Texto: Hannah Holmes  

Fotografias: Charlie Hamilton James

Um clarão azul-eléctrico: para a maioria das pessoas, o guarda-rios comum não é mais do que isto. Mas é o suficiente. “Os ingleses que já viram um lembram-se sempre das circunstâncias do avistamento”, diz o fotógrafo Charlie Hamilton James. “Vi o meu primeiro guarda-rios quando era miúdo. Desde então, vivo completamente obcecado por eles.” Durante alguns anos, perseguiu a ave, junto a Bristol, no Sudoeste de Inglaterra. Mais tarde, para justificar as horas passadas nas margens escuras frequentadas pelo guarda-rios, passou a levar uma máquina fotográfica. Isto aconteceu há 20 anos.

Charlie Hamilton James, vai estar em Portugal para uma conferência no âmbito do National Geographic Summit, no dia 11 de Abril, no Coliseu de Lisboa.

 

O Alcedo atthis (também conhecido como guarda-rios europeu ou guarda-rios comum) já inspirou várias obsessões. Nas regiões temperadas do planeta, onde a norma é a plumagem monótona, este guarda-rios, ao contrário dos seus primos norte-americanos, deslumbra. Cortando o ar como um míssil azul-turquesa, é impossível não reparar nele.

As aves amarelas, vermelhas, laranjas e castanhas assumem as suas tonalidades devido a um pigmento incorporado na matriz de queratina. No entanto, as penas azuis resultam da refracção no interior da pena, uma divisão da luz semelhante à que ocorre num prisma. Vista ao microscópio, cada longa bárbula de um guarda--rios, mais fina do que um cabelo humano, brilha com tons caribenhos. Minúsculas estruturas existentes nas penas elaboram uma coreografia para a luz recebida, reflectindo safira numa direcção e esmeralda na outra.

Contrariamente à percepção dos observadores ocasionais de aves, o guarda-rios não é tímido: limita-se a explorar um ambiente que a maioria das pessoas evita. A margem de rio ideal esboroa-se quanto baste para as aves escavarem um ninho com os bicos. O ninho deve ficar suficientemente alto para evitar cheias ocasionais e suficientemente baixo para que predadores como raposas e cobras, entre outros, não entrem vindos de cima. 

Solitário durante a maior parte do ano, cada indivíduo esforça-se por proteger um terreno espaçoso para garantir a abundância de peixe e a qualidade do local de nidificação. “Estas aves minúsculas têm de assegurar um quilómetro e meio de rio”, explica Charlie. Machos e fêmeas não hesitam em defender o território que lhes sustenta a vida. Com apenas 40 gramas, um guarda-rios é uma força a respeitar. “Fazem muito ruído e avisam toda a gente da sua chegada”, diz. “Acho que são bastante arrogantes.”

As discussões começam com perseguições a alta velocidade e uma ocasional luta de bicos. Se o conflito aéreo não resolver a disputa, esta pode ser mortal. À beira do rio, as duas aves engancharão os bicos e tentarão empurrar-se mutuamente para debaixo de água.

A época de acasalamento exige uma pausa nas habituais hostilidades entre sexos. O movimento inicial do macho é directo: ele corre atrás do seu antigo inimigo, assobiando com urgência. Se ela tolerar a sua companhia, ele oferece-lhe peixe fresco e tem o cuidado de o dar com as cabeças viradas para o bico dela. Em determinadas ocasiões em que se estabelece uma trégua entre vizinhos, o casal realiza uma união temporária dos seus territórios. Dos seus domínios conjuntos, escolhem um ninho antigo para reutilizar ou constroem um novo. Escavar um túnel com um metro consome pelo menos 14 dias de trabalho duro a ambos.

Os ovos são chocados durante três semanas antes de eclodirem. Como o guarda-rios não é um meticuloso fabricante de ninhos, ele cria os filhotes no escuro sobre uma camada de espinhas minúsculas regurgitadas como bolas, depois desfeitas com uma bicada perfuradora. Charlie registou este comportamento a partir de um observatório subterrâneo adjacente a um ninho. Ambos os progenitores pescam esforçadamente. O guarda-rios caça por emboscada, empoleirando-se sobre o rio até um pequeno peixe surgir ao seu alcance. Consegue mergulhar, atacar e voar de volta para o seu poleiro em dois rápidos segundos. Bate com a presa num ramo para a atordoar, uma lição que algumas aves novas só aprendem depois de engolirem um esgana-gata que ergue a barbatana dorsal enquanto desce pela goela. Durante as três ou quatro semanas que as crias permanecem no ninho, os adultos podem trazer para casa 50 a 70 peixes por dia, acumulando no ninho uma camada desordenada de espinhas.

A falta de boas maneiras do guarda-rios é compensada pela sua fecundidade. Muitas espécies de aves criam uma segunda ninhada, mas os guarda-rios, que põem em média seis ou sete ovos de cada vez, criam com frequência uma terceira. Um casal foi observado a criar uma quarta. 

A reprodução zelosa ajuda a espécie a prosperar. O estatuto do guarda-rios é suficientemente estável em todos os seus territórios para poucos ornitólogos lhe prestarem muita atenção. A meia dúzia de especialistas em Alcedo atthis afirma que é um dos poucos animais em estado selvagem que não se importa de conviver com seres humanos, o que se traduz em boas notícias num mundo cada vez mais urbanizado.

Charlie observa que as suas aves locais estão sempre dispostas a anexar ao seu território qualquer lago com peixes ornamentais.
A ornitóloga japonesa Satoe Kasahara afirma que ultimamente os guarda-rios têm sido vistos a pescar em lagos urbanos do seu país. Em todo o domínio dos guarda-rios, desde que os rios sejam saudáveis, os peixes nadam. E onde houver peixes, segue-se seguramente um assobio atrevido atrás deles.

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