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 Uma expedição ambiciosa no Okavango, um dos grandes deltas do mundo revela as ameaças que este enfrenta e a riqueza de vida que sustenta.

Texto: David Quammen

Fotografias: Cory Richards

Visto do espaço, o delta do Okavango parece uma gigantesca flor espalmada sobre a paisagem do Norte do Botswana, com o caule inclinado para sudoeste, em direcção à fronteira com a Namíbia, e as pétalas de água prateada estendendo-se por 150 quilómetros, sobre a bacia do Kalahari. É uma das grandes zonas húmidas do planeta, uma enorme mancha composta por canais, lagoas e charcos sazonais que alimentam a vida numa região seriamente árida.

Complexos e em permanente mudança, os padrões da água e da terra sustentam a biodiversidade do delta do Okavango, no Botswana. Abrindo trilhos que se transformam em canais, os elefantes contribuem para o dinamismo da região.

Este delta não desagua no mar. Contido inteiramente na bacia, detém-se junto de um perímetro a sudeste e desaparece nas profundezas das areias do Kalahari. Podemos pensar nele como o maior oásis do mundo, um refúgio alagadiço que sustenta elefantes, hipopótamos, crocodilos e mabecos, antílopes das regiões húmidas, facoqueros e búfalos, leões e zebras e uma enorme diversidade e abundância de aves – para não mencionar uma indústria turística que vale centenas de milhões de euros por ano. Do espaço, porém, não se vêem os hipopótamos. Não se vêem os mabecos escondidos à sombra dos arbustos, nem as expressões de felicidade dos visitantes. E, sobretudo, não se vê a origem de toda aquela água.

A água provém quase inteiramente de Angola, país vizinho do Botswana, mas não fronteiriço. Começa nas terras altas húmidas do centro de Angola e flui em direcção ao Sudeste do país, rapidamente através de um canal principal, o Cubango, e depois mais lentamente através de outro, o Cuíto, onde forma lagos que também são nascentes. Escorre lentamente através das planícies de aluvião cobertas de capim, dos depósitos de turfa e da areia subjacente e infiltra-se até aos afluentes. Os rios Cuíto e Cubango convergem na fronteira meridional de Angola, formando um rio maior, o Okavango, que atravessa a estreita faixa Caprivi, na Namíbia, até atingir o Botswana. Chegam aqui, em média, 9,4 biliões de litros de água por ano. Sem esta dádiva líquida, fornecida todos os anos por Angola ao Botswana, o delta do Okavango deixaria de existir. A paisagem mudaria e não incluiria certamente hipopótamos, sitatungas ou pigargos-africanos.

As alterações que actualmente ocorrem, ou previsivelmente ocorrerão, no Sudeste de Angola tornam mais provável esta perspectiva sombria.
É por essa razão que os rios Cuíto e Cubango foram atraindo, silenciosamente, interesses em círculos importantes. E foi por esta razão que um grupo internacional de cientistas, funcionários governamentais, políticos e bravos exploradores, unidos por um fervoroso biólogo sul-africano especializado em conservação chamado Steve Boyes, iniciaram um grande projecto de exploração, recolha de dados e conservação da natureza, o Projecto Okavango Wilderness, com o apoio da National Geographic Society. Os membros deste grupo reconhecem que o bem-estar e o futuro do delta do Okavango estão em risco e que o bem-estar e o futuro do Sudeste de Angola estão igualmente em risco.

Termiteiras construídas no delta criam refúgios para babuínos-negros.

“O tempo está contado”, disse Steve, quando nos sentámos num acampamento junto ao rio Cubango no início deste ano, após um longo dia passado a remar os nossos mokoros (as canoas típicas do Okavango) rio abaixo. Apaixonado pela natureza, Steve teve vários empregos ao longo dos anos: foi empregado de bar, naturalista, guia e director de acampamento no delta do Okavango. Pelo caminho, concluiu o doutoramento. Em 2007 consciencializou-se plenamente da questão levantada pela origem da água e tentou alertar o povo do Botswana, mas a reacção colectiva foi maioritariamente marcada pelo fatalismo.

“Simplesmente, não estavam interessados”, disse. Essa apatia impeliu-o a agir. “Vamos fazer isto”, jurou. “Vamos tentar compreender este sistema.” Na verdade, para além de compreendê-lo, Steve esperava contribuir para a sua protecção.

Em 2017, Angola talvez pareça um local improvável para esforços de conservação visionários, mas também pode oferecer oportunidades invulgares. É um país muito afectado pela guerra, mas agora vive em paz. Desde o início da década de 1960 até ao início do novo milénio, Angola esteve no topo da lista de países a não visitar, excepto por mercenários ou compradores de diamantes.

A antiga colónia portuguesa conquistou a independência em 1975 após uma guerra de libertação sangrenta, seguida de 27 anos de guerra civil. Foi campo de batalha entre superpotências, polvilhada de minas terrestres: um cenário de grande sofrimento e conflito.

Estas hienas foram surpreendidas por uma armadilha fotográfica no delta do Okavango, onde estes carnívoros, que atacam em grupo, abundam. Também elas se adaptam ao mosaico de habitats do delta, das zonas húmidas aos desertos.

A situação alterou-se drasticamente a partir de 2002, quando a UNITA sofreu uma derrota esmagadora, após a qual grandes quantidades de petróleo começaram a fluir para exportação e os negócios floresceram. “O aspecto mais importante que temos para transmitir ao mundo é que Angola é agora um país estável”, disse a ministra do ambiente, Maria de Fátima Monteiro Jardim, num encontro em Luanda, a capital do país. “Estamos comprometidos com a preservação da natureza”, afirmou. O significado desse compromisso no terreno é fulcral, mas desconhecido.

A equipa de Steve Boyes tem a bênção oficial de Angola e conta com apoio internacional generalizado para realizar um estudo ambicioso sobre os rios Cuíto e Cubango, explorando cada quilómetro e alguns dos seus afluentes, examinando a sua vida selvagem, recolhendo amostras para avaliar a qualidade da água, observando a presença e o seu impacte ao longo das margens, criando um amplo e publicamente acessível conjunto de dados e tentando compreender quanta da água potável do Sudeste de Angola dá vida ao delta do Okavango, no Botswana.

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