidro, decidi que os apreciaria em liberdade.

À excepção das ligações aéreas, a Stuart Highway é a única via de comunicação de Darwin com o Sul e o Leste da Austrália.

Esta auto-estrada de 2.800 quilómetros atravessa o deserto em linha recta até à cidade de Port Augusta, a pouco quilómetros de Adelaide. Hora e meia depois de deixar para trás as ruas de Darwin surge o desvio da Arnhem Highway, a estrada que vai dar à Terra de Arnhem, território aborígene que não pode ser visitado sem autorização.

Faltavam-me mais de duzentos quilómetros para chegar a Jaribu, um dos dois centros de visitantes do PN Kakadu. A estrada cruza sete das oito áreas protegidas do Parque Nacional Mary River. Ali é possível desfrutar florestas de malaleucas, arbustos com folhas que parecem espanadores com flores muito vistosas. E há também os billabongs, essas lagoas residuais que permanecem durante a estação seca nos antigos meandros dos rios. Desejava avistar algum crocodilo na margem do Mary, onde também são organizados passeios de barco, e encontrar alguma das espécies de aves mais coloridas da Austrália, como o diamante de Gould, mas não tive essa sorte.

Entrava em território aborígene, habitado há 50 mil anos pelos gagudju. Foram os primeiros povoadores desta região à qual chamaram Kakadu. Neste mesmo local, hoje vivem dispersos dezanove clãs com três línguas distintas.

A decisão sobre o que devemos ver num parque de 20 mil quilómetros não é fácil: convém esquecer alguns locais e apostar noutros com a esperança de voltar mais tarde e completar a visita. O meu primeiro objectivo foram as pinturas rupestres de Ubirr, a meia hora de carro de Jaribu. Aí pude constatar que as antigas comunidades humanas não se conformaram com um qualquer local para deixar o seu legado artístico, porque Ubirr, uma formação rochosa no meio do pantanal de Nabag, está envolta numa atmosfera mágica. As pinturas encontram-se nos refúgios naturais das rochas e na galeria principal.

Perfiladas de branco, ocre e negro aparecem figuras de animais importantes na cosmovisão aborígene como os wallabies, os opossuns, os lagartos-monitores, as tartarugas, as percas-gigantes e também figuras humanas de simplicidade comovedora. “Existem pinturas desde há 20 mil anos até à década de 1980”, contou um casal de australianos.
A afirmação permite apreciar a continuidade no tempo desta arte.

Posicionada em cima da rocha, perante uma panorâmica incrível dos pântanos, pensei nos aborígenes, no seu críptico mundo e no seu modo de vida, como uma relação quase mística com a terra. Em Ubirr, existe um grande arquivo histórico, o do Tempo dos Sonhos – a origem da criação segundo eles –, da caça, dos ancestrais e dos homens. Durante milhares de anos, sucessivas gerações foram deixando testemunho, pintando ou retocando os antigos desenhos.

Nourlangie Rock, outro dos santuários de arte aborígene, perto de Ubirr, forneceu a mesma sensação. Depois de uma caminhada desde o estacionamento, cheguei a uma formação rochosa no meio da planície, onde reinava a mesma atmosfera mística de Ubirr. Observei um lagarto-monitor, um réptil de 2,5m de comprimento, deitado ao sol. Parecia esperar que alguém o imortalizasse em ocre, branco ou negro numa daquelas rochas.

No centro de Warradjan, perto do aeródromo de Cooinda, os aborígenes partilham a sua cultura e costumes com os visitantes através de objectos de uso ancestral e exposições de artistas contemporâneos. A melhor hora para navegar por Yellow Water é ao amanhecer, quando as aves despertam e recorrem aos charcos para beber. Segui o conselho, levantei-me de madrugada e não me arrependi. Ao deslizar na embarcação sob uma bruma matinal, entre lírios de água e nenúfares, avistei aves de plumagem multicolorida e contive a respiração quando apareceram os primeiros crocodilos, sentindo que desfrutava de uma experiência única.

Ciente de que não encontraria um local melhor em toda a viagem, dirigi-me às cataratas Jim Jim, a sul de Cooinda. À primeira vista, parece um local vazio, mas, no fim do trilho rochoso, emerge um espectacular precipício com uma piscina natural a seus pés onde dois jovens tomavam banho.

Não há amplitude suficiente para fotografar as duas quedas de água que caíam a partir de 295 metros de altura. As cataratas Jim Jim registam caudal máximo na época das chuvas, quando o acesso não é permitido; à medida que avança a temporada seca, o caudal da água diminui até desaparecer. Um voo de avioneta sobre as cascatas é a única opção para as contemplar no seu auge.

Antes de voltar à Stuart Highway em direcção a Alice Springs e a Uluru, entrei no Parque Nacional de Nitmiluk para ver as gargantas do rio Katherine. Durante milhares de anos, a água foi corroendo o arenito e formou 13 gargantas separadas por rápidos. Na temporada seca, o curso do rio é tranquilo e a navegação entre as paredes avermelhadas que caem a pique torna-se fascinante. A alternativa ao passeio fluvial consiste num dos trilhos pedestres assinalados – o mais longo é de 72 quilómetros. Decidi tomar um banho para me refrescar antes de empreender a travessia rodoviária de 1.200km até Uluru, em pleno “coração vermelho” da Austrália. O Território do Norte ficava finalmente para trás.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar