Os minerais do vulcão do Fogo nos Açores

Na cultura popular, o momento da descoberta científica ganhou exagerada dimensão mitológica, pois quase nenhum achado produz hoje em dias ocasiões para gritar de imediato Eureka, como fez Arquimedes de Siracusa. 

Na maior parte dos casos, decorre um longo período de tempo entre o trabalho de campo e a confirmação posterior da excepcionalidade da descoberta. Foi certamente o que aconteceu a uma equipa de mineralogistas italianos que, desde 2010, tem feito campanhas de prospecção na ilha açoriana de São Miguel.

Em 2009, os mineralogistas e coleccionadores Luigi Antonio Chiappino e Mauro Astolfi analisaram a literatura científica sobre a ocorrência e diversidade de minerais na ilha de São Miguel. Pasmaram com as escassas referências. “Percebemos que em São Miguel estão presentes microssienitos resultantes de erupções do vulcão do Fogo. Ora, esta rocha particular costuma conter muitos minerais de elementos químicos raros em pequenas cavidades, mas o número destes minerais descritos para São Miguel era estranhamente limitado”, comenta Chiappino. A equipa concluiu que, apesar de os Açores serem regularmente visitados por cientistas internacionais desde o século XIX, a mineralogia era ainda terreno quase virgem. Mesmo as revistas de coleccionismo mineralógico só tinham olhado para os Açores a partir de 1999. Foi por isso agendada uma viagem de prospecção.

Desde então, o grupo visitou a ilha em 11 ocasiões em campanhas devidamente autorizadas pelo Governo Regional. Em cada viagem, recolhe 200 a 400 quilogramas de rocha, posteriormente expedida para Itália para processamento e análise. “Cada fragmento é gradualmente reduzido à dimensão de 1 centímetro, ou até menor, para manipulação no microscópio de todas as geodes susceptíveis de conterem pequenos cristais”, conta o especialista italiano. Trata-se de um trabalho paciente de triagem. As amostras mais promissoras são depois enviadas para o Museu de Ciências Naturais de Los Angeles onde o especialista Anthony Kampf concretiza a determinação química.

O vulcão do Fogo foi definido rapidamente como a área prioritária de prospecção. Trata-se de um complexo vulcânico activo que expele vários tipos de rochas magmáticas, entre as quais os valiosos sienitos com microcristais, juntamente com as pedra-pomes, as bagacinas e as cinzas.

O grupo italiano encontrou no Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA) um parceiro para apoiar as campanhas no terreno e desvendar alguns dos recantos mais promissores de São Miguel. “A colaboração com o OVGA possibilitou um salto notável de qualidade”, diz Luigi Chiappino. “Possibilitou-nos conhecimento das ilhas, encorajamento e apoio no trabalho de campo e, em troca, retribuímos com o nosso entusiasmo, o trabalho e os nossos contactos com a comunidade científica internacional. Nasceu igualmente uma profunda amizade e hoje, quando passam meses de ausência, julgo que já percebemos o significado da palavra ‘saudade’.”

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