Aprendemos muito sobre as viagens incríveis empreendidas pelas aves migratórias e a maneira como os seres humanos as dificultam cada vez mais.

Texto: Yudhijit Bhattacharjee

Fotografias: Stephen Wilkes

A maré subia, submergindo a vaza onde as aves se alimentavam, enfiando os bicos compridos no sedimento para capturar minhocas e caranguejos. À medida que a água avançava, eles paravam de forragear e caminhavam para a margem. Quando o céu ganhava tons alaranjados, prepararam-se para pousar. Como descansam durante horas a fio, podem parecer altamente sedentários.

Nada poderia ser mais falso. Seis meses antes, estas aves tinham realizado uma viagem épica até aqui, a partir do Alasca. Surpreendentemente, não pararam pelo caminho. Voaram durante oito ou nove dias consecutivos, batendo as asas durante o caminho inteiro: cerca de 11.500 quilómetros, mais de um quarto da distância necessária para dar a volta ao mundo.

À chegada, os fuselos apresentavam-se enlameados e escanzelados. Agora, já tinham engordado para empreender a migração de regresso ao Alasca, onde acasalam durante o Verão. Iriam voar cerca de dez mil quilómetros, até ao mar Amarelo. Ali passariam cerca de seis semanas, alimentando-se e descansando para, de seguida, voarem mais 6.500 quilómetros.

Os fuselos fazem esta migração há milhares de anos, mas só nas últimas décadas ficámos com uma noção clara das suas viagens. Embora as migrações das aves sejam uma fonte de admiração há séculos, novas descobertas científicas estão a contribuir para desmistificá-las. Enquanto isso, os cientistas vão descobrindo de que forma a actividade humana e as alterações climáticas estão a perturbar e, possivelmente, a pôr em risco estas viagens ancestrais.

Como desaparecem da Nova Zelândia durante os meses em que acasalam, os maori passaram a chamar aos fuselos kuaka, ou aves de mistério. Na década de 1970, os observadores de aves e os biólogos suspeitaram que os fuselos da Nova Zelândia eram os mesmos que nidificavam no Alasca. Mas só em 2007 foi possível determinar as rotas de migração.

Os biólogos Bob Gill e Lee Tibbitts integraram uma equipa que capturou um pequeno número de fuselos e implantou transmissores de satélite no interior de um saco aéreo existente nos seus abdómens, deixando as antenas de fora. Entre Março e Maio, acompanharam um grupo na migração para norte. As baterias dos transmissores não deveriam durar além do Verão e, como se esperava, deixaram mesmo de funcionar. Excepto uma. No dia 30 de Agosto de 2007, um fuselo conhecido como E7 partiu do Alasca, ainda transmitindo a sua posição.

Com crescente excitação, os investigadores seguiram o progresso desta ave enquanto ela sobrevoava o Hawai, as Fiji e depois, em 7 de Setembro, a extremidade noroeste da Nova Zelândia. “Houve grande stress porque a bateria estava a falhar”, recorda Lee Tibbitts. Nessa noite, o E7 aterrou em Firth of Thames. Com oito dias e oito noites e 11.500 quilómetros, continua a ser a mais longa migração ininterrupta alguma vez registada. “É um feito intrigante e espectacular”, acrescenta Bob Gill, agora já jubilado.

O acompanhamento do E7 serviu para aprofundar a curiosidade que as migrações das aves há muito suscitavam. Para onde vão? Como conseguem voar até tão longe? Como conseguem encontrar o caminho para o mesmo local ano após ano?

Passeando a pé pela floresta de Alberta, no Canadá, o ecologista Michael Hallworth ouvia vocalizações de uma mariquita do Connecticut. Quando Michael e os colegas detectaram o macho no qual tinham colocado um dispositivo electrónico, trabalharam rapidamente para instalar uma rede fina entre duas árvores. Escondendo-se atrás de uma árvore, Michael reproduziu uma gravação da vocalização de um macho de mariquita. Era um truque para atrair a ave e ver se um concorrente entrava no seu território. O macho, de facto, voou para dentro da rede.

Michael Hallworth removeu suavemente o dispositivo do seu dorso, um equipamento de geolocalização com menos de um grama que grava continuamente os níveis de luz. Como as horas do nascer e do pôr do Sol variam consoante a localização, os cientistas podem analisar os dados para monitorizar o percurso realizado por uma ave.
O estudo em curso permitirá determinar com exactidão onde aquela ave passa os meses de Inverno. “Sabemos que migra para a América do Sul, mas ainda não sabemos para onde”, comenta.

Estes esforços realçam quão longe chegámos na nossa capacidade para acompanhar as migrações das aves. Até ao início do século XIX, as teorias para explicar o desaparecimento de populações de aves durante parte do ano eram bastante extravagantes. Aristóteles considerava que algumas aves hibernavam ou se transformavam noutras espécies. Na Europa medieval, dava-se a seguinte explicação para o aparecimento de gansos-de-faces-brancas no Inverno: eles cresciam nas árvores. No século XVII, um sacerdote inglês teorizou que eles voariam até à Lua. A prova mais concreta de que as aves migravam surgiu em 1822, quando um caçador abateu na Alemanha uma cegonha-branca com um apêndice curioso: uma flecha empalada no pescoço. A flecha era da África Central, o que levou os naturalistas a concluir que a cegonha viajara milhares de quilómetros. Em 1906, os observadores de aves começaram a pôr anilhas nas patas de cegonhas-brancas e descobriram destinos de Inverno, na África Subsaariana.

Nos dois séculos seguintes, cientistas e observadores de aves têm desvendado as migrações de milhares de espécies. Quase metade das espécies de aves conhecidas são migratórias, deslocando-se de um habitat para outro consoante as estações. Os albatrozes de Laysan nidificam em ilhas do Pacífico e passam metade do ano planando milhares de quilómetros, até às costas do Japão e da Califórnia, em busca de alimento. As populações de gansos-de-cabeça-listada que acasalam na Ásia Central voam para sul sobre os Himalaia e passam o Inverno em lagos e estuários do subcontinente indiano. Não é um requisito obrigatório possuir uma grande envergadura de asas, como se comprova pelos voos empreendidos pelo minúsculo colibri-de-garganta-rubi, que viaja sozinho desde os locais de acasalamento nos EUA e Canadá até aos territórios que se estendem desde o Sul do México ao Panamá para a sua campanha invernal.

As aves migram para fugir de condições que ameaçam a sua sobrevivência. Quando o Inverno chega à América do Norte, as flores que fornecem néctar a este colibri e os insectos dos quais se alimenta desaparecem. O colibri não tem outra escolha senão viajar até locais onde exista alimento em abundância. Quando o tempo quente regressa ao Canadá e aos EUA, o seu lar setentrional voltará a ser atraente porque os recursos foram repostos.

Embora várias espécies migrem entre latitudes frias e quentes, algumas migrações são motivadas por cheias. É o caso de uma subespécie de talha-mar que nidifica em bancos de areia expostos no rio Manú, na bacia amazónica, aflorando as águas com o seu longo bico para capturar peixes enquanto voa. Quando as chuvas fortes começam a fustigar a região a partir de Setembro, levando o rio a encher, as aves partem para a costa continental do Pacífico ou migram para terras mais altas, regressando quando o nível das águas desce. Algumas populações de aves migram entre altitudes altas e baixas na mesma zona, nidificando em montanhas onde correm riachos, mas descendo para o vale quando a água congela.

“As aves migratórias fogem de zonas que são duríssimas durante parte do ano, mas regressam depois porque elas são excelentes para acasalar e cuidar das crias no resto do ano”, explica Ben Winger, ornitólogo da Universidade de Michigan.

Estas rotas de migração foram surgindo ao longo de milhares de anos de adaptação. Alguns investigadores especulam que as migrações começaram quando as aves dos trópicos expandiram os seus domínios para habitats temperados. Na opinião de outros peritos, muitas espécies tiveram origem em zonas temperadas e evoluíram para passar a parte mais fria do ano nos trópicos. “A realidade mais provável é que ambas as situações existissem em certa medida”, diz Ben Winger.

Podemos inferir pistas sobre as adaptações conducentes às rotas actuais a partir de algumas migrações invulgares. Um exemplo, segundo Peter Berthold, antigo director do Instituto Max Planck de Ornitologia em Radolfzell, é a permanência de uma população de felosas-palustres que viaja do Norte da Alemanha à África Oriental, passando ali várias semanas antes de prosseguir até à África do Sul. “Em tempos antigos, é possível que as aves passassem o Inverno imediatamente a sul do Saara porque a região permaneceu verde durante muito tempo. Era um paraíso”, diz. “Depois, as condições degradaram-se, obrigando as aves a avançarem cada vez mais para sul.”

Estarão estes comportamentos migratórios registados nos genes, conduzindo as aves como autómatos até aos seus destinos? Ou será que os juvenis aprendem com os adultos como devem migrar e para onde? Os cientistas ainda não sabem, mas, à semelhança do que acontece com a maioria das perguntas que ponderam a relevância da natureza e da cultura no comportamento, a resposta deve provavelmente ser uma combinação das duas. “Estamos a dar os primeiros passos neste domínio”, diz Jesse Conklin, cientista e investigador da Universidade de Groningen.

Ganso-patola BASS ROCK, ESCÓCIA. Na época de acasalamento, 150 mil gansos-patolas povoam esta ilha. No Inverno, as aves mudam-se para sul, até à África Ocidental. Para compor esta imagem, Stephen Wilkes e um assistente subiram 122 degraus carregados de equipamento e instalaram-se junto das ruínas de uma igreja a cerca de dois metros dos ninhos das aves. Mantendo-se acordado no solo rochoso durante 28 horas a fio, captou 1.176 fotografias. “É como um estado meditativo”, diz. “Estou alerta a tudo. Estou a ver tudo.” Seleccionou cerca de 150 fotografias para esta composição. (Fotografado com permissão da Família Dalrymple e do Centro Escocês de Aves Marinhas.)

O suplício de voar, sem escalas, do Alasca à Nova Zelândia é de difícil compreensão para a mente humana: por isso, quando fala com crianças do ensino básico sobre os fuselos, Bob Gill usa um truque para elas conseguirem imaginar a resistência necessária para empreender tal viagem. “Peço-lhes para se levantarem, abrirem os braços, começarem a mexê-los em círculos e verificarem quanto tempo aguentam.” Depois, quando começam a ficar com os braços cansados, Bob acrescenta: “Agora, experimentem fazê-lo durante oito dias consecutivos.”
A simulação de batimento dos braços pode não ser a analogia perfeita (até porque o voo está para as aves como a caminhada para os seres humanos), mas as crianças percebem o que ele quer dizer.

À semelhança de outros migradores que percorrem longos trajectos, os fuselos preparam-se acumulando enormes reservas de gordura nas semanas anteriores à sua partida. Tal como a gasolina, a gordura é combustível para as aves. Quando os fuselos partem, mais de metade do seu peso corporal é gordura. Parecem bolas de croquet com penas, com uma camada de gordura subcutânea que pode atingir os três centímetros de espessura e gordura adicional envolvendo os órgãos abdominais. “Chamo-lhes rabos de banha”, brinca Phil Battley, ornitólogo da Universidade Massey.

À medida que engordam, os músculos peitorais e as patas também crescem. Outros viajantes de longa distância, como as seixoeiras, encolhem a moela e outros órgãos para se prepararem para o voo. Será talvez o equivalente a largar carga excessiva.

Os fuselos, como outras espécies migratórias, não dependem apenas da sua própria força, pois também tiram partido do vento. Por norma, as aves largam do Alasca aproveitando as tempestades que produzem ventos fortes soprando para sul. A sua partida da Nova Zelândia também coincide com condições favoráveis à viagem. “Apanham-se ventos muito suaves ao sair da Nova Zelândia, mas depois eles conseguem apanhar outros enquanto se dirigem para norte”, diz Bob Gill. Quando saem do mar Amarelo rumo ao Alasca, os ventos já mudaram novamente e acompanham o movimento das aves.

Os investigadores baseiam-se no pressuposto de que os fuselos – que não planam, tanto quanto se sabe – batem as asas durante a maior parte da viagem, mesmo quando são impulsionados pelos ventos. Em contraste, outras espécies, como os albatrozes, planam.

Algumas espécies possuem uma extraordinária flexibilidade de regulação do sono. Niels Rattenborg e outros colegas do Instituto Max Planck deslocaram-se ao arquipélago das Galápagos para estudarem os hábitos de sono das fragatas-grandes, cuja envergadura de asa é superior a dois metros e voam milhares de quilómetros sobre o oceano Pacífico em busca de alimento. Os investigadores capturaram fragatas nos seus ninhos, implantaram sensores para registar a sua actividade eléctrica cerebral e colocaram dispositivos de gravação de dados nas suas cabeças, antes de as libertarem. Além de manterem registos sobre a localização e altitude, os dispositivos ajudaram os investigadores a apurar os padrões de sono.

Depois de voarem sobre o Pacífico durante um período que pode chegar a dez dias, as fragatas regressaram aos ninhos. Os dados mostraram que as aves, enquanto planavam, dormiam durante períodos curtos de 12 segundos, em média, totalizando uma média de 42 minutos por dia. Isso era apenas uma mera fracção das 12 horas por dia que as aves passavam a dormir nos ninhos. Durante uma parte substancial do tempo passado a dormitar em voo, as aves só adormecem metade do cérebro. A outra mantém-se acordada.

Para descobrir se os fuselos possuem padrões de sono semelhantes em voo, os investigadores necessitam de baterias mais pequenas, um objectivo que, segundo Niels Rattenborg, será cumprido em breve. “É possível que durmam enquanto voam, talvez até enquanto batem as asas”, afirma.

Durante a infância na Dinamarca, Henrik Mouritsen via ocasionalmente aves que não eram de lá. Certa vez, fotografou um chasco-do-deserto: algumas populações destas aves dividem o seu tempo entre territórios de acasalamento na Ásia Central e habitats de Inverno desde o Norte de África à Índia. “Perguntei-me o que lhes teria passado pela cabeça para voarem até tão longe na direcção errada”, recorda. Essa curiosidade levou este professor a seguir gerações de investigadores que tentaram desvendar o mistério de como as aves se orientam de modo a regressarem aos mesmos territórios de acasalamento e de Inverno. A ciência já documentou a existência de vários mecanismos aparentemente utilizados pelas aves.

Em 1951, o cientista Gustav Kramer descobriu que os estorninhos-malhados utilizam o Sol como bússola. Na década de 1960, Stephen Emlen, um ecologista da Universidade de Cornell, introduziu mariposas-azuis num planetário e mostrou que as aves também usam as estrelas para se guiarem. Estudos de piscos realizados em laboratório pelo casal Wolfgang e Roswitha Wiltschko revelaram que as aves possuem uma bússola magnética interna.

Em 2003, Henrik Mouritsen, William Cochran e Martin Wikelski realizaram uma experiência destinada a investigar a maneira como os tordos-de-faces-cinzentas navegavam nas suas migrações em estado selvagem. De início, colocaram as aves numa gaiola ao ar livre à hora do pôr do Sol, expondo-as a um campo magnético que estava deslocado entre 70 a 90 graus para leste relativamente ao da Terra. As aves, equipadas com os seus minúsculos radiotransmissores, foram libertadas durante a noite Os investigadores seguiram-nas até uma distância máxima de 1.100 quilómetros. Descobriram então que aves voaram para ocidente em vez de para norte na sua primeira noite de viagem. Nas noites seguintes, contudo, as mesmas aves voaram para norte, tal como deveriam. Os investigadores inferiram que as aves se orientavam a si próprias recorrendo à sua bússola magnética, mas calibravam-na diariamente com pistas fornecidas pelo Sol ao fim da tarde.

O facto de as espécies migratórias poderem depender de várias bússolas não surpreende: muitas viajam durante a noite, quando a bússola solar não funciona. Em condições de nebulosidade nocturna, a bússola celeste também não se encontra disponível e a bússola magnética também não é uma alternativa fiável. Henrik Mouritsen conjectura que, tal como os tordos da sua experiência, os fuselos dependem da sua bússola magnética e recalibram-na quando o Sol está visível.

as seixoeiras acasalam no extremo norte e voam milhares de quilómetros para sul no Inverno. Forrageiam ao longo da costa enfiando o bico fino na lama para capturar moluscos. Foi por isso que o ecologista Jan van Gils, especialista numa subespécie que acasala no Árctico e passa o Inverno na Mauritânia, se sentiu intrigado quando ele e outros colegas observaram algumas das aves a comerem ervas marinhas. Há quanto tempo se teriam tornado primariamente vegetarianas – e por que razão?

 

Os investigadores descobriram que estas seixoeiras eram juvenis, com bicos mais curtos e corpos mais pequenos do que o habitual. Também descobriram que o tamanho do corpo dos juvenis varia consideravelmente consoante o ano de nascimento. As aves nascidas quando o Árctico alcançara temperaturas mais quentes tinham os corpos mais pequenos e os bicos mais curtos. A explicação mais plausível é o facto de estas aves não disporem de alimento suficiente quando eram pintos porque a neve derretera mais cedo do que habitualmente, antecipando o auge da população de insectos de que se alimentam e privando deste modo os recém-nascidos de nutrição.

Ao migrarem para a Mauritânia, as aves de bico curto não conseguiam penetrar na lama para encontrar moluscos em quantidade suficiente. “As ervas marinhas são pobres em nutrientes”, diz Jan van Gils. “Nunca esperámos que as comessem, mas comem-nas porque não têm escolha.” Os investigadores concluíram também que as seixoeiras com bicos mais curtos vivem menos tempo. “A escassez de alimento no Árctico acaba por fazê-las morrer por escassez de alimento nos trópicos”, afirma.

O estudo sobre a seixoeira é um dos poucos que fornecem provas concretas sobre o modo como as alterações climáticas e os danos ambientais podem prejudicar as espécies migratórias. As populações de várias aves marinhas diminuíram drasticamente ao longo do último meio século, enquanto as populações de aves costeiras da América do Norte sofreram uma redução de 70% desde 1973. Alguns dos declínios mais acentuados registaram-se em espécies que usam o corredor aéreo da Ásia Oriental-Australásia, um grupo que inclui seixoeiras e maçaricos. Uma das principais causas para tal parece ser a destruição, actualmente em curso, de locais de escala ao longo do mar Amarelo, onde as zonas aquáticas costeiras que fornecem sustento às aves estão a ser cobertas a um ritmo frenético para construir portos, fábricas e habitação.

Do mesmo modo, a caça ilegal e as alterações ao ordenamento do território também constituem ameaças para os migrantes que viajam entre a Europa e África e entre a América do Norte e do Sul. Segundo estimativas dos conservacionistas, 11 a 36 milhões de aves são capturadas ou mortas anualmente só na região do Mediterrâneo, ameaçando espécies como o tentilhão e a toutinegra-de-barrete-preto. Os habitats de Inverno de vários migrantes de longa distância na África Subsaariana tornaram-se menos hospitaleiros, à medida que mais solo vai sendo privado de vegetação, com vista a criar espaço para a agricultura. A industrialização da agricultura dificulta a procura de alimento. No Sul da Europa, por exemplo, a paisagem rural caracterizava-se antigamente por aglomerados de pequenas explorações agrícolas com espaços silvestres entre si, que serviam como fonte de alimento abundante. Agora, a paisagem foi homogeneizada em vastos terrenos plantados com monoculturas, como a do milho ou o olival intensivo.

“Todas as espigas de milho são usadas e, por isso, não sobra nada”, comenta Hans-Günther Bauer, investigador do Instituto Max Planck. “Se uma ave tiver sorte, descobre outro sítio. Se não descobrir, terá a vida dificultada porque precisa de ter reservas para a viagem que se segue.”

Para haver inversão destas tendências alarmantes, seria necessária uma diversidade de esforços de conservação: da protecção das florestas e orlas costeiras à aplicação de leis para proibir a captura e morte de aves migratórias. A utilização de novas tecnologias de rastreio, incluindo equipamentos de geolocalização mais pequenos, poderia contribuir para direccionar os esforços de conservação, defende Pete Marra, responsável pelo Centro de Aves Migratórias do Smithsonian. “O tamanho da população de uma espécie como o tordo-dos-bosques, que já diminuiu mais de 60% nos últimos 50 anos, é influenciado pelo que acontece nas zonas de acasalamento no Sudeste dos Estados Unidos, bem como pela perda de habitat nos locais onde passa o Inverno, no México e na Colômbia.” Segundo as conclusões dos investigadores, embora as florestas do habitat invernal estejam a ser dizimadas mais depressa, as aves sofrem mais com a perda de floresta nos seus territórios de acasalamento.

Numa tarde radiosa em Foxton Beach, na Nova Zelândia, Jesse Conklin, de galochas e chapéu de abas largas, saiu em direcção ao pântano salgado do estuário do rio Manawatu, chapinhando em poças de água deixadas para trás pelo recuo da maré. A cerca de 30 metros de um banco de areia, onde estavam instalados meia dúzia de fuselos, Jesse montou um telescópio sobre um tripé.

Grous do Canadá SANTUÁRIO ROWE, NEBRASCA. De meados de Fevereiro a meados de Abril, meio milhão de grous do Canadá reúnem-se junto do rio Platte. Emagrecidos quando chegam vindos do México e do Sul dos EUA, engordam para migrar até aos seus locais de nidificação subárcticos e árcticos. Atrás de uma cortina a oito metros de altura, Stephen captou 1.377 fotografias ao longo de 36 horas, utilizando cerca de duzentas para criar esta composição. Durante o dia, os grous devoram os restos de cereais deixados nos campos. Ao fim da tarde, regressam ao rio, vaga após vaga. (Fotografado com permissão do Santuário Rowe, em Audubon)

Residindo na Holanda durante a última década, o cientista tem visitado o estuário todos os anos. Acompanhou cerca de 160 fuselos (identificáveis através das anilhas coloridas das suas patas) que regressam ano após ano. Descobriu que estes fuselos, praticamente todos, partem todos os anos no mesmo dia, como se fossem guiados por um relógio meticuloso. No entanto, são suficientemente flexíveis para alterar a data de partida de modo a evitarem ventos desfavoráveis.

Nos últimos tempos, porém, as aves têm adiantado a sua data de partida do estuário.
Os fuselos de Jesse Conklin partem agora, em média, cinco dias mais cedo do que partiam entre 2008 e 2010. Muitos passam os dias adicionais a ganhar peso em locais de alimentação degradados no mar Amarelo, chegando ao Alasca aproximadamente ao mesmo tempo. Não sabemos ao certo se partem mais cedo por precisarem de mais tempo nos locais de paragem ou por estarem a tentar chegar ao Alasca mais cedo para conseguirem acompanhar a antecipação do Verão. Em qualquer dos casos, os fuselos parecem estar a aprender com a experiência e não simplesmente a seguir um calendário geneticamente programado.

Durante horas nessa tarde, Jesse observou os fuselos com o seu telescópio. Alguns continuaram pousados, outros procuraram alimento nos arredores, enfiando os bicos na lama. Quando alguns entraram na água para se banharem e limparem as penas, Jesse sentiu uma expectativa que lhe era familiar. Ele sabia que este comportamento poderia ser um precursor da partida.

À medida que a tarde avançava, o sol enfraquecia. O brilho da água tornava-se cada vez mais ténue. Então, um dos fuselos começou a emitir um chamamento alto e agudo. Outros responderam com chamamentos parecidos. A “conversa” durou horas. Algumas aves juntaram-se ao grupo. “Não sei se estarão a trocar informação real ou se emitem vocalizações até reunirem todas as aves que querem viajar”, disse Jesse.

Mais perto do pôr do Sol, o chamamento tornou-se mais alto e então, ao mesmo tempo, todos os fuselos levantaram voo. O investigador ajustou o telescópio para segui-los. Contou dez animais elevando-se rapidamente acima do estuário, voando em direcção ao oceano, primeiro de modo desordenado e, por fim, assumindo uma formação em V. Jesse observou-os até desaparecerem no céu azul pálido. 

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