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As aves também fazem aquilo que todos gostaríamos de fazer, mas não conseguimos, excepto em sonhos: voam. Captam correntes térmicas ascendentes sem esforço. No seu conjunto, as trajectórias de voo das aves ligam o planeta como 100 mil milhões de filamentos, árvore a árvore, continente a continente. Após sair do ninho, um andorinhão-preto desloca-se durante quase um ano, fazendo uma viagem de ida e volta à África subsaariana, alimentando-se, mudando a pena, dormindo e copulando em pleno voo, sem aterrar uma única vez. Os albatrozes jovens passam dez anos a sobrevoar mar aberto até regressarem a terra pela primeira vez para acasalarem. Um fuselo foi monitorizado num voo ininterrupto entre o Alasca e a Nova Zelândia: 11.690 quilómetros em nove dias. A seixoeira, uma pequena ave costeira, faz viagens anuais de ida e volta entre a Terra do Fogo e o Árctico canadiano: um indivíduo com uma vida duradoura, identificado como B95 pela anilha colocada na pata, voou mais quilómetros do que a distância que separa a Terra da Lua.

Existe, no entanto, uma capacidade essencial que os seres humanos possuem e as aves não: o domínio sobre o seu próprio ambiente. As aves não podem proteger as zonas húmidas, não conseguem gerir um banco de pesca, não têm maneira de regular a atmosfera dos seus ninhos. Possuem apenas os instintos e as capacidades físicas que a evolução lhes concedeu. Há muito tempo que estas lhes prestam um bom serviço, mas os seres humanos estão a alterar o planeta, modificando a superfície, o clima, os oceanos demasiado depressa para as aves se adaptarem.

Os corvos e as gaivotas conseguem prosperar nas lixeiras, os melros-pretos e os chapins nos campos agrícolas, os tordos e os picnotídeos adaptam--se aos parques urbanos. Mas o futuro da maioria das espécies de aves depende do nosso empenho em preservá-las. Serão suficientemente valiosas para nos convencerem a fazer esse esforço?

Nesta era designada por antropocénico, “valor” passou quase exclusivamente a significar valor económico ou utilidade para os seres humanos. E muitas aves selvagens são úteis por serem comestíveis. Algumas delas, por sua vez, comem insectos e roedores nocivos. Outras desempenham papéis essenciais em ecossistemas cuja manutenção em estado selvagem tem valor turístico ou como mecanismo de retenção de carbono. Também já deve ter ouvido dizer que as populações de aves funcionam como valiosos indicadores de saúde ecológica. Mas será que precisamos da ausência das aves para nos dizer que um pântano está gravemente poluído, uma floresta abatida e queimada ou um banco de pesca destruído? O triste facto é que as aves selvagens, por si sós, nunca conseguirão ter um peso representativo na economia humana.

O que as populações avícolas fazem de efectivamente útil é indicar a saúde dos nossos valores éticos. Uma das razões pelas quais as aves selvagens são importantes é o facto de constituírem a nossa derradeira e melhor ligação a um mundo natural que, noutros aspectos, está a retroceder. São os representantes mais vívidos e amplamente distribuídos do nosso planeta tal como este era antes da chegada dos seres humanos. Partilham antepassados com os maiores animais que já caminharam sobre a terra: o fringilídeo que está ao lado da sua janela é um dinossauro vivo minúsculo e magnificamente adaptado. O pato do lago do jardim ao lado de sua casa tem praticamente o mesmo aspecto e emite o mesmo som que um pato de há 20 milhões de anos, do Miocénico, quando as aves dominavam o planeta. Num mundo cada vez mais artificial, não nos ocorre qualquer necessidade de acarinhar e apoiar os antigos senhores do reino natural. Mas será o cálculo económico o padrão mais elevado de referência?

Condenar as aves ao esquecimento é esquecer de quem somos filhos. Escuta-se com frequência nos debates a frase: “É lamentável para as aves, mas os seres humanos vêm primeiro”. A frase encerra duas afirmações implícitas. Pode querer dizer que os seres humanos não são melhores do que qualquer outro animal e que as nossas existências fundamentalmente egoístas farão sempre tudo aquilo de que precisarem para replicarem os nossos genes e maximizarem o nosso prazer, sem quaisquer preocupações com o mundo não humano. Este é o ponto de vista dos realistas cínicos, para quem a preocupação com as outras espécies é meramente uma forma de sentimentalismo irritante. É um ponto de vista que não pode ser refutado e que pode ser usado por qualquer pessoa que não se importe de admitir que é irremediavelmente egoísta.

No entanto, “os seres humanos vêm primeiro” também pode ter o significado oposto, sinalizando que a nossa espécie é a única merecedora de monopolizar os recursos do mundo porque não somos como os outros animais, porque possuímos consciência e livre arbítrio, a capacidade de recordarmos o nosso passado e de moldarmos o nosso futuro. Esta segunda perspectiva pode ser encontrada tanto em crentes religiosos como em humanistas laicos e, provavelmente, também não é verdadeira nem falsa. Mas vem levantar a seguinte questão: se somos assim tão mais merecedores do que os outros animais, não deveria a nossa capacidade para discernir o bem do mal e para conseguirmos sacrificar uma pequena fracção da nossa comodidade em prol de um bem maior, tornar-nos mais (e não menos) sensíveis aos apelos da natureza? Uma capacidade singular implica, ou não, uma responsabilidade singular?

Há alguns anos, numa floresta do Nordeste da Índia, ouvi e depois comecei a sentir no peito um zunido rítmico profundo. Parecia um fenómeno meteorológico, mas era o batimento de asas de um par de calaus-bicórnios a aterrar numa árvore de fruto. Tinham bicos amarelos enormes e coxas brancas e volumosas. Enquanto se deslocavam pela árvore, comendo calmamente os frutos, dei por mim a chorar sentindo a mais rara de todas as emoções: alegria pura. Não tinha nada que ver com aquilo que eu queria ou possuía. Era a simples e maravilhosa existência do calau-bicórnio, que não poderia estar menos preocupado comigo.

A singularidade radical das aves constitui parte integrante da sua beleza e valor. Elas estão sempre entre nós, mas nunca nos pertencem. São os outros animais dominadores do mundo que a evolução produziu e a sua indiferença em relação a nós deveria recordar-nos que não somos a unidade de referência para todas as coisas. As histórias que contamos sobre o passado e imaginamos para o futuro são construções mentais de que as aves não precisam. As aves vivem unicamente no presente. E, no presente, embora os nossos gatos, as nossas janelas e os nossos pesticidas matem milhares de milhões de aves todos os anos e algumas espécies, particularmente nas ilhas oceânicas, se tenham perdido para sempre, o seu mundo continua a estar bem vivo. Em cada recanto do globo, em ninhos pequenos como cascas de noz ou grandes como palheiros, existem pintos a emergir dos seus ovos e a ver a luz.

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